Mostrar mensagens com a etiqueta desfolhada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta desfolhada. Mostrar todas as mensagens

19 outubro 2011

A Descasca de Marmelete 2011

Descasca de Marmelete - 2011
Ele inda há quem saiba descascar bem uma maçaroca...


- Nã quero. É que já me fazeram marafar! Já me fazeram marafar!...

Saltô o ti Batizar, tã penas a menina Marta, a Senhora Presidenta da Junta - sem ofensa, sempre munto jêtosinha... - l'e pôs a cesta dos bolos ô alcance e l'e prècurô se, im cimba da fatêa do bolo de alforge, tamém queria molhar o bico com um calcesinho dela.

- Já, o ano passado, foi a méma coisa... Fazeram-me marafar!...

E olhava assim de esguelha, munto desconsolado, p' ô calcesinho dela qu' a senhora presidenta levava numa mão e, inda mái desgostoso, p'à garrafinha de madronho, já im mêo esvaziar, que ela sigurava na ôtra.

D'zer a verdade, nãs sê o qu' é que fazeram ó d'zeram à criatura. Mái teve que ser coisa munto manhosa. P'a ele f'car daquela manêra e nem tampôco se jogar a bober um solvinho... E digo um solvinho qu' aquilo nã podia acabedar um copalho daqueles chêo a cada um, senã a garrafa ia-se num 'stante e nã dava p'a dar as provas a todos...

Descasca de Marmelete - 2011
Hoje em dia, as m'lheres nã se ficam atrás dos homens. Im qualquer serviço...


- E isto passava-se adonde? - Prècuro ê cá a vomecêas todos.

Ora adonde é que havera de ser... Foi na descasca de Marmelete!... Pôs foi. Todos anos, a Junta de Marmelete arrenja esta descasca p' ôs velhos c'm' ê cá, s' alembrarem do que faziam nôtres tempos e p' ôs nôvos, que nã conheceram tal coisa, f'carem a saber c'mo era.

E olhem qu' ê cá, se há coisas qu' ê aprecêo, é ir a uma descasca e ver ali tudo jogado à maçaroca a l'e tirar a folhêrasca c'm' 'tava aquela famila toda a fazer na Descasca de Marmelete...

Uns d' em pé com as botas atafulhadas nas folhêrascas, ôt's assantadas no monte das maçarocas panhando com a pòzêra do milho e uns cabelos de charrafa im cimba da cabeça e dos ombros, vá de descascarem nelas...

Vá lá que, ô meme tempo, iam ôvindo umas modinhas qu' o tocador de fole p' ali arremendava... E tamém aprevêtavam p'a d'zer umas patochadas p'a todos se rirem. Quái sempre, lá isso é verdade, era mái umas puas p'a inzainar este ó aquele do que ôtra coisa.

Descasca de Marmelete - 2011
A menina Marta esvaziô uma garrafa de madronho com aquela famila toda. Mái o ti Batizar nã quis...


E, desta vez, a famila era béque-me más qu' o ano passado. Ó ê cá 'tô atribuído ó atão nã sê. Ô certo, ô certo, é qu' aquilo, im menes dum foguete, já 'tavam as maçarocas todas descascadas. Calhando, tamém a coisa andô mái depressa premode 'tar tudo com o fito no balho que, em acabando a descasca, ia haver drento da Casa do Povo...

Mái, meme assim, inda par'cé lá uma maçaroca incarnada, coisa qu' ê cá já nã punha os olhos im riba faz uns belos anos. Qu' isto, d' há uns tempos pra cá, já ninguém samêa milho do antigo. Agora é só deste moderno, híbrido l'e chamam. Ó nã sê até se nã sará dum ôtro, inda mái moderno, qu' eles enventaram que se tem que comprar, tôdes anos, a semente. Dizem que é geneticamente modificado...

E desses marafados, atão, aquilo, as maçarocas, parêcem todas iguás, do mémo tamanho, da méma cor, com os mémos bagos e até charrafa pôca têm... Ora, dar com uma que tenha milho incarnado, isso atão, só se p'r milagre. E desta vez, p'ro jêto, hôve lá uma moça que foi milagrêra. Dé com uma no mêo das ôtras todas. Só que nã fez o que tinha a fazer...

Descasca de Marmelete - 2011
Hôve quem l' acabedasse uma maçaroca de milho incarnado. Mái nã fez o que tinha a fazer...


No mê tempo, quem desse com uma maçaroca de milho incarnado, tinha que pagar uma rodada de bêjos e abraços. Se fosse um moço, dava nas moças, se fosse uma moça, dava nos moços...

Esta, na Descasca de Marmelete, negô-se ô puxo e dé uma ronciada. Mái lá que f'cô contente com a maçarocalha, lá isso f'cô. Qu' ê bem na vi andar o resto da nôte de maçaroca na mão, que nã na largô nem tampôco inqonto andô lá no balho a balhar im forte. Mái dêxamos isso agora da mão...

Ôtra coisa qu' ê cá leví repáiro foi que a Cambra, desta vez, mandô uma camineta com a famila lá da Vila. E fez ela senã bem... Assim, ajuntaram-se mái uma bela mêa-dúiza. E alguns, pr' aquilo que vi, foi a pr'mêra vez que lá foram. Mái nã deram o tempo p'r mal impregue. Disso tenho a firme certeza...

Descasca de Marmelete - 2011
A famila da Cambra tamém 'tava tudo no pagode...


P'r menes, a famila que manda lá na Cambra 'tava tudo ad'vertido qu' até dava gosto. Tanto se faz o Senhor Presidente c'mos ajudantes dele, foi até mái não... Descascaram maçarocas à rôpa toda, c'meram bolo d' alforge, boberam uns calcesinhos dela e, d' ora im qonto, judiavam uns com os ôtros.

E, a pôco e pôco, já nã havia lá nada naquele chão senã um monte f'lhêrascas. Sim, qu' as maçarocas descascadas, essas, já 'tavam drento de sacas de ráfia, im moitons, prontas para serem jogadas p'a drento da camineta da Junta, p'às irem levar p' ô almêxar.

Qu' ê cá, atão, nã l'es posso afiançar qu' o dono tenho fêto algum almêxar. Mái o que era uso fazer-se era isso. Pôr-se-as a secar, todas munto bem estramalhadinhas, num sito d'rêto, adonde panhassem o solinho todo do dia. E f'car-se semp'e com o olho no astro, nã fosse ele vir alguma chuvinha que marafasse aquilo tudo...

Descasca de Marmelete - 2011
Ô fim, inda par'ceram as f'lhozes da Senhora Ester, que sã do melhor que possa ser e haver...


Lá já do mêo pr' ô fim, - c'm' ê cá falí logo no prencipo - vêo, atão, a Senhora Presidenta da Junta, a menina Marta, com uma cesta de fatias de bolo d' alforge e uma garrafinha d' aguardente de madronho e lá foi dando aquilo a quem se quis rapimpar.

A fartura, verdade se diga, nã era munta, mái foi de boa vontade. Lá isso foi qu' ê bem vi que foi. E semp'e deu p'a alimpar as goélas daquela pòzêra que saía da fatana do milho... Havia menino que, entes de provar a aguardentinha, só fazia era tossir. Parecia que 'tava tudo com polmêro. Mái, tã penas impinavam o calcesinho dela, já nã havia tosse denhuma e rôquêra inda munto menes...

Olhem, fica-se p'r quí hoje. Querendem ver o resto dos retratos, acalquem aqui na Galeria da Descasca de Marmelete. E podem ver, tamém, os vídeos, logo aqui mái prebaxinho ó, atão, no YouTube.

E tenham todos munta saúde.






21 outubro 2010

A Descasca de Marmelete 2010

Descasca de Marmelete 2010
Assim é qu' ê cá gosto de ver as maçarocas. Drento duma casnastra de vime, nã é cá im celhas de plástico...


- Isto agora tem sido aí uma belharcada de festas qu' até!...

- Ê cá vô-me a quái todas... Mái, d'zer a verdade, já é uns trabalhos uma pessoa dar conta de tanta coisa...

- Tamém ê cá, amigo Chico. Olhe, inda ontordia, más um nada, tinha-me desquecido duma inaguração dumas coisas que dôs estrangêros puseram lá na Galeria de Santo Antóino. Se nã é a minha Maria dar por ela, nã tinha lá ido. Ah isso nã tinha...

- Pôs com-migo dé-se o caso que tamém nã f'quí a juar da descasca de Marmelete que nã calhô.

- Mái semp'e foi lá, qu' ê bem no vi todo agarrado à maçaroca...

- Já tu 'tás com as tuas... Descasquí até uma bela manchinha delas, se queres que te diga. É um serviço que semp'e gostí de fazer.

Descasca de Marmelete 2010
Inda assim era um belo monte de maçarocas. Mái a famila descamisô aquilo tudo im menes de nada...


- Pôs, mecêa jogô-se a uma preçanada delas... Ê já disse que vi. Era umas atrás das ôtras...

- Hoje, já vejo que nã se pode falar contigo, Chico. 'Tás p' ô gozo e inda t' adiantas pr' aí. Que tu, q'ondo calha, nã és lá munto certo da bola...

Esta conversa passava-se na rua da minha casa, ê cá assantado no pial e o Chico Bôicinhas, d'em pé, qu' ele é moço mái novo e inda s' aguenta bem nas canôiras.

Aí, a minha Maria, qu' andava p' ali a besoirar na cozinha, ôviu conversar, mái c'm' nã conhecesse a visita p'la fala, soô lá de drento:

- 'Tás p' aí a ramocar sózinho ó quem?...

Qe era p'a ê cá publicar quem é p' ali 'tava com-migo.

- Atã nã vês qu' é o Chico Bôicinhas que 'tá aqui com-migo?!... Anda cá aqui mái p' ô pé da gente, Chico!... E assanta-ta aqui no pial. Que precisão é que tens de 'tar aí d' em pé?... Mái, c'm' ê cá ia d'zendo...

Descasca de Marmelete 2010
D'ora im q'onto, par'cia uma ó ôtra maçaroca piquenalha. Mái tinham munta charrafa...


- O que tu ias d'zendo é que se nã fosse ê cá a fazer-te alembrar, tinha-se más era fêto cruzes à descasca de Marmelete, que nã se tinha lá posto os pés. Essa é qu' é essa!...

- Nã posso d'zer o contráiro, nã senhora. E méme assim, chigamos lá já a famila 'tava toda jogada a desencamisar maçarocas, qu' aquilo, p'ro jêto, pegaram ô serviço à hora im ponto.

- Mái só tinham desencamisado p' aí umas duas ó três canastras de milho. Tamém nã foi assim um atraso tã grande c'mo isso...

- E méme que fosse... Atã, com a chusma de famila que p'a lá 'tava que más um que menes um... Ele, méme assim, aquilo despachô-se im que 'stantes...

- Atã e maçarocas de milho incarnado? Par'ceu p'r lá alguma?

- Nã sabes?!... Atã des que foste lá e viste a gente e tudo...

- Pôs fui, mái nã sê se vomecêas deram com alguma maçaroca dessas...

Descasca de Marmelete 2010
A Senhora Presidenta tem semp'e um convindado p'a dar à famila que vai lá...


- Eh'q!... Isso é coisa que já nã há... O milho, agora, é híbr'do. Tomara ê cá incontrar uma...

- Jogava-se logo a abraçar aquelas moças todas...

- Ora nãinques!...

Más a minha Maria 'tava d' ôvido bem à escuta e saltô logo:

- Nã querias mái nada, não?!... Vê lá se te pões no tê lugar... Ó queres partir a pêa, agora já com essa idade que tens?...

- Atã nã vês qu' isto é só a gente a charolar, m'lher?... Ali o Chico é que nã l'e perdoava, tenho a firme certeza. Agora ê cá?!...

- Ê cá?!... Ó ti Refóias, dêxe-se disso... Tomara ê cá que nã faça vento...

- Mái, escuta lá. Atã e adond' é que foram fazer o almêxar? Insacaram as maçarocas todas e puseram-nas na camineta da Junta...

Descasca de Marmelete 2010
... e, im cima dum bolinho, calha semp'e bem um calcesinho dela. E era méme da boa...


- Olhe, isso nã sê. Calhando até que nã t'veram preciso de fazer almêxar. As maçarocas já haveram de ter panhado sol àvonde. Bem secas 'tavam elas. P'a nã d'zer piladas...

- Mái méme que nã nas ponham ô sol, hã-de fazer a dessabuga... Ó tamém não?...

- Dessabuga?!... Isso!... Com as máquinas qu' eles agora têm p'a tudo?!... Aquilo metem as maçarocas lá numa debulhadora e pronto, já está... Ó atão, ratraçam-nas assim e dã-as ô gado.

- Más olha, nã te vás sem reposta qu' ê cá inda gostava de ver assim um almêxar de milho daqueles grandes, tudo estendido ali ô sol e, despôs, em ele 'tando bem seco, fazer uma dessabuga c'm' à gente fazia nôtres tempos.

- Levar ali um belo pôco com um sabugo a esfregar na maçaroca até os bagulhos de muilho saltarem todos p'a drento duma cêra ó duma alcofa...

- Podes gozar à vontade, mái que era ad'vertido, lá isso era... Que tu já pôco conheceste disso ó nada. És moço já munto mái novo...

 Descasca de Marmelete 2010
Inda a descasca ia a mêo já o chão 'tava tapado de folhêrascas. Há quem l'e chame fatana...


- Ai nã, que não conheci!... Leví pôcas nôtes na casa do mê pai a fazer esse serviço... Inda bem não, até me fazia doer os pulsos.

- Inda bem. Assim sabes dar o valor... E inda havia ôtro serviço que se tinha que fazer. Mái no trigo que no milho...

- O quem? Só moê-lo p'a fazer farinha p' às papas. Ó retraço p' ôs pintos...

- Atã nã s' aventujava tamém?!... Sendo munto, era com uma pá na êra; sendo pôco, com duas alcofas, uma no chão õtra ô ombro a despejar, num sito adonde corresse uma arajazinha, lá iam as impurezas todas p'los ares...

E hoje fica-se p'r 'qui, mês belos amigos.

Querendem ver videos e retratos do que se passô lá, acalquem aqui na Galeria dos Vídeos do Parente da Refóias ó na Galeria da Descasca de Marmelete.

Os videos tamém 'tão logo aí prebaxinho. É só acalcar im cimba deles.

E até qu'a gente se veja.











07 outubro 2006

Marmelete: Uma Descasca à moda antiga

Descasca - Marmelete

Nôt's tempos, era assim que se descamisava o milho. À mão e com uma faquinha p'a dar um golpe na fatana...

- 'Teja com Dés compd'e Refóias. Tal vai isso, hoje?

- Venha com Dés, c'pad'e Jôquim. Eh'q, isto p' aqui se vai indo. Nã se pode a gente quêxar munto...

O mê compad'e Jôquim do Barranco nem me dêxô acabar a minha repla, salta-me, logo com esta:

- Atã, des qu'a descasca de Marmelete só é amanhã à nôte... Ê béque-me par'cia que mecêa tinha dito qu' era logo hoje...

Isto passava-se na bésp'ra da descasca. O mê compad'e é munto desquècediço e já 'tava a atribuir o qu' ê l'e tinha contado, faz três ó quatro dias.

- Ó homem marafado, atã ê cá nã l'e disse qu' era no D'mingo â noitinha, aí das oito em diante... Nã faça marafundas qu' os homens dexplicaram isso bem.

- Olha, que esta!... Agora, já disse à minha C'stóida, ela 'tá fazendo conta p'ra hoje. Tenho que l' ir d'zer qu' é só amanhã. E ô mê Zé Manel tamém, ver s' ele alcança lá a gente p'a nã se ter qu' ir a pé...

O mê compad'e andava tã influído com aquilo que, p'r ele, era a toda a hora. E, p'a ser franco, nã era caso p'a menes, qu' ê tamém 'tava em ferros p'ra ir ver c'm' àquilo era. É qu' a Junta já é a t'rcêra vez que faz descascas e tanto ê cá c'm' o mê compad'e, inda nunca se foi lá vez denhuma.

Da pr'mêra béque-me nã sabemos a tempo e horas. Da sigunda já nã m' alembra o perquém da gente nã ir, mái foi p' aí quasequer coisa que se passô que nenhum ido. Mái, desta vez, nã havia coisíss'ma nenhuma que estrovasse a gente d' ir ver uma coisa tã emportante.

E, no ôtro dia, qu' era D'mingo, lá se foi tôd's - com as m'lheres tamém, qu' a gente nunca as dêxa f'car em terra. Enché-se a barriga logo entes d' abalar, e, ali à tardinha, com o sol já a baxar, ainda aí a umas duas horas dele se pôr, ó nem tanto, lá se foi caminho da descasca.

Tã penas o Zé Manel aparô o carro lá no Largo, assim fui logo com o mê compad'e Jôquim, ver c'm' é qu' aquilo 'tava lá p' ô adro, qu' era adonde eles d'ziam que faziam a descasca. E, olhe, já lá 'tava um moitão de maçarocas...

Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete

Q'ondo lá chiguí, só lá 'tava um moitanito de maçarocas, más inda faltava vir duas caminetas delas...

Joguí a mão a uma maçaroca, puxe-l' a f'lhêrasca p'a trás, que belo milho... Destas q'ôlidades d' agora, 'tá bom de ver, mái uma coisa em bom.

- Ó compad'e Jôquim, olhe bem p'a esta classe...

- Veja lá se, q'ondo a gente sameava aí milho do nosso nos cantêros quái tôd's, se s' arrecolhia maçarocas destas...

- Lá nisso, dô-l'e a r'zão toda. Mái tamém, alembre-se duma coisa. Sab'rôso c'm' àquele, desse tempo, já nã há. Aquilo, bem moìdinho, dava umas papas, uns bolos-de-lar... e, bem aferventado, c'm' à minha Maria e a c'madr'e C'stóida sabiam, dava uns jantares qu' até a gente se rapimpava todos...

- Olhe, até dele assado, q'ondo as maçarocas inda 'tavam tenras, ê cá gostava...

- Atã e nã s' alembra, q'ondo a gente inda era môç's-pequenos, lá no sê alpendre, ô pé do fogo, fazia-se frêras e c'mia-se... Tudo era bom naquele tempo, home. Agora é qu' os môces nã há nada qu' eles gostem. Têm fartura de más, é o que é...

'Tava-se a gente nesta conversa, parêcem mái duas caminetas chêazinhas de maçarocas p'a descarregar e a famila dá em s' apròchigar p'a c'meçar a descascar nelas.

Volt'-me p' ô mê compad'e e digo:

- 'Tã com munta pressa, mái, p'a esta casnastra, quem põe a pr'mêra maçacoraê cá. Quer ver?

E puxo da minha faquinha, jog'-me a uma maçaroca das bem grandes, dô-l'e um golpe na fatana, puxo-a p'a um lado e p'a ôtro, cort'-l'e o talicão e, em men'es de mê minuto - qual o quem, munto menes - já 'tava drento da canastra a luzir de marela que era...

Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete

Desatô tudo cá com uma fé a descascar maçarocas, punhana!...

Más olhe qu' havia menino que tamém já 'tava bem encaminhado p'a estrear as canastras deles...

Diz o mê comp'e jôquim:

- Ó c'pad'e, mái atão, a gente vêi' pr' aqui e assim se f'cô, nem tampôco se foi b'ber um calcesinho dela ali ô café nem nada...

- Atã o qu' é que mecêa quer, isto calhô assim. Mái nã s' apequente que 'tá-me cá a par'cer qu' a famila da Junta, nã tarda nada, há-de dar aí uma rodadinha à gente tôd's, qu' eles é tudo pessoal que gostam de fazer o papel deles bem fêto...

- Calhando... E olhe, tem jêto, qu', inda agora, lombriguí ali p'r entremê da porta e vi-os lá drento de casa a mexerem numas garrafinhas e nuns tab'lêralhos de bolos...

- Aí 'tá... Tenho a firme certeza que 'tamos aqui 'tamos a molhar a goéla...

E lá se foi descascando mái umas q'ontas maçarocas, qu' a gente nã tinha míngua d' olhar p'a elas p'a fazer o serviço. Com a prát'ca de tantos anos que se tem, até d' olhos fechados se descasca milho...

Pôs, aquilo, nã tardô cinco minutos. Ê 'tava assim de costas, virado p' a Norte, p' ô lado da porta, e o mê compad'e Jôquim ô contráiro. Conforme jogo uma maçaroca p'a drento da canastra e panho ôtra do chão, passo com as vistas p'r a cara dele, até os olhinhos l'e luziam...

Digo p'r mim:

- Isto é obra da garrafinha de madronho que já vem aí a caminho...

E, c'm' quem nã quer a coisa, olhí assim de esguelha p'r cimba do ombro, vi logo o que se tratava. Mái nã l'e disse nada a ver o qu' é qu' ele fazia.

Nã demorô um foguete, ele p'ra mim:

- É c'padre, aí vêm eles!... Olhe! E tamém trazem p' às m'lheres... Aquil' àlém na ôtra garrafa é melosa.

- Mái atã, mecêa 'tava já p' aí com uma bela sede...

- Nã que nã havera de 'tar... Logo, qu' ê tinha posto à idéa de s' ir bober um porrete ali ô café, entes de vir p' aqui, nã se foi. Despôs, com este pó que s' alevanta aqui da fatana as goélas ficam secas duma tal manêra qu' um home até custa a engolir o cuspinho...

- Cá p' ô mê lado até um cabelo de charrafa já me vêo parar aqui à boca...

O certo é qu' eles puseram-se a dar umas copadas a tôd's - madronho p' ôs homens, melosa p' às m'lheres - más esta parenta, ali do Vale d' Água, nã quis cá saber da melosa. Vá, más é um calcesinho dela... Minha bela amiga, qu' é moça dos mês tempos, assim é que é!...

Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete

Nenhum se negava a bober uma copadinha e c'mer um pedacinho de bolo...

'Tá bem qu 'ela fez-se forte e emborcô o copo tudo duma golada, mái, despôs, béque-me l' e dé no gôto, qu' o madronho 'tava forte e, calhando, tocô-l'e nos gragomilos.

E, p'a tapar, vinha tamém uns tablêrinh's de bolos-d'-alforge e ôtr's qu' ê cá nã sê alomear. E nã cudem, o mal foi eles c'meçarem. Dali p' à frente era, cada vez im q'ondo, uma rodada.

E sô franco, nunca vi nenhum se negar. Era eles despejarem e assim havia logo um freguês qu' o emborcava. E caretas tamém ninguém fazia. Só s' alguma m'lher p'a trocar as voltas à gente. Qu' elas gostam, mái nã querem qu' os ôt's saibam...

Ora com um tratamento destes quem é que nã havera de trabalhar à rôpa toda. Aquilo, era uma rasmalhada das f'lhêrascas qu' até dava festa. E o más que s' ôvia era as maçarocas descascadas a cairem drento das canastras.

Já nã falando, isso sabe-se, do tocador de fole que nã aparô nem um 'stante enq'onto o serviço nã f'cô todo fêto. O homem tocava... era uma atrás da ôtra sem despegar. E 'tá quái nos noventa. O que faria s' ele t'vesse trinta ó q'ôrenta c'm' alguns que p'r 'í andam...

P'r mode isso, alembrí-me duma qu' ôvi lá. Vô-les contar, só aqui pr' à gente, mái nã digo quem foi, qu' é c'm' o ôtro que diz: conta-se o milagre, mái nã alomea o santo.

D'zia um:

- Nã ôves, mái atã p' ô homem tocar assim tantas seguidas, aquilo, há-de ser a Junta que l'e paga e bem pago...

- Que jêto?!... Dinhêro dava ê cá p'a nã no ôvir, q'onto más inda l'e pagar...

- 'Tás parvo ó quem?... Atã isto tinha alguma graça se nã fosse estas lindas modas qu' o homem 'tá tocando... E inda te digo más. Ele nã ganha nada p'r este trabalho todo. 'Tá ali de livre vontade. T'maras tu l' e chegares ôs calcanhares...

Isto era uma conversa fêta debaxo de cagaçal, já se vê, qu' o tocador toca qu' é uma classe e, inda p'r cimba é o tal homem das engerócas, que 'tá semp'e pronto p'a tudo. E festa qu' é festa, im Marmelete, nã passa sem ele.

Nesse entrementes, só se via era os homens a acartar canastradas de milho - e tamém algumas m'lheres... - p'a drento da camineta, qu' aquilo foi um vê se t' avias até a incherem.

Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete

Cada qual fazia o que podia. Uns levavam as canastras sozinhos, ôtr's ôs pares...

E, deste jêto, um serviço qu' era p'a demorar até à hora da fadista chigar, acabô-se quái uma hora entes. Lá teve o tocador de se jogar ô fole dar mái umas tocadelas... Más aí, a coisa já era ôtra, qu' os guitarristas puseram-se a acompanhá-lo e aquilo quái que par'cia uma orquest'a a dar um concerto...

E inda bem. Assim, toda a famila, já com o servicinho fêto, se pôs a escutá-lo com más atenção, a c'meçar p'r ôtro grande artista na arte do calçado, um coisinho mái velho, pôco, qu' ali 'teve, toda a nôte, a desfolar maçarocas.

O homem gosta tanto d' ôvir tocar fole - e nã tem má gosto, lá isso não - que f'cô ali espècado, assentado no sê banquinho dele, que nem tempo teve de f'char a faquinha e gôrdá-la na als'bêra. Bençoado...

Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete

Dôs artistas dôtr's tempos, ajuntaram-se na descasca de Marmelete. Um, tocador de fole com jêto p' às engeròcas, o ôtro, sapatêro c'm' nã havia...

Com isto tudo, lá se fazeram horas da fadista ir p' ô palco.

- Ó c'pad'e Refóias, mái atão já se 'tá aqui há um belo pôco à espera da fadista, sará qu' ela nã vem ó quém?

D'zia-me o mê compad'e Jôquim, pensando já qu' a festa nã tinha nada em acabar ali, sem mái nem men's.

- Nã tenha medo qu' eles anunciaram, ela há-de par'cer. E, más a más, qu' a famila 'tá aqui toda embasbacada à espera, é que sabem qu' ela vem.

- Calhando, foi p' aí c'mer alguma coisinha e inda nã fez a digestã...

- Olhe lá, vamos más é ver s' eles têm p' ali algum r'stinho de madronho, daquela garrafa do Presidente, que, nesse mê tempo, a m'lher há-de chigar.

Mái jã nem se precisô disso, qu' inda mal ê tinha acabado de falar, já 'tava tudo a olhar assim ali p' ô lado de lá. Vi-se logo qu' havera de ser a fadista a chigar. E era.

Desata tudo a bater palmas. Ela a agradecer, a pôr assim a cabeça p'ra baxo e p'ra cima, lá vai caminho do palco, mái atão, com uns sapatos de tacão alto e bem alto, foi uns trabalhos p'a dar assubido até lá. T'veram qu' a sigurar bem sigura, q'ondo não inda s' afiturava a cair p' ali da escaida...

Era uma mecinha novinha, bonita c'm' há pôcas, inda p'r cima, cá de Monchique. E c'm' é qu' ela canta!... Cale-se aí... Nem boa parte dessas que parêcem na t'l'visão e já com discos p'r 'i à venda, l'e chegam ôs calcanhares.

E o que l'es posso d'zer é qu' a famila f'cô tudo de boca aberta, insampados, a ôvir uns fados do melhor que pode ser...

Ó se nã f'caram tôd's, ê cá poss'-l'e afiançar que f'quí e quái que nã dava acraditar qu' em Monchique havesse uma fadista qu' é uma classe e novinha qu' ela é. Tenho a firme certeza - assim ela quêra, e os pais - qu' inda vai dar munto que falar...

Descasca - Marmelete

F'cô-se tôd's a saber qu' em Monchique há uma fadista que vai dar que falar...

Ô certo, ô certo, é que palmas era até mái não. E ir-se alguém imbora, era o que faltava... Méme q'ondo ela acabô inda desataram tôd's a arrulhar "ôtra, ôtra, ôtra!..." qu' ela nã teve ôt' reméd'o senã ir cantar más um.

E, em acabando esse, qu'riam más ôtro, que nã na dêxavam ir imbora. Mái aquilo já era um coisinho assim p' ô tarde, calhando aí das onze p' à mêa-nôte, e tinha-se tôd's qu' ir cada qual p' ô sê monte, que, sigunda-fêra era dia de trabalho.

Olhem bem c'm' o pessoal 'tava lá todo ensampado a ôvir fados e semp'e à espera de más um:

Descasca - Marmelete Descasca - Marmelete

A famila 'tava tudo embasbacado a ôvir fados e, ô fim, nã se qu'riam ir imbora...

E com respêto à descasca nã sê o que diga más.

Foi uma festa do melhor, fartamos-se de rir e d' ôvir mús'ca, foi-se b'scar coisas antigas e só me dá pàxão das maçarocas nã serem despejadas na êra, cada canastramoitão, e, despôs, bem espalhadas ô sol p'a secarem. Olhem que dava ali um almêxar qu' até a gente arregalava as vistas...

P'a nã falar, uns dias despôs, na des-sabuga, que se levava ali noites e noites ô serão a esfregar as maçarocas com metade dum sabugo p'a l'e tirar os bagos de milho todo até ô ùlt'mo...

Más isso nã pode ser, qu' agora os tempos já nã sã os mémes, e já munto bom foi ele ter havido a descasca. Que bem se pode agradecer ôs donos do milho, à Junta de Freguesia de Marmelete e tôd's os que trabalharam p'ra isso.

E p'a arredondar isto, que vai comprido demás, só l'es tenho a pedir desculpa de tanto palêo e tant' ô retrato, mái tenham pacência qu'a famila gosta de par'cer na internet...

Aqui fica más um retrato com um grilinho que p'r 'lí andava, mê emparv'tado, sem alcançar o que l'e tinha acontecido. Já nã via canôiras e nã sabia do buraco dele p'a s' esconder... Mái, dêxem lá, qu' ele, a estas horas, já arrenjô casa nova e, sabe-se lá, alguma namorada ali d' ô pé do Povo.

Descasca - Marmelete

O pobrezinho do grilo 'tava c'm' parvo. Nã via canôiras nem sabia do buraco dele...

S' haver quem quêra ver o resto dos retratos, fazendo favor, acalque aqui - ver retratos - e veja à su vontade todos q'ontos quêra.

E nã se desqueçam de fazer uns comentàir'zinhos...

Dés l'e dê saúde e até um dia destes, mês belos amigos.