Santiago de Compostela: vô-me lá ôtra vez, mái venho logo. E tenho companha...
Nã sê bem o perquem, mái, d' há uns tempos p'ra cá, puseram-se-me umas sôidades tã fortes do Caminho de Santiago de Compostela que foi uma coisa p'r demás.
Falí no caso à minha Maria e a umas amigas dela, daquela joldra qu' a gente, na charola, l'e chama "Caminhadas Aventura" e nã é qu' as marafadas nunca mái me largaram e querem ir tamém?!...
De manêras que, 'tamos fêtos p'a, sábado que vem, prantarmos as mochilas às costas, metermos no comboio até ô Porto e, de lá, abalarmos à pata pr' aqueles charazes até à terra desse tal Santo.
Vamos a ver c'm' é a coisa corre, qu' isto, desta vez, tem mái que se l'e diga. Vai-se a pé, com a trugia toda im cimba do lombo e às tensas de se dar arrenjado sito adonde dromir todas nôtes.
Atão, fiquem-se com Dés e passem p'r cá munto bem até daqui a umas duas semanas bem medidas.
A minha mochila já 'tá im ordem. Pesa é que nem chumbo...
A Cruz dos Franceses tem mái que se l'e diga. Foi im 1809 qu' a famila da Labruja l'e fez a parte...
- Pôs olhe, mê belo amigo, à abalada de Ponte de Lima - uma terra do mái bonito que possa ser - 'tava bem longe de fazer um calc'o do caminho qu' ia panhar p'r a frente... P'a chigar à Cruz dos Franceses, atão, nã l'e digo nada...
Isto 'tava ê cá d'zendo ô Martinho do Almarjão, uma tarde qu' a gente p' ali s' incontrô e se f'cô no palêo, ê cá incostado ô tróço duma sobrêra inda mê chamuscada dos fôg's e ele assantado num marco que 'tá logo ali à rés, na estrema com a fazenda qu' o mê compad'e Jôquim do Barranco herdô do pai dele - o parente Manel, que Dés o tenha.
É qu' isto, agora, nã há cã nem gato - sem ofensa p' ô Martinho - que, assim que me vê, nã 'teja logo a me puxar p'a língua p'a l' ê contar c'm' é qu' a tal viaja correu. E c'm' ê cá tamém nã m' emporto nada de falar no assunto, parte das vezes, junta-se a fome à vontade de c'mer e vá conversa...
E meté-se, logo, na conversa. O homem péla-se p'r ôvir contar históiras... Parêce um moço-pequeno. S' uma pessoa qu'rer, até inventa o que l'e dar na cabeça, impurra-l'e com um mintirão ó dôs e ele acradita im tudo...
Da Capela da Senhora das Neves p'ra riba é que são elas... É melhor aparar e tomar fôl'go...
- Mái o qu' é que mecêa 'tava p' aí a d'zer dos franceses? Atã mecêa nã me tinha dito qu' aquilo era só andar im Portugal e Espanha?... Veja lá se tem medo de contar as coisas todas c'm' elas são...
- E foi só im Portugal e na Galiza, sa senhora... O qu' ê 'tava a d'zer era...
- Na Galiza?!... Atã é Espanha ó é Galiza?...
- Ó compad'e, Galiza é uma parte da Espanha. Eles até béque-me nã gostam lá munto dos espanhós lá mái do sul e até falam quái c'm' à gente, mái pertencem à Espanha. É assim mái ó menes c'm' à gente aqui, que 'tamos desquecidos cá no mê da serra e tamém se fala um coisinho d'f'rente da famila lá do Algarve.
- Atã isso sã os tales que sã uns moiros de trabalho?
- Atã mecêa é qu' anda semp'e aí a d'zer que trabalha que nem um galego e já nã tem idade p'ra isso...
- Ah, homem marafado!... Nã l'e passa nenhuma... Pôs, calhando, aquilo há-de ser famila dada ô trabalho... D'zer a verdade, lá p'r donde passí, vi-os jogados a trabalhar im forte lá nas fazendas deles. Mái do que isso nã l'e sê d'zer...
- Atã e, ô fim de resto, o qu' era isso dos franceses que vomecêa 'tava p' aí a contar?...
- Olhe, ê 'tava a falar era da Cruz dos Franceses...
Méme no mê da serra, lá 'tá o sito da Labruja. Tem uma igreja que nem muntas cidades...
- Alguns franceses que levavam uma cruz às costas até Santiago, 'tá bom de ver...
- Nã senhora!... Cale-se lá um pôcachinho que já fica a saber...
- Atã, o compad'e Refóias, ontordia, nã me disse qu' eles tamém vinham de França fazer esse tal Caminho até Santiago?... Disse-me.
- Pôs disse. Más isso é ôtra coisa. Isso é o Caminho Francês - qu' ê cá, uma ocasião que tenha jêto, tamém quero exp'r'mentar a andá-lo - más esse tem mái que se l'e diga que sã aí uns oit'centos quilómetros, perto ó certo...
- Mái diga lá dos franceses...
- Uma pessoa, abalando de Ponte de Lima, desata a andar, p'r uns caminhos malinos, d'rêto a uma serra, qu' ê cá nunca tinha ôvido falar - a Labruja - e, nã tarda nada, aquilo é de ladêra acima e bem de ladêra acima...
- Inda te gabo o gosto d' andares metido numas coisas dessas... Se queres assubir cerros, vai ali à Fóia e volta logo... - Diz o parente Joanito do Forno.
E o Martinho do Almarjão, conhecido p'r o Pata-Rasa p'r mode ter os pés chatos:
- Dêxa lá o homem da mão. Atã s' ele gosta...
- Vai-se prê acima, prê acima - há sitos adonde vi alguns irem ôs quatro... - até que se dá com essa tal Cruz dos Franceses.
C'm' é qu' os soldados do Napoleão passaram aqui tôd's, senhor?!...
Ora aí é qu' é preciso a gente puxar p'r a cabeça. Nã t' alembras de q'ondo se andava na quarta classe, a senhora pr'f'ssora - a minha prima Margarida - falar lá numas invasõs qu' os franceses fazeram p'a ver se davam conquistado Portugal?
- Era um rê ch'mado Napoleão, nã era? Nunca mái me desqueci disso. Já tive um cão que l'e pus esse nome. Agora tenho uma canita, chama-se Penusga.
- Essas guerras foram do tempo de Napoleão, tens r'zão, más ele nã era rê e nunca chigô a pôr cá os pés. Mandô foi os comandantes lá da tropa dele.
- Ah, é verdade, p'r três vezes mandô cá um dif'rente e nunca deram fêto farinha com a gente... C'm' é qu' eles se chamavam, senhor?... Ê cá sabia isso, más, agora, falta-me aqui os nomes deles...
- Junot, Soult e Masséna!... Nunca mái de desqueci...
- Pôs, olha, foi méme esse Soult que teve que fugir à pressa do Porto - 'tá quái a fazer os duzentos anos - com o resto dos soldados qu' inda tinha e abalar caminho da Galiza, passando p'r a dita v'reda qu' ê cá tamém passí serra acima.
- E raspô-se a tempo e horas?
- Ele raspô-se... e más os soldados qu' inda 'tavam im boas condiçõs...
- Atã e os ôtros?
- Os ôtros, pobrezinhos, os qu' iam coxos c'm' ê cá ó cansados, esses, na subida da Serra da Labruja, des que s' atrasaram p'a lá um coisinho e t'veram pôca sorte.
- Munto pior!... A famila lá da Labruja, qu' eram foitos e nã nos podiam ver, esconderam-se tôd's no mê daquele mato, q'ondo eles vêm a passar coxo-pé, coxo-pé, saltam-l'e im cima, deram-l'e uma untura, arrebentaram com eles tôd's...
- Que jêto?!... Atã ele já ia escorraçado do Porto, com o rabinho entremêo das pernas... Ele qu'ria era atravessar depressa p' ô lado de lá, entes que l' acontecesse mái alguma desgraça...
P'a se chigar lá im riba, o caminho é embargôso c'm' um raça. Quái a pique, estrêto e chê de pedras...
-E, inda hoje, lá 'tá a Cruz a lembrar qualquer um que lá passe. É a tal Cruz dos Franceses.
- Atã, e, já agora, o qu' é quer d'zer aquelas pedrinhas todas im cimba da cruz e ôtras no chão? Aquilo é cada soldado qu' os da Labruja mataram, uma pedra?...
- Nã senhora, aquilo é ôtra coisa. Aquilo é o pessoal que vai a andar c'm' ê cá fui e vai ali sòzinho, já bem munto escalfado, com soidades da su Maria ó do sê Manel e, um s'pôr, apetêce-l'e a descansar um coisinho, apr'vêta, apara um pôcachinho, précura p'r uma pedrinha e põe ali.
- Olha que bela idéa...
- E dêxa ali uma marca...
A conversa inda durô mái um belo pôco, mái c'm' ê cá nã tenho tempo p'ra más, que hoje é dia d' abalar p' ô Vinte Nove e inda tenho munto governo p'a fazer, fic'-me p'r 'qui.
Im Vilarinho, desatô a chover às cinco da matina, teve-se qu' abalar debaxo de chuva...
- Ó c'pad' Refóias, mái conte-me lá bem essa d' abalarem tôd's debaxo de chuva lá d' adonde vomecêa disse, que já nem m' alembra bem o nome...
- Lá de Vilarinho?...
- Sa senhora, daquele sito adonde vomecêa 'tava ferrado a dromir e, p'r o jêto, acordô, de rompante, premode um grandessíss'm' ô aguacêro...
- Atã, nã vê, aquilo, o telhado era béque-me de lusalite ó lá o que era e o pav'lhão dum tal tamanho que dá p' ôs môces jogarem à bola lá drento... ora, o barulho da chuva intoava qu' até metia medo... Mái quem é que dava dromido, senhor?!...
- Eh'q, semp'e há quem nã l'e faça d'f'rença... A minha C'stóida nem que l'e passe o comboio ô pé da menza de cabecêra ela acorda...
- Lá 'tás tu!... E q'ondo tu te pões a roncar qu' até na rua se ôve?...
Saltô logo a minha c'madre, que 'tava p' ali a debelicar umas bajas p'a pôr ô fogo.
- Pôs ê cá - diz a minha Maria que tenho sono de pulga e tará r'zão - acordí logo e, tã penas me vê à idéa que tinha umas sês ó sete léguas p'a andar nesse dia, assim dí um salto da cama - cama é c'm' quem diz... do chão!... - e vô-me d'rêto à porta da rua olhar o astro.
- E que tal?
- Nã me diga nada... Entes, inda panhí um cagáiço que mecêa nem calcula...
- Nã me diga... Atã fez algum relampo e caíu algum p'rigo ali p' ô pé? Isso inda havera de ser de nôte...
Lá p' às bandas da Junquêra, inda ele nã tinha al'viado...
- Nã foi nada disso, hom... O que foi é qu' eles tinham posto lá um guarda durante a noite a gôrdar a porta e o homenzinho, p'r o jêto, dé-l'e sono, assantô-se numa cadêra e incostô a cabeça numa mensa que p' ali 'tava...
- E ferrô no sono...
- Tal e qual... Ora, ê cá, aquilo inda era lusco-fusco, nã dí p'r um balde - ó lá o que era - com papés que 'tava ali no mê do corredor, imbiquí naquilo, fiz um cagaçal marafado...
- Quãi qu' ia caindo uma mangulada, mái nã caí... Fui foi um coisinho de zambareta d'rêto à tal menza.
- Aí, o guarda acordô...
- Acordô... e alto lá com ele!... Dá um salto, todo insarampantado, e prega-me um eco qu' ê até estrameci:
- Qu' é isto aqui?!!!...
- Eh, amigo, 'pere aí... Nã tenha medo qu' ê nã l'e faço mal... Atão, dromiu aqui esta nôte? Nã arrenjô cama ali drento? - Disse-l'e ê cá fêto foito, cudando qu' ele tamém ia Caminho de Santiago c'm' os ôtros - Inda panha p' aí uma const'pação e nã dá seguido viaja...
- Qual viaja nem viaja... Ê sô o segurança aqui disto...
- Ai, coitadinho... E passa aqui as noites?...
- É o mê serviço...
De manêras que, lá se meté conversa e p' ali se paleô um belo pôco. Aquilo qu' a gente usa a falar nestas ocasiõs... Que 'tava de chuva, que nã calhava nada bem, que, calhando, 'tava sarrado p' ô dia todo... e más esta e más aquela...
Com Arcos à vista, 'tava tudo alagado, mái a chuva já era mái brandinha...
- Ô certo, ô certo, é que, inq'onto isso, ê cá fui ingrilando p' ô lado da rua e só me dava era com'chão na cabeça...
- 'Tava a desconfiar qu' o tempo l'e 'tava a fazer a parte...
- Olhe, compadre, o astro 'tava carregado até mái não, a chuva vinha além do lado da mãe, vento pôco, o qu' é qu' ê havera de pensar daquilo?...
- Ora, 'tava fêto p' ô dia...
- Pôs, atão... E foi o que se deu...
- E, méme assim, alevantaram-se e puseram-se a caminho?!... Já é preciso ter munta vontade de se molhar!...
- Que remédo, compad'e Jôquim... Mái tamém l'e digo: Inda pensí que lá os que mandavam naquilo d'zessem pr' à gente esperar um pôcachinho a ver s' ele al'viava...
- E eles nã foram nisso?...
- Alguma vez?!... Aquilo 'tava destinado à gente chigar tôd's dias a um certo lugar, que chovesse qu' aventasse, era abalar e... p' à frente é qu' é caminho...
- Ai home, ai home... isso pr'a mim béque-me nã dava... Um homem andar o dia intêro todo desconsolado, inxugar uma molha na lombêra e com as botas chêas d' áuga...
- Pôs foi o que m' acabedô naquele dia... À fim d' andar nem chigô a uma légua, já nã tinha fio inxuto e os sapatos 'té faziam chaloc-chaloc...
- Ai, compad'e Refóias, ê panhava logo uma catarrêra que nã sê c'm' é qu' isso seria... Ora molhar as costas e nã mudar logo de farpela...
- P'ra mim, o pior foi andar tod' ô dia com os pés molhados. Pensí que chigava ô mê destino sem pele nas palmas dos pés...
- E inda levava alguma?...
- A pele levava, mái borrefas nã l'e digo nem l'e conto... Era quái uma pegada désna dos dedos até ô calcanhar...
- Atão e c'm' é que dava andado no dia a seguir?...
- Sabe qual foi a minha sorte? Foi que 'tava lá aquelas senhoras da Ordem de Malta e, atão, furaram-me aquilo tudo, espremeram munto bem e, im cada empôla dêxavam uma linha p' àquilo ir dêtando aquela aguadilha p'ra fora.
No Albergue de Rates, hôve quem pusesse uma rôpinha a secar. É qu' inda faltava fazer ôtro tanto caminho até Barcelinhos...
- Aquilo, chega a um certo ponto qu' a gente já nã s' emporta com nada, o qu' é que mecêa pensa?... Olhe, só com-migo, com mintira e tudo, tenho a firme certeza que, s' elas nã gastaram um carro de linhas intêro, nã foi nada...
- Tó, diacho, mái atão os sês pés haveram de par'cer umas peúgas de laina qu' ê cá tenho p' ali, qu' elas vã-se arrompendo e a minha C'stóida vai semp'e dando uns pontos...
- Tamém nã digo assim tanto... mái que foram bem alinhavados, lá isso foram...
- E o resto da famila andava tudo nisso?...
- Nem tôd's... Havia p'r lá uma mêa-dúiza deles, p'a nã d'zer más, que já tinham munta práct'ca daquilo e sabiam-se defender. Veja lá que, no sito adonde a gente adonde a gente c'mé quasequer coisinha, a mê do dia, eles até pediram p'a ligar lá um aquecedor e vá d' inxugarem a rôpa que levavam molhada... Foi no Albergue de Peregrinos de Rates.
- Bem fazeram eles...
- S' ê cá ir lá mái alguma vez, logo vê... Faço o mémo...
- Se ir, nã me convide qu' ê cá nã me dá jêto coisas dessas... Só s' a minha C'stóida tamém qu'rer ir...
- Isso qu'rias tu... P'a ê ter que te fazer tudo p'r o caminho...
- Ó c'madre C'stóida, s' ê fosse a si ia... Nã tenha medo qu' aquilo lá cada um é p'r si.
- Alguma vez?!... Nã vô, nã senhora...
- Bom, nã se fala mái no caso. Agora tenho qu' ir andando que tenho p' ali uma q'ontas pèzêras d' alcagóita p'a regar e, isto, os dias já sã mái pequenos, im menes de nada se faz noite. Fiquem-se com Dés.
- Vá com Dés compadre, mái, e despôs, logo conta isso tudo melhor à gente...
- 'Tá bem. Em havendo jêto, logo se conversa...
E, agora, se qu'rerem ver os videos todos dos retratos qu' ê cá tirí no Caminho de Santiago e nôtros sitos, acalquem aqui:
À abalada do Porto, quem havera de pensar o que l'e esperava p'ro Caminho...
D'zer a verdade, à abalada do Porto, qualquer um, c'm' ê cá, que nã conhêça, nã faz uma idéa, pequena que seja, do que l'e espera p'ro caminho. E, atão, abala-se tôd's contentes e c'm' s' aquilo fosse ir daqui até ali ô Pé da Cruz...
Más a coisa tem mái que se l'e diga e ê dig'-l'e já: ó uma pessoa 'tá fêta a andar p'r caminhos ruins e uns belos pôcos ó atão é d' adregue dar chigado ô fim da viaja. E calhando a 'tar com alguma dor ó com um calo trilhado ó coisa assim, é tirar daí o sentido...
Pôs, naquele dia, logo bem de manhãzinha, abalí da casa do mê amigo Jôqu'nito - qu' ele até é que foi alcançar no carrinho dele - e foi-se caminho do Largo da Igreja da Sé do Porto, qu' era adonde eles tinham mandado ê cá 'tar aí das sete da manhã im diante.
E fiquem já sabendo que, dos qu' iam andar a pé, inda nã tinha par'cido nem um. Fui ê cá o pr'mêro. E aquilo fazia lá um navoêro que duma ponta à ôtra, nã se via nada. Logo, inda pensí:
- Mái atão que conversa é esta, hom?!... Querem lá ver qu' ê cá fiz p' aí confusão com o lugar da abalada e nã sará aqui?!... Lá serem eles a me fazerem a falseta, nã há-de ser...
Mái, nesse mê tempo, o Jôqu'nito já tinha lombrigado umas meçalhas todas bem vestidas com umas rôpas brancas e incarnadas, que par'cerem ali nã dê d' adonde, e ê cá prècuri-l'es logo, munto limpêro:
- 'Tejam com Dés, minhas meninas. Atã vomecêas nã me digam que tamém 'tã aqui p'a abalarem p'a Santiago?...
A Rua de Cedofeita 'tava quái toda p'r nossa conta...
- É verdade que 'tamos, mái a gente vai é dar uma ajudinha àqueles que terem precisão. Nã se vai fazer o Caminho a pé.
- Munto bem me calhô!... É qu' ê cá dí p' aí o nome p'a tamém ir, mái atão, inda nã abalí e já 'tô p' aqui coxo duma perna, com uma dor no incaxe do joelho...
- Nã me diga... Atã e vai abalar p'a Santiago assim num estado desses?!...
- Isto nã há-de ser nada... E se vomecêas me darem aqui uma esfrega aí com qualquer coisa - p'r mái que nã seja, com um coisinho d' álcol - isto vai ô lugar...
E nã hôve mái conversa. Calhando, as mecinhas até cudaram qu' ê cá 'tava mangando com elas e nã deram importâinça ô caso. E fazeram elas senã bem, senã inda se punham p' ali com coisas e quem sabe lá se me dêxavam abalar com o resto da matula.
De manêras que, passado um pôcachinho, lá se c'm'çô a ajuntar a famila toda e aquilo, lá p' à banda das dez da manhã, deram ordes d' abalada.
Nesse entrementes, já ê cá tinha corrido aquilo tudo duma ponta à ôtra e tirado p'r 'lí uns retratos e coisa e tal, q'ondo vejo uma seta amarela lá numa parede de pedra. Pensí logo:
- Cá está. É este o tal sinal que des que 'tá no Caminho todo até Santiago p' àqueles que nã sabem, c'm' ê cá, nã se perderem.
E nã 'tava atribuído, nã senhora. Pus-me ali ô pé - da banda de trás até se via já bem a Torre dos Clérigos, qu' o navoêro tinha alevantado - e vá um retrato p'a me f'car de lembrança.
Ô chigar a Araújo, até f'quí insampado com estas lindas senhoras a darem água e dec'mer à gente...
Inda o Jôqu'nito 'tava de máquina na mão e ê cá a dar aqui um jêtinho nos cabelos e a pôr o chapéu bem no lugar p'a ver se nã f'cava munto mal no retrato, desata aquela malta toda a andar ali prêabaxo que par'ciam uns cavalos - com l'cença da palavra - mal tive tempo de me despedir do Jôqu'nito e pôr-me quái a fugir atrás deles.
- Atã, Dés te pague e até a gente se ver...
- Adés, Refóias!... Vê lá se t' aguentas nas canoiras... Olha qu' isso agora era vergonha abalares e nã dares chigado lá... O qu' é qu', e depôs, d'zias aí à famila?...
- Logo se vê... logo se vê... Mái tamém te digo: só volto p'a trás s' a perna me cair... D' ôtra manêra, leva sentido que, nem que tenha d' ir às quatro patas, hê-de chigar lá...
E lá fui...
Ôtro dia, 'tava ê cá a contar esta passaja o mê compad'e Jôquim do Barranco e à minha c'madre C'stóida, volta-se ela p'ra mim, munto crusidosa:
- Ó compadre, méme assim, vomecêa a abalar p'a uma coisa dessas naquele estado, nã l'e dé assim um coisinho de cudados?... Atã e se t'vesse qu' arrèlar lá p'r aqueles charazes, o qu' era de si?!...
- Olhe, c'madre, ê, d' ora im q'onto, quái que me vinha isso à cabeça, mái tã penas m' alembrava de tal coisa, punha-me a sobiar e olhava p' ô céu... Fosse o que Dés qu'sesse...
- E, p'ra más, ê tinha-me aprecatado muntís'mo de bem com tudo o qu' ê cá cudavam qu' ia ter míngua. Calhando, até coisas a más ê levava...
- Ah, sim?...
No sito do almoço, já 'tava tudo mái p' ô cansado que otra coisa...
- Olhe, levava um chapéu d' aba bem larga - uma espéce d' abirum daqueles d' ôt's tempos - que nã passava ali nada. Que fosse sol que fosse chuva, tapava tudo.
- E más o quem?
- Uns sapatos de sola grossa p'a nã sintir o chão e nã escorregar im banda nenhuma. Um bordanito p'a m' incostar e m' ajudar a salvar qualquer barranco que t'vesse d' atravessar e p'r 'í adiante...
- E o bordanito, arrenjô lá?
- Nã senhora!... Atã nã o leví logo daqui?!... Fui ali a um sito qu' ê cá sê, cortí uma vardasca de castanho, dêxí-a secar munto bem sequinha ali à sombra, alisí-a, a mês modes, aqui com a minha faquinha e aquilo dé um bordão do melhor que possa ser e haver... E olhe que me fez munto bom jêto!...
- E fez mecêa munto bem... Qu' o castanho até des qu' é a melhor madêra que se pode arrenjar aqui na serra...
- Foi méme essa a r'zão qu' ê cá o escolhi. Logo, qu' é do melhor que há, e, despôs, p'a m' ir semp'e a alembrar de cá da Serra de Monchique. E inda l'e digo más: voltô aqui nas minhas manitas, qu' inda o tenho ali gôrdado p'r trás da porta c'm' lembrança p' à vida intêra...
Mái, voltando à nossa conversa, pus-me a andar coxe-pé, coxe-pé, atrás dos ôtr's, p'r aquelas ruas estrêtas do Porto - e impinadas c'm' o diacho - q'ondo chego à vista da Torre dos Clérigos, já ia afègar e a pensar na minha vida...
O que me valé foi qu' ele havia p' ali uma parte deles que nã podiam passar sem bober um cafèzinho e apararam logo ali numa venda, na Rua de Cedofeita, e toca a descansar um pôcachinho e tomar um coisinho de fôlgo. E aquilo até que me calhô bem...
Daí p'ra diante, é que foi só andar e cada qual p'r si.
À cêa, era cá cada paneladão de sopa... E otros dec'meres bons...
Tamém, verdade se diga, aquilo nã foi coisa que demorasse assim tanto tempo c'mo isso, já lá 'tavam umas lindas senhoras do Corpo de Voluntários da Ordem de Malta, ali num jardinzinho, com umas cestadas de fruta, sumos e água qu' até dava gosto.
Eram as tales qu' ê cá já falí ontordia, que foram do prencípio até ô fim semp'e prontas p'a ajudar quem t'vesse míngua fosse do que fosse. Nã me canso de d'zer que foi a melhor coisa que me par'cé naquele Caminho!...
De manêras que, lá me demorí só o tempo que tive preciso e fui andando p'a ver se nã chigava munto atrasado ô sito adonde se 'tava combinados p' ô almoço: Mosteiró.
Ê cá bem que andava c'm' dava, mái atão os ôtros andava tudo mái do que eu... Foram passando, foram passando... calculo que se nã fui o último a chigar lá, só se vinha algum inda mái p'a trás que nem dí p'r ele...
Nã foi más... Parte deles já tinham batido o alm'cinho, uns já tinham abalado p' ô resto do caminho do dia e ôtr's p' ali 'tavam espaldêrados, cada qual p'r sê canto. E tamém havia p'r lá uns três ó quatro - p'a d'zer más... - tôd's desmastreados que nem coraja béque-me já tinham p'a se jogarem a andar ôtra vez...
Agora q'ondo aquelas senhoras me vêem chigar lá a arrojar a perna, de cara afogueada e todo incharcado im suôr, nem mecêas dã fêto idéa do que se passô...
- Mái atã o qu' é que l'e aconteceu?!... - D'zia uma, coitinha, assim d' olhos munto abertos, quái de certeza pensando que haveram de ter me dêxar p'r o caminho...
- Nã foi nada, nã foi nada... Isto, ê já vinhe assim de casa, mái nã se mort'fique que, s' ê cá chigar a um ponto que nã dêa andado más, fico p' aí num lugar quasequer e logo alguém me vem b'scar...
Qu' ê cá, atão, já tinha combinado com o mê amigo Jôqu'nito que, calhando a ê f'car p'r o caminho, ele ia-me lá alcançar no carrinho dele...
- Ai, venha cá... Temos que fazer aí um tratamento c'm' deve de ser ó, atão, vai ser um problema... S' inda agora andô uma manhã e já 'tá nisso, c'm' é que mecêa quer dar chigado a Santiago?!...
- Dêxe lá... Seja o que Dés qu'ser!...
E, p'r menes à larga, dromia-se...
De manêras que, nã l'es digo nada, aquela senhora e as ôtras que lá 'tavam foram umas santas que me par'ceram na frente. Quái que nã tive tempo p'a almoçar nesse dia, mái o mê joelhinho f'cô tratado c'm' deve de ser.
Ele foi pomadas, massajas, ginástica, ê sê cá... E, ô fim, levô ali um implastro e uma ligadura à roda, qu' ê até par'cia um jogador desses da bola...
E lá abalí a caminho de Vilarinho qu' era adonde a gente ia cear e dromir lá num armazém daqueles adonde os môços-pequenos da escola fazem ginástica. E olhem qu' inda assim nã se ficô lá munto mal...
Aí, as senhoras fazeram lá um paneladão de sopa e ôtros dec'meres, tudo munto bem fêto e gostoso, que foi c'mer até mái não.
E, tirando o chão ser duro c'm' um raça, a famila de lá ter levado a noite toda a tiçar foguetes ô S. Bento, p'a já nã falar duns três ó quatro amigos que roncavam que nem o pórco do mê compad'e Jôquim, o Trombão, e, às cinco da manhã, ter desatado a chover que só parô da parte da tarde, aquilo, inda assim passô-se a noite escapatòiramente...
Se qu'rerem ver os videos todos dos retratos qu' ê cá tirí no Caminho, acalquem aqui na Galeria do YouTube, mái, se qu'rerem ver os retratos com ôtras condiçõs, acalquem aqui na Galeria de Santiago, que semp'e sã um coisinho melhores...
Querendem, vejam aqui os retratos qu' ê cá tirí dos Monumentos do Caminho