Mostrar mensagens com a etiqueta morcela. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta morcela. Mostrar todas as mensagens

06 março 2007

A Feira dos Enchidos de 2007

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique

Brinde à Feira dos Enchidos - Monchique
Uma saúde à Fêra dos Inchidos cá de Monchique, que nã há ôtra c'mo esta!...

Já tenho ôvisto pr' aí d'zer que na fêra dos inchidos é os dias que vem mái famila cá à Vila im tôd' ô ano. Pôs se nã é, nã s' hã-de inganar p'r munto. Mái, p'a d'zer a verdade, ê cá tamém cudo que é e era quái capaz de 'postar, que, calhando, nã perdia.

Im chigando aí umas certas horas, aquilo é um correpio de carruaja e de famila qu' uma pessoa, béque-me, até se sinte assim p' ô inzamboado. Tem ocasiõs qu' um homem, p'a passar p' ô lado de lá, ó tem munta conta ó, atão, afitura-se a vir algum desingalgado e l'e dar um incontrão qu' o dêxe p' aí todo derrengado.

Mái, c'm' à gente já sabe disso, qu' ele já há catorze anos qu' eles cá veêm nestes dias, é d' adregue haver qu'im s' astreva a passar sim pr'mêro aparar e olhar munto bem se vem alguma coisa dum lado ó dôtro. E vá lá que nã dí p'r se dar nenhum caso ruim nestes dôs dias.

Pôs, mês belos amigos, isto é que foi andar no coçáiro. Só quim nã quis é que nã enché o papinho... Olhem, bons dec'meres, munta famila, cantorio qu' aquilo era tocar modas as tardes entêras, uns solvinhos d' ora inq'onto, o qu' é que qualquer um havera d' enxigir más?...

'Tá bem qu' ê cá agora, inda hoje, nã dô intendido munto bem a minha Maria, qu' em me qu'rendo d'zer seja lá o que ser, farta-se d' arrulhar e ê nã na percebo nada. Despôs, arrulho ê cá e é ela que 'tá semp'e a prècurar:

- O quem?... O quem?... Ó homem, fala de rijo que nã te oiço...

- Ó m'lher, mái atã, daquem nada, dô cabo das goélas com arrulhar...

- Nã me t'vesses levado lá p' à fêra dos inchidos... Com o ôrío qu' eles faziam lá com aqueles alt'-falantes, béque-me nunca mái f'quí a ôvir nada de jêto...

Surdos já a gente, mái, é certo e sabido, qu' inda se f'cô piores...

- Ai, agora, ê cá é que tenho as culpas... Mái inq'onto aquilo durô e 'tavas lá espècada a ôvir o Zé Cid, nã deste p'r barulho nenhum. Ó pensas qu' ê nã te 'tava a ver lá ô canto do palco, méme ali p'r baxo daqueles grandes caxotõs d' adonde saía a mús'ca, que toda t' abanavas ô consoate da moda qu' ele cantava...

- Atã, 'tavas lá na barreca do homem da aguardente a emborcar neles e inda tinhas tempo p'a me ver?... Já 'tavas más era a ver a más...

- Olha, nã digas agora que não, qu' ê cá bem te vi, sa senhora...

E é verdade, nã 'tô certo se foi daquele banzé se do qu' é que foi, tanto ê cá c'mo ela, béque-me se 'tá a ôvir um coisinho menes. Mái isto pode ser méme do tempo. Ó da idade... ó coisa assim. Vomecêas tamém l'es par'cé aquilo, barulho a más?... Ó acharam que nã teve dúv'da?

Já falí nisso ô mê compad'e Jôquim do Barranco, mái ele, p'r o jêto, inda é mái surdo do qu' ê cá e, atão, des que nã notô assim grande coisa. Mái nisso, ele nã é munto de fiar que, logo no sáb'do, panhô uma pelhega que nã havera d' ôvir era coisíssema nenhuma... E, d'mingo, foi só l'e b'ber mái um ó dôs porretes, inda tinha a vasilha quente, assim f'cô no mémo.

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique
Mólhes, morcelas, chôriças e morcelas de farinha. Melhor nã há. Só s' igual...

Que nã foi só ele. Hôve p'r 'í munto quem t'vesse fêto figuras par'cidas ó piores... Se dar tempo p'ra isso, ê já l'es conto a parte qu' o v'zinho Manel Mansinho fez, qu', aquilo, a minha Maria nem qu'ria crer no que via.

Mái voltando méme à fêra, teve graça qu' ê cá e quem ia com-migo - a minha Maria e os nossos compadres do Barranco - entrô-se p'r aquela porta cá do lado da Vila, 'tavam logo p'a lá umas a cantar e a tocar com uns foles daqueles qu' é de ligar à elecsidade, f'cô logo tudo ali imbasbacado um belo pôco.

Qu' ê nã aprecêo assim munto aquela aparelhaja toda... Gosto mái daqueles harmóinos d' ôtr's tempos ó méme até uma concertina daquelas bem pequenalhas de duas escalas. Foi uma coisa que m' ac'st'mí désna de moç'-pequeno e estes foles m'dernos nã gosto tanto, o qu' é que mecêas querem...

De manêras que, 'tavam elas munto entretidas ôvindo o cantorio da moça, dí logo um sinalinho ô c'pad' Jôquim, fazemos-se assim desapercebidos e fomos-se arradando p' à banda de trás, c'm' quem nã quer a coisa, a ver s' elas f'cavam ali mái um pôcachinho p' à gente ir lá tratar da nossa vida. Más a c'madre C'stóida, que 'tá semp' com a pulga na orelha, salta logo com a gente:

- Ó Jôquim, mái atão adonde é que vocêas já vã com essa pressa toda?!... 'Perem lá aí qu' a gente vai tamém. É só más esta...

- Atã, venham... Quem é qu' as 'tá pr'ivindo?...

- E se querem vir, nã demorem... Qu' ê cá já nã aguento tamanh' ô barulho e tamém tenho as goélas tã secas que parêcem corcha. Até arranham, punhana!...

Ramordí ê cá p' a defender o mê compad'e Jôquim qu' é um amigo dos bons. E vá de dar voltas ô miolo a ver c'm' é a gente, agora, se via livres delas p'a se bober uma rodadinha ó duas à nossa vontade.

Qual o quem, assim vieram logo p' ô pé da gente que nã despegavam de manêra nenhuma...

Diz logo a minha Maria, qu' é mái g'losa p'r coisas doces qu' um texugo p'r mel:

- Vamos lá aqui ôs bolos. Ai que lindos fritos, aqueles... E bolos de tacho... Olha, b'scoitos, tamém...

- E aquelas f'lhóses... Cada uma é quái do tamanho duma capacha... Ai, que 'tã méme a ch'mar p'r a gente...

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique
Nã faltava nada naquela fêra dos inchidos. 'Tava lá tudo, pronto...

- Se t'vessem aí um calcesinho dela p'a desembaçar, inda vá lá... Nã é verdade, compd' Refóias?... Agora c'mer aquilo im seco... um home até se pode ingasgar...

- Tal e qual, c'pad'. E com a secura qu' ê cá tenho... infrascava logo.

E volto-me p'a elas:

- Mái, atã, vocêas vieram aqui p'a c'mer bolos ó p'a comprar chôriças e morcelas?!...

- Ó homem, ist' é uma fêra de tudo... Todas as coisas que se faz cá im Monchique eles apresentam aqui. Nã vês? Verga, cadêras de tisoira e coisas de madêra, bolos, pão e as morcelas e mólhes e essa coisa toda...

E p' às dar arrencado dali?... Foi uns trabalhos, home...

Tamém, q'ondo se chigamos lá p' ô lado do madronhito, foi um regalo...

- Amigo Zé, ponha lá aí uma copadinha p'a mim, ôtra p' ô mê compad' Jôquim... fazendo favor.

- Isto aqui é só provas, de manêras que, só há mosquitos, ti Refóias...

- Nã me diga... Atã e um homem nã s' hab'lita a ingolir o copo e tudo?...

- Ó ti Refóias, se vê qu' isso se pode dar, resolve-se já o caso. Ê vô b'scar ali uma tamicinha e ata-se o copinho aí no pé, já uma homem, s' o ingolir, pux' ô otra vez p'ra fora...

E o mê compadre:

- Esses cudados ê nã tenho. O que me faz espéce é qu' uma coisalha tã pequena mal me dá p'a molhar a boca que nem ôs gragomilos há-de chigar... Olhe ponha más é logo dôs p'ra cada um...

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique
Na barreca do madronho nã faltava freguesia...

- Eh, c'pad' Jôquim, nã faça coisas dessas qu' iss' é uma vergonha!... Quem ver uma acção dessas inda chama esgalfetados à gente... Tenha p' aí manêras, cachamorra...

- Dêxe-os da mão... S' eles t'vessem incalmados c'm' ê cá, com o sol que panhí p'ro caminho, logo viam...

- Atã beba lá esse qu' o homem já despejô, que manda-se logo vir ôtros a seguir. Mái, dôs ô méme tempo, nã senhora. E dêxe-se 'tar caladinho qu' é p'ra elas nã darem p'r nada, senã inda é pior p' à gente.

Qu' as m'lheres, nesse entrementes, já tinham passado p' à frente e 'tavam d' olho nos bolos de torresmos, folares, batatas-doces assadas e isso tudo que p' ali 'tava.

E foi a nossa sorte. Dá-me até quái vergonha de d'zer, más olhem que baldeamos logo ali uns belos mosquitinhos. Qu' ê nã nos contí, mái sinti ela me chigar logo aqui à cabeça. Ná é que f'casse escarado, mái que dé um r'morzinho, deu. E nenhum ingoliu o copo qu' a gente sigurava-l'e bem assim p'r baxo no pèzinho...

Mái, tã penas elas sintiram a nossa falta, foi logo um castigo. Vá de ch'marem p'r a gente im q'onta força tinham e lá t'vemos qu' abalar. Tamém, só assim é que se foi lá p' ô canto dos inchidos. Se nã fosse isso, 'tá-me cá a par'cer que nã se tinha chigado àquela ponta. E, d'zer a verdade, pôco precisão ê tinha disso. O comprar lá o qu' era preciso 'tava a carrégo delas...

Que lá nisso, a minha Maria carrega até mái não. Ele é tudo o qu' ela veja, 'tá logo a mandar pesar. Nessa altura, já levava uns três sacos d' alsas chêazinhos que nã cabia lá nem mái um cabelo. E inda l' e faltava as morcelas de farinha, uns m'lhinhos aferventados e béque-me tinha tenção de levar tamém dôs ó três folares duns que lá 'tavam méme sem ovo.

Ah... água-mel, isso, comprô logo uns dôs frascos. E inda 'tava jogada a um tamém de pólen - ê béque-me tenho ôvisto ch'mar tarro àquilo... - p' ô levar tamém, mái a m'lherzinha dé-l'e um coisinho a provar, desatô a fazer miécos, cuspinhô, des qu' era munto infastiadiço, já nã quis.

A seguir, damos com as zêtonas - umas britadas ôtras d'água, mái nã repáirí bem s' eram curtiladas ó entêras - tarmôç's e fêjã' calote. Vá mái uma teca...

Varal de Chouriças - Feira dos Enchidos - Monchique
Estes dôs varás de chôriças tinham uma bela carga...

- Ó Maria, mái atã compras a fêra toda à famila?... Nã vês que, parte dessas coisas, fazem-te é mal?... Tens a atenção alta, o co'strol tamém bem ôviste o qu' a senhora dôtora disse, tens que ter munta conta...

- Eh'q, em 'tando pior, faç'-'e uns chàzinhos daqueles qu' ê cá sê, ponho-me logo melhorzinha...

- Algum dia, inda te dás mal... Ê cá tamém gosto de bober um chàzinho uma vez p'r ôtra, nã digo que nã gosto, mái 'tar cá muntas mèzinhas p'a isto e p' àquilo, béque-me nã me dá munto jêto. É melhor ir logo ô senhor dôtor, qu' ele, agora, já há reméd'os p'ra tudo...

- Pôs ê cá dô-me munto bem com as minhas mèzinhas. E méme que tenha qu' ir ô dôtor, os mês chás ninguém m' os tira...

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique
Aquilo, lá p' drento, no d'mingo, 'tava tudo chêo, méme com tempo de chuva...

E, com esta conversa, ela lá mandô imbrulhar o que munto bem intendeu, qu' ê, atão, nã me meto nada nisso... E se me qu'sesse meter, havera de me servir de munto... Qu' isto, m'lheres... já se sabe c'm' é que é...

Aí, tive qu' alancar com os sacos quái tôd's e lá se foi correndo o resto. C'm' já l'e doíam as pernas de 'tar d' em pé, andô, andô, lá lombrigô um lugarinho numa mesa p'a elas as duas e toca d' a gente ir p' a lá.

Ê e o mê compad' Jôquim nã se tinha lugar, tã penas se c'mé' uma bucha - uns coisinhos de presunto do nosso com panito do bom e uma cervejalha cada um - dêxamos-as ali e foi-se dar mái uma voltinha e falar ôs amigos.

E assim se passô o resto da tarde, ora paleando com os amigos que p'r lá parceram, ora baldeando uns mosquitinhos, ora fazendo as duas coisas ô méme tempo.

'Tá bom de ver que, inda bem não, 'tava a nôte à porta e já se tinha as orelhas bem quentinhas... Pior o mê compadre do qu' ê cá, qu' ele é mái graganêro... Mái nã falta ô respêto a ninguém, isso que se diga. Fica só assim um coisinho más alegre do qu' é c'stume...

E sabem o qu' é que dé na cabeça à gente?... Ir-se ali p' ô pé da porta da saída panhar uma aràjazinha na fronha. E foi-se. Ora, foi méme à medida. 'Tava lá uma rifa dum bacorinho qu' era p'a ajudar os mecinhos da escola a irem dar um passêo nã sê bem p' àdonde, mái béque-me é assim p' a um sito que 'tá p' ali p'a Espanha, qu' é numa ilha mágica.

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - MonchiqueFeira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique
O pobrezinho do bicho, com o cagaçal da aparelhaja, até se escondia p'r trás da pia e béque-me pedia p'a abaxarem aquilo...

S' eles vã de barco ó s' é d' avião, isso é que nã sê, mái, seja lá c'm' ser, hã-de ter qu' arrenjar munto d'nhêro. Digo p' ô c'pad' Jôquim:

- O melhor qu' a gente fazia, era comprar uma rifazinha cada um... E quem sabe lá s' isto nã sará uma hora boa e mecêa usa a tem mái sorte qu' um cã de caça, até l'e podia sair o bacoralho...

- Ê cá nã gasto d'nhêro im rifas!... Inda se fosse alguma coisa p' ac'mer e bober...

O homem nã tinha intendido bem p'ra que era aquilo, senã nã me respondia daquela manêra, tenho a firme certeza. Pertí com ele, ôtra vez:

- Ó mê belo amigo, atã nã vê qu' isto é p'a ajudar os mecinhos da escola a irem fazer uma viaja p'a aprenderem mái coisas?!... Temos que ser uns p'r os ôtr's...

- Ah, é p'ra isso?... O caso assim já ôtro jêto...

- Olhe, inda l'e digo más. Faz-se já aqui uma sociedade. Cada qual dá um ero, compra-se dôs b'lhetes e, s' o pórco sair à gente, é de mêas, trata-se dele uns tempos e, despôs, faz-se uma pangalhada p' à gente e p' ôs amigos que se quêra convindar... Que tal acha?...

- E mecêa tem lá curral p' ô pôr? Olhe qu' os mês p'cilgos 'tá tudo chêo, que nã basta os mês porc's senã qu' a minha C'stóida apr'vêtô um qu' ê tinha de vago e pôs p'a lá uma rabanhada de pintos qu' uma galinha-da-índia dela, tirô...

- Nã seja essa a falta, que lugar tenho ê lá com fartura... Vá puxe lá da cartêra.

- Ó menino, atã que idade tem o b'chinho?... Lá bonito é ele. Nã vê, de cabelo preto, todo luzidio, méme c'm' ê cá gosto deles.

- Nã sê, ti Jôquim. Mái, 'pere aí qu' ê vô ali prècurar.

- Mái atã, o qu' é que l' ent'ressa q'ontos meses é qu' o bicho tem ó nã tem?... E tamém, olhando p'ra ele nã se vê logo qu' isto é animal p'a ter os sês... quatro p'a cinco meses?...

- O qu' é que vomecêa diz?!... Ele nã tem mái de três, q'onto más cinco...

Nisto, vem o mecinho, todo contente:

- Olhe, ninguém sabe bem, mái des qu' ele há-de ter 'í p' ô lado dos cinco meses.

- Ê nã l'e disse...

- Ai cinco meses... Ponha-l'e lá três e... e... e...

Bom, a idade do pórco dé p'a levar ali a rançar, um que toma e ôtro que dêxa, uma preçanada de tempo. Até o meçalho já 'tava infastiado com a conversa...

- Olhe lá, am'guinho, arrasgue lá aí os dôs b'lhetes, qu' ê pago um e o mê compadre paga ôtro. E dêxe-o falar...

No fim de contas, inda nã ôvi d'zer a quem é qu' o pórco saíu, mái à gente nã foi. O meçalho f'cô lá o numbre do telefone e des que telefonava logo s' ele saísse à gente e nã telefonô...

E, passado um pôco, já se 'tava a caminho de casa, tôd's quatro carregados de sacos de plástico que nem que t'vesse ido às compras ô Continente a Vila Nova.

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique
O marafado do Bác'ro até se punha a jêto p' à gente l'e passar a mã p'lo pelo...

Mái a festa nã acabô aqui, nã cudem... Ô entrar im casa, nã sê c'm' é que se fez aquilo, dêxô-se a porta da rua incostada e tanto ê c'm' à minha Maria nã se repáirô. 'Tava-se munto bem a palear os dôs na casa de jantar, inda bem não, vê-se uma sombra ô corredor adiante...

Nisto, sem más esta nem más aquela, o v'zinho Manel Mansinho p'r a casa adentro, munto insarampantado, com a cara mái incarnada qu' um p'mento, que mal se sustinha im pé, nem 'tejam com Dés nem coisa nenhuma...

- Ó v'zinhos, ê nã tinha precisão de d'zer isto, mái atã a minha m'lher dêxô-me na rua...

Vi logo qu' ele vinha com uma cadela nos cascos que nã dava conta do recado, mái nã disse nada. A minha Maria é que prècurô logo:

Feira dos Enchidos Tradicionais 2007 - Monchique- O qu' é que mecêa diz, v'zinho? A v'zinha Zabel foi à dos filhos e levô-l'e a chave, sem querer? E vomecêa, agora, nã dá antrado.

- Qual o quem!... Levô foi p'r qu'rer... Foi-a b'scar lá ô sito adonde ê a uso a pôr e levô-me-a. Já corri lá tudo e ela nã 'tá lá...

- Atã, isso, a m'lher há-de 'tar p' aí perto, calhando foi à fêra dos inchidos, e nã há-de demorar...

- Olá!... 'Tá longe e bem longe. P'r menes uns cinquenta ó sessenta quilómetros. E já abalô ontem. Aquilo, ela é munto rija. É malina até de más. Olhe que já nã é a pr'mêra vez que me faz uma parte destas...

- Atã e agora c'm' é que vomecêa se governa? Se nã dar antrado im casa, nã s' aborrêça que come aqui qualquer coisinha com a gente. Mái atã e a v'zinha Zabel Carrusca fazia uma coisa dessas?... Dêxá-lo na rua...

Aí, meti-me tamém na conversa:

- Ó v'zinho, veja lá isso bem, qu' a chave há-de 'tar p' ali im qualquer banda... Q'ondo é que mecêa a pôs lá?

- Pus hoje, perto do mê-dia.

- Hoje?!... Atã des qu' a v'zinha tinha abalado ontem. C'm' é qu' ela l'e tirô a chave dali, hoje?... Há aí qualquer coisa que nã bate certo...

- Mái que dia é hoje? Sará qu' ê já 'tô p'a qui a atribuir isto tudo?... Atã q'ondo é qu' ê abalí de casa?

E desata a d'zer coisas que nã batia nada certo. Foi q'ondo ê cá vi bem qu' o homem 'tava méme empeçado com a grandessíss'ma talega que tinha panhado.

- Olhe, v'zinho nã é qu' a su m'lher nã seja capaz p'a l'e fazer isso, que p'r o que mecêa me tem contado, já l'e fez ôtras piores, mái, s' ê fosse a si, ia ôtra vez à prègunta. Calhando, a chave 'tá no lugar e mecê é que nã vi' bem... E, despôs, se nã dar com ela, venha cá qu' a gente dá-l'e aqui poisada até a v'zinha vir.

catarruô p' ali mái um pôcachinho até que pegô nele e abalô.

Só l'es sê d'zer é qu' ele nã voltô e, até agora, inda nã o vi. Prècurí esta manhã à v'zinha Zabel Carrusca por ele, mái ela nã adiantô nada, só disse, assim com uns modes munto de má cara:

- 'Tá p' ali p'a casa!...

Pobrezinho, há-de-se 'tar a curar da bob'dêra. Se nã ser más alguma coisa... que m'lher é ela p'a l'e ter dado algum camaço q'ondo o panhô naquele estado... Ê logo sê, qu' o desinfeliz dá-se bem com-migo e, em precisando, vem aqui clamar as desfortunas dele.

E pronto. Fica-se p'r 'qui. Despôs, logo me contam se gostaram das coisas que compraram cá na fêra. Os que vieram, 'tá bom de ver...

E Dés l'e pague a tôd's, que pr' ô ano há más...

Tenham munta saúde.

02 fevereiro 2007

Coisas de Morteporque - 2ª pagela

Enchendo os mólhes Com a prática qu' elas têm, im menes de nada, as m'lheres enchem os mólhes tôd's.

Ele hôve uma pessoa, a senhora Ana Ramón, que escreveu aqui umas coisas num c'mentáiro, d'zendo que nã era capaz de ver matar o triste do pórco daquela manêra. E ê cá tenho que l'e dar toda a r'zão. Tem r'zão, sa senhora. Q'ondo a famila tem r'zão, nã se l'a pode tirar...

Olhe, inda hoje em dia ele há cá na serra quem nã goste nada de ver isso e quái tôd's os moç'-pequenos 'té panham até medo com isso, veja lá. A minha Maria, q'ondo era meçalha, tã penas ôvia o pr'mêro gornido, desatava a fugir... uma vez, foi a mãe dar com ela descondida debaxo da cama com as mã's agarradas as orelhas e branca c'm' cal da parede... E, inda méme hoje, ela nã gosta nada de tal coisa.

Mái, p'a quem nã sabe, tamém l'e digo qu' o ad'v'rt'mento da morteporque nã é matar o pobrezinho do bicho. Iss' é só uma parte que se tem que fazer méme descontravontade. O resto é qu' é bom.

C'mer umas besnégas, uma bela assadura ó uns bons piques, bober um casêrinho bem g'stoso ó uns porretes de madronho macio e bem agraduado, charolar, fazer um joguinho de cartas, quem diz ôs três-setes diz ô truque ó ô pôrro, e, coisa que já pôco se vê, um joguinho de pàlito que tamém dá munta influêinça.

Mái atão, o c'stume é este e a famila tem precisão d' arrenjar uma carninha p'a c'mer com a côve e os jantares de fêjão e isso assim... Já nã falando dos mólhes, morcelas e chôriças ó da banha incarnada, torresmos e coisas dessas, que, des que fazem mal - e fazem qu' ê sê que fazem - mái sabem muntíss'mo de bem...

Podia-se era pensar p' aí numa manêra mái m'derna de fazer esse trabalho p' ô animal nã padecer assim daquele jêto, que, d'zer a verdade, dá um coisinho d' empressão, méme a munt's homens c'm' ê cá.

Atando o mólhePondo o mólhe a cozer Os mólhes, à medida que sã' chêos, é só atar e pô-los a cozer no tacho das morcelas.

Inda um dia destes 'tive a cismar nisso e vê'-me à idéa uma coisa qu' eles podiam fazer e, calhando, resolvia-se o caso dôtra manêra. Im vez de pr'ivirem de se matar o pórco, fazia-se ôtra coisa - qu' eles nã pr'iviram as mortesporque, eles pr'iviram foi matar o bicho im casa e tem que s' o levar ô matadoiro.

A Junta ó a Câm'bra, ó fosse lá o que fosse, arrenjavam um aparelho desses de matar os animazes com elec'sidade, que des que há. E matava-se os bichos c'm' fazem no matadoiro. E só despôs do pórco morto é que se l' atanchava a faca matadêra p'a l'e tirar o sãingue.

Isto é uma idéa dum parvo, 'tá bom de ver, mái quem sabe lá se nã saria uma manêra de se dar fêto as coisas sem acabar com este c'stume, mái antigo que sê cá o quem, e, ô méme tempo, nã se fazer sofrer tanto os b'chinhos. E tamém nã s' ir contra a lê, ora essa...

Mái, inda falando da tal morteporque, da parte só das morcelas...

E atão, aquilo, foi c'm' um foguete. Nã demorando nada, já as m'lheres tinham posto os temperos nos tachos das morcelas e jogaram-se a incher os mólhes. Sim, qu' as tripas já 'tavam bem lavadinhas e ali mém' ô queres, à espera que l'e pusessem o picado p'a drento.

O picado tinha sido fêto já lá iam umas belas horas e 'tava ali bem temp'radinho com os adubos qu' a c'mad' Olália des que mandô aviar na Vila, mái nã sê bem adonde, qu' isto já vendem adubos a peso im pôco lado e os que vêm imbalados naqueles saquinhos nã é a méma coisa. Era o qu' elas 'tavam p' ali a tram'lear e ê cá, im tod' ô tempo, tenho ôvido d'zer o mémo.

Com um despacho daqueles, dé-se o caso de, s' ê me descuido mái um coisinho, nã panhar nada de jêto com a mánica dos retratos. Vá lá, qu' inda tirí estes qu' aqui l'es mostro...

Picado das morcelasPicado das morcelas O picado das morcelas leva uma preçanada d' adubos e tem de s' amassar bem...

E logo d' infiada, desataram a tratar dos temperos das morcelas e a amassar o picado. Aí, já tive mái vagar, qu' aquilo tem ôtr's precêtos e leva um coisinho mái de tempo a f'car pronto.

Repáirem no alguidar e vejam bem a preçanada d' adub's que se tem precisão de lá pôr p' àquilo f'car uma coisa tã g'stosa c'm' vomecêas sabem. É c'minhos ôs punhados, cravinho, p'mentão, canela, pimenta, ê sê cá o qu' é qu' elas p'a lá põem más... E sal que nã falte.

É uma parte ingraçada pre mode os funiles fêtos d'a pr'pósito p' àquele serviço. Levam elas ali zuca-zuca com o dedo a impurrar o picado p'a drento da tripa e, d'ora inq'onto, vá umas picadelas com um pregador p'a tirar o ar às morcelas e elas nã arrebentarem no tacho inq'onto se cozem.

E, despôs, as marafadas, ô fazer tal serviço, nã 'tã caladas nem um 'stante... E se vomecêas sabessem o qu' elas dizem, logo viam as carcachadas que davam... Grande parte das conversas ê nã posso d'zer aqui que me dá, béque-me, vergonha, qu' elas 'tavam era já destravadas até mái não. Qu' isto, as m'lheres, em partindem a pêa, já se sabe...

Enchendo as morcelasTirando o ar às morcelasMorcelas cruasMorcelas a cozer As morcelas, q'ondo se enchem e méme ô cozer, têm de se picar com um pregador p'a l'e tirar o ar.

Com tôd's os precêt's ó seja lá c'm' ser, é d'adregue nã arrebentar uma morcelinha ó duas. E mólhes, atã, nã se fala... Mái o que vale é que s' apr'vêta e come-se-os inda quentinhos, qu' é um consolo...

A c'madre, Olália, essa, coitada, lá ia, toda desgostosa, com um prato chê' deles que quái só se via arroz... As tripas tinham arrebentado no tacho, sabe-se lá p'rquem. Calhando, ó foi fogo a má's ó inchêram-nos munto d' arroz e ele inchô... Mái nã se perderam, nã senhora. Aquilo des'parcé tudo inq'onto o diabo esfregô um olho.

Mólhes e Morcelas cozidosMólhes rebentados Q'ondo se tiram do tacho é d'adregue nã 'tarem semp' uns q'ontos arrebentados...

E era horas de tratar das morcelas de farinha.

Aí, toca d' incher o alguidar de farinha de milho, um balde de sãingue invinagrado p'a nã coàlhar, mái um poder d' adub's e vá de mexêr com um colhêrão, p' ô resto dos piques das morcelas que lá 'tavam no fundo se masturarem bem com a farinha.

E vá d' incher os sacos à rôpa toda.

- Tu abres ê cá meto... - D'zia a prima Jôqu'nita, qu' é do mái destraviado que há.

- Nã, ê meto e tu é que abres... - Respondia-l'e a ôtra.

- Atã, s' iss' é assim, ê, despôs, ato e tu siguras e passas-l'e a mão, duma ponta à ôtra, p'a alimpar, que 'tás mái ac'st'mada...

- 'Tá bem, m'lher, seja lá munto bem c'm' tu quêras, mái o qu' ê tenho ôvisto d'zer é que tu é que tens munta prát'ca dessas coisas...

- Olá!... Atã isso só se faz mêa-dúiza de vezes ô ano, no tempo das mortesporque... E já anda assim apregoado?!...

- Ah, sim?!... Nã sabia que fazias isso assim tã pôcas vezes, m'lher... Cudava que sabias mái disso do qu' ê cá...

E nã conto má's que, daqui p' à frente, já tinha que pôr uma rodela incarnada no canto de cimba da folha, c'm' às tel'visõs fazem q'ondo dã' aqueles cinemas qu' os môç's-pequenos nã podem ver...

Amassando as morcelas de farinhaAmassando as morcelas de farinhaAmassando as morcelas de farinhaAtando as morcelas de farinha Uma abria, a ôtra metia. Uma sigurava, a ôtra atava... E, ô fim, passava-l'e a mão p'r cimba p'a alimpar...

E lá f'caram as morcelas de farinha a cozer no caldo moiro, qu' elas, atão, levam um belo pôco até f'carem im condiçõs. É coisa p'a umas quatro ó cinco horas, consoante e conforme o fogo qu' a gente l'e faça p'r baxo. Mái tamém há quem diga que q'onto mái tempo melhor, désna qu' o fogo nã seja munto forte, e despôs se dêxem lá a chocar.

Nôtr's tempos, com aquele caldo que se vê ali no tacho - a gente alomê-ô p'r caldo moiro - fazia-se umas papas qu' era um consolo. Era as papas-moiras. F'cavam era bem munto gordurentas e nã se podiam c'mer im fraqueza qu' elas pegavam na barriga e ó um f'lano ch'mava p'lo grigóiro ó era certo e sabido que f'cava com soltura p'r um dia ó dôs.

Ê cá sô franco, de todas as q'ôlidades de papas qu' ê conheço estas é as qu' ê menes aprecêo. E, hoje em dia, béque-me até já nã há quem use a fazer tal coisa.

Morcelas de farinha cozendoMorcela de farinha Em levandem a cozer umas belas horas, ficam nisto, qu' até uma pessoa se lembe toda...

Uma vez que calhe, pode ser qu' inda l'es fale dôtras partes da morteporque, mái p'r ora já tem àvonde. Ora tem àvonde, já foi de má's e de que manêras...

Atã fiquem-se com Dés e até um dia destes.

29 janeiro 2007

Coisas de Morteporque - 1ª pagela

Uma bucha de coiratos e cachola Inq'onto a assadura nã 'tava pronta, c'mia-se uma bucha de cachola e coirat's.

Vô-l'es falar dum c'stume qu' é do mái antigo e emportante que se tem p'r cá. Mái tamém l'es digo qu' é bem munto descontrafêto que faço tal coisa. E o perquem dexplic'-l'e ê cá já, qu' é coisa que nã gosto é de vacas incoiradas...

Toda a vida, a famila cá da serra usô a matar um p'rquinho p' ô gasto da casa. Era, quái sempre, um cevanito que levava um ano bem medido a ingordar com aquilo que s' apurava na fazenda e mái umas coisalhas.

Olhem, o bicho, nã sendo de má-boca, c'mia de tudo. E em sendo de má-boca ajuntava-se com um que c'messe de tudo, nã se l'e dava mái nada a nã ser o qu' ele nã gostava e, im menes de nada, ele desatava a c'mer de tudo.

Désna de rama de fava às lavaduras, logo no prencíp'o, das amêxas ó peros às abób'ras, lá p' às bandas do V'rão, e das batatas-doces cozidas e esmigalhadas com farelos até à lãinda e milho, já no tarde, q'ond' ele já 'tava de mêas-carnes p'ra diante, tudo servia p' ô bicho pôr peso e dar carne boa e gostosa. E ôt'as coisas que nã adianta 'tar aqui a alomear.

E, em chigando o mês da Festa, ó ali a seguir ô Ano Bom, marcava-se um sáb'do que desse boa matação, convindava-se a famila e amig's, e fazia-se a morteporque. Calhando, a melhor festa que se tinha im tod' ô ano. Calhando não, era mái que certo...

Presuntos para salgarFolha de toucinho No sigundo dia, já o pórco 'tá desmanchado.

Pôs agora, mês amig's, se qu'rerem matar um pórco - e quem diz um pórco, diz ôt' bicho, qualquer qu' ele seja - têm qu' o levar vivo ô matadoiro... Arrenjem uma camineta p'a carregar gado vivo e levem-no a Lòlé. Mái nã se desqueçam de marcar a consulta com tempo que semp'e sã uns sassenta quilóm'tr's ó más e, se nã terem marcação, voltam p'a trás...

Despôs deles o matarem lá - im condiçõs munto mái ruins do qu' a gente sabe fazer aqui, qu' até o deventre l' arrebentam, as más das vezes - arrenjem ôtra camineta p'a carregar carne, daquelas figoríf'cas, que nã pode vir dôtra manêra p'r 'í afora. E paguem a conta qu' eles l' apresentarem, que, com mintira e tudo, vai-se logo o valor do pórco quái todo...

E, atão, o qu' é qu' a famila tem que fazer? O méme que fazia, nôt's tempos. É proibido, mái matam na méma im casa c'm' se nã fosse nada... E vai tudo correndo assim, neste fingemento, até que algum pague p'r os ôt's tôd's. Atã, nã é?

Vejam lá bem:

Os políticos fazeram a lê e agora fazem de conta que nã sabem de nada e nã têm nada a ver com o assunto.

Eles, a guarda, andam p'r 'í, mái fazem de conta que nã ôvem os pórcos gornir q'ondo os 'tã a matar. Senã tinha qu' ir lá adonde se 'tá fazer tal serviço, t'má conta daquilo tudo e murtar a famila.

Esses dos tribuná's e do estado tamém 'tã fartos de saber disso tudo e, parte deles, des que tamém fazem c'm' os ôtr's e vã a morteporques e tudo.

E s' a gente fosse falar aqui da estila de madronho e ôtras coisas má's, é tudo a méma desgraça.

Olha que esta, han?!.. É qu' uma pessoa, parte das vezes, nem tã pôco sabe o qu' é qu' há-de fazer...

Bom, mái esta conversa toda p'a d'zer qu' aqui na serra inda se fazem morteporques, seja ele proibido ó não. É o qu' ê tenho ôvisto p' aí d'zer... qu' ê cá nã sê nada disso...

E, atã, c'm' nã sê nada disso, vô-l'es contar só um coisinho duma morteporque qu' ê cá e a minha Maria se foi uma vez - nã foi no Sáb'do e D'mingo passados, foi já há uma pr'çada d' anos, q'ondo inda nã havia esta lê, 'tã a comprender?... Olhem que nã foi no Sáb'do e D'mingo passados... Mái se nã qu'rerem crer, isso com vomecêas...

De manêras que, no sigundo dia, já o pórco 'tá desmanchado, as m'lheres fazem os mólhes e as morcelas. Pr'mêro, os mólhes, despôs, as morcelas e morcelas de farinha.

Carne de assaduraAssadura E há semp' uns amigos bons que nã s' emportam de fazer bem ôs ôtr's...

Mái, inq'onto isso, há semp' um amigo bom ó dôs, com orde dos donos da casa, 'tá bom de ver, que se resolvem a acender o fogo e assar uns belos pedaços de carne magra p'a se c'mer uma assadura. Que tanto se pode c'mer logo im cimba dum pedaço de pão, assim que se tira das brasas, c'm' migada im pedacinhos p'a drento dum prato, com salsa, azête e alhos.

Nesse tal D'mingo - d' há muntos anos... - assim se deu. Puseram uma mêzinha na rua, pão coiratos, zêtonas e cachola que sobrô de Sáb'do - 'tava tã boa qu' até se lembiam tôd's... - e uma garrafinha de vinho, mái p' a enfêtar qu' ôtra coisa, im cimba da mesa.

Sim, qu' o amigo Tóino Arraúl, assim c'm' quem nã quer a coisa, apresenta-se com um garrafanito de plástico de cinco litros e acaçapa-o ali à ponta da mesa sem d'zer nada a ninguém. Ora, f'cô logo tudo de pulga na orelha a olharem p' àquilo, que lá drento 'tava uma coisa assim pôco mái que cor-de-rosa.

Diz logo o Chico Arvela, que nã é moço de conter:

- Atão, foste ô pitrol? Nã tens elecsidade lá im casa?... Ó isso é alguma coisa que se beba?...

- Um belo pitrolêro me saíste tu, cã danado... 'Tás semp' a fazer pôrra, tamém agora nã no há-des provar que te barimbas!...

Já tôd's se tinha visto qu' aquilo era as provas dum vinho moranguêro qu' ele tôd's anos faz das uvas duma parrêra qu' ele tem p'a lá p' ô pé da casa. E, p'r mode, sabe fazer aquilo bem e tem presunção em apresentá-lo im qualquer banda adonde vai c'mer.

- Ah, nã provo não, qu' ê cá nã 'tô p'a me dar aí alguma soltura s' emborcar um veneno desses p' ô bucho. Cudas qu' ê 'tô parvo ó quem?!... Tenho alguma falta disso, s' o patrão da casa tem aí vinho bom im condiçõs...

- E ê cá tamém não. Nã toco im tal peste...

Diz o Pedro Raspinga, já com um copo chêo nas mãs, qu' ele tinha despejado do garrafão sem o Tóino ver, inq'onto ele dava réplas ô Chico Arvela. E põe-o à boca, bebe-o todo duma assentada, pisca-me o olho, desata a fazer caretas e a fazer que cuspia p' ô chão e diz p' ô Tóino Arraúl:

- Méme assim, quim perde tempo a fazer uma porra destas, inda l'e gabo o gosto... Ist' é pior que bober vinagre. Munto pior...

Diz-l' o João da Chã:

- Nã ôves, põe-me lá aqui só uma pinguinha p' a provar a ver s' é verdade o qu' eles dizem...

E o Abíl'o Pastana:

-S' isso é assim, vô tamém prová-l'o. Se me dá p' aí alguma ralêra é qu' há-de ser bonito...

E, dum em um, lá se foi tôd's inchendo o copo e dando-l'e a pr'mêra arrencada. Ora, aquilo, acompanhado com aquela carninha a sair ali das brasas, punhana!, corria p'as goélas abaxo que nem se sentia... Era quem mái despejava copos...

Mái tôd's l'e punham petafes qu' era p'a ver se faziam marafar o Tóino. E, d'zer a verdade, inda hôve ali uma ocasião que quái que l' ia chigando o sãingue às ventas, mái desatô tudo a rir e ele, béque-me, teve quái vergonha, enrolô um coisinho, b'bél'e tamém uma golada e trocô-l'e as voltas.

Tacho de Arame ou das MorcelasTacho de Arame ou das Morcelas Naquilo, já as m'lheres 'tavam a fazer os preparos p' ôs mólhes e p' às morcelas...

O qu' ê sê d'zer é que aquilo foi um vê se t' avias, im menes de nada, já o garrafão ia do mê p'ra baxo. Pensí:

- Bom, isto, o melhor é a gente l'e passar a mã p'lo pelo, a ver s' ele inda vai más é b'scar ôtro garrafanito de pitrol...

Do mémo s' alembrô o Arvela, que, já desquecido do que tinha charolado antes, se volta p' ô Arraúl:

- S' ê cá fosse a ti, ia más era b'scar ôtr' garrafanito p' amostrar aí a esta malta quem é que sabe fazer vinho...

- Ai, agora, já dobraste a língua?!... Com qu' então, queres mái um garrafanito... Vai b'scar do teu... qu' há-des ter lá munto bom, assim c'm' o que corre ali da bica da fonte, que nã fazeste nenhum... Da minha casa é que já nã vem pr' aqui mái nenhum hoje... Ah, isso não...

- Ó Tóino, dêx' ô falar... Nã ligues... Vai, sim, b'scar ôt' garrafanito qu' eles têm 'tado p' aí na charola, mái isso é tudo da boca p'ra fora. Olha, falando ô sério, inda este enverno nã tinha provado pinga tã boa, se queres que te diga...

- Tamém tu, Refóias... Agora 'tás-me a qu'rer insampar com essa conversa, não?... Tamém fazeste algum? Ó nã tens coraja do apresentar?...

- Este ano bem sabes que nã fiz, mái se t'vesse fêto, tejas certo que trazia pr' aqui todo o que fosse preciso... ó p'a ôtr' lado adonde 't'vessem amigos bons c'm' estes qu' aqui 'tão...

Nisto, salta a C'mad' Olália lá de drento de casa, num grande cagaçal, sem saber de nada do que se passava cá na rua:

- Mái atão, que garrafã é este que 'tava ali incostado à parede, p'r trás daquela cadêra d' atabúa?... Fui puxar a cadêra p'a m' assentar, vejo um garrafão, béque-me com petrol, a andar de raboleta, panhí cá uma rabana... Se calha a ser de vrido, tal era isto, tinha-se fêto im cacos...

- Ó mana, tem conta com ele, nã no dêxes derramar, qu' isso é um garafanito de vinho qu' ê cá gôrdí aí p'a mái logo, senã estes marafados despachavam-no inda entes da cêa...

O marafado do Tóino Arraúl, qu' é mano da c'mad' Olália, tinha lá más um garrafão de pitrol, nã d'zia a ninguém e inda 'tava a judear com a gente, fêto cão...

Só l'es digo qu' aquilo foi mái uma paróida das grandes e, toda a tarde e nôte, nã faltô vinho moranguêro do Tóino, qu' é um amigo do melhor que pode ser e haver.

Mái, nesse mê tempo, já as m'lheres 'tavam a fazer os preparos p'a incher os molhes e as morcelas, e ê cá tive d' abalar p' ô pé delas a ver se dava tirado uns dôs ó três retratos. S' acuaso eles nã prestarem, nã é só o f'tógrafo qu' é ruim, foi tamém o moranguêro do Tóino que me fez a parte, qu' ele tinha perto duns catorze...

Panela de couve Ô chigar ô pé delas, já tinham uma panelada de côve ô fogo p' a se c'mer à cêa...

E, dessa manêra, c'm' nã há vagar p'ra má's, logo l'es conto o resto assim que possa ser.

Dés l'es dê saúde.