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13 abril 2007

Endoenças - A Pr'cissão do Enterro do Senhor

Procissão do Enterro do Senhor - Monchique
Nas endoenças de Sexta-Fêra, a igreja 'tava de porta toda aberta e chêa de famila.

Nã sê se levaram repáiro, mái, da últ'ma vez, inda bem nã tinha posto aqui os retratos da Pr'cissão de Ramos, os marafados cortaram-me a vaza e nunca mái dêxaram qu' eles fossem vistos p'r quem cá vinha. Os da pr'cissão e os ôtr's tôd's qu' ê pus cá désna do prencíp'o...

De manêras que vi-me nuns traquetes tã grandes ó tã pequenos, que nã tive ôtro remedo senã puxar da nota e t'mar p' aí um site de renda. E o qu' é qu' isso nã me custô!... Lá se foi uma preçanada d' eros... E, inda p'r cimba, leví quái uma semana a mudar aqueles retrat's tôd's lá p' à ôt'a banda. E olhem qu' a viaja nã foi pequena. Agora 'tã num comp'tador bem do ôtro lado de lá da América, béque-me ali logo pralàzinho daquele sito adonde aquelas artistas munto bem par'cidas fazem os filmes.

'Tá bom de ver, qu' isto se m' atrasô aqui um belo coisinho e nunca mái falado do resto das endoenças a nã ser hoje. Vamo' lá a ver s' a coisa, agora, vai correr d' ôtra manêra. E, só p'r mode coisas, se qu'rerem saber a minha d'recção d' agora, p'a tudo o qu' ê faço nisto da internet, aqui vai ela, é só acalcar: http://www.refoias.net. Más aqui o blog é o méme qu' era. Nã têm precisão de mudar nada.

Ora, na Sexta-Fêra Santa, fui à Pr'cissão do Enterro com a minha Maria e mái-la prima Glòirinha. D'zer a verdade, nã andí quái tempo denhum ô pé delas p'r mode qu'rer tirar uns retratinhos p'a amostrar a vomecêas.

E olhem qu' aquilo é uma pr'cissão do mái bonito que se faz p'r 'quí, lá isso nã se pode d'zer que nã seja, mái atão é de noite todo... C'm' é q' um homem tira algum retrato de jêto que se veja bem a famila?!... É qu' a máquina, às descuras, é uma desgraça. Fica tudo negro.

Procissão do Enterro do Senhor - Monchique
Sexta-Fêra Santa à nôte é o Interro do Senhor. Os Irmãs da M'sericórd'a é que levam o caxão.

E inda há mái ôtra coisa. Aquilo é já lá p' à hora da cêa, ora uma pessoa, im tal dia, nã pode c'mer nada de jêto, é só juar e fazer abstinêinça. Atão, 'té l'e faltam as forças p'a andar duma banda p' à ôtra, à rôpa toda, p'a passar à frente da pr'cissão e ir panhá-la nôtra rua, im jêto de ver alguma coisa.

Pôs a minha Maria tem p'r c'stume levar estas coisas munto a pêto, des que, em dia de Sexta Fêra Santa, nem pode trocer a rôpa q'onto mái lavá-la ó fazer fazer ôtro serviço qualquer. E quem é o presicado? É cá o Parente... qu', im chigando o fim do dia, 'té, béque-me, sinto as costelas metidas p'a drento e um bicho semp'e aqui a rabear que nã me larga nem um 'stante.

Mái, dêxando isso p'a trás, uma coisa que me fez bem munta espéce foi que, p'r um lado, inda s' ajunta uma bela famila nestas alturas, mái, p'r ôtro, os homens, béque-me, já nã s' aprochegam munto lá p' ô lado dos andores p'a carregarem com eles às costas. Vejam bem qu' a Irmandade teve que dêxar nã sê q'ontos estandartes na M'sericórdia, que nã puderam sair p'r nã haver quem os levasse...

Mái, vá lá que p' ôs andores da Senhora das Dores e do S. João os homens inda chigaram. E contando, tamém, com o càxão do Senhor morto e o pálio que vai semp'e acompanhando nele.

Inda pensí que se desse o caso d' incontrar p'r 'lí um amigo ó ôtro, daqueles mái conhecidos 'tá visto, mái nã sê se fui ê cá que nã nos vi se foi eles que nã par'ceram, só já lá bem p' ô fim da pr'cissão é que dí com o Tóino Arraúl, assim munto amòrado ali p' a um canto do adro da igreja, sem ninguém p'a palear e, mái que certo, tamém chêazinho de laberca c'm' ê cá.

Procissão do Enterro do Senhor - Monchique
E, havendo homens que dêam àvonde, saem tamém os andores do S. João e da Senhora das Dores.

Meti-me, logo, com ele:

- Atã, Tóino, que cara é essa?!... 'Tás p' aí zangado com alguém ó dói-te alguma coisa?... Béque-medesmorcido...

Isto, no largo da Igreja.

- Nã!... Que jêto?!... 'Tava p' aqui sòzinho a ramoer cá nas minhas coisas. Tamém, nã vejo p'r 'í amigo denhum com quem falar...

- Do mémo mal me quêxo eu... Os que vieram vã quái tôd's ali debaxo dos andores ó a sigurar nas alenternas da pr'cissão...

- Atã e tu 'tás aqui de fora p'r mode quem?... Que jêto nã ires tamém dar ali uma manita?...

- Nã vês, tenho que tirar dôs ó três retratos qu' é p'a amostrar à famila c'm' é que sã os c'stumes cá de Monchique... Agora tu, Tóino, bem que podias ter ido pegar ali num andor ó levar um estandarte ó coisa assim...

- Que jêto?!... Atã nã vês qu' aquilo é só p' ôs irmãs e ê cá nunca fiz parte da Irmandade...

- Mái vestias uma opa daquelas roxas e pagavas no pálio ó numa alenterna ó coisa assim... E inda 'tás munto bem a tempo d' ires dar o nome p'a Irmão...

- E, más a más, que tenho aqui um calo qu' é um d'sparate, no dedo grande, que custo a assentar o pé no chão. Que figura era essa qu' ê fazia, ir ali no mê da pr'cissão coxo-pé, coxo-pé...

- Ora que nã 'teja trilhado, p'r qu' é que nã o amèzinhas com uma rodela de t'mate-da-índia? Nôt's temp's, havia munto quim usasse a fazer essa mèzinha...

- Olha, hoje im dia, méme qu' uma pessoa quêra, já nã dá fêto tal mèzinha que, há que tempos, que nã vejo tal coisa. É verdade, já pensí nisso e nem p'r nada que dí descobrido uma t'matêra-da-índia im banda denhuma...

- Atã, o melhor é ires ali à farmácia, qu' o Chico vende-te lá uma pomadinha quasequer qu' ele saiba, que, na falta do t'mate-da-índia, semp'e t' al'via aí um coisinho as dores, méme que nã cure.

- Calhando...

Procissão do Enterro do Senhor - Monchique
Em respêto p'r o Senhor 'tar morto, nã se tocam sinos nim campaínhas. Usa-se a matraca.

- Ele des que tamém há ôtra coisa, qu' a minha Maria usa a ter lá nas flores dela, qu' as folhas tamém têm mèzinha p' ôs calos. Agora nã m' alembra c'm' é qu' ela l'e chama... Mái, a parenta Glòirinha inda, ôtro dia, me disse a mim, que curô os dela com aquilo. E nã l'e doé nada. Des que foi mèzinha santa...

- Atã e nã m' arrenjas lá umas folhinhas dessas, Refóias? Se nã 'tô im im erro, béque-me a alomeam p'r erva-calêra...

- É isso mémo!... Dêxa 'tar qu' ê, em chigando a casa, logo digo à minha Maria a ver s' ela inda tem p'ra lá disso que te d'spense duas ó três folhinhas.

Nisto, desata-se a ôvir o traca-traca da matraca, lá vinha a pr'cissão já a assomar ô canto da rua. Foi um 'stante até chigar ô adro da igreja.

- Esta coisa da matraca, béque-me nã l'e acho munto jêto. Andar p' ali um homem à frente da pr'cissão a fazer um barulho daqueles...

- Ó Tóino, atã nã vês que, hoje, o Senhor 'tá morto nã se pode tocar sinos?!... Aquilo é p'a avisar tôd's que vem aí o Enterro.

- 'Tá bem que seja, mái atão... nã vô munto com aquele matraquear... Mái, respêto. Nisso 'tejas certo, qu' ê cá respêto.

- Aí, 'tás certo. E, agora, 'pera aí um coisinho qu' ê vô-me ali tirar mái uns retratinhos, já venho.

E pus-me p' lá, vá de carregar no botão. Olhem, nã foi nada, ia inchendo o resto da máquina... Sim, qu' ê cá já sabia, e agora inda sê melhor, que retratos de nôte, inda p'r cimba na rua e sem mat'rial c'm' deve de ser, é caso p'a nã s' apr'vêtar das dez partes uma.

Mái c'm' isto, agora, já nã se tem que levar o rolo a mandar revelar, é tirar e dêxar andar. Q'ontas mái, melhor... E, despôs, logo se vê o qu' é que dali resulta.

Procissão do Enterro do Senhor - Monchique
No pálio, pegam os homens com opa roxa, qu' é a cor de luto da Igreja.

E a pr'cissão lá antrô p'a drento de igreja, o senhor Prior fez o que tinha a fazer e disse o que tinha a d'zer, e a famila lá se fomos tôd'e imbora p' a casa que já nã era munto cedo.

Qu' ê cá, falando verdade, nã fui logo bem p'ra casa. Entes, inda fui atrás dos andores da Irmandade, acompanhá-los 'té à igreja da M'sericórdia. O qu' é mecêas querem, ê gosto de ver as coisas todas até ô fim...

E nã 'tô repeso, dig'-l'es já... Vi munto mái do que cudava. Aqueles senhores que mandam lá naquilo viram-me assim béque-me com aquela enfluêinça toda, ora, 'té me dêxaram antrar lá p'a drento da sac'stia e ver as imajas e aquelas coisas todas que lá têm.

Uma coisa do mái bonito que pode haver... Tanto faz na igreja, c'm' na sac'stia, c'm' no resto, nem l'es sê incarecer o que lá 'tá. Em bonito e em valor. Só vendo... Mái, um dia, em calhando e se me darem opas - mái aqueles senhores sã tã porrêros que tenho a firme certeza qu' eles me dêxam - logo tiro lá mái uns retratos p'a l'es amostrar.

De manêras qu' a minha Maria e a prima Glòirinha até que já 'tavam p' ali fartas de esperar p'r mim e chêazinhas de frio - qu' isto quem espera, d'espera e infastia - e vá de me darem sinal. Lá me vi obrigado a pôr-me a mexer... Mái vinhe sast'fêto.

É que tamém já me 'tava a alembrar que, dali a dôs dias, era D'mingo de Páscoa e tinha a Pr'cissão Real p'a devassar. E, más a más, que já me tinha soado qu' havia quem 't'vesse todo fêtinho p'a fazer uma su'presa à famila, ali no Porto Fundo.

E, dessa manêra, só já me falta l'es d'zer qu' o tal contrato qu' ê fiz com a minha Maria, quem é qu' havera do ter ganho?... No Sáb'd' Aleluia, foi ela que mo ganhô, 'tá mái que visto!... O qu' é que se esperava... Nem tampoco morêce falar mái no caso, que vergonha tem cá o Parente, que nã dô conta dela. Isto, as m'lheres, têm munta manha, mês belos amigos...

E se qu'rerem ver mái retratos das endoenças, acalquem aqui na galeria Endoenças 2007.

E hoje 'tamos conversados. Dés l'e dê saúde.

04 abril 2007

A Pr'cissão dos Ramos

Procissão dos Ramos - Monchique
Já a frente da pr'cissão vinha aqui à Praça, inda os últ'mos 'tavam a abalar do Senhor dos Passos...

Pôs foi tal e qual c'm' ê l'es tava a d'zer... Se nã alargo o passo ali ô primo Zé Mira prêacima - Dés o tenha com Ele - qu' a minha Maria até f'cô p'a trás quái arrèlada, nã chigava ô Senhor dos Passos a temp's de ver a pr'cissão abalar. É qu' a Cruz já 'tava na rua, c'm' viram no retrato do ôtro dia.

Q'ondo dô de frente com aquilo, logo, com o alv'riamento de vir atrasado, inda pensí:

- Já perdeste de vestir uma opa, que nem p' à ingreja dás passado...

Mái, despôs, olhando bem, é que repàirí qu' os homens, ô fim de contas, nenhum vinha com opa. Só os irmãs da M'sericórdia, que vinham um coisinho lá mái p'a trás, im roda do Senhor Prior, é que traziam o b'landrau. E tôd's munto bem apresentados com ramos de palmêra más altos do que eles. Mal se via os olhos d' uns tantos...

Passado um belo pôco, a pr'cissão lá arrompeu e, inda assim, p' àquilo qu' ê cá cudava, ajuntô-se bem munta famila... É qu', aí uma hora entes, nem tanto, o astro tinha-se toldado qu' era um d'sparate e inda caíram umas três ó quatro pingas de chuva, dumas nuves que parceram ali do lado do poente.

Ora se se dá o caso d' ele nã descampar, nem pr'cissão havia, q'onto más a famila ir lá p' às bandas do Senhor dos Passos... Ia era logo tudo, d' infiada, p' à Matriz e, pronto, lá se perdia uma pr'cissanita tã bonita. A minha Maria, ô sintir o tal aguacêr'salho, inda pôs o avental p'r cimba da cabeça e dé, béque-me, assim um "ai, que lá se fica sem p'recissão...".

Foi aí qu' ê cá m' alembrí de fazer o tal contrato. E nã foi lá grande idéa me vir tal coisa à cabeça... É qu' ela ganha-me tôd's dias!... Vá lá, qu' inda ela nã l'e ter dado p' à orde ser "enjoelha-te!" já foi uma grande coisa... Um ano foi assim, acabedô-me ter de m' enjoêlhar umas dezoito vezes. Pôs, foi méme dezoito, que bem m' alembra que foi a conta do sapo, sa senhora.

A menina Ana Pinto contô aquela parte da tia dela, que Dés a tenha, se ter fêto de pobrezinha, com um xale e um cajadinho e tudo, ali na' Escadinhas do Relójo, p'a ganhar um contrato. Pôs a minha Maria tamém já me fez uma par'cida com essa, aqui há uns dôs anos.

Procissão dos Ramos - Monchique
Tanto faz a Irmandade c'm' ôs Escutas, vinha tudo c'm' devia de ser...

C'm' na Sexta-Fêra Santa nã é dia de se fazer nada, qu' é um dia tã santo, tã santo, que nem tampôco as m'lheres podem trocer a rôpa, ela tinha fêto a cama de lavado na béspra, mái nã lavô os lençós qu' era um grande pecado.

Mái, méme nã tendo lavado a rôpa, estendeu esses ditos lençós munto bem estendidos, c'm' se 't'vessem a inxugar, im cimba dumas pernadas d' ol'vêra que 'tavam ali ô canto da rua.

Ê cá alevantí-me bem de manhãzinha cedo, a ver se nã perdia o contrato, isto no Sáb'do d' Aleluia, e jã nã na vi im lado nenhum. Pensí logo qu' a coisa nã me 'tava munto boa cá p' ô mê lado, mái cudí qu' ela 'taria descondida n' alguma sobrêra ó coisa assim, ali p'a trás de casa. Ora, fui com munto jêtinho p' a m' assomar p'a lá.

A marafada tinha-se alapado debaxo dos lençós - quem m' havera de d'zer... - dêxô-me passar p' ô lado de lá, tã penas me panhô de costas, salta num cagaçal "enjoelha-te! enjoelha-te!" e lá tive que l'e pagar as amêndoas... E inda o que mái me custô nã foi ela me ter ganhado o contrato, foi foi ela vir assim p' trás, à falsa fé, qu' ê cá até dí um salto com a cagúifa que panhí...

Mái, voltando à pr'cissão, qu' é uma coisa qu' ê gosto semp'e munto de ver, aquilo 'tava tudo bem terminado e, que fossem nôv's que fossem velh's, via-se qu' iam lá tôd's com munta crença e respêto. Isto aqui im Monchique, a famila inda veve à manêra de c'm' há bem munt's anos, nã é c'm' nalguns sitos que sã quái tudo já uns herejes...

O que me dá mái pàxão, nesta pr'cissão, é qu' inda bem nã c'meçô já 'tá de resto e andores nã leva. Só o Estandarte da Irmandade. Más olhem que bonito é ele ô bem fêto e há-de ser uma coisa de munto valor... Quem saber melhor do qu' ê cá, que nã sê nada, faça favor de m' insinar.

Procissão dos Ramos - MonchiqueProcissão dos Ramos - Monchique
Este Estandarte da Irmandade é bonito até mái não. E, em valor, nã sê o quem tem...

Em a pr'cissão 'tando drento da Matriz, o Senhor Prior desata logo a d'zer a missa, mái há quem tenha o c'stume de f'car ali no adro de palêo. Isto na classe dos homens, já se sabe, qu' as m'lheres, essas, antram todas e vã, logo, lá bem p' à frente. Só já nã usam a pôr o véu, qu' isso foi, béque-me, uma coisa qu' a famila se foi desquecendo e já passô de moda faz munto tempo.

Nã sê que jêto uns q'ontos usarem a fazer isto. Já nos funarales é a méma coisa... Tarã medo qu' o telhado l'e caia im cimba?!... Uma vez, ôvi o Senhor Prior fazer esta prècura, mái nenhum l'e dé reposta.

Pôs, D'mingo de Ramos dé-se o méme caso e ê cá tamém inda f'quí ali um belo pôco, que fui panhado p'r uns amig's e nã me furtado, assim sem mái nem quem. E já agora, semp'e l'es conto c'm' é qu' a coisa se passô.

Ê vinha assim com umas folhinhas de palma benta numa mão, que nã dava trazido um ramo entêro, e máquina de retratos nôtra. Até quem me dé essas folhinhas foi o mê compad'e Jôquim do Barranco, que tamém pertence lá Irmandade e vinha com o sê b'landrau e um ramo de palmêra daqueles inda mê p'r abrir com as folhas assim mái p' ô lado do branco que p' ô verde.

O homem faz presunção de s' apresentar sempre que melhor nã haja: um b'landrau in condiçõs e um ramo de palmêra dos mái vistôsos.

E atão, logo ali, à chigada ô adro, vejo dôs, de costas, numa grande conversada. Olhí melhor, pensí cá p'ra mim:

- Ó passo desapercebido ó, se me lombrigam, já nã me visto livre deles... Aquilo sã o Tóino Roça e o parente Abíl'o Pastana...

E eram. Inda briguí p'a ver se me dava metido assim ali p' ô mê da pr'cissão, mái aquilo, a famila, vinha já tudo pertado p'a antrar na igreja, nã me dí arrumado de manêras qu' eles nã repàirassem im mim.

Procissão dos Ramos - MonchiqueProcissão dos Ramos - Monchique
Cá im tôd' ô Algarve, é d' adregue haver uma terra qu' a famila seja tã amiga de par'cer semp'e nestas coisas.

- Ó parente! Parente!...

Inda fiz que nã tinha ôvisto, de cara bem voltada p' à frente e quái sem pastanejar. Más o parente Abíl'o nã me largô da mão inq'onto nã me fez olhar p'ra ele:

- Parente Refóias! Venha cá!... Ande cá aqui ô pé da gente, nã fuja. Atã que figura é essa?...

Lá tive qu' ir, pôs atão...

- Nã me diga que 'tá zangado aqui com o mê compad' Abíl'o, que já nã digo com-migo?!... Béque-me nã qu'ria vir...

. Qual o quem, nã vê qu' ê ia ali t'mando sentido à pr'cissão, nã l'ví repáiro de vocêas...

- Ai homem marafado!... Pensa que m' ingana?!...

C'm' à coisa nã me 'tava a calhar, p' a l'e trocar as voltas, d'sfarçí a conversa e mudí d' assunto:

- Mái désna de q'ondo é que vomecêas os dôs sã compadres?... Atã o Abíl'o nunca casô e vomecêa, parente, inda nunca teve filhos... E, agora, calhando, tamém já nã pensa nisso...

Salta logo o Abíl'o Pastana:

- Atã nã somos compadres de palmas?!... Olha, e faz hoje anos... É D'mingo de Ramos que se faz aquilo dos compad'es de palmas com as palmas bentas.

- Hoje em dia, já ninguém usa a fazer isso, mái nôtr's temp's, era munto de c'stume fazer essa sortes.

- Pôs ê cá tamém já fiz isso, aqui com o tê parente Tóino, há coisa aí bem duns trinta anos...

- P'ra más do que p'ra menes, compadre... Tinha-se vindo da tropa fazia pôco tempo. Ele há más é perto duns q'ôrenta...

- Bom, mês amig's, tenham pacência mái, agora, vô-me andando, qu' ê tenho qu' ir à missa. E s' a minha Maria nã vê lá, inda me dá alguma desanda...

Era ê cá a ver se me livrava deles...

- 'Pera aí... Que pressa é essa?... Dêxa-te 'tar aqui mái um coisinho com a gente. Ó tens qu' ir comprar a bula, nã se vã elas acabar...

- Nã se brinca com coisas dessas, Abíl'o... Olha que fazes pecado...

Procissão dos Ramos - Monchique
A pr'cissão antrava na porta da Matriz e ê nã dava tirado as vistas deste pórtico, bonito até mái não, l'e chamam eles, os que sabem, "pórtico manuelino"...

Inda ê cá era moç'-pequeno, é qu' havia as bulas. Agora?!... Isso já acabô há munto tempo. Nã sê s' inda s' alembram, em quarta-fêra de cinzas ó um d'mingo entes, ia-se à sac'stia e comprava-se-as, qu' era p'a se poder c'mer uma carninha durante a q'ôresma. Isso, n' alguns dias, qu' às sextas-fêras, nem com bula nem sem bula...

P' à casa cá do Parente, qu' era pobrezinha, comprava-se uma de quatro destõs, agora p' à casa daquela famila de mái posses tinha de ser das de cinco e até de dez. Mái, ô menes, f'cava-se d'spensados de abst'nêinça aqueles dias tôd's... Tirando as sextas-fêras e sáb'd' Aleluia, 'tá bom de ver.

E agora, vêm aí as endoenças. Vamos lá a ver o qu' é qu' o tempo pr' 'í faz, qu' isto, c'm' ele tem andado, nã se dá governado vida fora de casa e, em havendo pr'cissõs, 'tá o caso mal parado.

Atã, boas endoenças p'a tôd's e uma Páscoa chêazinha de folares com muntos ovos e, já agora, tamém umas Sitedoinhas p'a endoçar a boca dos g'lôses. P'r menes, p' à minha Maria aquilo é uma g'lusêra que nã dô conta dela. Se nã l'as escondo, come-as todas d' enfiada... Inda me panha p' aí os diabêtes...

Entes d' acabar o post dum todo, só mái uma coisa que já m' ia desquencendo. Dés l'e pague àquela amiga anónima que fez um c'mentáiro no post entes deste e dêxô aquela lengalenga dos contratos.

Se nã l'e par'cesse mal, ê cá punha aquilo aqui no glossáiro e fazia menção à su famila, s' acuaso qu'sesse e me d'zesse quem são. Faça-me lá esse jêto, minha bela amiga... Nunca s' arrependa de fazer bem.

Atã, fiquem-se com Dés.

02 abril 2007

O Contrato com a Maria

- Ó Maria, esta q'ôresma inda nã fazemos nenhum contrato. Entes de s' abalar p' à Pr'cissão dos Ramos, nã se faz um?...

- Olha que bela alembrança que tu t'veste... É qu' ê cá tenho preciso de quem me compre umas amendoinhas p' à Páscoa...

- 'Tá bem que tu, gavina c'mo és, gánhas-me quái sempre, mái vam's a ver s' este ano ê te faço a parte...

- Atã e o qu' é que se paga? Aquele que perder, 'tá bom de ver...

- Olha, se fosse nôtr's temp's, podia ser uma amendoinha de cinco destõs, mái c'm' é agora, escolhe tu.

- Ah, ê cá quero um ovo da Páscoa, daqueles de escolate, munto bem imbrulhadinhos naquelas pratas tôdas incarnadinhas e amar'linhas, que vendem ali naquele supermercado novo, o Sol e Serra e um pacotinho de amêndoas daquelas de p'nhão...

- 'Tá combinado!... Mái vê lá nã tenhas de ser tu, este ano, a alancar com isso... Se ser ê cá a pagar, ficas já sabendo qu' ê compro é à do João Padêro, qu' é mê amigo, e ê nã m' intendo lá munto bem com estas coisas m'dernas destes supermercados d' agora.

- Logo se vê... Mái nã faço essas contas de ser ê cá a ter de puxar da nota... E nã vale im casa. Só na rua é que se pode mandar olhar p' ô céu.

Fazendo um contrato P'a se fazer um contrato engancha-se os dedos desta manêra.

- Atã, ingancha aqui o dedo miminho no meu. Vá...

Contrato contrato, Contrato fazemos, Sáb'd' Aleluia Desmancharemos.

- Olha p' ô céu!!!...

Diz logo o raça da m'lher, munto limpêra, inda mal nã tinha acabado a lenga-lenga, que nã me dé tempo a coisíss'ma nenhuma. E, munto descontravondade, lá tive qu' olhar p' ô céu, pôs atão...

Mái pensí: "dêxa 'tar, qu' amanhã ê logo te dô o arroz..." E vá de dar voltas ô miolo a ver c'm' é que l' havera de fazer a parte, no dia a seguir - que foi esta manhã - e ser ê cá a l'e ganhar.

De manêras que, andí tôd' ô D'mingo de Ramos a ramoer naquilo a ver se lombrigava uma manêra d', esta manhã, l'e mandar olhar p' ô céu pr'mêro que ela. E o qu' é que m' havera de dar na cabeça? Desconder-me no alpendre, p'r trás dum emparo qu' ê fiz ali com uns paus e umas jastras.

Ora, esta manhã, alevantí-me, já nã na vi na cama. Fui munto d'sfarçado, c'm' quem nã quer a coisa, munto devagarinho p'la casa de fora, escutí, oiço um remôrzinho na cozinha. Pensí, logo:

- É ela que 'tá a fazer o café...

Aibro a porta da rua com munto jêtinho, vô-me todo incostado à parede, ô passar p'r a j'nela da cozinha, agacho-me e fui ingat'nhando até passar p' ô lado de lá, p'r a ela nã me ver, e chêgu' ô alpendre, munto l'gêro, fazendo conta que, q'ondo ela saísse à rua, cudando qu' ê inda 'tava dêtado, era méme à medida...

Pôs, a medida foi que, q'ond' ê me vô amalhòfar lá p'r trás do tapigo, já a marafada lá 'tava... Ora, um homem, assim de chofre, fica insampado nem sabe o qu' há-de fazer... E ela, que já 'tava à coca, salta logo, ôtra vez:

- Olha p' ô céu!!!...

Ah, fado dum ladrão!... Lá f'quí todo imbatucado e tive qu' olhar mái uma vez p' ô astro. Tamém fíze-o assim quái d'sfarçadamente e apr'vêtí a ver s' ele choverá pr' aí ó não, qu' ê despus p' ali umas t'matêras e nã me calhava nada que l'e chovesse im cimba. E ele nã 'tá lá munto certo, nã senhora...

- Mái atão tu nã 'tavas a fazer o café?!... Béque-me t' ôvi lá a dar r'môr na cozinha...

- Isso foi ê cá que dêxí a escolatêra ô fogo com a tampa mê alevantada p'a nã escorrer p'r cima. E a água já há-de 'tar a f'rver...

- Ah, m'lher marafada... Mái atã ê nã te ganharê uma vez?!...

E nã l'es digo nada. Isto 'tá ruim, qu' a marafada da minha Maria é mái fina qu' o azête... Tenho que m' aprecatar munto bem senã ela ganha-me más é o contrato no Sáb'd' Aleluia...

Ê cá, despôs, logo l'es conto. Se m' alembrar...

Procissão dos Ramos - Monchique Com a ãinsa de fazer o contrato, q'ondo chigamos à igreja do Senhor dos Passos, já a pr'cissão 'tava quái a sair...

Ô certo, ô certo é que, no D'mingo de Ramos, com aquela ãinsa toda de fazer o contrato, q'ondo chigamos à igreja do Senhor dos Passos, já a pr'cissão 'tava na rua, quái a sair p' à igreja Matriz.

Essa parte logo l'es conto amanhã ó despôs.

E se fazeram algum contrato, tenham munta conta p'a ganhá-lo e c'mer umas amendoinhas de graça no Sáb'do d' Aleluia...

Passem tôd's munto bem.

24 novembro 2006

A Procissão de S. Sebastião

Nª Sª do Desterro - Igreja de S. Sebastião - Monchique
Esta imaja da Nossa Senhora do Desterro era do Convento. Vá lá qu' a trazeram, inda a tempo e horas, aqui p' à do S. Sebastião...

A catorze de S. Tiago, já l'es falí aqui da ingreja de S. Sebastião, o Márt'e Sagrado, mái vô-l'es l'es falar, mái uma vez, do méme assunto.

É qu' o t' Zé Caçapo, nesse dia, disse-me uma coisa que nã 'tava bem certa e ê cá escrevi-a aqui, parvo, sem repáirar qu' aquilo era uma patuchada dele. Nã sê se 'tã alembrados qu' a gente falô qu' era p'ra ê cá, im Janêro, ir ajudar a levar o andor do Márt'e Sagrado p' à Matriz...

'Tava tudo munto bem s' a festa fosse no dia do Santo, qu' é a 20 de Janêro, más é qu' a gente aqui im Monchique tem ôt' c'stume e faz-se-l'e a festa logo no mês dos Santos... E, atão, foi já no D'mingo passado. De manêras que, fica o enlêo deslindado e nã se fala mái nisso.

Dé-me assim um coisinho d' empenho de saber o perquém disto se dar cá com a gente. Pôs olhe, nem o Sr. Prior, calhando, sabe munto bem o jêto. Mái ele há quem diga que nã tem nada em ser p'r mode o Santinho, já lá vã muntos anos, ter dado uma bela ajuda nas acolhêtas da famila que morava cá nesse tempo e eles adiantaram-se a l'e fazer uma festa tã penas t'veram jêto.

Qu' o S. Sabastião - mecêas hã-de saber isso melhor do qu' ê cá - é o Santo que tem a sê carrégo nã dêxar qu' a fome, a peste e a guerra parêçam p'r cá. Pedind'-l'e a gente, 'tá bom de ver... S' a gente nã l'e pedir, o qu' é que se pode 'tar à espera?...

Pôs ê fui à festa, mái descudí-me um coisinho, qu' a minha Maria levô p' ali tôd' ô tempo a pintar os bêços, e q'ondo lá ch'guí já a pr'cissão ia a assomar ali p' às bandas da R'bêra. E, atão, esperí-a ali méme ô pé da capelinha do Santo e, p'a nã perder tempo, fui tirando uns retratos lá drento.

E, méme eles sendo fracos, nã dí o tempo p'r mal impregue, qu' o altarzinho e a imaja da Nª Senhora, com o f'lhinho dela de mã dada, sã uma coisa que só vendo... Bonitos qu' até dã gosto e antigos qu' eles são...

Fui ô site da Cãm'bra de Monchique - nã é p'r nada, mái, agora, já 'tá um site todo bem apresentado, sa senhora - e des qu' aquilo é coisa p'a ter sido fêta aí p'r alturas do século XVII e que vêo tudo lá do Convento, tanto a imaja c'm' o "baldaquino e as colunas fantasiosas".

É, lá!... A imaja ê sê bem o que é. Agora o baldaquino... Tó, diacho!...

Ô ler aquilo, vê'-me logo à idêa:

- Nã ôves, atã isto puseram eles aqui p' à famila de Monchique ler, que somos tôd's pessoal enstruído, é que nã há-de ser nada do ôtr' mundo. Tens que lombrigar p' aí o qu' é qu' esse palêo quer d'zer, qu' é p'a nã dares parte de fraco. Nã caias nessa d' ir prècurar aí o compad'e Jôquim, qu' ele, calhando, sabe, e panhas uma vergonha...

E nã tive ôt' remédo senã jogar-me ô d'cionáiro e andar p' ali às voltas, p'a trás p' à frente, p'a trás p' à frente, a ver se dava com aquilo. Demorí um belo pôco, mái . Olhem, béque-me é aquela parte lá de cimba de todas que faz assim quái c'm' um telhadinho e que 'tá sustida nas c'lunas.

Igreja de S. Sebastião - Monchique Marcos da Estrada de Monchique
A Igreja de S. Sebastião mal empregada 'tar fechada tôd' ô ano e só se puder devassar no dia da festa...

Pôs, o que me dá pàxão é esta igrejalha, assim c'm' ôtras tantas, 'tar semp'e fechada. Qualquer um que venha aí, só s' ir pedir à senhora Cãindinha p'a l' abrir a porta. E, méme isso, nã sê s' a m'lherzinha tem vagar e pode amostrar aquilo, sem mái nem men's. Qu' isto, hoje em dia, tem que se ter munta conta...

É qu' ê cá, que nã sê nada disso, tenho a mania qu' aquela Nª Senhora há-de valer p'ra cimba dum d'nhêrão. S' há algum mariola que pensa im l'e pôr as mãs im riba, c'm' se tem dado aí p'r muntas bandas, lá se vai ela... E esses nem tampôco têm míngua de pedir a chave à senhora Cãindinha, que têm ôtras manêras d' antrar lá sem ninguém dar p'r isso. E vergonha inda men's, que já nem estas coisas respêtam...

'Tava ê cá munto bem descudado a ramoer nisto, oiço um cantorío, inda me pus à escuta mái só já ôvi: "... da fo-me, da pe-ste e da gue-rra".

- Mái atã, isto é a pr'cissão que já 'tá méme aí a chigar. Dêxa-me lá ir senã já nã l'e dô tirado retrato nenhum ali na rua. E já que nã fui ver a abalada da Matriz,ô men's aqui...

E lá vinha tudo munto bem no sê lugar, com um mandador ali à frente que via-se que sabia o que 'tava a fazer, um m'cinho e uma m'cinha, de branco, com uns alt'-falantes às costas e uma jolda de m'lheres a cantar lá mái ô pé do Santinho.

Lá mái p' a trás, vinha o andor, carregado ôs ombros duns homenzinhos, vestidos com opas brancas e incarnadas, a luzir, munto bem passadinhas a ferro, que s' iam arrevezando p'r modeescaldarem munto os ombros, qu' aquilo, o andor, par'cendo que não, semp'e tem um belo peso e o caminho é um coisinho a assubir.

Tã penas chigaram à rua da igreja, voltaram o Santinho p' ô lado do Convento, puseram o andor nos descansos - uns paus com uma f'rquêra na ponta, qu' eles trazem a fazer tamém a vaza de cajado - e vi-se méme que f'caram tôd's al'viados.

Nisto, o Sr Prior desatô a prègar o sê sermão e a famila f'cò tudo espècado a olhar p'ra ele e a t'marem sentido no qu' o homem d'zia. Qu' ele até que fala c'm' deve de ser e percebe-se muntíss'mo bem o que diz.

Procissão de S. Sebastião - MonchiqueProcissão de S. Sebastião - MonchiqueProcissão de S. Sebastião - MonchiqueProcissão de S. Sebastião - Monchique
Ô fim da pr'cissão, o Santinho vira-se p' à Magnólia e p' ô Convento e despede-se até pr' ô ano...

Tamém ê cá me 'tava a dar cobiça d' ôvi-lo, mái, calem-se aí!, pôca coisa apanhí. Méme ali à rés de mim, 'tavam duas que levaram o tempo todo no palêo. E alto qu' elas falavam... Aquilo, uma já era bem velha, havera de 'tar mê surda, falava de rijo cudando que falava bàxinho, a ôtra, p' à velha a dar ôvido, tinha que d'zer as coisas nã sê q'ontas vezes...

- Olhe, c'madre, ê tenho cá uma crença tã grande ó tã pequena p'r este Santinho que mecêa nã em-magina...

D'zia a mái nova, toda pespeneta, de cabelo encarniçado e todo esticado - via-se logo que tinha ido, na béspra, à cabelêrêra... - com uma blusa de malha ôs quadros e uma saia acastanhada até mêa canela, arrachada de lado até à dobradiça do joelho.

- Lá há-de ser más qu' à minha, que, tôd's anos, l' aprometo uma promessa p'ra ver s' ele me faz a graça d' arrecolher umas belas batatinhas - e quem diz batatas diz ôtras coisas - e nã dêxar antrar doença denhuma lá na minha casa. P'a já nã falar da guerra...

Saltava a ôtra, mái velha, já toda torta da espinha, com os cabelos branc's a fazer ondas, sustidas p'r ganchos pretos daqueles qu' a minha avó usava nôt's temp's, enrolada num xale preto, mái cinzento que preto, com os cadilh's já tã desfiados que davam más ares a uns rolos de penuja qu' ôtra coisa.

- Ai, mê belo S. Sabastião, coitadinho, o qu' ele padeceu... Atado a um madêro e todo espetado de setas... E méme assim, nã morré logo. Inda lá uma m'lherzinha olhô p'r ele e q'ondo se sentiu curado, foi-se apresentar ôtra vez àquele escamungado do emperador...

- Pôs, qu' ele era lá o chefe da guarda... e converté-se...

- Ora o emperador, qu' era um cão, logo, panhô uma rabana, que pensô dele ser um medo, mái, a seguir, mandô-l'e dar com uma vardasca até o matarem e qu' o jogassem p' ôs leõs o c'merem...

- Ele já hôve quem me d'zesse qu' o jogaram foi p' ô cano d'esgoto lá de Roma... Mái isso vai dar no mémo, que morto já ele 'tava, pobrezinho...

E q'ondo desgotaram este assunto, mudaram p'ra ôtro, béque-me lá uma amiga delas que fez a parte ô marido, nã sê quem, nã sê quem, qu' aquilo nunca mái tinha fim se nã é o Sr. Prior arredondar o sermão e mandar entrar o andor p' à casa dele.

Mal o panharam lá drento, nã hôve bicho-careto que nã se jogasse a tirar cravos, qu', ó ê munto m' engano ó nã f'cô lá nenhum... Até custí a dar tirado um retrato com o santinho já no sê lugar.

Quem me valeu foi a senhora Cãindinha que pôs orde naquilo e, inda más..., pôs lá as setas, ôtra vez, no corpo do S. Sabastião, que parte delas já tinham caído. Nã na veêm aqui ô lado dele, munto senhora do sê papel?...

Andor de S. Sebastião - Monchique
A senhora Cãindinha leva tôd' ô ano a olhar p'r a igreja de S. Sebastião. E olhem que 'tá tudo munto bem composto...

Porta da Igreja de S. Sebastião - Monchique

Passado um belo pôco, era horas de fechar a porta. Os que cá 't'verem, pr' ô ano, podem vir, ôtra vez, fazer uma v'sita ô S. Sebastião.

E lá s' acabô a festa de S. Sebastião. Aquilo, tamém, já era lusco-fusco, qu' isto, agora, os dias sã pequenos e anoitêce a mêa-tarde...

Despedimos uns dos ôtr's e abalô-se cada um caminho do sê monte.

E ê tamém de vomecêas me despeço.

Munta saúde e até qu' a gente se veja.

16 agosto 2006

Alferce - Festa de S. Romão - O Laré

Festa de S. Romão - Alferce

Assim que s' entrava na Festa de S. Romão, dava-se logo com a Carmesse.

Quem se tenha afiturado a ir à festa do Alferce c'm' ê cá e a minha Maria se foi, nã teve r'zã de quêxa com o d'nhêro que gastô no b'lhête da carrêra. É qu' aquilo nã faltô lá nada p'a uma pessoa s' ad'vertir.

'Tava famila em forte p' à gente incontrar uns amigues e charolar com eles. Puseram lá umas barrèquinhas, uma p'a aviar copes de cerveja, ôtra p'a aviar carne frita com pão, e, p'a se comprar umas rifas, tinha-se a carmesse.

Isto p'a já nã falar do palco, adonde o tocador de fole se punha a tocar p' ô pessoal balhar naquele larguinho logo ali ô pé, e no jogo das panelas que foi a coisa qu' ê mái gostí naquela festa.

A minha Maria e a Florbela, a amiga dela que tamém quis ir com a gente, foram logo d'rêto à carmesse, qu' aquilo, a marafada, tem tantíssim' á sorte nos b'lhetes qu' inda nunca comprô, nem que sés uma dúiza deles, que nã dê com um numbrado.

Aquilo, a m'lher béque-me tem azôgue nas mãs, desata a desenrolar neles, vá lá ô tercêro ó quarto, ganha logo um prém'o. Desta vez, saí-l'e p' ali uma bruxa a cavalo na lua, que medo tenho ê cá de ter aquilo cá em casa, nã o vã o estapôr fazer p' aqui a parte à gente com algum bruxedo...

Mái, a Florbela, qu' é lá de baxo do Algarve e nã tem nada em saber melhor dessas coisas do qu' à gente, des qu', hoje em dia, as bruxas já nã fazem mal denhum e, inda pre cimba, dã é sorte. Pode ser que seja, mái nunca fiando...

Festa de S. Romão - Alferce Festa de S. Romão - Alferce

Munta coisa havia na Festa do Alferce p' à famila s' ad'vertir...

Tamém o mê parente Cosme da Quinta fazia pôrra de certas coisas, havia quem l'e falasse na Costurêra e ele mangava. Mái, uma ocasião, já há uns belos anos, foi p'a quintêro duma fazenda além p' ô lado da Fóia, custô a aturar lá o resto do ano...

Punhana, contô-me ele uma vez, qu' aquil' era quái todas nôtes. Inda bem o homem nã se dêtava e se dêxava dormir, já a malsoada 'tava a trabalhar com a mánica duma tal manêra qu' ele acordava e, parte das vezes, nã pregava más olho até s' alevantar. F'cava escagàiçado...

Dessa vez em diante, nunca mái o Cosme abusô de coisas assim... E ê cá, méme nã acraditando, tamém nã m' astrevo a fazer pôco disso. Gosto semp'e de me pôr no mê lugar, o qu' é que querem...

Mái, voltando à Festa de S. Romão, ê cá, p'a d'zer a verdade, im vez da carmesse, luzia-me mái os olhos d'rêto àquela barreca encarnadinha que 'tava logo mái pralàzinho. Olhe, aquilo, o homem nã dava agu-ento a despachar tanto copo de bobida...

Vô-me lá, mando vir um copo de cerveja e dôs de sevanápe, qu' era o qu' elas qu'riam. Elas, p'a nã s'enganarem, foram d'rêto à ôtra e mandam vir três pedaços de pão, cada um com o sê grandessíss'm' ô pique de carne frita. Oh!... F'cô-se logo bem p' ô resto da tarde...

Naquilo, parêce lá um com um baraço-de-carregar e um pau tã valente qu' aquilo dava bem p'a fazer um cabo d' inxada. Diz a minha Maria:

- Nã ôves, p'ra qu' é que sará aquilo qu' ele traz àlém? Nã me digas que já é p' ô jogo das panelas...

- Atã, isso sabe-se... P'a qu' é qu' havera de ser?!... E dig'-te já: vô-me tamém dar o nome. Nã é tarde nem é cedo.

- Ó homem, nã te metas nisso. Atã nã vês qu', e depôs, a famila põe-se tudo aí a rir de ti...

- E ê cá que m' emporta... Tenho qu' ir lá exp'rimentar. Dé-me, agora, p' aqui...

E nesse mê tempo qu' eles pinduravam as panelas lá im cimba, fui pr' à que assentava lá os nomes no livro, uma bela moça de lá do Povo, e dig'-l'e:

Festa de S. Romão - Alferce

Aquele que partisse uma panela só com uma bordanada, ganhava um prém'o.

- Atã, já muntos deram o nome?

- Olhe, ti Refóias, até agora só há um...

- Tó, diacho, mái atão ê qu'ria que mecêa apontasse aí o mê nome, mái nã me calhava ser logo dos pr'mêros...

- Isso resolve-se já. Passe p'a cá os dôs eros, qu' ê ponh'-l' o nome aqui mái p' ô fim da folha.

- Dôs eros?!... Mái 'tão, p'a mangarem de mim, inda tenho de pagar?!...

- Vá... Dê cá dôs eros, nã seja fònica, qu' isso é p' à ajuda das despesas da festa... Fica aqui na linha númbro nove. E veja lá se 'tá aqui q'ondo o ch'marem, ó atão passa a vez e, òdespôs, tem de pagar ôtros dôs.

E o qu' é qu' ê havera de fazer?... Tive que largar os dôs eros, senã ela nã m' apontava o nome. Inda dí vaia à minha Maria se mandava assentar tamém o dela ó não, mái ela f'cô logo toda inzàinada e vá de fazer p'a lá uns miécos, c'm' quem me ch'mava parvo, qu' ê larguí-a logo da mão.

Mái nã l'es digo nada, tã penas acabo d' olhar p'a ela, aquilo par'cé bruxedo, já 'tava uma preçanada deles tudo a dar o nome. F'cô logo a folha chêa.

Digo p'ra mim:

- Assim, já é ôtra coisa... Pr'mêro vejo, mái ó menes, c'm' é qu' eles fazem e, aí, já fico com uma idéa c'm' hê-de fazer. Nã é só ir p' ali a tentear, fêto parvo, e os ôtres a se rirem cá p'r fora...

Inda ê 'tava a ramoer nisto, já eles ch'mavam o pr'mêro p'a l'e pôrem aquele lenço preto à roda das vistas e o pau nas mãs. Esse, foi devarinho, bem ô d'rêto, lá foi, lá foi, alça o pau... mái, pobrezinho, nã teve sorte. Saí-l'e curto.

Ô méme tempo, o Chico Bôicinhas, do Povo de Baxo, vem-me p' ali p' ô pé de mim e desata a palear com-migo. Ê cá desaprecato-me com aquilo, eles pôem o pau nas mãs dôtro, obrigam-no a andar à roda, entontécem-no até mái não, o homem fica voltado p' ô mê lado. E ê de costas...

De manêras que, o homem, intontecido c'm' 'tava, abala de lá sem ver nada, com o pau nas mãs bem alevantado, méme d'rêto a mim e ô Bôicinhas. Dô em ôvir a famila a fazer um ôrío, estranhí aquilo. Volto-me, ah, fado dum ladrão!, se nã fujo tã l'gêro, levava com uma tarôcada nos cascos qu' havera de f'car bem tratado...

Jogo das Panelas - Alferce Jogo das Panelas - Alferce

Se nã me safo tã l'gêro, tinha levado uma bordanada. Ah, isso tinha...

E nã é qu' os mariolas inda incheram o papinho a rir de mim, pre mode ê cá dar logo um salto que salví o passêo todo p' ô lado de lá...

E o Chico Bôicinhas, mal aquilo s' aconch'gô tudo, vá de tram'lear ôtra vez no méme caso. Se nã fosse vergonha, indo l'es contava o qu' ele me disse, mái quái que nã tenho coraja p'a falar naquilo. É qu' ele 'tava assim um coisinho p' ô destravado...

Ê semp'e vô contar, mái os que nã gostarem, passam adiente e fazem de conta qu' ê nã contí.

D'zia-me o Chico:

- Olhe, ti Refóias, aquilo foi uma parte que teve que se l'e diga. Mái, acradite, qu' é verdade. Aquilo dé-se mémo...

- Atã, se tu dizes que foi assim... Mái vê lá nã m' indròmines p' aí munto, nã vá ê cá ir contar isso a qualquer um e se rirem de mim...

- Qual o quem!... Ê só l'e digo a pura da verdade. Aquilo dé-se méme assim c'm' ê cá l'e 'tô a d'zer.

E lá foi contando a parte qu' ele fez ô padrasto, o velho Salmôira, c'm' l'e ch'mavam, já faz p'ra cimba duns trinta anos, inda ele taria os sês dez ó doze, se tanto...

- Olhe, o escamungado do velho era ruim p'ra mim que nem um cão. Ê cá tamém, p'a d'zer a verdade, era um coisinho má d' aturar, qu' ê só fazia travessuras de manhã à nôte...

- Atã, isso, era aquele velho, negro que nem um carôcho, que fumava de cachimbo, que 'teve com a tu mãe inda uns q'ontos anos, q'ondo vocêas moravam ali p' à R'bêra Grande?

Prècurí-l'e ê cá, enq'onto fazia p'r m' alembrar das ventas dele.

- Esse mémo!... Nã s'alembra? Tinha assim uma fúiça munto encardida, com umas grandes súiças ôs lados da cara, qu' usava a fumar com aquele grad'ssíss'mo cachimbo racurvado e, quái sempre, dêxava cair o morrão fosse p'a donde fosse...

- Já m' alembro munto bem...

- Pôs o estapôr do velho usava tamém a fumar na cama, fosse a que horas fosse, e a pobrezinha da minha mãe via-se em traquetes só p' arremendar os lençós que f'cavam tôdes quem-mados com as faíscas que saltavam do cachimbo e, inda munto pior, qu' o velho, q'ondo se dêxava dromir, caía-l'e o cachimbo p'a donde 't'vesse voltado.

- Atã isso, até podia tiçar fogo à cama...

- 'Tã bom de ver... Mái vá lá que nunca calhô... E fosse-l'e uma pessoa falar nisso...

Nisto, olho p'ô lado das panelas, vejo uma meçalha de bordão nas mãs, munto deç'dida, chega p'r baxo delas, apára, faz pontaria méme de vistas tapadas, afinca-l'e uma pàzada no fundo, lá vai a panelas p'los ares...

Inda bem não, vem outra, m'lher já mái entradota, toda de sapatos altos, munto bem enfarpelada, digo p' ô Chico:

- Olha esta se calha a cair de cimba dos sapatos, nã s' aprevêta nada...

Diz ele logo:

- Mái atão c'm' é qu' ela se dá sustido naquilo, mam?!...

Ora, foi-foi, foi-foi, inda passô das panelas e nã dé acertado em nenhuma.

Jogo das Panelas - Alferce Jogo das Panelas - Alferce

Uma fez a panela em fanicos, a ôtra, de sapatos altos, custava-se a suster im cimba deles...

E Bôicinhas desata, ôtra vez, a falar da parte que fez ô Salmôira.

- Mái c'm' ê ia d'zendo, o velho, cada vez que se dêtava, puxava do cachimbo, atacav'-ô, acendi'-ô com um isquêro a petrol que, nã sê se s' alembra, naquele tempo, era preciso ter l'cença, mái ele nã tinha nenhuma, e vá de fumar...

- Pôs era. Ê cá tamém nunca tirí nenhuma...

- Até que se dêxava dromir e o cachimbo, era certo e sabido, caía-l'e da boca p' ô chão, quaí semp'e p'ra cimba dum capacho, já mê podrido, qu' ele tinha, ô lado da cama, p'a pôr os pés q'ondo s' alevantava.

- Era umas capachas que vinham lá debaxo do Algarve, fêtos d' emprêta, qu' a gente comprava p'r o mercado...

E o Chico nã parava:

- Vô-m' ê cá e pensí: Mái atão um estapôr destes anda semp'e a quem-mar os lençós à pobrezinha da velhota, ê nã l' hê-de fazer uma parte qu' ele há-de-se dêxar de fumar...

- E fazeste-l'e o quem?

- Naquele tempo, retretes nã havia... De nôte fazia-se as nec'ssidades no bacio que 'tava debaxo da cama - quem o tinha - e, no ôtro dia, as m'lheres jogavam aquilo p' ô monturo, c'm' mecê sabe. Ora a minha mãe era uma m'lher munto asseada, tinha semp'e tudo qu' até luzia. Méme o bacio ele areava...

- Lá nisso, semp'e ôvi d'zer qu' ela era munto trabalhadêra...

- Atã o qu' é qu' ê faço ô velho... Entes dele chigar a casa, q'ondo tive vontade, fiz o serviço p'a drento do bacio dele, sem ninguém saber, e puse-o no méme sito.

Tã penas ele se dêtô, fui lá ô escuro, munto devagarinho, bem agachado, sem fazer barulho nenhum, e puxe-l' o p'ra cimba do capacho, mái ó menes, p'a donde ele usava a dêxar cair o cachimbo.

- Ai, sacanistra, c'm' é que t'veste coraja p'a uma coisa dessas?!...

- Aquilo, o quarto da cama 'tava às 'scuras. Só se via uma luzinha de nada qu' era o resto do tabaco d' onça a arder no cachimbo, e ê qu' ê cá fugi logo e fui-me pôr na rua, im cimba do pial, com o ôvido encostado ô lado de fora da j'nela...

- Atã, e despôs?...

- O velho, desmastreado do trabalho, nã tardô nada, dêxa-se dormir. Cai-l'e o cachimbo da boca, catrapuz!, drento do bacio, méme c'm' ê tinha pensado...

- E, de manhã, o qu' é qu' ele fez?

- Qual de manhã, nem de manhã!... Aquilo, foi logo. O bacio era de esmalte, o cachimbo, ô cair lá p'a dentr', bate-l' inda de lado, tranqueleja, o velho acorda e vai logo ver o que é. Acende a alenterna, à pressa, com o isquêro, e alumia p' ô chão.

- Aí, é qu' havera de ser bonito...

- Q'ond' ele vê o cachimbo lá drento, dá um ronco qu' até estrameceu tudo... E salta com a velhota:

- Sua cochina!!!... Nã alimpô o bacio! Tal é este lindo serviço, o mê cachimbo no mê duma larada!...

Responde a minha mãe, já com os pés de fora da cama, pronta p'a se raspar do quarto, entes que fosse tarde:

- Limpí, sa senhora. Ah isso é qu' alimpí!... 'Tá mái limpo qu' a cara de vocêa...

- Atã venha cá ver, sua...

E o Chico nã quis publicar os nomes qu' o velho ch'mô à pobre da velhota, qu' ela era mãe dele...

Só me contô que p'r uns oito dias nã teve coraja de par'cer em casa com medo de levar uma tuna, a mãe dele furtô-se a levar ôtra p'rqu' inda fugi a tempo do quarto da cama, o velho Salmôira nã se dêxô de fumar e, enq'onto nã arrenjô ôtro cachimbo, fazia cigarros com a fatana mái fina do milho.

'Tava o Bôicinhas a acabar de contar esta parte, calho a olhar ôtra vez p' ô jogo das panelas, já só lá 'tava uma intêra...

Vem de lá um, desengalgado, par'cia ele que nã tinha nada a tapar as vistas, põe-se a jêto, alevanta o pau atrás das costas, afinca-l'e uma tarôcada méme im chêo. A panela nã se l' aprevêtô nada. F'cô toda fêta em fanicos!...

Jogo das Panelas - Alferce

O últ'mo foi o mái certêro. Esbroncô a panela toda e ia levando com os cacos im riba...

Cá o Parente, q'ondo chigô a sua vez e foi ch'mado, tamém s' agarrô ô bordão com uma bela fé, mái as coisas nã l'e correram munto bem. O marafado fez-me andar tanto à roda qu' ê f'quí cá com um almarêo que já sabia bem p'a que lado é que 'tava virado. Errí a panela...

Nã foi p'r munto, mái chigô p'a nã na partir e c'm' ô pau era comprido e pesado que nem chumbo, bati com ele no chão, quái na b'quêra da bota do pé esquerdo. Aquilo, andô rés-vés p'a nã encravar a unha do dedo grande...

'Tá bem qu' as botas eram de cabedal e semp'e amorteciam, mái com um pàzarrão daqueles... Minha bela unha...

Olhem, munto inda tinha que d'zer da Festa de S. Romão, mái já os atazanoí de más...

Dés l'e dê saúde a tôdes.