04 dezembro 2008

Anda por 'í um poder de javalis

Javalina com crias
A escravelhêra dé um ronco, alevantô o trombil... Inda cudí qu' ela me jogasse um fiaço......

Naquela vez qu' o tal grifo apoisô lá no telhado do mê compad' Jôquim do Barranco, aquilo, 'tá bom de ver, servi de faladoiro p' ô resto do dia. Cada qual contava lá as partes que l'e vinham à cabeça - umas verdade, ôtras mintira.

E, antão, o parente Zé Caçapo, verrinoso c'mo é, tinha qu' ingeròcar logo uma inda mái estrambólica qu' à dos ôtres. Qu' ele - calhando, mecêas tamém já o conhêcem - nã s' acontenta com pôco... Más, o pior, é qu' o badalo impurra com aquelas gradessíss'mas mintiras, afiança que sã verdade e inda quer que qualquer um acradite...

- Mái, vomecêas, haveram de ter visto aquilo... Isto, apoisar aqui um grifo - ó lá qu' o Zé Manel l'e chama... - nã tem nada a ver com o que se dé com-migo, ontordia, ali nas Portelinhas...

- Grande mintirão qu' ele vai pôr, punhana!... - diz o Zé Manel só p'ra ê cá ôvir.

- Cala-te pr' aí, Zé Manel... Olha que s' ele ôve...

- Aquilo já era assim lusco-fusco, ia ê cá munto bem sa senhora boa vida caminho de casa, oiço um ronco ali p' trás duma mongariça, nã é que panhasse medo, mái dí um estrameção e f'quí assim, béque-me, a olhar p' àquilo...

- Alguma luca...

Javalina com crias
As porcas, em tendo bacorinhos, sã ruinzíss'mas...

- Ó rato tòpêro...

- Um rato tòpêro me saíste tu... Era más era uma escravelhêra com um rabanho de bacorinhos... Logo, só vi os bacoralhos, mái, despôs, dô com a mãe, uma porca de tod' ô tamanho, já com com uma preção de barrigas...

- Tinha fugido dalguma malhada?

- Qual malhada... Era dessas brabas... Negra que nem um cravão e com uns sês ó oito bacorecos, tôdes marelinhos às riscas....

- Uma javalina com crias... - diz o Zé Manel.

- Sim, pr' aí uma coisa dessas... Chama-l'e c'm' qu'reres...

- Atã, e despôs? Fugi tudo com medo de si?...

- Que jêto?!... Ê cá é que me vi im traquetes com aquilo... O bicho volta-se p'ra mim, os bacorecos foi tudo p' à roda dela, põe-se assim béque-me a chêrar p' ô ar, dá ôtro ronco e avença d'rêto a mim que nem um seta...

- Isso i'-ô comprimentar, ti Zé...

- 'Tás a antrar com-migo?!... Ai ia-me comprimentar... Ela ia más era me dar uma dentada, s' ê cá nã fujo tã depressa p'ra riba dum madronhêro que 'tava logo ali da banda de cimba do casminho...

- Vomecêa?... P'ra riba dum madronhêro?!...Javalina

- Sim!... Ingraminhí até ô bico que nem uma fita... Q'ondo a porca chigô ô pé do tróçoê cá ia na sigunda pernada...

- E ela jogô-se atrás de si, ó quem?

- Alguma vez?!... Aquilo era uma madronhêra quái do tamanho desta casa... F'cô ali a olhar p'ra mim e vá de morder no tróço que l' ia tirando a casca toda logo ali à rés da raiz...

- Ora mecêa a assubir um madronhêro à rôpa toda... 'Tá-se méme a ver... Nem p'ra cimba duma urza mecêa se dá jogado, q'onto más...

- Ai nã dô... Lá pensas qu' és mái safo do qu' ê cá...

- Pagava p'ra ver!... E posto que mecêa, s' alguma vez visse uma porca braba - que nã viu - nem tampôco dava dado um passo qu' ela nã l'e t'vesse já jogado a boca ôs fundilhos das calças...

- O quem?!...

É pá... aí, o parente "Verruma" dá-l'e uma gavierra, - o homem é munto inzainadiço - faz-se d'rêto ô Zé Manel, inda vi jêtos deles se pegarem.

Mái, o mê compadre, assim c'm' quem nã quer a coisa, passô p'r o mêo deles, jogô a mão ô chapéu, dá um incalhão no ombro do ti Zé qu' o homem dá logo um gangueão p' ô mê lado.

- Ó t' Zé, desculpe lá, foi sem qu'rer... Tenho que mandar alisar esta rua. Atã, nã vê, incalhí ali naquele alto, ia caindo p'ra cima de si...

- ?!...

- Olhe lá, - aqui piscô-me o olho... - nã quer ôvir uma parte que se dé tamém com-migo, faz aí coisa dum ano, além no Covão da Loba, com bicharada dessa? Aquilo foi uma coisa temente...

O ti Zé Caçapo nã f'cô assim munto convencido, mái o mê compadre piscô-me ôtra vez o olho, qu' ê vi logo que nã ia sair dali boa, e desatô a contar a dele.

Crias de javali
Im piquenalhos, quem é que diz que sã o que são?...

- Pôs com-migo foi inda munto pior... Panhí uma rabana dessa vez que nunca mái me dô desquecido.

- Mái ôtro intrujice do mê pai igual à do ti Zé... - Diz o Zé Manel, que nã tinha visto ele piscar o olho.

- Ó Zé Manel, dêxa o homem falar... C'm' é que foi, compadre, c'm' é que foi? - Dig'-l' ê cá, a ver s' a coisa disfarçava e eles nã s' ingalfinhavam pr' ali.

- Más isso, atão, foi inda im mêa tarde, ia o sol bem alto. E 'tava cá uma calma...

- Querem ver que se jogô p'a drento d' algum tãinque, méme sem saber nadar, e 'tava lá alguma cobra-d'-água qu' o qu'ria ingolir...

- Pior!... Munto pior!...

- Perdé o pé e dé uns gragolêjos méme sem querer...

- Ia ê cá, suado até mái não, passando p'r baxo daqueles saicêros que 'tã lá na r'bêra e consolando-me com aquela fresquidão da sombra deles, oiço tamém um barulho...

- Algum escalavardo... ó zorra... ó, atão, alguma felosa a c'mer amoras...

Javalis
Os grandes gostam é de levar no espòjêro...

- Assomo-me ali pr' a baxo p'a um pego adonde, nôtres tempos, usava a panhar uns bordás com raiz de travisco, aquilo 'tava quái seco.

- Atã, isso era alguma iró a dar saltos já im seco...

- Dô mái um passinho ó dôs no mê dumas rabaças, com munto jêtinho p'a nã fazer barulho, o qu' é que me havera de par'cer ne frente, assim de chofre?...

- Um gato brabo a bober... - Diz o Zé Manel, sempre no gozo...

- Nã senhora... Três porcos brabos do tamanho de bezerros!...

- Punhana!...

- Os três espaldêrados ali no mê da lama a se espòjarem... Mal se l'e viam os olhos...

- Tamém pagava p'ra ver... Mecêa com os olhos tôdes esbugalhados e sem saber o que fazer... - disse ê cá p'a ajudar a compôr o romãinço.

- Ê sube logo munto bem o que fazer, nã cude. Abalí a fugir, dí um pulo que salví as rabaças e o córgo p' à banda de lá, e joguí-me ô tróço duma sobrêra...

- Nã me diga que tamém assubiu a sobrêra até ô bico?!...

- Ora assubi... Fui até à últ'ma ramaja...

- E os javalis?

Javalis
Munto pórco-javardo há por 'í, agora...

- Fazeram c'm' à porca braba do ti Zé. Puseram-se a fugir atrás de mim, bateram com o trombão na corcha e um inda s' impulêrô numa forca baxa qu' a arve tinha logo aí a uns cinco ó sês palmos do chão...

- Inda foi sorte... Se calha a ser numa madronhêra grossa, os bichos inda s' afituravam a partir algum dente, mái, assim, a corcha amortecé o porro...

- Méme assim, um, q'ondo se foi imbora, inda ia escorrer a sãingue, nã cude...

- E 't'veram lá munto tempo, compadre?

- Cale-se aí... Aquilo durô a tarde quái toda... Já cudava que tinha de dromir im cimba da sobrêra. É qu' os bichos prantaram-se ali à coca e nunca mái s' iam imbora, e, s' ê cá viesse p'ra baxo, eles faziam-me a falseta...

E a conversa foi durando quái toda a tarde, c'm' à espera dos javalis, até qu' o Zé Manel, já farto daquilo, saltô com a gente:

- Olhem lá, que vocêas eram três velhos imparvetadosê cá sabia, agora assim tã mintirôsos inda não... Calem-se más é já pr' aí com isso... Cudam qu' alguém acradita im tanta parvidade?...

E era verdade. Os javalis nã fazem figuras daquelas. De dia, 'tã, quái sempre, a dromir. E, em sentindo a gente, fogem logo. Só se 'tarem feridos é qu' é melhor nã ir munto p' ô lado deles.

E alguma porca que tenha bacorinhos tamém nã gosta qu' uma pessoa os vá impertenecer. Aí, é capaz de l'e dar alguma ravasca e cudadinho com ela...

Ô certo, ô certo, é qu' ele, agora, há por 'í javalis até mái não. E, na lua chêa, já tenho ôvisto uns tiros, assim ô longe, aquilo nã passa sem ser eles aí a caçá-los p'r esses cerros.

Fiquem-se com Dés, até qu' a gente se veja.

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