03 Julho 2009

Bonecos d' arêa

Construções na areia - Fiesa 2009
Im Pêra, fazeram uns bonecos d' arêa que sã méme bem-caçados...

Era uma coisa qu' ê cá tinha vontade de ver já há um belo tempo e inda nã tinha tido ocasião era isto dos bonecos fêtos d' arêa qu' eles, tôdes verõs, usam a fazer lá no Algarve, ali p' às bandas de Pêra.

Pôs, a semana passada parcé-me aqui o ti Luís Agúida p'a me comprar umas bajas temproas qu' ê tinha pr' ali - o homem faz a praça im Vila Nova - nã foi tarde nem foi cedo, fazemos logo duas contratas duma assentada: vendi-l'e as bajas todas p'r junto e combinamos a ir os dôs, no mata-velhos dele, a ver as tás bonecos fêtos d' arêa.

Aquilo foi uma coisa que calhô assim im conversa, num derrepente, e ê cá, logo de mimento, nem me vê à cabeça qu' o estapor do mata-velhos só pode levar dôs passagêros. Ora, c'm' é qu' a minha Maria ia tamém... E a ti Felismina, qu' é a m'lher?...

- Ó ti Luís, atã e nã se leva as nossas velhas?... - Dig'-l'e ê cá.

- Quem, a ti Maria e a minha Felismina?...

- Quem havera de ser?...

- Ó ti Refóias, dêxe-se disso... As velhas que fiquem a cudar no monte qu' a gente os dôs vai munto bem sòzinhos... Olhe, ê cá... tenho alturas que já nã dô aturado a minha...

Construções na areia - Fiesa 2009
Até do Camõs nã se desqueceram. E dumas moças qu' ele incontrô na Ilha dos Amores...

Aqui, f'quí-me... Más ele, levô a catarruar naquilo, nã se calava, e a minha Maria qu' andava a tabornequear ali no alpendre pôs-se à escuta e ôviu. Ora, salta logo de lá...

- O qu' é qu' o ti Luís 'tá p'r aí a d'zer, qu' ê nã panhí munto bem?!... É p'ra s' ir tôdes ver as construçõs na arêa?... Ó é só vocêas?...

F'quí logo incalacrado. Diz ele:

- Atã nã vê qu' o mê carrinho só pode levar dôs de cada vez... Só se mecêa s' amontar aqui na caxa adonde ê carrego as coisas p'a levar à praça...

- Tenha p' aí juízo... Era o que vocêas queriam era irem sòzinhos... Ê já resolvo isso. Sòzinhos é que vocêas nã vão. Que jêto?!...

E pronto. Assim abalô caminho da casa do mê compad'e Jôquim.

Inda a gente quái que nã se tinha tido tempo de tomar ar, já a vozêrrão delas as duas - a minha e a c'mad'e C'stóida - soava lá na rua deles. O que d'ziam nã sê, mái tamém nã tardô nada, já as novas tinha chigado até cá a esta banda.

- Já 'tá tudo arrenjado... O Zé Manel leva a gente. Vã os dôs aí nessa b'cicleta do ti Luís qu' ê cá e a c'mad'e C'stóida vamos nôtra via.

- Atã e o compad'e Jôquim, fica im terra?

- Nã te dê cudados qu' ele tamém vai com a gente...

Construções na areia - Fiesa 2009Construções na areia - Fiesa 2009
Atã e estes lá do Egipto, nã 'tã bem fêtos? É, béque-me, a rainha deles e um pobrezinho dum ênuco...

- Ó Maria, nã t' enfezes qu' a gente inda 'tava a combinar as coisas e tu nã f'cavas no rastolho...

- Ê bem ôvi o que ti Luís disse. Nã tens precisão de 'tar com desculpas...

E c'm' ê cá, d'zer a verdade, nã tinha mái nenhuma manêra de me defender, a coisa f'cô p'r 'lí e, no dia combinado, lá se foi todos caminho do Algarve.

C'm' à coisa 'tava combinada, a mim acabedô-me ir no mata-velhos do ti Luís. Ora, aquela trugia já 'tá mái velho qu' o dono, dêtava um fedôr a petrol que metia medo e o ti Luís, tamém, nã sê c'm' é qu' ele fazia aquilo, andava só ôs lóres duma banda à ôtra da estrada - q'ondo nã ia méme ô mêo, a pisar o traço e tudo, qu' os ôtros 'tavam-l'e semp'e apitando...

Ê cá, que nã uso a almarear c'm' alguma famila que nã prosa, desato a sintir assim béque-me umas ãinsas... Inda vi jêtos de bolsar. Aquilo foi p'r uma coisinha de nada...

- Eh ti Luís, tenha p' aí conta, homem!... Vá um coisinho mái brando com isso... Quer dar cabo da gente ó quem?...

- Mái devagar ainda?!... Atã isto só de ladêra à baxo é que dá uns sassenta. Agora vô-me a q'ôrenta e tal... Inda o Zé Manel, que vem logo ali atrás, s' aborrêce e passa adiante da gente...

- Dêxe-o passar!... A gente logo lá chega tamém. Mecêa nã sabe o caminho? Sabe. Atã, pronto.

Construções na areia - Fiesa 2009
Estes aqui 'tã a ver cinema. P'r o jêto, q'ondo eles inda amostravam o cinema na rua...

Más aí, já a gente ia chigando quái à recta do Rasmalho, as curvas acabaram-se e a coisa lá se compôs. Quer-se d'zer, inda se dé ôtra parte qu' ê cá nã contava com ela, E tudo p'r culpa do Zé Manel que chigô lá im baxo entes da Ladêra do Vau, mete p'a drento da a'to-'strada.

Se nã sabia ele qu'o mata-velhos nã pode andar nesses caminhos... Mái atão, desquecé-se... E lá se foi a gente os dôs sòzinhos p'ra estrada antiga até Alcantarilha. Tamém nã se perdé nada. Aparamos lá num certo sito, bobemos uma piquenalha cada um, aquilo sôbe que nem ginjas. E eles ficaram im seco...

E, já agora, semp'e l'es falo lá dos bonecos. D'zer a verdade, nem l'es sê incarecer. Custô-me um belo d'nhêrinho, lá isso custô, mái dí-o p'r bem gasto. Ê cá e a minha Maria inda se teve que pagar os dôs, já nã m' alembro bem, mái foi coisa aí duns doze eros e sessenta cêntimos... Qu' a gente somos os dôs já reformados e sai um coisinho mái barato.

Agora ê cá inda gostava de saber d' adonde é qu' eles desincantaram tanta arêa p'a fazer aquilo tudo. É que sã bonecos e mái bonecos, carros, casas, bichos, foguetõs, ê sê cá!... E tudo tã bem fêtinho que mecêas nem calculam...

Até o Camõs lá está a olhar p'ra umas moças qu' ele, p'r o jêto, incontrô lá num sito adonde elas andavam assim com pôca rôpa im cimba do corpinho, a Ilha dos Amores. E jêtosas qu' elas eram... A minha Maria é que nã gostô lá munto d' ê cá l'e 'tar a tirar o retrato, qu' ê bem vi ela fazer uma careta p' ô lado da c'mad'e C'stóida...

Construções na areia - Fiesa 2009
Estes 'tã a ver a bola na tel'visão. Só l'e falta ali um garrafanito de cinco litros...

E o ti Luís Agúida tamém se pôs a olhar munto p'a essas tás moças, q'ondo dé p'r ele já 'tava a fazer parvoêras. Veja lá que levava uns albricoques na alsebêra, drento dum saquinho de plástico, e, d' ora im q'onto, c'mia um. Lá isso, inda vá lá, mái já nã era grande figura no mêo daquela famila toda.

Agora, chegar ali, pôr-se a olhar p' às moças todo imbasbacado, puxar da sua faquinha dele, desbrugar o albricoque e jogar a casca p' ô mê do chão... Eh'q!... Nã é coisa que se faça... Vem de lá um estrangêro põe-se a fazer miécos c'm' quem diz:

- Isto aqui é algum monturo ó quem?!... Toca más é a apanhar isso...

Nã sê bem s' era iso qu' ele queria d'zer ó não, mái, se disse, foi bem dito. Volta-se o compad'e Jôquim p' ô ti Luís:

- Já viu o qu' é que mecêa arrenjô?... Panhe lá a casca do albricoque e ponha isso àlém naquele caxote... Atã que figura é essa?...

- Ai, punhana, 'tava a olhar p' às moças nem dí p'r o que fiz!... Isto, tamém, qualquer um tem um descuido. E com este calor, im menes de nada, seca...

- Que seque que nã seque, panhe lá isso. Nã vê qu' é uma vergonha?... Senã nunca mái venho consigo...

Aí, o homem, caí nele, panhô a casca e tudo se compôs.

Pôs, mês belos amigos, p'a quem goste daquelas coisas, vá lá à Fiesa 2009 qu' aquilo 'tá bonito. Mái vã assim à tardinha qu' à hora da calma que faz lá uma torrêra munto má de gramar. E nã joguem cascas d' albricoque p' ô chão...

Fiquem-se com Dés.

19 Junho 2009

Na Rádio Fóia, 'Vale a Pena'!...

Estúdios da Rádio Fóia - Monchique
Nã vêem aqui adonde a Rádio Fóia fonciona?...

A Rádio Fóia usa a dar um pograma da Senhora Fátima Peres ch'mado 'Vale a Pena', todas sextas-fêras, já quái ô solpostinho. Aquilo, p'r o jêto, cada semana, ela convinda uma criatura que lá quêra ir e põe-se-l'e a fazer as prècuras que munto bem intenda.

Agora nã querem lá ver o que s' havera de dar?... Atão nã é qu' ela se l'e meté na cabeça qu' ê cá tinha que 'par'cer p'r lá um dia e andí, andí... fui nisso?... Um homem, às vezes, mete-se im cada enlêo que só visto!...

Nã posso d'zer o contráiro, o mê compad'e Jôquim é que 'tava certo:

- Ó compad'e Refóias, que jêto mecêa, agora com uma idade dessas, se meter im coisas assim?... Tenha más é p' aí juizo...

E logo calhô a 'tar ali ô pé da gente o parente Chico da Varja que l'e dé logo os àméns. O homem mora lá p'a baxo, na Varja do Farelo, já há uma preção d' anos e é munto boa pessoa mái já tem assim um coisinho de mania... Cuda que já sabe mái do qu' ôs ôtros, só premode ter ido daqui im novo lá p'ra baxo p' ô Algarve...

De manêras que, pôs-se logo tamém a d'zer das suas:

- O parente Jôquim tem toda a r'zão!... Isso nã sã coisas p'ra si. É p'a quem sabe, home... Méme ê cá, que já moro lá no Algarve há mái de cinquenta anos, nã me metia numa coisa dessas, veja lá...

Rádio Fóia - 97.1 FM
Querendem ôvir a Rádio Fóia no comp'tador acalquem aqui p'r cimba...

- E o qu' é que tem vomecêa morar lá há esse tempo todo?... Anda na méma c'm' à gente a afossar lá no chão, a despôr côves e a samear cinoiras... E olhe qu' aquela terra inda é mái má de lidar qu' esta aqui...

- Mái aprende-se p'r lá ôtras coisas qu' aqui nã há...

- Isso é qu' era bom!... Agora?!... Isto já é tudo igual im toda a banda... Nã vá nisso...

Bem, d'zer a verdade, ê nã m' havera de me ter metido nestes traquetes. Mái atão... Nã vô agora d'zer que tenha ido lá descontravontade, que nã fui. Más a más que uma pessoa sinte-se lá do melhor. Mái aquilo sã coisas p' a quem sabe, c'm' o parente Chico diz...

- Mecêa, chigô ali a um certo ponto, só s' ingasgava...

- C'm' é que vomecêa sabe disso s' inda, antontem, me disse que nã tinha ôvisto nada?... Des que 'tava a regar uma tãincada d' água, agora já nã 'tava...

- Nã no ôvi a falar com a Senhora Fátima Peres, mái contô-me a minha C'stóida. Ora essa... E inda me disse mái uma q'ontas. Qu' ela, atão, nã perdé coisíssema nenhuma...

- O qu' é que saria qu' a c'mad'e C'stóida inda disse pr' aí más... Boa nã foi!...

- Olhe, era p'a nã l'e d'zer, mái semp'e l'e digo. O qu' é que mecêa fez p' a lá que, a certo ponto, 'tava munto bem a falar, ôvi-se assim um tranquelêjo... um estoiro, um ronco, uma coisa assim... Veja lá bem o qu' é que mecêa fez p'a lá...

Fátima Peres - Programas 'Rota do Sol' e 'Vale a Pena' - Rádio Fóia 97.1 FM
A Senhora Fátima Peres tem uma voz qu' é um incanto, sabe falar bem e 'tá semp'e contente...

- Lá 'tá mecêa semp'e com essas alarvidades... Sê cá o qu' é que foi... Só se foi uma ocasião qu' ê cáquái que me doía aqui as cadêras de tanto 'tar assantado e cheguí-me assim um coisinho p' à frente. Ora, bati logo com as ventas naquela coisa p'a donde a gente fala, o...

- O microfone...

Salta logo o parente Chico munto l'gêro, c'm' se fosse munto sabido no caso...

- Pôs, isso, o microfone... Bati lá com as ventas, até vi luzes!... Vá lá que nã parti nada... E olhe qu' aquilo 'tava, béque-me, tudo desingonçado qu' ê cá até me 'tava a dar cudados nã fosse aquilo se desconjuntar tudo entes da conversa chigar ô fim...

Nisto, chega o Zé Manel, o filho do mê compad'e Jôquim, e põe-se tamém à fala. Qu' ele, c'm' trabalha lá num hotel im Vila Nova, já 'tá c'm' o parente Chico da Varja. às vezes, tamém tem a mania...

- Ó ti Refóias, atã nã vê que nos estúdios de som o microfone 'tá assim pindurado naqueles segmentos qu' ingancham uns nos ôtres p' ô pôr c'm' à gente quer?!...

- Olha, Z'e Manel, chigaste im boa altura e d'zeste logo uma palavra bonita... Isso dos segmentos nã era umas peças qu' o Cuciollo qu' o Tóino Pingueta possuiu há um rôr d' anos tinha lá drento da roda de balanço?...

- Lá 'tá mecêa a desconversar... Segmentos sã aquelas partes do cabo do microfone que dã p' ô virar p'a um lado e p'a ôtro...

E o parente Chico:

Fátima Peres - Programas 'Rota do Sol' e 'Vale a Pena' - Rádio Fóia 97.1 FM
... e tem logo dôs programas do melhor: a 'Rota do Sol' e o 'Vale a Pena'...

- Ó Parente Refóias, mái, já agora, conte lá bem aqui à gente c'm' é que foi isso de mecêa ir lá ô "Vale a Pena" da Senhora Fátima Peres...

Aqui, fiz-me forte...

- Nã tem nada que saber... É um f'lano ser convindado, ir lá e dar resposta às prècuras que l'e fazem.

E meto-l'e logo uma pua:

- Mái nem tôdes têm condiçõs p'ra isso, 'tá bom de ver...

- Isso é que me dava cá uns grandes cudados uma coisa dessas... Graças a Dés, tenho boca p'a falar...

- Atã, vá lá... Qu' é p' à gente ver do qu' é capaz. Nã vai premode quem?...

- Se me ch'massem, ia. Ó cuda que não...

- Ora, aí é que 'tá a cachamorra... O que falta aí é famila c'm' vomecêa que se pelavam p'r lá ir... E alguns da alta.

- Mái, calhando, dá-se o mémo que com-migo. Nã nos chamam...

- E aquilo vale a pena ir lá?

- Se vale a pena ir ô "Vale a Pena"? Ai nã que nã vale... É que vale méme a pena... e de que manêra!... Ê cá... gostí. Fiz má figura? Pacência... Mái lá que gostí, gostí... E munto...

Mês belos amigos, quando ligarem a tel'fonia, oiçam semp'e a Rádio Fóia que nã há ôtra c'mo ela... E falí aqui na Senhora Fátima Peres, no "Vale a pena" e na "Rota do sol", mái têm p'r lá munto mái adonde escolher... Há-dem exp'r'mentar a ir aqui à lista dos programas todos da Rádio Fóia, que logo vêem...

E até um dia destes.

28 Maio 2009

Dia da Espiga - 2009

Quinta-Feira da Espiga 2009 - Barranco dos Pisões - Monchique Tal acham esta cruz com um lindessíssemo ramo da espiga?...

Nã sê premode quem, este ano, tanto se faz ê cá e minha Maria c'm' os mês compadres, pusemos-se a pôco com o Dia da Espiga, chigô-se às béspras e inda nã se tinha combinado coisíssema nenhuma com respêto ô que fazer.

A gente usa a ir tôdes juntos à missa campal do Barranco dos Pisõs e, este ano, tamém tinha ôvisto d'zer qu' havia lá festa. Mái nunca liguí cá a isso e contava qu' a minha Maria e c'mad' C'stóida t'vessem combinadas e arrenjassem uma buchazinha, a tempo e horas, p' à gente c'mer lá.

Mái as marafadas, c'm' ê cá e o mê compad'e Jôquim do Barranco nã se falasse no caso, tamém nã t'veram p'a moer a cabeça com isso e, já na quarta bem de nôte, inda a coisa 'tava munto tremida.

Mái a minha c'mad'e C'stóida havera de 'tar já im cudados e, atão, quái c'm' quem nã quer a coisa, dé uma fugida aqui ô mê monte, 'tava a gente a cear, bate à porta e dá de vaia:

- C'mad'e Maria!...

Diz a minha:

- Antre, c'mad'e C'stóida. O pestigo 'tá só incostado... Ponha o braço p' drento que chega à tramela...

De manêras que, a m'lher lá antrô, falô à gente e desata logo a prècurar:

Quinta-Feira da Espiga 2009 - Barranco dos Pisões - Monchique Na missa campal, inda assim, 'tava bem munta famila...

- Mái atã, amanhão mecêas nã vâ a banda nenhuma?... Dia da Espiga...

- Atã, meceas nã d'zeram nada... A gente cudava que se ficava tôdes ô monte...

- Qual o quem!... Quinta-Fêra d' As-sunção nã se pode fazer coisíssema nenhuma de trabalho... É o dia mái santo do ano, c'madre... S' os passarinhos sabessem, nem ô ninho iam nesse dia!...

- Sempre tenho ôvisto d'zer...

- Olhe, ê cá inda nã tenho nada im orde, mái, nem que nã me dête esta nôte, vô-me arrenjar ali qualquer coisinha e im casa é que nã fico... O qu' 'e que me diz, c'mad'e Maria?...

- Ê cã... tamém nã tenho assim nada a jêto, mái nã hê-de dar arrenjado tamém p' aqui quasequer coisinha p'a nã se passar fome?...

- Atã e mecêa, compd'e Refóias, nã l'e parêce qu' ê tenha r'zão?...

- Tem, sa senhora, tem c'madre...

D'jando 'tava ê cá qu' elas dessem ordes à vida e arrenjassem uma bucha... Mái calí-me munto bem caladinho qu' aquilo era caso p'a m'lheres nã era p'ra mim... Ô certo, ô certo é qu' elas lá arrenjaram o que munto bem intenderam e, Dia de Espiga, semp'e se foi até ô Barranco dos Pisõs.

D'zer a verdade, este ano, béque-me nã 'tava lá assim tanta famila c'm' jã tenho visto d' ôtras vezes. Mái o mê compad'e Jôquim nã 'tava lá munto certo nisso. Nã falando no ti Manel dos Pôrtos, qu' é um coisinho tem-môso, e des que nã era nada assim.

Quinta-Feira da Espiga 2009 - Barranco dos Pisões - Monchique Despôs da missa, jogamos-se a c'mer, foi até mái não...

- Ó ti Refóias, que jêto d'zer uma coisa dessas?!...

- Pôs digo. Acho aqui pôca famila, este ano. P' ô que era uso 'tarem...

- Cale-se pr' ai, parente!... Atã isto 'tá aqui quái o drobo do que já tenho cá visto...

Esta conversa passava-se já munto despôs da missa campal ter acabado, q'ondo a gente já tinha batido quái uma àmetade do decomerzinho qu' elas tinham levado. E tamém já se tinha despachado uns belos copinhos do tal casêrinho qu' ê cá e o mê compad'e se usa a fazer tôdes anos.

Isto, p'a nã falar duns porrêtes dela qu' o Tóino Arraúl andava sempre a despejar p' à malta toda, que, q'ondo chigô à hora de c'mer os bolos já tinha a garrafa munto p'ra menes de mêa. E o ti Manel nunca f'cava no rastolho. Aprevêtav' ôs tõdes...

E, calhando, premode isso o homem já via a dobrar. E, atão, tem-mava a pés juntos que nunca tinha visto aquilo tã chêo. E fosse lá uma pessoa l'e d'zer o contráiro...

Mái, que 't'vessem muntos ó que t'vessem pôcos, a gente ad'v'rti-se ô bem fêto. Chigô a uma altura qu', aquilo, era velho e era novo, tudo balhava. E nã era p' a admirar. 'Tava lá um conjunto, ch'mado "Dupla Geração" - môces méme aqui de Monchique - que tocava qu' era um consolo. Aquelas modas assim inda do nosso tempo. Nã era cá aquele batuque d' alguns que quái qu' arrebentam com os cascos duma pessoa...

Com isto tudo dé-se foi uma parte escamungada qu' ê cá nã 'tava à espera. C'm' vomecêas sabem, a festa é logo ali preciminho do Moinho do Poucochinho e a Junta põe sempre aquilo a foncionar p' à famila ver c'mo é que se fazia a farinha nôt'es tempos.

Quinta-Feira da Espiga 2009 - Barranco dos Pisões - Monchique Em se vendo com a barriguinha bem chêa, vá de balhar...

Põs, com aquele alvriamento todo, q'ondo dí por ela já o moinho tinha moído e já 'tava tudo aparado. Farinha de milho - p' às papas, 'tá bom de ver - tamém já nã havia nenhuma... Inda fui lá rabiscar, mái nem p'a umas papas p' ô mê gato "Lá Bechana" aquilo dá q'onto mái p'ra mim e p' à minha Maria...

Qu' ê cá f'quí desconfiado qu' eles tamém tinham ajuntado pôca água na presa e ela desgotô-se im menes de nada. Ora, com a presa vazia as mozes nã moem, nã l'e parêcem?... Mái ê cá já tenho visto aquilo ôs ôtres anos, dêxa-se isso da mão...

Méme assim, inda tirí lá uns retratos ô que 'tá lá drento do moinho - e olhem que 'tã lá umas coisas ent'ressantes... - um destes dias logo l' es falo nisso e amostro-as a todos.

Agora querendem ver mái alguns retratos da Dia da Espiga, é só acalcarem aqui na Galeria do dia da Espiga.

E até qu' a gente se veja.

04 Maio 2009

Minha bela Via Algarviana!...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
A Via Algarviana, punhana!, é andar e andar p'r esses cerros fora...

Fui andar na Via Algarviana quái duas semanas e já cá 'tô há uns belos dias, mái c'm' voltí de lá todo desmastreado e tinha um poder de coisas p'r fazer premode nã ter 'tado ô monte aquele tempo todo, só inda agora dí tirado um pôcachinho p' ôs comprimentar e l'es d'zer c'm' é aquilo foi.

Pôs atão, 'tejam com Dés e sejam munto bem par'cidos. Calhando, 'té já havia p'r 'í quem cudasse qu' ê cá me tinha barimbado nisto. Nã senhora!... Posso-me atrasar assim um belo coisinho c'm' agora, mái largar isto de mão sem más esta nem más aquela, isso é que tinha que ver...

Pôs é verdade, abalí ôtra vez caminho da Via Algarviana e a coisa este ano até que foi duma manêra qu' ê cá nã 'tava munto à espera. Logo no pr'mêro dia, ajuntô-se uma data de famila que foi uma coisa p'r demás...

Só de Lisboa vieram tantos ó tã pôcos que nem os cheguí a dar contado. Mái, sigundo me contaram, menes de sessenta nã eram. Ora, contando tamém os de cá de baxo, formô-se um ajuntamento duns oitenta. À vontade!...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
Q'ondo calhava, aquilo era c'm' nos tempos da tropa: vá de marchar!...

Vá lá qu' aquilo só durô dôs dias, qu' eles, despôs, t'veram que s' ir imbora, senã c'm' é qu' ê cá dava àgu-ento um passo daqueles, senhor?!... Os marafados nem p' ô lado olhavam. Aquilo era andar à rôpa toda até mái não, a ver qual era o que chigava im pr'mêro...

Mal alembrado, 'tá bom de ver, vêo-me à idéa que só faltavam ali os burros - só no últ'mo dia é que t'vemos dôs - p'a se tratar duma escavalhada. Isto sem ofensa. Nã se parêçam mal, aqueles que lá foram...

É qu' ê cá 'tava acostumado a andar com um passo um coisinho mái compassado e ir devassando tudo o que me 'par'cesse p'r aqueles cerros fora e, assim, quái a cem à hora, um homem mal tinha jêto era de tomar ar, q'onto más olhar p' ô lado e ver tanta coisa bonita qu' ele p'r 'í há...

Bom, mái dêxando isso da mão, que já se passô, a Via Algarviana, ô fim de contas, foi, c'm' no ano passado, uma coisa do melhor. Aquilo era homens, m'lheres, estrangêros... e, é verdade, já me desquecia, um cão!... O "Pantufa".

Olhem, aquilo, o "Pantufa" era um canito do mái bem caçado que pode ser e haver. Piquenalho, cacenho, coxo - que nã dava dobrado uma perna de trás - mái atão, rijo que nem l'es sê incarecer. É que nã parava nem um 'sntante...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
Uma ocasião, p' ali pus a máquina mémo no chão e ela tirô o retrato à gente, sòzinha...

O b'chalho, posso afiançar, q'ondo chigô ô fim, teve que ter andado bem uns dôs drôbos de qualquer um da gente. Atã ele fugia atrás de tudo o que mexia p'r aquelas estevas e balsedos, córgos e barrancos que nem uma seta...

Uma ocasião, afia atrás duma perdiz, joga-l'e a boca às penas do rabo, o bicho panhô um cagáiço tã grande ó tã pequeno, alevanta vôo d'rêto a mim, passa-me rente ô nariz, até me fez vento ô chapéu, vejam lá... P'r o sim p'r não, até dí um rafujão assim de repente p'a trás e agachí-me todo ô pé duma mongariça que p' ali 'tava.

D'zer a verdade, um destes dias, 'tive a contar isso ô mê compad'e Jôquim do Barranco, más o marafado béque-me nã f'cô lá munto certo... Qu'ele, atão, parte das vezes, p'a crer no qu' ê cá l'e digo, é uns trabalhos. Em nã vendo as coisas, 'tá semp'e desconfiado qu' os ôtros 'tã a antrar com ele.

- Ó c'pad' Jôquim, vomecêa tem cá um fêtio... Só acradita no que vê?!...

- Nã sabe que "gato escaldado d' água fria tem medo"?... Já me têm indròminado tanta vez!...

- Maí o qu' ê cá l'e digo é semp'e a pura da verdade, compadre...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
Muntos caminhos nã se dá ido dôs a par. Cá p'ra mim, sã os mái bonitos...

- Sê cá... Tanta coisa que mecêa me diz da Via Algarviana, até me dá que pensar s' isso sará tudo bem assim... Olhe, d'zer a verdade, - mái, veja lá, nã se parêça mal... - ê cá até nã sê se 'tô bem certo de vomecêa ter ido lá e andar esse dias todos c'm' diz pr' aí...

Ele bem disse p'a nã me par'cer mal, más olhem, tenho que d'zer qu' aquilo nã me caí foi nada bem... Inda 'tive p'a l'e responder ô consoante, mái, despôs, assobií assim p' ô ar, e lá me contive sem me marafar com ele...

- Compad'e Jôquim, atã ê cá ia-l'e d'zer uma coisa que nã fosse verdade?!... Fui, andí aqueles dias tôdes, nã fui dos mái ingònhados e, inda l'e digo más: cheguí ô fim, 'tava pronto p'a ôtra!...

Mintira minha, já se vê, qu' ê 'tava era todo escadraçado que mal me sustinha d' em pé...

- 'Tava, tava... Ê bem vi c'm' é que mecêa andava aí a arrojar as botas nos dias a seguir a ter chigado ô monte. Da perna esquerda, atão, até coxeava...

- Eh'q... Isso nã era bem assim... 'Tá bem que, já quái no fim, par'cé-me p' aqui uma borrefa ô pé do dedo grande, mái aquilo nã foi nada. Tanchí-l'e logo com uma agulha e uma linha das d' alhinhavar da minha Maria, pronto, foi um ar que l'e deu...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
A Travessa das Guerrêras foi munto gabada p'r os que lá passaram...

- Ai já viu?!... Ê bem me parcia...

- Atã, havera de ver ôtres que p'r lá andavam... Tinham os pèzinhos numa chaga pegada. Nem sê c'm' eles os davam mexido!...

- E os seus 'tavam na mesma... Ó pensa qu' ê cá sô assim tã trôxa que nã tenha visto isso tudo?...

Aqui, achí melhor mudar de conversa...

- Compad'e Jôquim, sabe-me d'zer s' eles deram água p' amanhão? Inda queria ver se sameava ali umas duas quadras de batatas empérias...

- Na Rádio Fóia nã deram, mái nas ôtras estaçõs nã sê, qu' ê cá nã oiço mái nenhuma.

- Calhando, vô-me cortar ali uma manchinha delas...

- Calha bem que, inq'onto as corta, vai-se falando mái um pôcachinho da Via Algarviana... A C'mad'e Maria des que mecêa vi-se lá foi um coisinho impeçado p'a dromir. Era a cama que tinha pôco cómado?...

E ele a dar-l'e!...

- Lá qu' a cama nã era grande coisa, nã era... mái, inda o pior era a roncadêra qu' alguns faziam. É qu' até aquilo estramecia tudo...

- Nã me diga...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
quái no fim, até burros a gente tinha. Nã fosse algum ter míngua de via...

- Ai nã digo... Havia menino que, tã penas se panhava espòjado na cama, inda mal tinha tempo de ter fechado os olhos, já roncava qu' até metia respêto... P'r menes uns dôs ó três, nã l'e digo nada...

- Mái, é certo e sabido que nã hôve assim mái nada que l'e calhasse mal a nã ser passar uma noite ó ôtra acordado. Tinham sempre os ôtros cómados todos...

- Lá isso é verdade... Tirando ter que tomar banho com água fria, uma vez ó ôtra, qu' isso até faz bem...

- Pôs, inrejece os ossos...

- ... e ôtras coisas sem emportância por 'í além.

- E o caminho, que tal? Andavam assim só p'r v'redas ó quem?

- Só-se!... Era p'r onde calhava. Tanto s 'ia p'r carr'lêras c'm' p'r v'redas ou ôtres caminhos qualqueres. Mái dig'-l'e já, 'tava tudo im boas condiçõs.

- Nã me diga!...

- Tirando um ó ôtro... Dé-se até um caso ali q'ondo se vinha de Silves pr' aqui p'a Monchique - perto dum sito ch'mado Romano - qu' hôve um entel'gente que se dé ô trabalho de pôr umas correntes atravessadas no caminho, presas a uns pilares de cimento, p' à famila nã dar passado...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
quái no fim, até burros a gente tinha. Nã fosse algum ter míngua de via...

- Mái vocêas passaram ô lado p'r o mêo do mato e pronto...

- Más é qu' ele, já contando com isso, derrubô tamém os calitros que tinha na berma e feze-os cair de manêra a f'carem a travessados no caminho...

- Mái isso, tamém, p'ra si e p'r ôs ôtres, um calitro ó dôs pôco trabalho l'es dé a arradar...

- Ai um calitro ó dôs... Era uma remessa deles!... E arves já de cinco, sês anos. Quem é que podia com aquilo?!... T'vemos que passar p'r baxo e eles lá f'caram atravessados.

- Im todo ô lado, há semp'e uns espertos desses...

- Sã c'm' ôs cãs da palha, compad'e Jôquim. Nã comem nem querem dêxar c'mer...

- Dêxe lá, compad'e Refóias, em eles morrendem, logo há-de haver quem l'e ponha as propriedades todas drento do caxão...

- Se lá cabessem, havera d' haver alguns que dêxavam isso im testamento...

E nã digo mái nada que fartos de tanta conversa já vomecêas 'tão. Nã falí nos que fazeram a Via Algarviana amontados im b'cicletas e im cavalos. E foram bem muntos!... Mái, p'a chigarem ô farol de S. Vicente ô mémo da gente, abalaram uns dias mái tarde d' Alcoutim. Fica p' à ôtra.

Agora querendem ver mái alguns retratos da 2ª Grande Travessia da Via Algarviana 2009, é só acalcarem aqui na Galeria da Via Algarviana.

E Dés l'e dê munta saúde ôs da Via Algarviana e a vomecêas todos.

24 Março 2009

Lá tarê qu' ir à Via Algarviana ôtra vez, pôs atão...

Via Algarviana - 2ª Grande Travessia - Março / Abril 2009
Este ano, uns vã a pé c'm' ê cá, ôtres vã a cavalo e há os que tamém s' amontam im b'cicletas...

Se algum de vomecêas dé o nome p'ra ir à Via Algarviana Sáb'do que vem, fique já sabendo qu' ê cá tamém vô-me. À pata, 'tá bom de ver, qu' ê cavalo nã tenho e b'cicleta tamém não. E, méme que t'vesse, nã m' afiturava a isso p'a nã m' hablitar a bater a apèraja aí num sito qualquer e terem de me trazer às costas caminho do monte...

Pôs, mês belos amigos, p' àqueles qu' inda nã se resolveram, se quererem ir a pé, inda vã a tempo de dar o nome hoje ó amanhã, agora de b'cicleta já 'tá tudo chêo. A cavalo, calhando, tamém inda podem ter sorte, mái nã sê lá munto bem. É falarem com a famila lá da Almargem, qu' eles têm isso tudo im dia.

Desta vez, nã cudem qu' é que c'm' no ano passado que só abalamos sês... P'r o que tenho ôvisto d'zer, abalam de Alcoutim, à pata, p'ra cimba duns sessenta e tal. De b'cicleta sã mái uns qu'renta. E a cavalo, contando todos - famila e animazes - sã tamém uma bela manchêa deles...

E tamém já tenho ôvisto qu' ele há pr' aí uns pôstos de tel'fonia e, p'r o jêto, tamém de tel'visão, que vã dar notiças daquilo. Olhem, a Rádio Fóia des qu' é uma delas. Qu' ê cá, d'zer a verdade, nã tenho a firme certeza qu' isso seja assim... Vendo p'r o mémo preço que comprí. E o que me d'zeram foi que, calhando, isso ia-se dar.

Via Algarviana - 2ª Grande Travessia - Março / Abril 2009
Desta vez, uma pessoa já dá com este sinás, calhando, é má de se perder...

Atã nã se façam rasmôlgos e, a 6, 7 e 8 do mês que vem, o mês da Abril, levem repáiro a ver se vêem a gente passar aí nalguma banda. Os que darem cá chigado... Qu' ê cá nã sê munto bem se darê... A sês, vem-se de Silves até Monchique, passando na Picota. A sete, vai-se de Monchique p'ra Marmelete, passando na Fóia. E a oito, vai-se de Marmelete p'a Bensafrim, passando nas Romêras.

Que vomecêas já sabem bem o qu' é a Via Algarviana... É aquela vereda que vai désna d' Alcoutim até ô farol do Cabo de S. Vicente e tem mái de sassenta léguas de comprimenta. É méme isso: 300 km... Sempre cá p'r cimba, p'la Serra. Nunca se vai lá im baxo ô Algarve. Qu' eles lá no Algarve tamém têm uma coisa assim par'cida. Béque-me l'e chamam a Ecovia ó coisa assim...

E já agora, mês belos amigos, passem munto bem p'r cá qu' ê, em voltando, logo l'es conto c'm' é qu' a coisa foi. E só volto lá p' à Páscoa. Vejam se ganham muntos contratos e comam muntas amêndoas.

Atã, até qu' a gente se veja.

11 Março 2009

O Lagar dos Pardieiros - Alferce

Lagar dos Pardieiros - Alferce - Monchique
Olhem-me só p'a esta classe d' azête do alagar dos Pardiêros...

- Olha, põe-te calado que tu conhêces tanto disso c'm' dum alagar d' azête!...

- Conhêce vomecêa... Nã se 'tá méme a ver?!...

- Sim, atã tu tens alguma coisa qu' abaxar os preços daquela manêra c'm' fazeste inda no sáb'do passado, qu' aquilo foi uma pôca-vergonha?...

- Atã s' aqueles das hortas lá de baxo chigaram lá e relaxaram aquilo tudo...

Isto era uma conversa qu' o mê parente Cosme da Quinta 'tava a ter com Chico Bôicinhas, moço inda novo, a respêto dos preços das bejoarias qu' eles usam a levar lá p'ra baxo, q'ondo vã fazer a praça a Vila Nova.

E vê méme ô queres que me fez vir à mimóira uns retratos qu' ê tirí ontordia no alagar dos Pardiêros e andava p' ôs amostrar e inda nã tinha tido ocasião.

- Ó parente Cosme, agora por isso, este ano levô algumas zêtonas p' ô alagar?

Lagar dos Pardieiros - Alferce - Monchique
O alagar dos Pardiêros só tem estas mozes, mái nã há zêtonas que l'e deam àvonde...

- Olhe, logo, nã panhí nenhumas qu' elas 'tavam munto miudalhas. Nã vê, nã chové nada no cedo... E, despôs de chover, nã tive jêto de l' acudir premode ôtres serviçalhos que tinha pr' aí p'r fazer. Perderam-se lá todas no chão... E vomecêa, inda fez algum azêtinho?

- As minhas ol'vêras nã tinham nada de jêto nã as panhí, mái as do mê compadre Jôquim do Barranco 'tavam carregadinhas e, atão, d'í-l'e lá uma ajudinha e panhamo-se-as quái todas.

- E levaram pr' àdonde?

- P' ô alagar dos Pardiêros. Já nã trabalha mái nenhum cá na nossa zona...

- E o azêtinho, que tal?

- Ó Home, cale-se aí... Uma coisa do melhor!... Já há bem muntos anos que nã m' alembra dum azêtinho tã bom c'mo este...

Diz o Chico Bôicinhas:

- Inda nunca fui a um alagar... Aquilo tem alguma coisa que ver?...

Lagar dos Pardieiros - Alferce - Monchique
Despôs d' acartar as zêtonas, vai-se lá com uns garrafanitos drento duma saca e traz-se o azêtinho...

- Méme assim, vocês, os môces nôvos, só pensam é nã sê no quem, nã ligam coisíss'ma nenhuma a certas coisas, qu' até dá dó... E, despôs, quêxem-se. Em já nã havendo quem faça nada disto, logo sabem q'onto l'e custa...

- Ó ti Refóias, dêxe-se disso... Atã nã vê qu' isto agora é tudo d'frente do sê tempo?... Agora há as máquinas p'a fazer tudo e o que nã temos cá vem de fora...

- Fia-te nisso e nã corras... Dés quêra que qualquer dia nã vás f'car repeso...

- Mái diga lá, parente, o alagar inda fonciona tôdes anos? - Prècurô o parente Cosme.

- Até agora, tem trabalhado sempre. E, p'ro jêto que l'e vejo, é p'a se manter.

- Ai, sim?...

- Atã, o homem tem aquilo lá qu' é um mimo. Vocêas haveram de ver... É uma coisa à moda antiga, mái já com tôdes os precêtos d' agora.

- Põs, e se nã fosse assim, era mái que certo qu' os da ASAE l'e caíam logo im cimba...

Lagar dos Pardieiros - Alferce - Monchique
Põe-se a massa entremêo das cêras p'a irem p' à prensa...

- E pensa qu' eles nã hã-de já ter ido lá?... Ninguém me disse, mái eles têm andado aí p'r tod' à banda... Agora tamém l'e digo: c'mo homem tem aquilo, podem ir lá tôdes dias que nã têm sorte nenhuma...

- Dessa manêra, tem os precêtos tôdes, c'm' mecêa disse...

- Cale-se aí... Aquilo 'tá tudo c'm' deve de ser. Tudo asseadinho, tudo vasilhas d' inox... até brilha!...

- E, c'm' ê cá ia a d'zer, um azêtinho tã bom, tã bom, que, dig'-l'e já sem medo nenhum, tira a palhinha a esses que vancêas compram aí nas mercêrias...

- E nã fez lá uma tiborna?

- Vontade nã me faltô... Mái isso, agora, tem mái que se l'e diga. Nôtres tempos é qu' uma pessoa ia lá, levava um pedaço de pão, passava-o debaxo da bica do azête e c'mia. Agora já nã se pode fazer isso...

- Mái, em chigando ô monte, pode...

- Ah, isso, im casa, tã penas chiguí, disse logo à minha Maria p'a me despejar uma gotinha p'a uma pelengana, um coisinho de sal, alhos até mái não e vá de molhar umas sopas de pão inda quentinho, qu' ela 'tava de cozedura nesse dia...

- Ai, qu' até me 'tá a nascer água na boca... Munto gosto ê cá disso!... E com um bom porrete de vinho daquele casêro qu' ê cá faço com umas uvas que vô-me b'scar ali a Al'zur...

Lagar dos Pardieiros - Alferce - Monchique
A prensa expreme aquilo tanto ó tã pôco qu' o azête sai todo e só fica o bagaço...

- Olhe, atão, em l'e dando jêto, traga um v'nhito desse qu' ê cá ponho o azête e o pão... Faz-se aqui uma função...

- Um dia qu' a parenta Maria coza, era boa ocasião...

- Sa senhora... E ponho-l'e tamém ali umas três ó quatro batatas-doces no forno, tamém se as come. Elas este ano sã boas do melhor... Ó nã aprecêa?...

- Gosto munto, mái tenho que ter conta com elas. De q'ondo im vez, nã me caem lá munto bem... Béque-me me dã im trabalhar aqui no bucho, panho com cada azia que nã é brincadêra...

- E já fez a exp'rimentação de, im vez s' assadas, as comer cozidas com um azêtinho, deste do alagar?

- Inda pior, parente... Isso atão, é certo e sabido, dá-me logo uma azia marafada. Mãi nã é premode o azête, é premode as batatas...

- Nã é do vinho d' Al'zur, é das batatas-doces assadas!... - Salta logo o Chico.

Lagar dos Pardieiros - Alferce - Monchique
Quem havera de d'zer que desta água negra sai um azête do melhor...

- Lá 'tás tu ôtra vez... Atã tamém nã sabes qu' a batata-doce é munto má de se fazer a digestã?...

- Cá p'ra mim faz-me pôca d'f'rença. Nã uso a c'mer tal coisa. As batatas-doces qu' o mê pai samêa sã p'a dar ôs porcos...

- Isso sã aquelas maiores... As mái pequenas, assadinhas ó cozidas, sabem que nem ginjas...

- E com respêto ô alagar dos Pardiêros, pr' ô ano inda abrirá?

- Isso sabe-se que sim!... Atã o homem - o senhor António - gastô lá um poder de d'nhêro p'a pôr aquilo im condiçõs é porque quer mantê-lo. E bastante falta faz...

- Dêxa 'tar que nã hê-de dêxar perder mái zêtonas nenhumas...

E vomecêas, mês belos amigos, se t'verem uma ol'vêrinha, panhem as zêtonitas todas e levem lá p' ôs Pardiêros que ficam com um azêtinho do melhor e, ô méme tempo, ajudam a manter o alagar aberto, qu' é já só o que há cá im Monchique, Marmelete e Alferce de tantos qu' ele havia nos mês tempos de moço. E trabalhavam todos...

Querendem, vejam mái alguns retratos do Alagar dos Pardiêros. É só acalcarem aqui na Galeria do Alagar.

E fiquem-se com Dés.