
A Via Algarviana já 'tá inagurada...
Que semp'e fui à Via Algarviana, lá isso fui. Mái haveram de ver c'm' é qu' ê ch'guí cá... Vinha todo derrengado!... Olhe, os pés nã nos sentia, o bucho das pernas cudava d' arrenbentar, as cruzes era c'm' fogo e a espinha já quái que nã aguentava o peso da m'chila.
Más isto, c'm' mái vale um gosto que cem menrés na alsebêra, nã há nada c'm' um homem se jogar p' à frente e seja o que Dés qu'ser. Foi o qu' ê cá fiz. Abalí... e pronto. Mái que foi custoso, 'tejam certos que foi. E munto...
Só basta que, logo no dia da abalada, aquilo até tôdes chigarem lá ô sito e mái os comprimentos e mái as tel'fonias a intrevistarem a famila e mái sê cá o quem, nã s' abalô d' Alcôtim senã já mêa-manhã prê adiante.
Despôs, havia p'r lá um ó ôtro que cudava qu' aquilo, os que chigassem ô fim im pr'mêro lugar, era p'a ganharem algum prém'o e, atão, abalaram logo à rôpa toda e lá iam que nem setas p'r aquelas ladêras prê acima.
Ora ê cá, que gosto de fazer as coisas à minha manêra, devagarinho e passo certo, vi-me impeçado p' ôs dar àgu-ento logo até à pr'mêra paraja p' à bucha. A minha sorte foi que tamém 'tava p'a lá um, béque-me alemão, assim um coisinho p' ô gordo, e o homem nã 'tava lá munto ac'st'mado a andar - p'a d'zer a verdade, vi jêtes d' ele arrèlar dum tôdo logo ô pr'mêro dia...
C'mo ele desatô a f'car p'a trás, pensí cá p'ra mim:
- Olha, esta vem a mê favor. Assim já nã sô ê cá a dar parte de fraco. Eles hã-de se ver obrigados a abrandar o passo e esperarem p'r o homem...
E assim foi.

Logo nos pr'mêros dias - e im quái tod' ô caminho - as vistas eram do melhor que possa ser e haver...
Atã e vomecêas, c'm' é que têm passado p'r cá? 'Tã uns belos môces ó quem? Des que fazeram p' aí umas festas im forte p'r tod' ô lado... Tanto se faz im Monchique, c'm' im Marmelete e Alferce, p'r o jêto foi uma coisa im grande...
M't' ôbrigado... este ano ajuntô-se o Maio com o Dia da Espiga, há-de ter sido o bom e o bonito... Dé-me cá uma pàxão de nã 'tar cá nesses dias que vomecêas nã calculam... E olhem que, Dia de Maio, foi q'ondo a gente abalô da Fonte dos Chorõs caminho de Marmelete, mái atão inda passar ô pé da Fóia e tudo, só se chigô lá a horas d' ajudar a c'mer um pórco qu' eles p'a lá 'tavam a assar...
Mái atão, s' ê tinha dado palavra qu' ia à Via Algarviana, tamém nã me f'cava bem voltar atrás... E, más a más, qu' ê cá gostí ô bem fêto daquilo. 'Tá bem qu' a lonjura era bem munta, mái nã dí o tempo p'r mal empregue. Inda, um destes dias, 'tava ê aqui munto bem com a minha Maria, num dia de cozedura, par'cé aí um amigo meu, o Chico Arvela, e 'teve-se a falar nisso.
D'zia-m' ele:

Lá p'r aquelas bandas tamém inda se vê disto...
- Ó ti Refóias, mái atão vomecêa, com uma idade dessas que já nã tem a r'jeza d' ôtres tempes, dêxa aí a sua patroa sòzinha com o governo todo, abala, vai-se imbora e passa este tempo todo sem vir a casa?!.. 'Tá bem qu' ê cá nã tenho nada com isso... Nã l'e parêça mal...
- Nã vim ê cá, mái foi ela lá!... Nã me diga qu' inda nã sôbe qu' a minha Maria, no dia qu' agente chigô a Silves, 'tava lá à nossa espera?!...
- Nã me diga...
- Pôs 'tava... Meté-se ma carrêra, abala caminho de Silves e olhe que nã l'e passô levar uma incomenda qu' ê l'e tinha fêto...
- Alguma rôpinha lavada p'a mecêa mudar...
- Qual o quem?!... Foi mái foi uma garrafinha de madronho qu' ê tinha dêxado aqui p' ô Dia de Maio, s' ela m' a alcançasse a Marmelete... Pôs levô-me-a logo nesse dia...
- Ai, marafados... e vancêas, méme tendo tanto caminho p'a andar, bobiam nela?...
- Era só à nôte, p' à sossega, amigo Chico... Só l'e digo que ele havia lá um alantejano que pegava nela cá duma manêra... Até se lembia...
Nisto, o mê compad'e Jôquim do Barranco aponta ali ô canto da rua e mete-se tamém na conversa, a antrar com-migo:

Quái na Foz do Barrêro, parece-me a Picota na frente, até se m' arrasaram os olhos d' água...
- Aqui o mê compad' Refóias, agora, meté-se-l'e na cabeça qu' inda dá acompanhado aí com essa malta nova a andar, faz estas figuras...
- Qual figuras, nem figuras!... Lá cuda qu' era só ê cá que lá 'tava desta idade?!... Fique sabendo qu' inda lá andava um com mái dôs ó três anos...
- Olha que grande d'f'rença...
- A si é qu' ê o qu'ria lá ver... Já anda aí a arrojar as botas que nem sola têm... Só s' a c'mad'e C'stóida fosse atrás de si com um moncho p'a vomecêa s' assantar d' ora im q'onto...
- Nã tem precisão nenhuma disso qu' ê cá nã vô-me lá... 'Tô velho, mái nã 'tô parvo... Agora vomecêa, há-de ser bonito as figuras que nã fez... Borrefas e roeduras já nã havera de ter lugar nos pés p'a tantas... e, nas ladêras acima tal havera de ser afègada que fazia... Par'cia ali a gata da minha C'stóida, a Bezeta, q'ondo l'e dá a gosma...
- Pôs fique sabendo que tanto roeduras c'm' borrefas foi coisa qu' os mês pés mã conheceram desta vez. E afègada tamém nã fazia nenhuma, ó o qu' é que pensa... Nã quero lá d'zer qu' uma vez ó ôtra nã me escalfasse um coisinho...
- Ê nã disse?!... É mái que certo!... Nessas ladêras acima havera de ser bonito...
- Atã há-de exp'r'mentar a abalar lá de baxo da Foz do Barrêro caminho da Picota, assubir aquela serra toda a d'rêto até ô bico e à hora da calma...

A R'bêra d' Odelôca levava uma bela água, toca de descalçar os sapatos. A ponte inda nã 'tá fêta...
- Nã se apequente, compad'e qu' isto é só uma mangação... Mái diga lá, atã e, às vezes, nesses matos nã davam assim com b'charada e coisas dessas?
- Eh'q... Caça, inda se vi bem munta... Mòrmente logo nos pr'mêros dias, aquilo era só casalinhos de perdizes a s' alevantarem p'r tod' ô lado. Agora ôtra b'charada... só p' ali umas cobrecas, um lagarto ó ôtro, um sapo ó dôs...
- É bichos qu' ê cá nã gosto...
- E devia de gostar... Atã que mal é que l'e fazem?... Comem-l'e os ratos e ôtres bichos que dã cabo aí das sus bejoarias e inda se quêxa?...
- Nã digo que nã tenha r'zão, más ê nã gosto...
- Pôs ê cá gosto e os qu' andaram com-migo tamém. Olhe um inda panhô uma cobra p'r o rabo - e que bela cobra - só p' à gente a ver bem mái ninguém l'e fez mal. E além na Corte Pequena até uma bicha a gente viu panhando sol no mê da estrada ali méme à tardinha...
- Isso saria bicha?!... Nã dô notiça de tal vivente há sê cá q'ontos anos... Isso, calhando, era uma cobreca qualquer dessas qu' andam aí a panhar ratos daqueles piquenalhos...
- Que jêto?!... Lá Cuda qu' ê nã sê munto bem o que é uma bicha... Olá, olá... Tinha aí uns uns dôs palmos de comprimenta, assim ôs quadros castanhos, com a cabeça de três pontas e aquele focinho arrebitado... Era uma bicha, sa senhora!... Até as meninas dos olhos sã ô comprido im vez de redondas...
- Eh'q!...

Im Monchique, foi um regalo passar p'r a Travessa das Guerrêras logo de manhãzinha cedo...
- Atã venha cá ver um retrato qu' ê l'e tirí, a ver se nã era...
- Ai tirô-l'e um retrato?... Atã dêxe lá ver...
Assim que l' o mostrí, o homem mudô logo de modos. Até o Chico Arvela s' admirô. Qu' ele, atão, tem um medo de cobras que se pela... Assim, béque-me, quái imbosnado, inda me prècurô:
- Ó ti Refóias, e nã teve medo dela l'e picar? Assim tã ô pé, s' ela l'e joga um fiaço...
- De'jando 'tava ela que ninguém l'e fazesse mal... O bicho nem ligô à gente e, q'ondo munto bem intendeu, abalô e lá se infiô num buraco de baxo duma pedra...
- Mái aquilo des que têm um bico no rabo que dá umas ferroadas qu' até berra... É o qu' ê semp'e tenho ôvido d'zer...
- Alguma vez?!... O rabo é c'mo d' ôtra cobra qualquer... Elas têm é dôs dentes ali na boca que alto lá com eles!... Em mordendem, dêtam um veneno p'a drento do sãingue da gente qu' o melhor é um f'lano ir logo caminho do hospital...
- Des qu' é munto pior qu' à picada duma alclara... - salta o compad' jôquim.
- Ah... p'r aí, sim... E olhe qu' a picada d' alclara tamém dói que se marafa...
- Mái, mudando de conversa, compad'e Refóias, vomecêa e os ôtres anderam méme aqueles quilómetros tôdes qu' eles dizem p'r aí? É que trazentos e tal quilómetros à pata quái que me parêce... assim um coisinho munto... E o Algarve nã tem tanta comprimenta...
- Ó fado dum ladrão!... Q'ontas vezes é qu' é preciso l'e d'zer?... A gente andava era p'r os cerros dum lado p'r ô ôtro. Nã se vinha a d'rêto. E fique sabendo que foram trazentos e muntos... S' eles fossem bem medidos, nã sê, nã sê...
- S' eles dizem trazentos e um, nã hã-de ser más...

Vá lá que p' ô lado de Sagres o caminho já nã tinha ladêras...
- Atã e os qu' a gente andô p'r ingano?... Aquilo era quái tôdes dias...
- Ai, que vergonha!... Com mapa e tudo e méme assim s' inganavam... Ê nem contava uma coisa dessas...
- 'Teja caladinho, que vomecêa, uma vez, já há uns belos anos, abalô daqui p'a Vila Nova e im vez d' ir p'a Senhora de Verde, meté p'a Perêra abaxo, foi parar ô Arão e só dé p'r isso quái ô chigar ô Odeáxare...
- Más isso inda ê cá era novo...
- Novo ó velho, nã perde nada im calar o bico... Atã e a gente que vêo méme d' ô pé de Espanha até ô Cabo de S. V'cente...
- P'r mecêa, agora, falar nisso, alembrí-me. Ele, nôtres tempos, nã havia p'r aí os Caminhos de S. V'cente?... Béque-me vinham espanhós e alentejanos aí p'r essa Serra fora até chigarem adonde par'ceu o barco com o corpo do Santo, se nã 'tô atribuído...
- Vá lá que lá disse uma acertada... Era assim tal e qual... E a Via Algarviana, num certo sintido, é uma coisa assim quái par'cida. E, p'r o jêto, im muntos pontos, passa p'r esses Caminhos de S. V'cente.
- Ah, ê vi logo qu' era isso!...
E tenho que me f'car p'r 'quí. Calhando a voltar a falar mái alguma vez da Via Argarviana, logo l'es conto o resto.
Querendem ver os ôtres retratos qu' ê cá tirí nos catorze dias da Via Algarviana, acalquem aqui na Galeria da Via Algarviana fazendem favor.
E passem munto bem, até um destes dias.


























