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07 julho 2011

As Pedras da Picota (Sienito nefelínico)

Exploração de feldspatos no concelho de Monchique - Sessão pública de esclarecimento
Verdade se diga, a Serra de Monchique tem sido Mãe d'a gente todos...


- Falando da Picota, ele andam p'r'í uns zum-zuns que há quem quêra fazer p' além mái umas pedrêras...

- E é bem verdade, sa senhora. Premode isso, ontordia, dí-me ô trabalho e fui ali à Caxa Agrícola, a uma reunião qu' eles fazeram p'a falarem desse caso.

- Atã e nã me disse nada?!... S' ê cá sabesse, tamém tinha ido...

- Olhe, ti Zé - era o ti Zé da Côrcha a falar com-migo - nã me leve a mal más ê cá tamém nã sabia. Calhô foi a ir nesse sáb'do, despôs do almoço, até ali ô alto da Praça e dar de frente com o parente Zé Caçapo na conversa com o mê compad'e Jôquim do Barranco.

- E o qu' é qu' isso tem?!...

- 'Pere aí qu' ê já le digo.

- Já 'tá a enventar...

- Que jêto?!... Os homens vinham tã emprensados na conversa um com o ôtro, com uma latomia qu' ê cá até cudí que tinha morrido alguém da famila... Olhe, nem deram p'r mim...

- E iam p' à Caxa Agrícola?

Exploração de feldspatos no concelho de Monchique - Sessão pública de esclarecimento
Os que 'tavam contre eram más...


- Nã senhora. Iam a tramelear a respêto dessas tás pedrêras que vomecêa falô inda agora.

- Ah, atã eles tamém tinham ôvisto d'zer alguma coisa a esse respêto...

- Pôs tinham. Mái nã se davam era intendido os dôs. Um que toma, outro que dêxa e cada qual clamava p'r sê lado.

- Atã e despôs?

- Despôs, tive que ir, assim, d'rêto a eles, dar um encalhão no ti Zé Caçapo - o "Verruma" l'e chama a gente - e foi c'mo eles deram notiça de mim. E, aí, meti-me tamém na conversa e foi q'ondo eles me d'zeram que, dali a um coisinho, ia haver essa runião na Caxa.

Voltí-me p'ra eles:

- Atã s' a gente fosse tamém ver o qu' é qu' os homens têm lá p'a apresentar?...

- 'Tá bom de ver qu' o ti Caçapo disse logo que sim. Agora o sê compad'e nã sê, nã sê... O homem, béque-me, tem medo desses sitos.

- D'zer a verdade, o mê ompadre é assim p' ô vergonhoso mái, inda assim, nã se fez munto fêo. E lá abalamos.

-Atã e que tal?

Exploração de feldspatos no concelho de Monchique - Sessão pública de esclarecimento
Assantados à mesa 'tavam lá uns dôtores. O da ponte de cá nã 'tava lá munto sast'fêto, nã senhora...


- Ora... É o de c'stume. 'Tavam uma remessa deles assantados num mesa, tudo dôtores, a darem a lição e os ôtros, c'm' à gente, da banda de cá, assantados cada qual na su cadêrinha, à escuta do qu' eles d'ziam.

- E falaram bem?

- Falar, falaram. Más aquilo era assim: os de cá de Monchique eram, béque-me, tudo contre. Ó se nã eram todos, faziam de conta. Os que nã eram de cá, punhana!, era tudo a favor.

- Atã, marafaram-se uns com os ôtros... Ai logo ê cá nã ter ido!...

- 'Pere aí, ti Zé, qu' isso nã foi bem assim. Inda hôve p'a lá uma quesilha com senhor Presidente e um dôtor que vêo, calculo ê cá, de Faro, mái aquilo nã teve dúv'da. Agora lá com uns estrangêros que se metiam no mêo da conversa dele é que a coisa teve que se l'e d'zesse.

- Ah, 'tavam lá estrangêros... E o qu' é qu' eles têm que se meter no caso?...

- Têm. Atã nã vê, eles moram já bem muntos àlém p'r aqueles charazes. 'Té l'e digo más: 'tavam lá mái estrangêros a ôvir aquilo do que memo cá dos nossos. E fique sabendo, eles inda eram os que 'tavam mái inrèxados com aquilo tudo. Levaram lá uns cartazes e tudo...

- P'a impertenecerem os ôtros?

Exploração de feldspatos no concelho de Monchique - Sessão pública de esclarecimento
O senhores Presidentes da Assemblêa M'nicipal e da Cambra tamém lá 'tavam assantados...


- Sa senhora, ti Zé. P'a d'zerem que sã contre.

- E lá esses tales dotôres nã se importavam?

- Ai nã s' emportavam... Aquele qu' ê cá disse que vêo de Faro chigô a um ponto que 'tava tã infèzado, tã infèzado, qu' ê cá vi jêtos dele abalar porta fora. É que havia lá umas alemôas que, d'ora im q'onto, nem no dêxavam falar...

- Atã e que jêto a famila nã querer dêxar eles tirarem as pedras de lá da Picota? Aquilo fazia algum mal? Só a mim ninguém me tira as que 'tão lá interradas nos mês cantêros. Q'ondo calha, dô-l'e com cada inxadada qu' até faz faísca...

- Ó ti Zé, nã sã pedras dessas, home... O qu' eles querem é arrencar aqueles moledos munto grandes que há debaxo do chão, c'm' fazem ali na Nave. P'a blocos e brita e essa coisa toda.

- É da manêra que arrenjam sito p'a muntos trabalharem...

- Sê cá se é p'ra muntos se é só p'ra mêa-dúiza qu' eles trazem logo lá d' adonde são?... Desem-magine-se qu' isto agora é tudo fêto com maquinaria.

- Mái semp'e hõ-de dêxar cá alguma coisa. Vã ôs cafés, ôs restarantes...

Exploração de feldspatos no concelho de Monchique - Sessão pública de esclarecimento
Inda assim, ajuntõ-se uma bela famila lá na Caxa p'a os ôvir...


- Isso hã-de ir. Atã e o resto? O mal que fazem?

- O qu' é eles poderão fazer p' aí assim tã ruim?

- Olhe, à uma, estafajam a Serra toda que nã se pode olhar p'ra ela, à ôtra, escalavardam aí as estradas adonde passam com esses camions carregados com um peso de bruteza.

- A Cambra logo as arrenja...

- Com que dinhêro? Atão eles vã pagar os impôstos é lá adonde eles pertencem... Nã sê se sã de Lisboa, se do Porto, se d' adonde são...

- Disso nã intendo nada...

- E ôtra que tamém tem que se l'e diga...

- Inda más?!...

- E a pòzêra p'a quem mora lá ô pé e samee lá umas batatas, um milho, umas bejoarias e tenha umas arvezinhas p'a c'mer uma frutinha em chigando o tempo dela?...

- Isso aí é que já é pior... Se me estragam uns albricoques qu' ê cá tenho ali que sã uma lindeza, má da volta...

- E há munto mái coisas, nã cude. O qu' é que 'tá agora aí a amentar todos dias?

Exploração de feldspatos no concelho de Monchique - Sessão pública de esclarecimento
Posto qu' a maior parte dos que 'tavam lá eram estrangêros. E danados qu' eles eram...


- Sê cá?!... O preço das coisas...

- Atã nã é os turistas? Mòrmente aqueles que gostam de andar à pata aí p'r essas veredas? Esses nunca mái além põem os pés, fique sabendo.

- Sabe-se lá... E isso já f'cô memo resolvido eles fazerem essas pedrêras?

- Nã f'cô nã senhora. Eles, agora, só querem é que os dêxem fazer p'r' í umas experimentaçons a ver se a coisa vale a pena. Despôs, logo se vê. Más sabem eles já, nã cude...

- Ah, isso, é mái que certo qu' eles já sabem muntíssemo de bem o que têm no sentido.

- Atão, aprecate-se que, daqui p'r dôs ó três anos, vai haver novas... Assim ê cá m' ingane.

Mês belos amigos, pensem vomecêas tamém no caso e, em havendo mái alguma reunião, vamos lá todos e cada qual que digo aquilo que acha bem ó mal. E logo se vê.

Dés l'e dê saúde a todos.

14 setembro 2007

Caminho de Santiago - A Pedra Furada

A Pedra Furada
A caminho de Barcelos, passa-se num sito qu' é a Pedra Furada...

Ontordia, contí a parte da Pedra Furada ô mê compad'e Jôquim do Barranco, andava a gente a ver p' ali umas Ol'vêras dele, das galegas - e, d'zer a verdade, elas nã 'tavam assim munto mal de zêtonas, precisavam era que chovesse uma gotinha d' água p'a elas engradarem.

Pôs, o marafado foi pr'a casa e contô-a à m'lher - a c'mad'e C'stóida. Ela, p'a nã s' inganar, falô nisso à minha Maria. Ora, a minha Maria, f'cô logo de rabo alçado com-migo p'r mode ê nã l'e ter falado já no caso a ela.

Des qu' ê cá, lá p'r fora, conto a minha vida, de fio a pavio, sem tirar nem pôr, e cá im casa, com ela, nã aibro pio. E, despôs, é logo desconfiada que nem o diacho e vá d' em-maginar, sê cá o quem, a mê respêto...

- O qu' é que se taria passado lá nesse tal sito da Pedra Furada p'a tu nã me d'zeres nada?... Ô compad'e Jôquim, sabeste tu contar logo tudo, más a mim nã me d'zeste nada...

- Ó m'lher, isso foi qu' inda nã tive ocasião. Aquilo dé-se tanta coisa, tanta coisa, naquelas dias tôd's que p'r lá andí, que nem im toda a vida e mái sês meses ê dô contado tudo... Umas que nã há tempo que chegue e ôtras qu' ê, tamém, nã m' alembro de tudo, assim de mimento.

- Más essa delas passarem lá p'r o buraco da pedra, béque-me, tem más que se l'e diga...

- Nã senhora!... Aquilo é uma coisa ingraçada que p'a lá uns inventaram, com respêto às m'lheres que serem capazes d' infiar p'r o buraco da pedra e passarem p' ô lado de lá.

- Atã, conta-me lá isso bem qu' ê cá quero saber c'm' é qu' a coisa foi... E nã dêxes nada p'a trás!...

A Pedra Furada
Tal acham esta hab'lidade? Inda é preciso ter coraja...

- Ó m'lher, aquilo nã tem nada de mal. É só uma brincadêra. Mái p'a fazer galhofa que ôtra coisa...

- Nã sê lá munto bem...

- Atã, nã vês, lá num certo sito adonde a gente passa, puseram um gradessíss'm' ô baloiso com um buraco na parte de cima. Uma coisa assim com uma largura que, mái ó menes, dê p'a passar os ombros e os quartos duma pessoa, méme que pertados.

- Atã, e se uma ser assim mái forte e nã dar passado as nalgas?...

- Nã se meta lá... 'Tá bom de ver... Más a más qu' aquilo tamém é preciso ter uma certa ginásquita...

- E as m'lheres vai tudo lá?...

- Olha, as qu' ê cá vi, foram todas. Cheguí lá, d'zer a verdade, já bem munto impeçado - com a molhadura inda im mê secar e os pés já nã os sintia - e, atão, apr'vêtí p'a sossegar um coisinho.

- E as qu' iam contigo?...

- Ó Maria, com-migo nã ia denhuma... Ê chigava, quái sempre, à últ'ma. Atã já nã t' alembras c'm' ê cá levava a perna?!...

- Ê sê cá se tu ias coxo ó s' aquilo era conversa tua... P'a veres tudo o que se passava com elas, já nã ias coxo, não!...

- Lá 'tás tu... Ia, sim!... Isto é tã puro c'm' à luz que nos alumêa!... Q'ondo lá chiguí, já elas 'tavam fêtinhas p' à brincadêra da pedra... Aquilo foi um 'stante, desataram todas a infiar p'r um lado e sair p'r o ôtro...

- Mái que raio de brincadêra é essa?...

A Pedra Furada
Méme cansadas e sabendo c'm' às coisas são, nã há nenhuma que nã se meta lá...

- Olha, ê prècurí lá o perquem das m'lheres fazerem aquilo e a r'posta que me deram foi que aquela pedra conhêce lá umas certas coisas a respêto de qualquer m'lher. Sabe s' a m'lher já foi... - c'm' é qu' ê cá t' hê-de d'zer isto... - se já teve... se anda sovada d' algum homem... Comprendes?...

- Ah, s'inda é virge ó não...

- Isso mémo!... E, calhando a ser, narce-l'e um môce-pequeno logo a seguir. É c'm' à pedra dá a intender a condição da m'lher que lá passa.

- E se nã ser?...

- Aí, nã narce môce-pequeno nenhum... Qu' é o que se dá com todas as que fazem a exp'r'mentação. P'r o jêto, inda nã hôve a pr'mêra que t'vesse tido esse tal môce-pequeno, logo ali...

- Atã, isso, é uma vergonha p' às que nã sã casadas... Ah, ê cá, se fosse soltêra, lá é que nã me metia... Nem pensar!...

- Nã te metias agora... Passavas lá tal e qual c'm' às ôtras...

- Que jêto?!... E s' a pedra s' inganasse?!... Tal era a rabana qu' ê panhava!... Nã, nã... Ê cã, im nova, nã ia nisso, nã cudes...

- P'a qu' é tu seres assim com'chosa dessa manêra? Aquilo é tudo p'a levar na ratoiça, Maria. Nã quêras crer nessa coisas...

- Atã, e com respêto ôs homens... tamém fazem alguma coisa?

A Pedra Furada
Há quem nã l'e custe nada fazer tal serviço...

- Qu' ê cá saiba, nã l'es pertence fazer nada, mái, se passarem lá, que mal é que l'es pode fazer?...

- Ora, essa dita pedra tamém podia d'zer quasequer coisa a respêto de vocêas...

- Beh!... O qu' é qu' ela podia d'zer, mom?!...

- Ora... Ê nã digo que tenho vergonha, mái, calhando, f'cava-se a saber munto. D’ alguns...

- Vê lá p' aí bem isso, olha qu' ê tamém exp'r'mentí a meter lá a galga...

- E a pedra nã falô?

- Pôs não... O qu' é qu' ela havera de d'zer?...

- Ora aí 'tá!... S' ela nã falô, alguma coisa t' incontrô. Boa nã foi ela...

- Nã, m'lher... Ê só m' assomí lá p'r o buraco, mái nã foi p'r nada. E, entes, disse logo que fazia aquilo im lugar da minha Maria. De manêras que, se nã se passô nada, foi com respêto a ti...

- Olá!...

- Sim... E, inda tem más ôtra. Ê, despôs, só passí dum lado p' ô ôtro p'r mode uma coisa. É que já tinha os braços da banda da frente e, de manêra nenhuma, os dava posto, ôtra vez, p'a trás...

- Munto gostava ê cá de ser uma mosquinha e ter lá 'tado p'a ver bem isso tudo munto bem visto...

- Olha, com a galhofa qu' elas p'a lá fazeram, foi uma barrigada de rir. Nã foi nem mái nem menes a nã ser isso... Pronto, já f'caste a saber.

A Pedra Furada
E tamém há os que gostam de charolar um pôcachinho...

E foi tal e qual desta manêra qu' as coisas se passaram.

O pior 'tava p'a vir a seguir. Com a paraja, arrefecé-se. E p'a s' andar o resto do caminho até Barcelinhos - e inda faltavam bem umas duas léguas, p'ra más do que p'ra menes - foi uns trabalhos... Mái, até ô intardecer, dé tempo p'ra tudo.

E, agora, se qu'rerem ver os videos todos dos retratos qu' ê cá tirí no Caminho de Santiago e nôtros sitos, acalquem aí:

E até qu' a gente se veja.