07 junho 2011

Dia da Espiga 2011

Dia da Espiga 2011, Monchique
A mêo da manhã, lá abalí caminho do Barranco dos Pisons com a famila da Junta...


Mái uma quinta-fêra d' às-sunção, mái um Dia da Espiga. E quem é que nã havera d' ir p' ô coçáiro num dia destes?!... Atã ele até é o feriado cá do nosso concelho... E digam-me lá se nã foi uma coisa bem pensada? À uma, que semp'e t'vemos este c'stume - quer-se d'zer, más as m'lheres qu' os homens... - de s' ir p'r 'í panhar flores p'a fazer o Ramo da Espiga. À ôtra, calha semp'e ô dia de semana - quinta-fêra...

D'zia-me o parente Tóino Rabaça, uma tarde destas, - foi no Domingo - àlém no adro da igreja, contando-me que a m'lher dele, a parenta Larinda do Tòjêro, tã penas chigô a casa, nessa tarde de quinta-fêra, assim pindurô o Ramo da Espiga p' trás da porta da antrada e aventujô o ôtro que lá tinha do ano passado:

- Se nã fosse isso, c'm' é q' uma pessoa, despôs, tinha saúde, sorte e fartura tod' ô ano?...

- Pôs, pôs. E alegria, tamém. E o qu' é qu' a gente fazia, em se vendo aflitos premode os trovons?...

- Inda más essa. É qu' aquilo, em fazendo trovons, uma pessoa quem-ma um pèzinho daqueles - p'r exempes, um coisinho d' olvêra - e jã nã cai nenhum perigo adonde a gente 'teja...

Dia da Espiga 2011, Monchique
E ia tudo munto advertido...


- Tal e qual, parente. Sem tirar nem pôr, foi o que se deu, inda este enverno. Uma ocasião, já bem de nôte, vem um trovão, ôvi-se aquele grande barrano, a minha Larinda, qu' é do mái medroso que possa ser e haver, panhô uma rabana tã grande ó tã pequena, abala a fugir da cama d'rêto à casa de fora, nã tardando nada, já ê cá me chêrava a chamusco...

- Quem-mô-se nalguma brasa do lar ó o perigo tinha caído lá?...

- Nã senhora, parente!... Foi b'scar a caxa de forfes, puxô fogo ô Ramo da Espiga, aquilo 'tava já bem munto seco, alô im menes de nada...

- Atã dé fim dele todo logo duma assentada...

- Olhe, quái que dava... Mái, d'zer a verdade, ê cá tamém m' alevantí logo atrás dela, dí-le uma manita e inda l'e salví uns q'ontos panascos.

- E os trovons, parente? Desparceram ó quem?...

- Inda soô ôtro, bem forte, ali p' ô perto, mái a gente usa tamém a pedir logo à Santa Bárba e demos em ôvi-los lá mái p' ô longe...

- Santa Bárba bendita, que no céu 'tá escrita e na terra...

- Foi isso mémo, parente Refóias. Foi isso mémo... Aquilo, a santa Bárba, é uma santa que nunca falha. Em havendo trovons, rezo-l'e semp'e a oraçanita dela. E veja lá se já alguma vez me caíu algum perigo im cimba da minha casa. Nunca!...

 Dia da Espiga 2011, Monchique
D'ora im q'onto, panhava-se mái uma florzalha p'a compôr o ramo...


- Atã, daquela vez que mecêa inda morava lá na Chã da Mula Velha, nã se deu uma coisa dessas? Diziam pr' aí, béqueme, que tinha caído lá um perigo...

- Mái nã foi im riba da casa, parente... Foi numa sobrêra que 'tava lá quái no bico do cerro, uma bela sobrêra, más inda era longinho do mê monte. Uma coisa assim c'm' daqui àlém a S. Roque. Mái estrameceu tudo, nã cude...

- Numa sobrêra, parente Tóino? Mái, atão, ê cá tinha idéa que foi madronhêro...

- Ehq!... Só se caíu mái algum im tempos qu' ê cá inda nã morava lá. A sobrêra até f'cô toda arrachada e perdé-se e tudo... Aquilo antrô-l'e pro bico, vêo pro tróço abaxo im parafuso e meté-se pra terra adrento, veja lá...

- E a sobrêra caíu logo im fanicos?

- Nã... Ela arrachô d' alto a baxo, f'cô com a corcha toda descolada, mái levô inda um belo tempo a cair p' ô chão. Pr'mêro, secô-se. Despôs, passados aí uns três ó quatro envernos é qu' o tróço f'cô todo podrido e ela amajulô no chão.

- Pro jêto, aquilo era um sito munto dado a essa coisa dos trovons...

- Ora se era!... Eles, béque-me, até atraíam lá. Havia quem d'zesse que, drento do cerro daquela banda de lá, logo preciminho da pôça do córgo alto, havia umas pedras que tinha azôgue e, atão, os trovons acudiam lá todos...

 Dia da Espiga 2011, Monchique
A mêo do caminho, ó pôco más, já ele havia quem t'vesse uns ramos mái vistôsos que sê cá o quem...


- Mái, voltando ô que se 'tava a falar, que tal achô a festa lá no Barranco dos Pisons?

- Cá p'ra mim foi do melhor. Ali a mêo da manhã, meti-me na camineta da Câmbra, levaram-me até lá, já a minha Larinda tamém lá 'tava que tinha ido a pé com a famila da Junta p'a arrenjar o tal Ramo da Espiga. Ôvi a missa assantado numa pedra lá à rés do barranco e, despôs, inchi a barriguinha com umas coisas que puseram lá p'r aquelas mesas...

- Pôs... Ele era frango assado, panito do casêro, bolo de tacho e p'r 'í fora... P'a nã falar numas garrafas que tamém lá 'tavam...

- Cale-se aí, parente!... Vinho, melosa, aguardente... Cada qual apresentava o melhor que tinha. Ê cá proví umas q'ontas, más aquela do ti Costa... Ai a do ti Costa!... Homem marafado!... Aquilo nem se sentia às goélas abaxo...

- Era da boa, sa senhora, qu' ele tamém me deu um calcesinho e sôbe-me que nem ginjas. Más ê cá 'tava mái afalcoado que vomecêa qu' ê tamém fui à pata désna da Vila até lá, atrás da famila da Junta.

- Nã t'vesse sido parvo. Fosse com-migo na camineta que nã se pagava nada... Se 'tava com medo pagar b'lhete, já sabe que a Câmbra nã leva nada. É tudo de graça.

- Lá 'tá mecêa!... Nã foi lá premode isso. Ê cá é que gostí d' ir assim a pé. Bem sabe qu' é uma coisa qu' ê gosto de fazer é andar...

- E que tal?

 Dia da Espiga 2011, Monchique
A Missa Campal, 'tá bom de ver, é tôdes anos no mémo sito...


- Ora... Foi do melhor. A lonjura nã era munta, a companha era boa, aquilo, a maior parte da famila era mulherio e moços-pequenos - aqueles meçalhos fardados de calçanitos e camisa v'rde-negra...

- Ah, os escutêros...

- Sa senhora. E já sabe c'm' é que é o mulherio. Vai semp'e tudo na galhofa... Era a ver qual é que se apresentava com o Ramo da Espiga mái bonito. E olhe que parceram lá algumas que saberam compor aquilo muntíssemo de bem...

- Parente, nã conhece aquele ditado que d'zia: 'quem sabe da luta é quem na labuta'? E elas é que lidam com flores é que sabem compor o Ramo...

- 'Tá bem visto... Já há bem munto tempo qu' ê cá nã ôvia essa. Tamém vomecêa sabe bober umas boas copadas d' aguardente. Toda a vida panhô madronho e o estilô...

- E mecêa, não?!... Olhe que lá nesse dia, ê bem no vi já com olhos todos piscos e a rir e mangar c'm' nã é sê c'stume...

- Isso é que 'tava sast'fêto...

- Ê bem vi que 'tava. E sê munto bem o perquém. Foram aqueles calcesinhos dela que mecêa imborcô lá da do ti Costa masturada com a d' ôtres amigos que tamém levaram umas garrafinhas da deles...

- Nã diga isso, parente Tóino!... Inda alguém cuda pr' aí qu' ê cá sô algum relaxado...

- Nã digo tanto. Mái que mecêa, parente Refóias, já 'tava um coisinho escorvado, nã diga que nã 'tava...

- Alguma vez?!...

 Dia da Espiga 2011, Monchique
À hora das sopas, parêce semp'e alguma coisinha p'a se dar ô dente...


- Atã e despôs, naquele estado, c'm' é que dé voltado p'a casa?

- Nã goze qu' ê cá nã 'tava escarado. Vá lá que 't'vesse, assim, um coisinho p' ô antrado... Más, olhe, despôs daquilo tudo, tive lá um amigo bom que me vêo trazer à porta de casa. Calhô-me mémo ô queres. Nã tive que 'tar à espera da via da Junta nem de me pôr a andar ôtra vez a pé...

- Quem é ruim, tem semp'e sorte...

Pronto, mês belos amigos, foi assim a minha quinta-fêra d' às-sunção, mái conhecida por Dia da Espiga.

Querendem ver mái mêa-dúiza de retratos desse dia, acalquem aqui na Galeria do Dia da Espiga.

E, já agora, vejam tamém este video da Missa Campal lá no Barranco dos Pisons:



Ó, atão, vejam aqui todos os 'Videos Refóias no YouTube'

E, fiquem-se com Dés.

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