16 julho 2010

Fui a Santiago e já vinhe...

Caminho Português de Santiago - 2010
A bandêra de Monchique foi semp'e pindurada na minha mochila...

Abalí p'a Santiago e, c'm' nunca mái dí r'môr, mecêas cudavam todos qu' ê cá nã tinha dado lá chigado. Ó, atão, qu' inda p'a lá andaria ô Dés dará, e, premode isso, 'tava mái caladinho que nem um rato, p'a nã dar parte de fraco.

Pôs tirem daí o sintido, os que cudavam isso, qu' ê cá já fui, já vinhe e mái que fosse... Que leví um coisinho a dar remôr, é verdade. Lá isso leví. Mái cá 'tô ôtra vez e, em calhando, inda sô homem p'a me meter nôtra. Tem é que ser uma coisa assim que tenha mái que se l'e diga.

E, já agora, aprevêto p'a l'es falar que nã há nada c'm' ter manêras e comprimentar os amigos. 'Tejam com Dés e sejam munto bem p'r 'qui parcidos. Só l'es 'tô dejando é que tudo tenha corrido bem p'r cá, mòrmente, que nã l'es faltasse a saúde.

Caminho Português de Santiago - 2010
Im certos sitos até par'cia a gente qu' andava aqui p'r os nossos lados...

Com respêto à minha viaja a pé até Santiago de Compostela, aquilo foi c'm' quem infiava caracós. Tirando uns impendiclos que parceram, foi andar até mái não, que chovesse qu' aventasse, e, im nove dias, já a gente tinha chigado do Porto até lá.

O mê compadre Jôquim do Barranco, q'ondo ê cá l'e contí isso, tã penas chiguí, nã queria crer. Des qu' ê o 'tava a querer indròminar. Ai indròminar... E inda l'es digo más, até im sete dias ê cá e a minha Maria se fazia aquilo. Atã nã se fazia?!... A gente, em se pondo a andar, somos c'm' dôs foguetes...

Agora, os mês amigos e parentes - mòrmente o compad'e Jôquim, o Adelino da Desmoitada, o parente Luís Agúida, o Tóino Luzicuco, o parente Zé Caçapo e inda mái alguns... - andam é semp'e no gozo a antrarem com-migo premode ê ter perdido o bordão qu' ê cá levava p'a m' arrimar.

Caminho Português de Santiago - 2010
Na Ponte das Tábuas, chovia qu' até zunia...

Era um bordanito fêto duma vara de castanho, todo munto bem afêçoadinho com a minha faquinha d' alsebêra qu' aquilo qualquer um até cudava qu' ê o tinha comprado já fêto. Dava ares a ter passado num torno e tudo. Lisinho que nem uma seda!...

Pôs, d'zer a verdade, logo no sigundo dia de marcha, vô-me matar o bicho lá a uma venda im Vilarinho - e olhe que foi um mata-bicho c'm' deve de ser que tinha-se umas cinco léguas p'ra frente, p'ra más que p'ra menos - pus o pau p' trás da porta p'a nã empecilhar ninguém e, à abalada, com aquela marafunda toda, desqueci-me dele.

Com a mochila, a máquina dos retratos, os óculos de pó, a bandêra de Monchique e tal e tal... só dí p'r falta do raça do bordão já a gente tinha andado, sê cá, aí c'm' da Nave ô Pé da Cruz, ó coisa assim.

Caminho Português de Santiago - 2010
Ninguém pode d'zer qu' os caminhos nã sã bonitos...

Ora, já nã me fazia jêto envredar p'a trás e perder aquele tempo todo só premode um pau. Inda hôve quem pertasse com-migo para voltar lá à tal venda, más ê cá ramordí cá p'ra mim:

- Vô-me ê cá, agora, gastar as solas das botas... isto, ir e vir, dá perto duma légua... com tantas qu' ê tenho p'a dar à perna... Barimbo-me más é no bordão... Logo arrenjo ôtro aí p'ro Caminho e vô-me afêçoando nele à medida que possa.

E assim fiz. Más, olhem, nunca mái me vêo tal coisa à idéa e fui até Santiago sem pau nenhum p'a m' arrimar. Foi menes um empecilho a me estrovar. Mái lá que me dé um coisinho de remôrso nã posso d'zer que nã me deu...

O pior é qu' os marafados, agora, andam semp'e a se meterem com-migo qu' ê cá que perdi o pau p'ro caminho... Nã vêem lá isto?!... Diz o parente "Verruma" - c'm' o é alomeado o ti Zé Caçapo:

Caminho Português de Santiago - 2010
D' ora im q'onto, tamém s' aparava e descansava-se um coisinho...

- Atã, Refóias, perdeste o pau, já mandaste vir ôtro? C'm' é que te governas sem ele, home?

Responde o Adelino da Desmoitada, semp'e munto metediço:

- Eh'q... Isso, o homem com a idade que tem, já nã precisa. E, em precisando, pede o dum amigo imprestado...

E levam nisto o tempo todo que 'tão ô pé de mim. Uma vez ó ôtra, até quái que já me marafí com eles, mái faço de conta que nã é nada com-migo e que nã alcanço qu' eles me 'tão a querer espetar a pua. Isto nã há nada c'm' uma pessoa se fazer desapercebido...

Agora, com respêto à viaja, a coisa nã corré munto mal. Panhô-se tempo p'a todos os gostos e fêtios. Ele fez sol, ele aventô, ele choveu e frio tamém par'ceu algum. Nada qu' uma pessoa nã 't'vesse já a contar désna que pusemos à idéa d' ir p'a uma coisa daquelas.

Caminho Português de Santiago - 2010
Em chigando a Santiago, até dã um diploma à gente e tudo: a "Compostela"...

E, atão, ia-se bem aprecatados com todos os preparos p' ô que desse e viesse. Se chovia, vestia-se as capas, s' aventava, punha-se o corta-vento, se fazia sol, despia-se isso tudo e punha-se o abêrão na cabeça, e, em fazendo frio, vestia-se um albernoz...

Sim, qu' aquilo, há uma coisa qu' uma pessoa tem méme que fazer. É andar. Tôdes dias temos qu' ir até um certo sito e nã se pode olhar à lonjura. É dar à perna e nã olhar p'a trás. Foi o qu' a gente fez e nã se demos mal.

Atão, hoje, fica-se p'r 'qui e, ôtra vez que calhe, logo se fala mái neste caso. Querendem, acalquem aí nessas coisas qu' ê vô-me pôr aí à frente e vejam os retratos qu' ê cá tirí e tamém uns videos do Caminho. E fiquem-se na paz, até qu' a gente se veja.

Caminho Português de Santiago - 2010
Apresentação de diapositivos no Picasa




Videos do Caminho no YouTube




Video do Bota-Fumeiro no YouTube



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Galeria de fotografias Refóias

E passem munto bem.

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