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16 julho 2010

Fui a Santiago e já vinhe...

Caminho Português de Santiago - 2010
A bandêra de Monchique foi semp'e pindurada na minha mochila...

Abalí p'a Santiago e, c'm' nunca mái dí r'môr, mecêas cudavam todos qu' ê cá nã tinha dado lá chigado. Ó, atão, qu' inda p'a lá andaria ô Dés dará, e, premode isso, 'tava mái caladinho que nem um rato, p'a nã dar parte de fraco.

Pôs tirem daí o sintido, os que cudavam isso, qu' ê cá já fui, já vinhe e mái que fosse... Que leví um coisinho a dar remôr, é verdade. Lá isso leví. Mái cá 'tô ôtra vez e, em calhando, inda sô homem p'a me meter nôtra. Tem é que ser uma coisa assim que tenha mái que se l'e diga.

E, já agora, aprevêto p'a l'es falar que nã há nada c'm' ter manêras e comprimentar os amigos. 'Tejam com Dés e sejam munto bem p'r 'qui parcidos. Só l'es 'tô dejando é que tudo tenha corrido bem p'r cá, mòrmente, que nã l'es faltasse a saúde.

Caminho Português de Santiago - 2010
Im certos sitos até par'cia a gente qu' andava aqui p'r os nossos lados...

Com respêto à minha viaja a pé até Santiago de Compostela, aquilo foi c'm' quem infiava caracós. Tirando uns impendiclos que parceram, foi andar até mái não, que chovesse qu' aventasse, e, im nove dias, já a gente tinha chigado do Porto até lá.

O mê compadre Jôquim do Barranco, q'ondo ê cá l'e contí isso, tã penas chiguí, nã queria crer. Des qu' ê o 'tava a querer indròminar. Ai indròminar... E inda l'es digo más, até im sete dias ê cá e a minha Maria se fazia aquilo. Atã nã se fazia?!... A gente, em se pondo a andar, somos c'm' dôs foguetes...

Agora, os mês amigos e parentes - mòrmente o compad'e Jôquim, o Adelino da Desmoitada, o parente Luís Agúida, o Tóino Luzicuco, o parente Zé Caçapo e inda mái alguns... - andam é semp'e no gozo a antrarem com-migo premode ê ter perdido o bordão qu' ê cá levava p'a m' arrimar.

Caminho Português de Santiago - 2010
Na Ponte das Tábuas, chovia qu' até zunia...

Era um bordanito fêto duma vara de castanho, todo munto bem afêçoadinho com a minha faquinha d' alsebêra qu' aquilo qualquer um até cudava qu' ê o tinha comprado já fêto. Dava ares a ter passado num torno e tudo. Lisinho que nem uma seda!...

Pôs, d'zer a verdade, logo no sigundo dia de marcha, vô-me matar o bicho lá a uma venda im Vilarinho - e olhe que foi um mata-bicho c'm' deve de ser que tinha-se umas cinco léguas p'ra frente, p'ra más que p'ra menos - pus o pau p' trás da porta p'a nã empecilhar ninguém e, à abalada, com aquela marafunda toda, desqueci-me dele.

Com a mochila, a máquina dos retratos, os óculos de pó, a bandêra de Monchique e tal e tal... só dí p'r falta do raça do bordão já a gente tinha andado, sê cá, aí c'm' da Nave ô Pé da Cruz, ó coisa assim.

Caminho Português de Santiago - 2010
Ninguém pode d'zer qu' os caminhos nã sã bonitos...

Ora, já nã me fazia jêto envredar p'a trás e perder aquele tempo todo só premode um pau. Inda hôve quem pertasse com-migo para voltar lá à tal venda, más ê cá ramordí cá p'ra mim:

- Vô-me ê cá, agora, gastar as solas das botas... isto, ir e vir, dá perto duma légua... com tantas qu' ê tenho p'a dar à perna... Barimbo-me más é no bordão... Logo arrenjo ôtro aí p'ro Caminho e vô-me afêçoando nele à medida que possa.

E assim fiz. Más, olhem, nunca mái me vêo tal coisa à idéa e fui até Santiago sem pau nenhum p'a m' arrimar. Foi menes um empecilho a me estrovar. Mái lá que me dé um coisinho de remôrso nã posso d'zer que nã me deu...

O pior é qu' os marafados, agora, andam semp'e a se meterem com-migo qu' ê cá que perdi o pau p'ro caminho... Nã vêem lá isto?!... Diz o parente "Verruma" - c'm' o é alomeado o ti Zé Caçapo:

Caminho Português de Santiago - 2010
D' ora im q'onto, tamém s' aparava e descansava-se um coisinho...

- Atã, Refóias, perdeste o pau, já mandaste vir ôtro? C'm' é que te governas sem ele, home?

Responde o Adelino da Desmoitada, semp'e munto metediço:

- Eh'q... Isso, o homem com a idade que tem, já nã precisa. E, em precisando, pede o dum amigo imprestado...

E levam nisto o tempo todo que 'tão ô pé de mim. Uma vez ó ôtra, até quái que já me marafí com eles, mái faço de conta que nã é nada com-migo e que nã alcanço qu' eles me 'tão a querer espetar a pua. Isto nã há nada c'm' uma pessoa se fazer desapercebido...

Agora, com respêto à viaja, a coisa nã corré munto mal. Panhô-se tempo p'a todos os gostos e fêtios. Ele fez sol, ele aventô, ele choveu e frio tamém par'ceu algum. Nada qu' uma pessoa nã 't'vesse já a contar désna que pusemos à idéa d' ir p'a uma coisa daquelas.

Caminho Português de Santiago - 2010
Em chigando a Santiago, até dã um diploma à gente e tudo: a "Compostela"...

E, atão, ia-se bem aprecatados com todos os preparos p' ô que desse e viesse. Se chovia, vestia-se as capas, s' aventava, punha-se o corta-vento, se fazia sol, despia-se isso tudo e punha-se o abêrão na cabeça, e, em fazendo frio, vestia-se um albernoz...

Sim, qu' aquilo, há uma coisa qu' uma pessoa tem méme que fazer. É andar. Tôdes dias temos qu' ir até um certo sito e nã se pode olhar à lonjura. É dar à perna e nã olhar p'a trás. Foi o qu' a gente fez e nã se demos mal.

Atão, hoje, fica-se p'r 'qui e, ôtra vez que calhe, logo se fala mái neste caso. Querendem, acalquem aí nessas coisas qu' ê vô-me pôr aí à frente e vejam os retratos qu' ê cá tirí e tamém uns videos do Caminho. E fiquem-se na paz, até qu' a gente se veja.

Caminho Português de Santiago - 2010
Apresentação de diapositivos no Picasa




Videos do Caminho no YouTube




Video do Bota-Fumeiro no YouTube



Caminho Português de Santiago - 2010
Galeria de fotografias Refóias

E passem munto bem.

08 maio 2010

Dia de Maio em Marmelete

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A famila de Marmelete foi quái tudo ô passêo da Junta...

Désna de moço-pequeno, foi uma coisa qu' ê cá sempre gostí de fazer foi, Dia de Maio, ir desmaiar p'r 'í p'r esses cerros. Em chigando tal dia, que chova qu' avente, nã me venham cá com coisas qu' ê tenho qu' abalar im companha de q'ontos amigos quêram fazer o mémo. É um costume qu' a gente cá tem, o qu' é que mecêas querem?...

E digam-me lá se nã é uma coisa bonita a gente s'a ajuntar uns com os ôtros, levar-se um farnel, uma garrafinha d' aguardente e um bolinho de tacho e ir-se p' à giraldina o dia todo, sem cudados com ôtras coisas?... Dêxa-se o trabalho p'a trás, dêxa-se tudo e vá pagode...

E, atão, agora qu' inda 'tá tudo mái ô queres... Uma pessoa só tem precisão de dar o nome uma semana entes, lá na Junta, e, Dia de Maio de manhã, 'tar a jêto ô pé na Casa do Povo e abalar atrás daquela famila toda. Sem nunca os perder de vista, nã vá uma homem s' inganar e ir p'ra v'reda errada...

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Ia tudo munto contente, mãi o mulherio, atão, nem se fala...

É certo e sabido qu' aí mái ó menes lá p' ô mêo do caminho, a Junta há-de-se apresentar com quasequer coisinha p' à gente dar ô dente. 'Tô falando de Marmelete, 'tá bom de ver, que foi adonde ê cá este ano fui desmaiar com a minha Maria. Com a minha Maria e mái uma rabanhada de gente, béque-me uns cento e oitenta, perto ó certo...

Os mês compadres além do Barranco, esses nã foram. Nã é qu' eles nã gostem, que gostam ô bem fêto, mái atão a comad'e C'stóida, ontordia, incalhô p' ali num tanganho fez um golpe méme prebaxinho do artelho, tem fêto mèzinhas até mái não, méme assim aquilo arejô, quái que nã dá andado.

O mê compadre tamém tem p' ali com umas quêxas, umas dores nas cruzes, um formiguêro nas pernas... Anda sempre caminho dos Perêros - vai a um end'rêta que p'a lá há - mái nã l'e vejo melhoras nenhumas... Ê cá até já l'e disse:

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
No Cerro dos Picos é que foi o bom e o bonito...

- Compadre, isso é coisa de bicos de papagaio... Mecêa vá más é ô dôtor a ver s' ele l'e manda tirar uma chapa, pode ser que acuse lá alguma coisa.

- Que jêto?!... Atã nã vê qu' isto sô ê cá que 'tô desmanchado, nã é coisa p'a dôtor?... Foi um jêto qu' ê cá dí, já faz um belo tempo, àlém a pular aquele combro p'ra baxo. Ê sê cá s' isto até nã sará algum nervo trocido?...

- Ó mê belo amigo, atã a gente faz-l'e já aí uma benzedura!... Maria traz-me lá aí uma sovela e um novelo de linha...

- Bom, bom, bom....

- Vá qu' ê cá faço-l'e já aqui a cantilena...

- Dêxe-se de gozo, compad'e Refóias...

- "Osso quebrado, nervo trocido / s' é osso quebrado, vai p'a dond' é que foste criado / s' é nervo trocido, vai p'a dond' é que foste narcido / osso quebrado, nervo trocido..."

E, ô mémo tempo, fazia a amenção de 'tar a espetar a sovela num novelo de linha.

- Olhe qu' algum dia pode-l'e acabedar a si... E, despôs, semp'e quero ver o qu' é que mecêa faz...

Bom, mái deixamos isso da mão. Ô certo, ô certo é qu' os pobrezinhos dos mês compadres, desta vez, nã puderam ir desmaiar.

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A Senhora Presidenta andô a dar uns calcesinhos dela. E, p'a fazer boca, era um bolo de tacho do melhor...

E o qu' eles nã perderam, mês belos amigos... O tempo 'tava qu' era uma classe. Nã fazia munto sol, mái tamém nã chovia. Verdura p'r tod' ô lado. As mongariças tudo im flôr. Rosas-albardêras do mái lindo que possa ser e haver. Méme alguns maios já 'tavam capazes de panhar. Atã e o resto?!...

Hôve lá uns q'ontos, calhando com medo de l'e faltarem as forças a mêo do caminho, qu' aquilo, no prencipo, era munto de ladêra acima, que bela lembrança que t'veram... Levaram umas garrafinhas d' aguardente p'a, de q'ondo im vez, boberem um calcesinho dela e darem tamém ôs amigos.

Ora, aqui e ali, tamém m' acabedô um solvinho. E boa qu' ela era, que nem se sentia às goélas abaxo. Agora à cabeça chigava ela bem depressa. P'r menes, d' alguns parentes e amigos que lá 'tavam, que bastava l' olhar p' à cor da cara - encarnados que nem uns p'mentos - e ver os gangueõs qu' eles davam... Aquilo, havia lá menino que já só andavam de zambareta...

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A descer todos os santos ajudam. E, atão, já nã vinha ninguém com os bofes de fora...

E isto p'a nã falar de q'ondo se chigô ô Cerro dos Picos. Aquilo lá é que foi... A senhora Presidenta e mái as ôtras senhoras e homens lá da Junta, apresentaram-se com uma catrefada de coisas p' à famila comer e bober, toda a gente incheu a barriguinha.

Ê cá e más a minha Maria - e umas amigas dela qu' ê nã alomêo aqui, nã vã elas se marafar - tinha-se matado o bicho logo munto cedo e um coisinho à pressa p'a nã chigar atrasados. De manêras que, já há um belo pôco que se tinha aqui um bichinho a rabear.

Ora, jogamos-se todos ô decormerzinho que lá parceu foi um vê se te havias. Im menes de nada, aquilo desparceu quái tudo. E a senhora Presidenta sempre a trabalhar im forte. Até dava gosto ver uma pessoa assim, inda tã novinha mái semp'e munto dada e pronta p'a acontentar toda a gente.

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Havia sitos tã bonitos que nã l'es sê incarecer...

E levava um bolo de tacho e um madronhito... Quem é que se podia negar a uma coisa daquelas tã boa?!... Até a minha Maria imborcô um calcesinho dela e duas fatias de bolo-de-maio... E diz que 'tá d' adiata premode nã sê o quem. O que saria se 't'vesse...

Más isto foi o que se passô só no passêo. Que, da parte da tarde, lá na Casa do Povo, só quem lá foi, que contado ninguém acredita. Era pórco assado, torresmos, carne frita... E um balho im forte.

Só l'es sê d'zer que vim de lá todo escadraçado. É qu' a minha Maria, em pegando a balhar, leva as modas todas a êto. Todas l'e servem e nã quer perder nenhuma...

E p'r 'quí me fico. Querendem ver mái alguma coisa do Dia de Maio im Marmelete, acalquem nessas coisas aí a seguir:

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Apresentação de diapositivos no Picasa




Video do passeio no YouTube



Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Galeria de fotografias Refóias

E até um destes dias.

16 fevereiro 2009

Uns penedros munto bem caçados...

Rochas da Malhada Velha - Loulé
Olhando bem, nã se vê logo qu' é um macaco...

Ná sê se vomecêas já deram p'r isso, más ê cá, d' ora inq'onto, vô-me dar aí uns passêos com aqueles môces da Almargem. E, nos entervalos, tamém uso a ir aí p'r esses cerros e barrancos com umas moças qu' ê cá conheço e que gostam d' andar metidas aí ô mato.

Pôs, um destes dias, eles mandaram recado aí p'ra internet, des qu' iam ver umas pedras mê estrambólicas qu' havia lá na Malhada Velha. Mái nã é esta aqui de Marmelete... É uma Malhada Velha que há além p' às bandas de Loulé - aquele sito adonde se vai à festa da Mãe S'b'rana.

'Tá bom de ver que, em tendo via, ê cá 'tô semp'e fêto p'a coisas dessas, más aquilo a coisa nã corré munto bem e chigô-se ô fim do tempo e a gente nã dé o nome. P'a melhor ser, à últ'ma da hora, lá par'cé a tal dita via e um homem fica sem saber o que fazer...

Abalar sem ter dado o nome era, béque-me, assim uma arção um coisinho p' ô fêo, mái, tamém, f'car im terra, com uma via ali às ordes, nã me calhava nada bem...

Digo p' à minha c'madre C'stóida, que 'tava im pulgas p'r que nã abalava:

Rochas da Malhada Velha - Loulé
Aqui, cada um d'zia a sua. Cobra, lagarto, cágado e, béque-me, dinossáiro..

- Nã sê o que faça c'madre... Tenho béque-me vergonha de par'cer lá assim sem mái nem quem, mái tamém me dá custo de nã ir, com uma via tã boa aqui à porta...

- Vamos, sa senhora, compadre. Que jête nã s' ir?!... Eles nã se l' hã-de par'cer mal, nã senhora. Atã uns môces tã porrêros...

- Cá p'r mim nã vô-me a banda nenhuma!... Nã gosto de fazer figuras... T'vessem dado o nome a tempo e horas... Quem é qu' as mandô fazer as coisas assim?... - Salta logo o compad' Jôquim, todo munto senhoril.

Vem a minha Maria im favor da c'madre:

- Ai nã se vai!... Era o que faltava!... Isso de nã dar o nome nã tem emportâinça nenhuma. Eles querem é q'ontos más melhor... Vamos e pronto!...

Ô certo, ô certo, é qu' elas foram, foram e lá convenceram o compad' Jôquim e, im menes dum foguete, já a gente lá ia tôdes a caminho.

E uma coisa ê l'es vô já d'zer: mor'ceu bem a pena. Nem que me matassem, me passava p'r a cabeça, d' ir dar lá com uma coisa daquelas... P'a quem 'tá ac'stumado a ver só aqui a Pedra da Zorra ó o Penedo do Buraco ó ôtras assim, aquelas têm que se l'e diga.

É uns padragulhos, uma coisa temente... Grandes e cada qual com o sê fêtio. Uns parêcem bichos, ôtres até quái que fazem alembrar famila e ôtres nem sê o qu' é que parêcem... Sê cá se nã sarão medos?...

Logo o pr'mêro, uns des que tinha jêto de ser a cabeça dum lagarto, ôtres que saria duma cobra, ôtres dum cágado e uma dôtora que p'a lá 'tava qu'ria, p'r força, qu' aquilo fosse um dinossáiro... E, calhando, saria... P'ra alguma coisa ela estudô...

Rochas da Malhada Velha - Loulé
Cá p'ra mim, iste nã passa sem ser um velho insombrado...

Más isto era só o pr'mêro... Despôs deste, inda demos com uma preçanada deles. Um, cá p'ra mim, nã tinha nada que ver... Era um macaco... O mê compadre inda se pôs a acossar a cabeça e béque-me e a desconfiar, q'ondo ê cá l'e disse isso. Más aquilo era um macaco, nã me venham com coisas... Um macaco daqueles gorilas...

O ôtro, quái de certeza, nã afianço, mái aquilo era um velho insombrado qu' andava a penar, pagando o que fez cá neste mundo... Um medo... Uma coisa assim... Más a minha c'madre C'stóida des qu' aquilo l'e fazia alembrar era um anão dos da Branca de Neve. Beh!... Pode ser que seja, mái nã l' acho munto jêto...

Foi-se andando p'r aqueles matos, era só baloisos e mái baloisos, qu' ê cá nã nos dô amostrado todos aqui... Olhe, um, lá mái adiante, tôdes d'ziam que era aquele passarão qu' o Benfica usa a pôr a avoar lá no campo da bola. Uma àiga. Mái 'tava lá uma moça que vêo do Porto e dá escola ali p'a Faro, disse logo:

- Uma áiga?!... Vá lá que seja um sapêro... ó um bufo... Os lampiõs têm p'a lá um bicho desses mái aquilo nã passa sem ser uma coisa comandada a pilhas. Nã é áiga denhuma, nã cudem...

Más ê cá digo e volto a d'zer, aquilo tinha jêto de ser uma áiga. Tinha sa senhora.

Logo ali mái pralàzinho, olho entremêo duns charavascos, vejo, béque-me, uma cabeça de gente. Logo, inda quái que panhí medo, dí assim um rafujão p'a trás e nã me contive:

Rochas da Malhada Velha - Loulé
Iste sará um homem de "Cro-Magnom", c'm' disse uma dôtora que p'a lá 'tava?...

- Tó diébe, o qu' é que 'tá p' ali escondido p' trás daquelas tôiças?!... Aquilo é uma cabeça dum...

- Adonde, adonde, compad' Refóias?...

- Ali... Nã vê c'pad' Jôquim?... P' trás daquelas moitas, em par do sol...

Diz logo o saganheta:

- Dá ares a si... O nariz... Aquela cachimóina comprida...

- Só s' a si!... Vá lá charingar ôtro!... Qu' ê saiba nã tenho a cabeça assim compridona c'm' àquele... E careca nã sô...

- Mái fez-me alembrar mecêa, o qu' é que quer?... Tal e qual, um dia destes, que vomecêa 'tava todo descrapuçado lá debaxo daquela sobrêra p' trás de casa...

Diz a tal dotôra, que 'tava logo ali arrumada à gente e nã tem nada em ter ôvisto a conversa toda:

- Cá p'ra mim, aquilo é um bom exemplar do "Homem de Cro-Magnom"...

- O qu' é qu' ela disse, c'padre?!..

- Sê cá?!... Falô p' ali num homem quasequer. Ê cá nã no conheço, nã me precure, qu' ê afianço que nã no conheço... Nunca ôvi falar dele. Isso há-de ser algum nortenho lá da terra dela...

Nisto, 'tava a gente munto bem sa senhora boa vida nesta conversa - bàxinho, 'tá bom de ver, p' à m'lher nã ôvir o que se d'zia - olhí àlém p' à frente, já o resto da famila 'tava tudo junto, num grande ôrío, à rés dôtra pedra tamém munto bem caçada. E, p'r o jêto, tem que se ter conta com ela...

Vô-me lá ô pé, ponho-me à escuta, d'zia a minha Maria:

- Ah, s' ele é lá isso, quem nã passa ali sô ê cá... Mecêa passa, c'mad' C'stóida?

- Ê cá?!... Nem pensar!... E se, despôs, nã dô voltado p' à banda de cá?!...

- Atão, tem aí alguma calêra ó covato que seja má de passar?... - Prècurí ê cá.

- Podem ir qu' a gente os dôs, despôs, puxame-se-as cá p'ra riba ôtra vez... Um pega num braço, ôtro nôtro... - diz o c'pad' Jôquim.

- Qual o quem?!... Nã é nada disso!... Vocês andam semp' aí desmandados e, despôs, nã ôvem a dexplicação das coisas... Nã é c'mad' Maria?...

- Nunca sã capazes de 'tar aqui ô pé da gente. Andam semp'e desviados... Se há vendas perto, é p'r que há e vã logo p'a lá b'ber uns copes, se nã há, é p'r que nã há e tamém nã param adonde pertence 'tarem...

Rochas da Malhada Velha - Loulé
Mái quem é que se astrevia a passar na Porta do Além, senhor?!...

- Jôquim, se t'vesses aqui ô pé da gente, c'm' ê te digo semp'e p'a 'tares, tinhas ôvisto o jêto d' a gente ter medo de passar p' à banda de lá. Mái tu nunca 'tás...

- E o meu é o mémo!...

- Mái atão, no fim de resto, nã passam p' à banda de lá premode quem? É alguma coisa que nã se possa saber?...

- Nã vês qu' isto aqui é a "Porta do Além"?!... Quem passa p' à banda de lá nã se sabe se dá voltado...

- E já algum desparceu?...

- Des que sim... Que já há quem tenha desparcido... Passaram p' à banda de lá e levaramn um sumiço que nunca mái ninguém os viu...

- Atã dêxa-me lá tirar já um retrato entes que vocês sejam todas ser ingolidas e ê cá e o compad' Jôquim nunca mái s' as veja...

- Ai tu abusas?!... Quêra Dés nã te calhe a ti!...

- Ê cá tamém tenho munto respêto p'r essas coisas, c'madre... Más o homens, já sabe...

Bom, a conversa inda durô munto más, mái ê fico-me p'r 'quí.

S' irem lá à Malhada Velha, uma coisa l'es digo: tenham munta conta com a "Porta do Além". Nã vã elas se dar...

E, p' ôs que quêram ver mái alguns retratos, acalquem aqui na galeria do passêo da Malhada Velha que 'tá lá tudo.

Tenham munta saúde, mês belos amigos.

09 fevereiro 2008

O mê intrudo foi na Costa d' Al'zur...

Passeio da Almargem na Costa Vicentina – 02 a 04-02-2008
A água 'tava mái fria qu' ôtra coisa, mái p'a rafrescar os pés...

Ontordia, logo bem de manhão, 'tava ali panhando uma erva-de-febra p' ôs coelhos, dí com-migo a pensar o qu' é qu' havera de fazer este intrudo. E pus-me a falar d' alto, méme sòzinho, qu' isto, nesta idade, um homem, em se descudando, faz cada figura...

- Mái atão, o qu' é qu' uma pessoa vai fazer agora nestes dias d' intrudo?... Nôtres temp's, inda se punha p' aí uns trapos na cara e ia-se fazer umas partes uns ôs ôtres, agora, já nã há quem se meta nisso...

E desatí a fazer uma amenção - só cá p'ra mim, 'tá bom de ver - do qu' isto era no mê tempo e o qu' é agora. Mái, parí logo com isso que me dé cá uma pàxão tã grande ó tã pequena que mecêas nã em-maginam...

Vô-me p'a casa, nã tratí logo dos coelhos qu' a erva 'tava um coisinho molhada e tive qu' a dêxar a inxugar um belo pôco, nã fossem eles impanzinar p' ali e morrerem-me tôd's, c'm' se dé no enverno passado. De manêras que, fui mái foi ô mata-bicho qu' inda 'tava im jum.

É qu' ê cá, logo q'ondo m' alevanto, nã me dá jêto comer coisíssema nenhuma e, quái sempre, só venho ô quebra-jum já despôs de fazer qualquer serviço e me passar o fastio da manhã, e, méme assim, inda uso a l'e bober um calcesinho dela - dos piquenalhos... - que des qu' é do melhor que há p'a quem seja fastiento e quêra abrir o apetite.

Foi assim, já a tarrincar p' ali uma côida de pão com uma rodela de chôriça, qu' ê cá me volto p' à minha Maria e l'e falo no caso:

Passeio da Almargem na Costa Vicentina – 02 a 04-02-2008
As más das vezes, tinha que s' ir tôd's d' infiada qu' a v'reda era bem pertada...

- Nã ôves, Maria, mái atão a gente vai-se f'car aqui atafulhados im casa, fêtos parvos, qu' isto nem parêce intrudo nem parêce nada?...

Foi o qu' ela quis ôvir, mês amigos... Assim saltô logo com as réplas dela qu' ê cá, de mimento, f'qu'i que nem sube c'm' me defender:

- Olha, calha bem vires com essa conversa, qu 'inda ontesdontem, a Bètinha me falô nisso e des que, nos dias tôd's do intrudo, aquela famila lá da Almargem andam a ver se dã fêto um passêo àlém p' à costa d' Al'jur, p'r a aqueles cerros tôd's à rés do mar, désna d' Odecêxe até Vila do Bispo...

- Eh lá!... E nã achas qu' isso é um puxo grande demás p' às nossas posses?!...

- Nã me digas que nã temos mêa-dúiza d' eros p'a pagar o qu' eles levam da gente dar o nome...

- Nã é isso qu' ê digo, m'lher... Ê 'tô falando é d' a gente s' aguentar a andar essa lonjura toda... Atã, andas-te semp'e a quêxar dos calos... e das dores nas cruzes e sê cá más o quem, e inda t' astreves a uma coisa dessas?...

- Más é qu' aquilo é im quatro dias, nã é tudo d' infiada... Ó cudavas o quem?...

- Mái méme assim... Sê cá s' uma pessoa, na nossa idade, inda dá àgu-ento a andar tanto?...

- Tu tens é medo d' arrèlar...

- Olá!... Nâ faltava mái nada... Vê lá se és tu que te vás abaxo...

E, q'ondo mal sube, já ela me tinha inrolado e, méme que nã qu'sesse ir, já nã tinha cara de voltar a trás. De modes que, lá tive que d'zer que sim p'a ela tel'fonar à Bètinha p'a dar os nomes da gente junto ô dela. E, Sáb'do Gordo, lá se pusemos a mexer, caminho d' Al'zur.

Passeio da Almargem na Costa Vicentina – 02 a 04-02-2008
Andava-se, andava-se e só se via era cerros e mar à nossa frente. Mái uma coisa bonita...

Mái, nã l'es digo nada, mês belos amigos!... Aquilo, logo no pr'mêro dia, foi chover até mái não!... Inda a famila se 'tava a ajuntar toda lá na Praia do Odecêxe, já ele pingava. E vento nã se fala... E, no segundo, tamém, nã cudem...

'Tá bem qu' a famila ia toda já a contar com o má tempo, mái nunca ninguém cudô qu' aquilo se sarrasse d' água logo a mê da manhã e só descampasse, de vez, no dia a seguir, já bem lá p' ô lado da nôte... E foi isso que se deu. Olhem que, tanto no pr'mêro c'm' no segundo dia, ninguém se gabô de chigar ô fim sem panhar uma molha, mái daquelas que nem um fio inxuto uma pessoa tinha...

A minha Maria, que nã l'e pode cair uma pinga de chuva na cabeça - nã l'e vá dar cabo da permanente... - fica logo toda alvoraçada, bem que levô uma coisa de plástico p'a se tapar, com capuz e tudo, e mái uma sombrinha e mái nã sê o quem... E de munto l'e serviu... Ora, ali méme à rèzinha do mar e com a ventania que fazia...

E, despôs, nã era só isso. É que, d'ora im q'onto, panhava-se assim um barranco p'a atravessar. Aquilo já nã bastava se vir tôd's molhados p'r cima e méme da centura p'ra baxo premode o caminho 'tar pôco pisado e as estevas e mongariças roçarem nas nossas pernas, inda se tinha que pular dum lado p' ô ôtro im sitos que nã davam condiçõs...

Ora, é certo e sabido qu' aquilo dava sempre má resultado... Quem nã descorregasse dum lado e batesse com as nalgas no chão, nã se livrava de, uma vez ó ôtra, dar um salto, ele sair-l'e curto, e aterrar com os sapatos inda drento d' água.

P'a incurtar de razõs, qu' ê cá desse p'r isso, tanto num dia c'm' nôtro, rôpa e calçado chigô tudo a escorrer água ô fim da viaja...

Passeio da Almargem na Costa Vicentina – 02 a 04-02-2008
Des que naquele penedro àlém drento d' água já hôve um linho d' áiga...

Com a minha Maria 'té que se dé uma parte que foi do mái ingraçado qu' ê já vi. Olhem que me fartí de rir com aquilo. Sem ela ver... que s' ela visse, 'tava a coisa torta cá p' ô mê lado...

Foi ali já p' ô fim da tarde, se nã 'tô im erro, lá ô pé daquela rocha adonde um casal d' áigas pesquêras t'veram linho até há uns dôs ó três anos - a Pedra da Agulha, na Arrifana. E olhem que foram as últ'mas que par'ceram cá im Portugal. Morreram as duas, coitadinhas, acabô-se-l'e o inço. Agora quem quêra ver bichos desses só s' ir ô estrangêro...

Más a gente assantô-se os dôs ali im cimba duma pedra daquelas de talisca, lisinha, e vá de comer uma bucha que trazemos de casa, qu' a fome já pertava e a fraqueza 'tava a qu'rer t'mar conta duma pessoa. A minha Maria, p'a nã s' inganar, descalça os pés, d'zia ela qu' era p'a arejar... Ê cá f'quí assim um coisinho imbatucado, dig'-l'e:

- Ó Maria, vê lá o qu' é que 'tás a fazer... Volta lá isso ali mái p' ô lado, nã vá chêrar p' aí mal dos tês pés à famila...

- Qual chêrar mal, qual quem... 'Tã aqui mái lavadinhos que lavadinhos!... Atã tenho vindo com os sapatos chêos d' água désna desta manhã... O dia entêro de molho nã tará avondo p'a f'carem limpinhos?...

- Ó m'lher, mái atão que parvidade é essa?...

- Parvidade?!... Olha lá bem pr' aqui... Nã vês?... 'Té os calos despar'ceram... Este, atão, qu' ê tinha aqui na sola do pé, levô sumiço que nã no sinto já pelo menos. E este aqui no dedo miminho, só já se vê o sito adonde ele 'tava...

- Lá cudas que m' indròminas assim sem mái nem menes. Atã, nunca dás conta deles, andas semp'e a d'zer que vás à calista, que vás à calista - mái nunca vás - e, agora, só d' andares um pôcachinho a pé passava-te os calos sem más esta nem más aquela... Vai inganifar ôtro...

- Cachamorra!... Atã 'tô-te a falar verdade e tu nã queres crer no qu' ê te digo?!... Olha lá bem pr' aqui!...

Passeio da Almargem na Costa Vicentina – 02 a 04-02-2008
Andar descalço im cimba deste cascalho?!... É más é melhor molhar o calçado...

E prantô-me com o pé méme à rés do nariz p'a ê cá ver bem. Q'ondo me vejo naquele empeço, inda me sustive um belo coisinho sem tomar ar com medo de nã me vir p' ali alguma baforada de má-chêro, mái, d'zer a verdade, o pé dela até que nã 'tava nada sujo, nã senhora...

E os calos... era tal e qual c'm' à m'lher 'tava a d'zer. Já vomecêas viram?!... Aquilo, com o andar e os pés semp'e molhados, foram roçando no sapato, foram roçando... desparceram. Agora o resto da pele, nã quêram saber c'm' é qu' ela 'tava... Tudo inrrugado, tudo marafado... Nã l'e doía, já era bom.

Más olhem, aquilo, ô tercêro dia, dêxô de chover, foi um consolo. Qu' ele, a Costa Vicentina é semp'e uma coisa do mái bonito que pode ser e haver, agora, fazendo um sòlinho c'm' fez, uma pessoa sinte-se um coisinho mái sast'fêto.

E inda l'es digo. Abalô-se uns trinta - p'ra más que p'ra menes - do Odecêxe, e, ô Castelejo, só se chigô pôco mái de mêa-dúiza... Uns que f'caram sem fio inxuto e nã tinham rôpa p'a mudar, ôtres que tinham de trabalhar na Sigunda-Fêra Gorda, ôtres que nã s' aguentaram nas canoiras...

Mái corré tudo do melhor. Aquela famila da Almargem nã é só serem boas pessoas - que são - é que fazem tudo tã bem fêto que ninguém tem nada que l'es d'zer... Melhor nã há.

E fic'-me p'r 'qui, senã levava a contar as passajas todas do passêo e nã saía daqui senã lá pr' amanhã...

Em tendem ocasião, vã até àquelas bandas que mái bonito nã incontram im lado nenhum. E, já agora, vejam uns q'ontos retratos qu' ê cá tirí p'r lá - só uma pagela pequena - aqui na Galeria da Costa Vicentina.

Fiquem-se com Dés e nã abusem munto na carne qu' a q'ôresma já antrô. Nôtres tempos, inda havia as bulas, agora já nã há nada disso...

Até qu' a gente se veja.

22 dezembro 2007

O passêo da Almargem à roda das Caldas

Passeio da Almargem nas Caldas de Monchique - 16-12-2007
Em panhando uma ladêrinha abaxo, aquilo era tudo que nem umas fitas...

Nã sê se vomecêas já ôviram falar na Almargem. Ê cá, até há coisa dum mês ó dôs, o que sabia deles era o qu' ôvia na tel'visão. Assim naquelas ocasiõs que há p'r 'í uns que nã dêxam a famila cortar as sobrêras, e os carvalhêros, e as adelfas, e os azevinhos...

E quem diz isso diz as barrajas e aquela coisa duns gatos brabos - eles chamam-l'e Lince Ibérico - que des qu' inda havia pr' aí, mái a gente tôd's sabe que, desafortunadamente, já nã há nem um p' à amostra. Era bom era qu' eles inda havessem, mái atão...

Pôs, agora, já cheguí à fala com alguns e f'quí a saber qu' aquilo é famila que s' ajuntaram uns q'ontos e se combinaram p'a nã dêxarem acabar com o resto de coisas boas qu' inda p'r í há. S' irem ver lá no site deles, 'tá lá isto:

A ALMARGEM tem como objectivos principais: . o estudo e divulgação dos valores mais significativos do património natural, histórico e cultural do Algarve; . a defesa intransigente desses mesmos valores e a apresentação de propostas concretas para a sua recuperação e valorização; . a promoção de actividades que visem um desenvolvimento local integrado e respeitador da natureza;

E atão, q'ondo sube qu' eles vinham fazer um passêo ali p' às bandas das Caldas, nã descansí inq'onto nã fui dar o nome. E a minha Maria, que nã quis f'car atrás, fez o mémo. E nã dé só o dela... inda arrenjô mái umas amigas de lá de baxo do Algarve, que sã moças que tamém gostam destas coisas.

De manêras que, chigado o dia, lá par'cemos tôd's nas Caldas, cada qual com o sê farnel e uma gotinha d' água p'a bober p'r o caminho. 'Tá bom de ver que cá o Parente é que teve qu' alancar com aquilo tudo às costas qu' a minha Maria e as amigas dela nã 'tã ac'st'madas a cargas pesadas...

Passeio da Almargem nas Caldas de Monchique - 16-12-2007
Na Azenha da Mitra, aparô-se um pôcachinho p'a ôvir uma dexplicação...

E inda leví uns bordanitos de castanho p'a cada um s' afincar naqueles lugares assim mái más d' andar. Um barranco, uma ladêra mái impinada, uma coisa assim. E tamém qu' um f'lano, em andando aí duma légua p'ra diante, méme im caminho d'rêto, dá-l'e jêto um bordanito p'a s' enqu'librar...

Mái, nã senhora... As velhacas, vergonhôsas c'm' são, assim que se viram lá no mê daquela famila toda, tudo senhoras dôtoras e pref'ssoras e nã sê quem, nã sê quem, jogaram logo os paus p'a drento da via e barimbaram-se nisso, foram de mãs a abanar.

Ê cá inda disse:

- Maria, olha qu' inda vás ter míngua do bordanito... Vê lá, mái tarde, nã fiques repesa de nã no levar...

- Qual o quem!... Vergonha tinha ê cá d' ir agarrada a um porro desses... Inda se fosse um c'm' àquele qu' aquela senhora além leva...

E c'mo é que era o dessa tal senhora?... Era uma coisa comprada, calhando aí num artesanato, que l'e custô os olhos da cara, com uma corrêa de coiro numa ponta, p'a infiar no pulso, e béque-me um picão de ferro na ôtra p'a s' afincar no chão.

D'zer a verdade, aquilo era bonito. E, calhando, tamém jêtoso p'a nã descorregar im qualquer caminho, seja ele barrento, cascalhento ó lá munto bem o que ser. Mái os mês bordanitos de castanho qu' ê cá fiz com tanto cudadinho - descasquí-os im verde e alisí-os, munto bem alisadinhos, com a minha faquinha d' alsebêra qu' ê comprí na fêra, vejam lá... - tamém serviam munto bem...

Más elas nã qu'seram, nã qu'seram... Olhem, semp'e tenho ôvido d'zer que "p'a quem nã quer há de sobra" e, atão, nã há nada c'm' à gente nã se ralar. Dexá-las...

Passeio da Almargem nas Caldas de Monchique - 16-12-2007
Assubir uma ladêra impinada c'mo esta nã é p'a qualquer um...

E, assim sendo, lá se fez horas de pôr a trôxa às costas e abalar atrás daquela chusma deles. Delas e delas, 'tá bom de ver... Só se teve de pagar p'a lá uns dôs ó três eros cada qual, des que pre mode um seguro, coisa assim.

Aquilo, ô prencipo, a coisa corré que foi um consôlo. Era de ladêra abaxo, ia tudo que nem umas setas, ora, im menes de nada, se 'tava na Azenha da Mitra. Aí, aparô tudo e vá uma prelecção.

Pus-me à escuta, era um senhor, assim coisa da minha idade ó inda más, e o homem via-se que sabia bem o que 'tava a d'zer. Tanto que 'tava tudo com o fito nele duma tal manêra que nã s' ôvia mái nada que nã fosse o qu' ele d'zia e p' ali a água do barranco a correr.

Tamém inda par'cé p'a lá um passareco - um foinzalho qu' andava a panhar mosquitos no ar - dé dôs ó três pios e assim se calô. Nã sê se f'cô tamém a ôvir o homem falar ó se nã gostô da nossa companha e abalô foi-se imbora de lá do bico da f'guêra adonde ia descansar de cada vez que dava um avoão atrás dos mosquitos.

Mái, com respêto à Azenha da Mitra, em tendo jêto, logo l'es falo dela mái a precêto, que hoje nã dá tempo.

E assim abalamos até lá mái prebaxinho da Foz do Banho, adonde 'tá aquela pontezinha p'a s' atravessar p' à banda de lá. Assubir aquela chapada toda até estrapôr da altura p' ô lado da Arqueta foi já uma coisa que alguns viram-se e desejam-se, agora q'ondo tocô a ir mémo ô bico do Cerro da Arqueta, aí nã l'es digo nada...

Passeio da Almargem nas Caldas de Monchique - 16-12-2007
Já se tinha c'mido uma bucha, era horas de assubir o Cerro do Navete...

Olhe, a minha Maria e as amigas dela qu'seram-se armar im fortes - qu' ê cá bem l'es disse p'a irem prê adiante p'la carr'lêra qu' iam dar ô mémo sito, más elas nã ligaram - e abalaram a trás de mim, cerro acima. Ora aquilo é quái a pique, q'ondo olho p'a trás, lá 'tavam elas béque-me já a arrèlar, uma sigurava num braço da minha Maria, ôtra puxava-l'e p'r o ôtro...

Abalo prêabaxo, oiço-as numa grande conversada:

- Ai qu' ê nã posso más!... Custo já a tomar ar... - Chiava a minha Maria.

- Vá que só já falta metade!... Nã é verdade, ti Refóias?...

- Uma àmetade ó menes...

Disse ê cá munto limpêro. Ora uma àmetade... Inda elas nã tinham assubido das três ó quatro partes uma, q'onto más uma àmetade...

- Atã, 'tã p' aí impeçadas?...

- Eh'q... É a su Maria que 'tá a fraquejar um coisinho... Des que tem andado com falta d' ar...

- Ah, s' isso é fraqueza, arrenja-se já aqui uma buchazinha. Queres pã com chôriça ó com morcela, Maria?

- Nã quero nada... Nã vês qu' ê tenho é falta d' ar?!... Vai lá andando qu' a gente já lá chega...

Mái, olhí assim p' à bandinha de lá, vejo umas madronhêrazalhas baxinhas - eram arrebentos das que arderam nos fôg's - todas carregadinhas de madronho e tudo madurinho qu' era uma lindeza. Vô-me caminho delas e panho uma manchinha.

A Florbela, qu' é mái g'losa p'r madronhos que sê cá o quem, assim que me vê com aquilo na mão, salta logo p'a ê cá l'os dar:

- Ai que coisa tã boa que mecêa traz aí!... Gosto tanto!...

- Ai mecêa gosta?!... Atã, tome-os lá e dê tamém um ó dôs à Bétinha e à minha Maria, a ver s' ela toma coraja e assobe o resto do cerro...

É, menino!.. Jogaram-se as três a c'mer madronhos, inda tive qu' ir panhar mái uns q'ontos qu' elas nã me largavam...

Passeio da Almargem nas Caldas de Monchique - 16-12-2007
Nã bastava os tojos e as mongariças no mê do caminho, senã inda este p'nhêro atravessado...

- Tenham conta com isso, olhem que, se c'merem muntos, inda ficam p' aí almareadas... Olhem qu' eles já 'tã bem munto maduros e, com o sòlinho que tem vindo aí, rendem bem...

Naquilo, olho bem p' à minha Maria, vejo-a agarrada a um bordão dos tás com o picão e a corrêa de coiro.

- Mái atão, nã qu'seste trazer o bordanito qu' ê cá te fiz e, agora, já vás, aí, agarrada a esse?!...

A Bétinha, qu' é munto marafada p' ô lanedo, nã esperdiçô a dêxa, salta, logo, sem papas na língua:

- Ora, atã ela incontrô aqui um pàzinho munto melhor qu' ô seu... Foi um moço novo que l' o imprestô. Olhe p'a esta categoria... Tem uma agarra do melhor e uma ponta dura que nem ferro... Olhe p'ra isto, ti Refóias... Adonde espeta nã desagarra nem p'r nada...

- Cala-te aí, desbocada!... Tem tento naquilo que dizes, qu' a famila ôve... - Diz logo a minha Maria, a fazer-se d' invergonhada.

- Atã, nã é verdade?!... Compara lá isso, um pàzinho tã manêrinho, com aquele tanganho qu' o tê homem queria que tu trazesses. Torto que nem um garrôcho...

- Vocêas fazem pôco do velho, mái dêxem 'tar qu' ind' às hê-de ver repesas...

E nã conto más, que, q'onto mái ê cá l'e puxava p'la língua mái ela se chigava p' à frente, e dá-me um coisinho de vergonha de pôr aqui o resto. Mái que disse das boas, lá isso disse...

Passeio da Almargem nas Caldas de Monchique - 16-12-2007
Ô fim, méme tudo desmarrido, inda se tirô o retrato à jolda toda...

Agora, só mái uma coisa. Atã nã é que no mê daquilo tudo - e olhem qu' era p' à banda de mê-cento de homens e m'lheres... - nã 'tava famila nenhuma de cá de Monchique... Tirando ê cá e a minha Maria, nem más um que lá foi!...

Têm medo d' andar a pé ó quem?... Ó é premode terem de pagar três eros cada um? S' é premode isso, assocêem-se na Almargem, c'm' à gente fez, que eles tiram-l'e um ero no preço. Ó sará que têm vergonha d' ir dar à perna p' ô pé dos de fora...

S' é esse o caso, nã tenham medo qu' eles, a maior parte, a mê do caminho, já vã a afègar e, nas ladêras acima, atão, nã se fala... E s' a gente s' ajuntar muntos, semp'e pode ser qu' eles p' aí se vejam obrigados a arrenjar uns q'ontas v'redas p'r essa serra p' à famila fazer uns passêos destes sem ter que se passar p'r o alcatrão.

'Tã a ôvir, pessoal aí das Juntas e da Cam'bra... Vejam lá se olham p'r isso, senã, qualquer dia, só se dá andado p'r as estradas alcatroadas, e mal, que nem bermas têm, sujêtos ôs carros passarem p'r cimba da gente.

E agora vejam, na Galeria do Passêo da Almargem nas Caldas, os retratos deste passêo e digam lá se vale a pena ó se nã vale.

Tenham muntas prendas no sapatinho e passem um Natal munto contentes com os filhos de vomecêas e toda a famila.

10 junho 2007

O passêo do Corpo de Deus

Passeio do Corpo de Deus - Monchique
Entes da abalada, hôve quem desse o derrijo, p'a ninguém s' inganar...

Dia de Corpo de Dés, fazeram p' aí um passêo a pé p'a quem qu'sesse ir. Foi a Câmara que se meté nisso - e fez muntíss'mo de bem, qu' ele há p'r 'í famila que já quái que nã tira, com l'cença da palavra, as nalgas da cadêra - e, p'r o jêto, já nã é a pr'mêra vez que faz tal coisa, que já hôve ôtro nôt' ocasião.

Tã penas sube, mái õ menes à mêa-nôte da béspra, que foi q'ondo me fui assomar lá ô site da Câmara, pus-me logo a fancos p'a m' alevantar cedo e dar de vaia à minha Maria p'a ela s' alevantar e ver se s' achava com coraja p'a ir tamém e, ô méme tempo, arrenjar um farnelinho p'a se buchar a mê do caminho.

É que vê-me logo à idéa qu' a Câmara, c'm' anda assim um coisinho de cartêra vazia, nã havera de dar nada a quem lá fosse. Ó atão, vá lá que desse - c'm' deu - p' ali uma garrafeca d' água a cada um. E méme assim, calhando, nã teve nada im ser alguma lembrança lá deles das Caldas...

Isto, agora, tamém, já sará um coisinho de má-língua, qu' ê cá nã sê, ô certo, se foi se nã foi. A gente, quái sempre, tem-se p'r c'stume de d'zer mal das coisas sem mái nem quem e, d' ora im q'onto, só saem é parvoêras da boca de cada um.

Passeio do Corpo de Deus - Monchique
Logo ô prencipo, era a decer, nã custava nada...

De manêras que, falando verdade, só tenho a d'zer bem, que foi uma bela idéa dos da Câmara e, em fazendem mái alguma coisa daquelas, digam, qu' ê cá e a minha Maria só s' a gente nã saber ó nã se dar ido p'r qualquer r'zão é que nã se vai.

E p'a se saber, nã saria má idéa pôrem p'r 'í uns editás, mái que nã fosse, ali no Largo dos Chirõs e anunciarem na Rádio Fóia - qu' é uma coisa que toda a gente ôve - e méme até na missa. Calhando, pedindo-l'e com jêtinho, o senhor Prior era capaz de nã se furtar a fazer esse favorzinho...

Mái, dêxemos isso e vamos ô resto.

O dia 'tava do melhor p'a tal serviço. Bem munto infarruscado, mái, d' ora im q'onto, par'ceia um coisinho de sol. Fresquinho, com uma arajazinha ali do lado da Fóia, andava-se qu' era um incanto.

Ô prencipo, até ali p' ôs lados da Amorosa, era a decer, tudo andava qu' até zunia, mái im se voltando p'ra cimba, aí, a coisa t'mô ôtro jêto, qu' as canoiras d' alguns deram im fraquejar... É qu' aquilo, p'a quem nã tenha grande fôl'go, inda é uma ladêra marafada...

Passeio do Corpo de Deus - Monchique
No Corte Perêro, via-se montes com uns belos assentamentos de casas. Famila de posses, 'tá bom de ver, mái inda tudo a dormir...

P'a alcançar o Corte Perêro, más a más já vindo a pé désna da Vila, nã é qualquer um que dá, sem que nã l'e escorram umas bagas de suor p'r a cara abaxo e tenha qu' aparar a mê do caminho p'a tomar fôl'go...

Más, im chigando ô canto de cima da ladêra, dá-se com uma vista bonita. Uns belos assentamentos de casas - de famila com posses, 'tá bom de ver... - e uns belos cantêros, tudo tratadinho.

C'm' dava ares à famila inda 'tar tudo a dromir, que nem r'môr davam, inda hôve quem l'e viesse à cabeça panhar p'r 'lí uma laranjinha ó duas, qu' elas 'tavam méme a pedi-las e calhava bem ingolir quasequer coisinha. Mái foi só um derrepente que nã passô dali, nã fosse a famila l'e par'cer mal.

E lá s' abalô, ôtra vez, d'rêto à Nave, com os santos tôd's à ajudarem, qu' era a decer e de que manêra. S' um homem nã metia travõs a fundo, abalava à mecha toda, nã sê adonde é qu' o iam panhar. Drento d' algum balsedo, calhando...

Passeio do Corpo de Deus - Monchique
Na decida p' às bandas da Nave, dé-se com esta vista. De fêa que é, até fica bem no retrato...

E, com os tacõs das botas semp'e bem afincados no chão, nã tardando nada, já se 'tava a ver a pedrêra da Nave. Aquilo, cá p' à serra, é c'm' uma chaga qu' a gente tenha na nossa orgada. E daquelas que nunca mái se curam, das bem malinas... Mái p'a tirar retratos, dá semp'e jêto.

Um destes dias, em tendo jêto, logo l'es falo p' aí desta pedrêra com mái tempo, qu' isto é uma coisa que tem que se l'e diga. Mái, d'zer a verdade, inda ando a dar voltas ô miolo p'a ver c'm' é qu' ê cá vô-me fazer a coisa, de manêra a nã d'zer muntas alarvêrices. Qu' aquilo s' é ruim p'r um lado é bom p'r ôtro, e, atão, tem-se que ver bem o que se diz.

Ora, passando do em par da Nave já a gente levava mái de mê caminho fêto e, agora, era só manter aquele passinho compassado e aguentar até à Vila. Sim, que ninguém 'tava p'a dar parte de fraco e meter-se na carrinha qu' andava atrás da gente, carregada de garrafas d' água.

Méme uma senhora, que des que p'a lá ia com umas infias nos pés, aguentô-se até ô fim que nem uma valente. E olhem qu' isso nã é calçado capaz p'a se fazer, assim, uma viaja à pata. É certo e sabido que se fica com umas roeduras... Ela, pobrezinha, nã há-de ter grande prát'ca de coisas destas, más agora já f'cô sabendo que, p'a s' andar um belo pôco, tem-se que levar calçado im condiçõs.

Passeio do Corpo de Deus - Monchique
Ô fim, inda s' ajuntaram uns q'óntos p'a f'carem no retrato...

Ô certo, ô certo, é que, pôco passaria do mê-dia, já tudo 'tava a chigar ô Largo dos Chirõs. P'r menes ê cá, qu' os pr'mêros, calhando, chigaram uma mêa-hora entes.

E falo da minha Maria que, a seguir à subida do Corte Perêro, pôs-se a andar, mái l'gêra que nem sê o quem, nunca mái l'e pus as vistas im riba. Só a panhí na chigada, mái já ela 'tava assantada naqueles bancos, todos bonitos, que p' ali 'tão.

E nã sê s' é verdade ó não,mái já hôve p' aí uns zum-zuns qu' iam mexer naquilo ôtra vez p'a mudar o Largo. Más ê cá nã acradito nisso.

E, c'm' ê uso a fazer, aqui l'es dêxo mái uma manchinha de retratos do passêo do Corpo de Deus. Querendem ver, é só acalcar aqui im retratos que vã parar adonde eles 'tão.

Fiquem-se com Dés e até que se faça ôtro passêo destes.