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15 janeiro 2011

Em 'Noite de Reis' tamém se cantaram as 'Janeiras'

Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda 'Os Amigos da Fóia'
'Os Amigos da Fóia', fardados com o sê boné deles, nem sê o que l'es diga... Sã do melhor que possa ser e haver...

Inda agora aqui ch'guí
já l'es vô a prècurar
se 'tão bonzinhos de saúde
dã l'cença d' ê cantar...

- Ó parente Zé, cantar o quem?!... Isso foi ontem à nôte. Hoje já é Dia de Rês e, daquem nada, é solposto...

- E quem é que l'e diz o contráiro?... Sará de caso qu' ê cá já nã possa arremedar aqui um coisinho daquilo qu' eles cantaram, a noite passada, lá no café da Fonte dos Chorons?...

- Poder, pode. Mái que mechas de estilo é esse que mecêa usa qu' até faz cocégas nas orelhas duma pessoa?!...

- Lá sabe vomecêa um estilo melhor... Cante-o lá qu' ê cá semp'e gostava de ver. Vá, parente Jôquim, vá. Mostre lá a sua virtude!...

Isto era a conversa do parente Zé Caçapo, o 'Verruma' l'e chamam, com o mê compadre Jôquim do Barranco, em Dia de Rês, os dôs afincados a bober uns copinhos ali no café de cima, já im mêa tarde, qu' é que me quem diz, quái à noitinha, qu' isto, agora, os dias nã sã nada. Tã penas o sol c'meça a decer, assim se põe, im menes dum foguete.

Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda 'As Figueirinhas e Os Amigos da Figueira'
Lá de baxo, do Algarve, vieram 'As Figueirinhas' e 'Os Amigos da Figueira'. Que bela jolda...


P'ro jêto, tanto se faz um c'm' o ôtro, tinham ido, na ôtra noite atrás, ver as joldas que vieram ali ô Restairante da Fonte dos Chorons cantar os Rês. Os Rês e as Janêras, qu' isto, agora, já a famila nã 'tá p'a se dar ô trabalho d' andar aí de porta im porta a cantar tal coisa, na passaja do ano e na nôte de rês, ás tensas de l'e darem um convindado que vá nem venha... E atão, fazem tudo pre junto.

Ora, a Junta arrenja manêra da famila s' ajuntar ali no dito restairante e, quem quêra, dá o nome e vai lá cantar. Aquilo, com jêtinho e nã dêxando a coisa munto p' ô fim, c'm' ê cá fiz desta vez, inda se panha uma f'lhòzinha p'a dar ô dente e um calcesinho de melosa p'a alimpar as goélas. Premode, tudo dado p'r a Junta. E fazem eles munto bem. Que nunca l'e dôia as manitas...

Pôs ê cá tamém fui lá este ano. Mái fui sòzinho qu' a minha Maria nã teve jeto de largar o monte e f'cô im casa nã sê se dando pontos ó fazendo ôtro governo quasequer. Ô certo, ô certo, é qu' ê cá, quando chiguí a casa, já bem de madrugada - era quái uma hora, nã cudem... - já ela 'tava, munto bem sa senhora boa vida, espatarrada im cimba da cama, a dromir, com a televisão num barulho parvo. Mái, em ela tendo sono, nem que passe o comboio...

Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda da Ludoteca
Os meçalhos da Jolda da Ludoteca tamém já cantavam qualquer coisinha. E tava lá uma mecinha qu' era munto ingraçada...


E, vai daí, até que aquilo foi uma coisa qu' ê cá gostí. Más olhem que gostí ô bem fêto. Par'ceram lá umas joldazalhas de mecinhos e tal... qu' uma pessoa já sabia que nã era coisa pr' í àlém, más é bom qu' é p'a ver s' os nôvos nã dêxam perder estes c'stumes qu' a famila tinha nos tempos dos avózes deles - que sô ê cá e ôtros c'mo eu.

Mái tamém par'ceram lá ôtres, mormente duas joldas, que eram de ver e chorar p'r más. Olhem, uma vêo da Figuêra, lá de baxo, do Algarve. Tinha duas joldas juntas. Uma de m'lheres, ôtra d' homens. Foi uma coisa da pontinha da orelha!... Dava gosto, mês belos amigos. Assim, sim!... Chemavam-se 'As Figueirinhas e Os amigos da Figueira'.

A ôtra, era de cá. Sã 'Os amigos da Fóia'. Ah môces marafados!... 'Té se m' arrepiaram os cabelos... Desataram a cantar 'Os Rês' - qu' eles, atão, nã cantaram 'As Janêras' - nunca tinha visto uma coisa assim. Os apontadores eram do melhor, os foles eram uma classe, o estilo era do antigo, e os cantadores cantavam que nem passarinhos... E, nã cudem, tinham farda. Traziam todos de boné igual...

 Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Uma filhó caseira
Com um boné destes, uma f'lhó que nem um capacho e ôvindo joldas a cantar 'Os Rês', quem é que nã há-de 'tar sastefêto...


De manêras que, c'm' ê cá já falí lá atrás, com aquela enfluêinça de ver tudo munto bem sem perder coisíssema nenhuma, f'quí sem f'lhó. Uma mecinha que 'tava lá à porta da antrada, q'ondo ê cá chiguí, bem me deu um papelinho e disse-me assim ô ôvido:

- Em l' apetecendo, apresente-se ali ô balcão com este papelinho qu' eles dã-l'e uma f'lhòzinha e um copinho de qualquer coisa. É p'r conta da Junta...

- 'Tá bem - disse ê cá - e Dés l'e pague m't'agradecido.

E f'quí-me a lember, uma preçanada de tempo, semp'e com o fito na f'lhó e no tal calcesinho dela. Qu' ê cá, atão, béque-me melosa nã gosto munto. Isso é bobida mái de m'lher. Agora, um calcesinho dela, da boa, isso cai que nem ginjas!...

Mái q'onto mái me lembia, mái perdia... Ê cá havera era de ter ido logo tratar do caso. C'm' nã fui, barimbí-me... Im vez disso pus-me a bispar tudo de fio a pavio... atrás duma jolda vinha ôtra, ora... q'ondo dí p'r mim foi já no fim, já 'Os Amigos da Fóia' lá iam p'ra rua afora e ê cá atrás deles. Aí vê-me a f'lhó à idéa, abalí a fugir ô café, cheguí lá todo escalfado e prècuro à mecinha que 'tava do lado de drento do balcão:

 Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda do CNE e Guias de Portugal
O CNE e as Guias de Portugal apresentaram-se com esta jolda. Dá gosto ver qu' os nôvos tamém aprecêam estas coisas...


- Menina, atã inda há p'r 'í uma f'lhòzinha cá p' ô Parente?

- F'lhós?!... A uma hora destas?!... Ai, Parente, tenha pacênça mái já nã há nada disso... Atã, agora é que vem?!...

- Olha que cachamorra esta... Atã ê cá cudava que, em tendo uma senha destas na mão, f'cava semp'e aí uma f'lhòzinha gôrdada p'ra mim...

- Põs era p'a 'tar... Mái, atão, a uma hora destas, o qu' é que mecêa quer... Méme que t'vesse sobrado alguma, já a gente tinha qu' a ter jogado p' ô balde das lavaduras...

- Nã me diga que jogaram a minha?!...

- Alguma vez?!... Onde sará qu' ela vai a estas horas... Calhando, já 'tá até desmoída e tudo...

- Ai a minha pôca sorte!... Minha bela f'lhòzinha... Atã s' ê cá sabesse disso, nã tinha vindo logo aprevêtá-la assim que chiguí?!...

- Atã, pronto. À ôtra vez, já sabe. Nã se ponha a pôco qu' é p'a nã dar nisto. E tome lá uma calcesinho de melosa p'a nã perder tudo...

- Melosa?!... Nã pode ser de madronho, menina? É qu' a melosa é ruim p' ôs diabêtes. Qu' ê cá, graças ô D'vino Pai, nã tenho tal mal, mái quero-me furtar a ele...

- Atã, vá lá um copinho d' aguardente...

E lá me deu um copinho. E, d' agora im diante, mês belos amigos, nunca mái caio nôtra. Tã penas lá chegue, passem p'ra cá o que me acabedar...

 Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda Improvisada
Estes meçalhos nem nome tinham. E tamém nã cantavam nada que d'zesse benza-te Dés. Mái que eram bem caçados, lá isso eram...


Mái dêxando isso p'a trás das costas e desquecendo uma desfortuna tã grande que foi um homem f'car sem f'lhó em Noite de Rês - vá lá, vá lá qu' inda panhí o tal calcesinho dela - semp'e l'es digo que coisas destas - alembrar os nossos usos e c'stumes - nunca se deviam d' acabar.

E, isto, agora, é só uma conversa. De parvo, 'tá bom de ver... Mái, cá p'a mê gosto, inda gabava de ver a nôte de rês sem aquela aparelhaja que 'tava lá no café. As joldas a cantarem c'm' nôtros tempos. Sem alte-falantes, nem nada. Tenho cá p'ra mim, qu' era melhor... Mái a Junta é que sabe.

E tamém gostava de ver o qu' é qu' 'Os Amigos da Fóia' eram capazes de fazer se t'vessem um a'xilozinho da Junta ó da Cambra p'a nã dêxarem este c'stume das janêras e dos rês levar sumiço. Nã era preciso grandes coisas. Mái, c'm' a senhora Presidenta já me disse qu' ia pensar no caso, posso dromir im sossego.

Agora, ôtra coisa. Ê cá tirí p'a lá uns retratos e uns videozalhos. F'cô tudo uma prequêra, que, à uma, o artista é fraco, e, à ôtra, 'tava tudo munto pertado e às 'scuras. E, agora, inda pre cimba, há uma remessa de dias qu' ê cá ando a ver se dô posto aquilo no YouTube e o YouTube béque-me nã quer arreceber tal coisa.

De manêras que, vô-me pertando com esse tal do YouTube a ver se dô fêto alguma coisa dele, e, tã penas tudo 'teja arredondado, logo ponho aqui as ligaçõs p'a mecêas darem ido lá ver.

Os retratos já nos podem ver. Acalquem aqui na Galeria da Noite de Reis, fazendem favor.

E f'camos p'r 'qui. Passem todos munto bem, com um ano intêro chêo de saúde e ôtras coisas boas e até qu' a gente se veja.


* * * * * * * * * * * * * * * *

Quái duas semanas despôs, mémo já sendo sopas despôs do jantar, aqui vai a ligação p' ôs 'videos':

'Videos Refóias do YouTube'

Ó, atão, vejam logo este sem ter que lá ir:



11 janeiro 2008

Im Monchique, inda se canta os Rês...

Jolda cantando os Reis
Em
chigando a casa de qualquer um, a jolda pede l'cença p'a cantar.

Inda agora aqui ch'guí
Já l'es vô a prècurar
'Tã bonzinhos de saúde,
Dã l'cença d' ê cantar?

É mái ó menes desta manêra qu' as joldas de Rês e de Janêras usam a cantar, em chigando à porta de qualquer um, qu' é p'ra ver s' a famila l'es dêxa fazer o resto da cantoria.

Nôtres tempos, tamém usavam a bater à porta e d'zer assim:

- É famila!... Canta-se ó reza-se?...

E esperavam um pôcachinho a ver se, de lá de drento, l' acudiam e l'e davam orde p'a desatarem a cantar o resto dos versos, qu' eles gôrdavam dum ano pr' ô ôtro e os que, muntas vezes, faziam d' aprepósito p'a certas casas.

Que, lá de q'ondo im vez, tamém se dava o caso da famila da casa nã l'e dar ancas... Uns que tinham alguém doente, ôtres que l'e tinha morrido alguma pessoa de famila... E ôtres que d'ziam que l' aborrecia de serem acordados. Mái, quái sempre, esses já 'tavam munto vistos e tôd's se sabia munto bem qu' o qu' eles l' aborrecia era a dar a esmola...

Pôs, mês belos amigos, na nôte de Rês deste ano, 'tava-se a gente, ê cá mái-la minha Maria e uns q'ontos amigos - dos bons!... -, num certo sito, a retraçar uns pedaços de pórco e c'mer neles - já ele era bem de nôte - desata-se a ôvir cantar os versos, qu' ê cá pus ali ô prencip'o, do lado de fora da porta.

Pusemos-se tôd's à escuta, era uma jolda de cantadores de Rês.

Jolda cantando os Reis
Calhando a 'tar a chover ó que faça munto frio, há quem os mande entrar...

Tã penas eles acabaram de pedir l'cença, o dono da casa, p'a nã s' inganar, dé logo ordem que podiam cantar à vontade. E, c'm' ô tempo 'tava assim p' ô fresco e, inda p'r cima, nuvrinhava um coisinho - era uma penujazalha que nem se dava p'r ela, mái, ô fim dum certo tempo, já se sabe que semp'e molha... - mandô-os antrar p'ra casa. Ora, aquilo foi o bom e o bonito...

E, más a más, qu' eles eram tôd's mecinhos nôvos, qu' é um caso p' à gente inda levar maior repáiro, qu' é p'ra ver s' eles se vã semp'e alembrando destes c'stumes antigos e nã dêxam des'pâr'cer estas coisas que se faziam munto e agora já se fazem pôco ó nada.

Mái olhem qu' aquilo até que foi uma coisa méme bem caçada... Era uns mecinhos e umas mecinhas inda nôvos - à vista da gente, qu' era quái tudo velho c'm' ê cá, 'tá bom de ver... -, mái cantavam do melhor.

Quás sã os três cavalêros
Que fazem sombra no mar
Sã os três do oriente
Qu' a Jesus vã v'sitar

E, ô méme tempo, tocavam... Olhem qu' eles traziam um fole, uma guitarra e uns ferrinhos... Aquilo pôco f'cava atrás da banda que vem tocar cá a Monchique, q'ondo calha. E 'tava tudo tã bem afinadinho qu' até dava gosto...

Só l'es sê d'zer qu' a famila qu' ali 'tava pôs-se tudo imbasbacado com os olhos cravados na jolda que nem s' ovia mái coisíss'ma nenhuma. As m'lheres que 'tavam a picar carne, com mintira e tudo, até dêxaram cair as facas p'a drento do alguidar... E foi melhor assim ó, atão, inda s' hab'litavam a cortar p'a lá a ponta d' algum dedo...

'Té uns que 'tavam a jogar ôs três-setes ali na ponta duma mesa - calem-se aí!... - apararam o jogo a mêo, puseram p' ali as cartas de qualquer manêra e tamém nã viam mái nada qu' os janêrêros... Ê nã havera de d'zer isto, mái ele hôve um, mái sabido, - qu' ê cá nã digo quem foi - que fez a parte ôs ôtres.

Jolda de Cantadores de Reis recebendo a 'esmola'
Im certos sitos, afituram-se a arreceber umas boas esmolas...

Inq'onto eles 'tavam tôdes emprensados a ôvir o cantorío, assim c'm' quem nã quer a coisa, foi-se chigando, munto devagarinho, p' ô lado do parcêro contráiro e vá d' ingrilar p' às cartas qu' ele tinha na mão, todas destapadas. Vi-l' o jogo todo...

Ora, q'ondo voltaram ô jogo, fez-l'e uma espera, papô-l'e os dôs ases qu' ele tinha. Inda os 'tô a ver... Um era a espadilha e o ôtro era o bastos. Só ali foram logo dôs milhos... E, p'r o jêto dele, nã sê munto bem se tamém nã l'es fez a parte ôs bagos de milho qu' eles tinham a marcar os pontos im cimba da menza...

Olhe qu' eles béque-me já iam nos vinte sete ó vinte e oito e, despôs, só já se viram com vinte três... Dôs bagos da banda de cá da faquinha e três da banda de lá. Nã posso afiançar, mái ó ê cá m' ingano munto ó, atão, hôve ali coisa...

Mái, nesse mê tempo, já a jolda tinha cantado tudo e 'tava a arreceber a esmola. E olhe que, naquela casa, nã f'caram nada mal... Vejam aí no retrato e logo sabem. Até uma garrafinha de madronho l'es calhô... Mái mor'ceram, lá isso, mor'ceram.

E puseram-se a agradecer...

Quem tã boa esmola deu
Dés l'e pague, obrigadinho
Dés quêra que vá p' ô céu
Ô colo de Dés Menino

E nã se f'caram p'r 'qui, que, logo a seguir, era a despedida. F'cava mal eles abalarem, assim sem mái nem menes, e nã cantarem mái um verso ó dôs. E, atão, foi assim:

Fiquem-se com Dés, senhores
Qu' ê com Dés me vô tamém
Dés l'e dê munta saúde
Até pr' ô ano que vem

E assim abalaram p'r aquelas sobrêras adiante, no mê do escuro, qu' im menes de nada despar'ceram. Nem a luz do focse qu' um levavam pindurado na presilha das calças a gente dava lombrigado. Só o que s' ôvia era as vozes deles charolando uns com os ôtres.

E ê cá tamém vô-me andando a ver s', esta tarde, inda panho p' ali umas três ó quatro cagumelas p' à minha Maria fazer com uns piquinhos de pórco p' à cêa. Ele já nã deve haver grande coisa, más ê sê dum certo sito ali ô pé dumas acáiças... até pode ser que 'teja p'a lá alguma.

E, dando-se o caso de quererem ver mái alguns retratos da jolda, acalquem aqui na Galeria dos Reis.

Atã que Dés l'es dê tamém munta saúde.