26 agosto 2007

O Romance de Don Gaiferos de Mormaltán

O Romance de Don Gaiferos
Este Don Gaiferos havera de ser um velhote bem safo...

Vomecêas hã-de 'tar já um coisinho a pensar nã sê o quem, premode ê cá nã dar sinal já lá vai uma preçanada de tempo. E nã l'es posso d'zer que nã tenham r'zão. Mái, nã veêm?, isto, désna qu' ê cá meti na cabeça d' ir a Santiago e fui, as minhas coisas imcambulharam-se duma tal manêra que nã tenho dado conta da rolha.

Más, hoje, 'tava p' ali no palêo com o mê compad'e Jôquim - qu' o homem nã se passa dia nenhum que nã me venha atentar p'a l' ê contar partes que se deram com-migo naqueles dias que andí p'r lá - e vê-me à idéa daquela ocasião qu' ê cá 'tava im Santiago à espera da minha vez p'a eles me passarem lá aquele papel da "Compostela".

- Compad'e Refóias, atão e com respêto à sua viaja, hoje, nã conta p' aí mái alguma parte daquelas bem caçadas que se tenham dado p'r lá?...

- Olhe, p'a l'e d'zer a verdade, béque-me nã m' alembra assim de nenhuma das que dã p'a rir...

- Atã conte méme uma das ôtras, hom'!... Das que dêem assim paxão à gente...

- Ah, serve-l'e méme uma dessas?!... Atã calha bem, qu' ê inda nã falí naquela dum velhote que tamém foi a Santiago e andô, andô, esticô o pernil méme lá na Catedral, im frente do bispo e tudo...

- Conte lá isso, compadre... conte lá...

- Atã, aqui vai. É só ler os versos qu' ê trusse aqui neste papel, méme na língua lá deles - o galego - qu' isto percebe-se quái tã bem c'm' se fosse lá o mê amigo Jôqu'nito, que mora no Porto, a falar.

E pus-me a ler esse tal romance do Don Gaiferos:

ROMANCE DE DON GAIFEROS

A onde irá aquel romeiro,
meu romeiro, a donde irá?
Camiño de Compostela,
non sei se alí chegará.

Os pes leva cheos de sangre
e non pode máis andar,
mal pocado, pobre vello!
non sei se alí chegará.

Ten longas e brancas barbas,
ollos de doce mirar,
ollos gazos, leonados,
verdes como auga do mar.

-I a onde ides meu romeiro,
onde queredes chegar?
-Camiño de Compostela,
onde teño o meu fogar.

-Compostela é miña terra
deixeina sete anos hai
reluciente en sete soles
brillante como un altar

-Cóllase a min meu velliño
vamos xuntos camiñar,
eu sou trobeiro das trobas
da Virxe de Bonaval

-I eu chámome don Gaiferos
Gaiferos de Mormaltán,
se agora non teño forzas
meu Santiago mas dará.

Chegaron a Compostela
e foron á Catedral,
Ai, desta maneira falou
Gaiferos de Mormaltán:

-Gracias meu señor Santiago
os vosos pés me tés xa,
si queres tirarme a vida
pódesma señor tirar,
porque morrerei contento
nesta santa Catedral.

E o vello das brancas barbas
caíu tendido no chan,
Pechou os seus ollos verdes
verdes como a auga do mar.

O obispo que esto ovíu
alí o mandou enterrar
E así morreu meus señores
Gaiferos de Mormaltán.
Iste é un dos moitos milagres
que Santiago Apóstol fai

O Romance de Don Gaiferos
Nã há quem passe ali que nã olhe bem p' à históira do Don Gaiferos...

- Tó, diacho. Mái atão o homem morré assim dessa manêra, sem mái nem quem?!...

- Pôs... É o que diz aqui.

- Olha o pobrezinho... P'a nã s' emportar de morrer, é mái que certo qu' o homem panhô sol a más na cabeça inq'onto p'r lá andô... Mái atã nã levaria um casquêro infiado nos cascos?...

- Lá c'm' à coisa foi nã sê munto bem, mái tamém l'e digo, compad'e Jôquim, um homem, im andando assim uns belos dias a cinco, sês, sete e méme oito léguas p'r dia, às tensas do tempo que l'e parêça - seja ele sol ó seja chuva - com os pés, parte das vezes, numa borrefa pegada, que nem os sinte, é caso p'a f'car mê azôgado..

- Lá isso...

- ... e chega a um certo ponto, uns dá-l'e p'a chorar, ôtros pensam más é im voltar p' ô monte, e ôtros, calhando, 'té nem importam de cair p' ô lado e morrer, c'm' esse tal Gaiferos...

- Méme assim... inda bem qu' ê cá nã fui consigo. Sê cá se daria lá chigado?!... E se me desse uma parvoêra dessas, de f'car p'r lá?!...

- Atã s' ê chiguí, vomecêa nã havera de lá dar chigado tamém... Más a más que 'tá tã ac'st'mado a andar aí p'r esses charazes atrás do sê Larga-Traques...

- Ê sê cá!...

- Agora já nã l'e garanto à confiança é se vomecêa nã l'e dava p'a lá alguma gavierra e se passava do juízo... Já viu o que era ê cá chigar a casa e ter qu' ir d'zer à c'mad'e C'stóida que vomecêa tinha-se perdido p'a lá?!...

- Perder-me?!... Que jêto?... Atã mecêa nã disse qu' eles prantaram umas setas amarelas im tod' ô caminho?... É só ir p'a donde elas mandam...

- Olhe qu' às vezes, 'tão más de ver... Uma ocasião infií p'r um balsedo adrento que já d'zia que nã me dava tirado de lá...

- Ó compad'e Refóias, c'm' é mecêa fez uma coisa dessas, hom'? Ir-se meter num balsedo nem parêce seu...

- Lá isso tem r'zão. Mái, nã vê, ê cá ia p'r um caminho prê adiante, naquilo, 'tava um baloiso adonde eles tinham pintado a seta a d'zer p' à frente, mái, p'r jêto, andô p'a lá uma recta a alisar o caminho e o homem sem dar por isso - ó sabe-se lá se nã foi com manha... - dé algum incalhão na pedra e a seta ficô a apontar p'ra baxo. Méme p'a drento do balsedo, veja lá...

- Atã e vomecêa nã via logo qu' o balsedo nã era caminho?...

- Cale-se aí!... Más é qu' aquilo tinha lá uma v'reda, nã sê d'alguma zôrra ó dôtro bicho qualquer e f'quí a pensar cá p'ra mim: Punhana! qu' isto q'onto mái longe 'tô de casa mái ruim é o caminho!... Mái, s' os ôtros passaram, ê cá nã sô menes que eles...

- E infiô p'r o balsedo...

- Põs atão... O qu' é qu' ê havera de fazer?...

- Atã, e despôs?

- Ora, abalí p'r aquela ladêra abaxo - e impinada qu' ela era... - inda fui com o cu d' àrrojo que, más um nada, arrompia as minhas belas calcinhas e nã tinha ali mái nenhumas p'a vestir, e só já da banda de lá do barranco é que vi que 'tava atribuído...

- E c'm' é que dé por ela?...

- C'm' é que dí?!... Atã a v'reda acabô-se... Tive que voltar p'a trás e ir à prègunta do caminho certo...

- Ah, homem marafado... Se fosse ê cá nã caía numa dessas... Nem pensar!...

- Atã, qualquer dia, vai-se os dôs e mecêa é que vai à frente. Qu' ê semp'e quero ver a sua hab'lidade...

- E sô homem p'ra isso...

- Mái, desta vez nã foi...


Querendem ôvir a cantiga do Don Gaiferos, 'tá aqui, com uns q'ontos retratos qu' ê tirí p'r lá.

E f'cô-se p'r 'lí. Tamém, p'ra que era mái palêo?... A gente já sabe tôd's qu' o mê compad'e Jôquim do Barranco conversa nã l'e falta... Agora, obras... 'Tá bem dêxa!...

Más olhem, se qu'rerem ver mái alguns retratos com condiçõs, acalquem aqui na Galeria de Santiago, que semp'e sã um coisinho melhores que no YouTube. E com munto mái fartura...

E fiquem-se com Dés.

08 agosto 2007

O Concerto d 'Os Pequenos Sulistas'

Concerto de violino 'Os Pequenos Sulistas'
Inda faltava bem uma mêa-hora p' àquilo c'meçar, já os bancos 'tava tudo chêo, que nã dí panhado um p'a m' assantar...

'Tava ê cá já com a m'chila fêta p'a abalar p'a Santiago, méme na béspra arrecebo uma notiça que des qu' iam fazer uma coisa ali na Igreja Matriz, béque-me uns meçalhos-pequenos a tocarem umas modas nuns instrumentos que pôco se vê aqui p' ôs nossos lados: violinos.

Inda pensí cá p'ra mim:

- Mái atão, amanhã tenho que m' alevantar inda entes do romper d' arora e abalar caminho do Porto e vô-me, agora, opôr a ver uma coisa destas que nã tem nada im durar até tardíss'mo?... Sim, que coisas destas nunca acabam senã lá p'r essas onze da nôte ó, calhando, inda mái tarde...

Mái, despôs, falí com a minha Maria, lá l'e contí o que se passava, e ela, atão, pôs-me logo na ordem:

- Ó homem, nã tens vergonha?... Nã me digas que fazes uma ofensa dessas à famila?!... Mandô-te o senhor dôtor o recado e tudo, e tu, agora nã par'cias lá?... Tens munto tempo p'a dromir amanhã p'r o caminho...

Ê tamém vi logo adonde é que 'tava. O qu' ela queria era ir tamém... Nã sabem c'm' sã as m'lheres? Pespenetas até mái não... Têm que devassar tudo...

De manêras que, lá me resolvi e semp'e se foi os dôs. Mái, pr'mêro, inda tive que pegar p' ali num pincel velho já só com três ó quatro cabelos e, méme com assabão daquele azul de lavar a rôpa, fazer um coisinho de escuma e cortar p' aqui mêa-dúiza de barbas qu' inda tenho na fúiça com uma lâmina tamém já quái ferrugenta e tudo.

É que, nã veêm, já tinha os mês altrafices todos munto bem gôrdadinhos p' à viaja e nã ia desmanchar aquilo tudo ôtra vez...

Concerto de violino 'Os Pequenos Sulistas'
C'm' é qu' uns meçalhos destes já sabem tocar assim tã bem?!... E tudo modas bonitas!...

Mái, d'zer a verdade, olhem que nã dí o tempo p'r mal empregue. Inda nunca tinha visto uma coisa assim!... Uns meçalhos-pequenos qu' aquilo eram uns coisinhos - sê cá q'ontos anos é qu' eles tinham... - jogavam-se ali a tocar que, quem nã visse, nã deslindava s' eram moços-pequenos ó s' era famila grande...

Atã e os violinos?!... Logo, olhí p'ra eles, que 'tavam todos arrumadinhos no chão ali ô pé do altar-mor, béque-me me dé ares a serem de brincadêra - daqueles que se compra aí no mercado, assim bem piquenalhos, nã sabem c'mo é? Mái, olhando melhor, vejo qu' aquilo, méme pequenos, eram a sério e coisa do melhor.

Nesse mê tempo, pensí:

- Tenho qu' arrenjar p' aí um lugarinho adonde m' assantar, senã, mái logo, inda fico é com dor nas pernas e tenho munto caminho p'a fazer d' amanhã em diante...

Mái, ponho-me a olhar p'a um lado e ôtro, e bancos vazios viste-los... Se nã 'tavam lá mái duns dôs ó três centos de famila era pôco... E a minha Maria que já tinha desparcido d' ô pé de mim, que nã sabia o qu' era fêto dela. 'Té que lá fui, lá fui, lá a lombriguí assantada bem nos bancos de trás. Inda l'e dí sinal, más ela fez-me logo assim com o dedo p'a um lado e p'ra ôtro, c'm' quem diz:

- P'ra ti, lugar santado já nã há...

E lá me f'quí p'r 'lí, méme d'em pé, a ver se dava ido tirando um retrato ó ôtro que s' apr'vêtasse.

Concerto de violino 'Os Pequenos Sulistas'
Esta meçalha, nã sê s' a conhêcem, mái des qu' inda é de familas daqui de Monchique. E já toca qu' é uma classe...

Mái a coisa nã me corré lá munto bem c'm' ê cá 'tava à espera. Aquilo, a Igreja Matriz, verdade se diga, tem ums condiçõs p'a ôvir música qu' é do melhor que pode ser e haver -digo ê cá, se ser alguma parvidade, nã façam caso... - agora p'a tirar retratos... 'tá um escuro lá drento qu' uma pessoa, parte das vezes, nem vê quái nada do que lá se passa...

A nã ser quem tenha d'nhêro p'a comprar uns flashes assim daqueles que dã um clarão qu' até um fulano fica quái cego, nã se dá fêto nada de jêto. Ora cá a máquina do Parente dá pôco mái luz qu' o cu dum luzicuco numa nôte de navoêro... Em passando mái dum metro ó dôs, já fica tudo negro no retrato...

Más, olhem, quem dá o que tem a mái nã é obrigado. E, atão, tenham pacência, qu' isto é material de fraca q'ôlidade, más é de boa vontade. E mái vale pôco que nada...

E sabem ôtra coisa? - D'zeram-me, qu' ê cá nã ôvi - a Rádio Fóia, qu' ele até há quem diga - dessa famila p'r 'í que estudô munto, 'tá bom de ver - que só dá modas daquelas - c'm' é qu' eles dizem? - pimba, 'teve lá a dar aquilo tudo, désna que começô até acabar, e quem nã dé lá ido ver, ôvi tudo tal e qual c'm' se 't'vesse lá.

E despôs digam qu' a Rádio Fóia nã dá programas bons... Ó pensam qu' ela tem tanta famila a ôvi-la é premode quem?... Inda, ontordia, nã sê quem foi que me disse que no Alentejo todo - Baxo e Alto - e Algarve nã há ôtra que tenha p'r menes das dez partes uma de famila à escuta.

E, más a más, que se pode ôvi-la tanto se faz na tel'fonia c'm' na internet. Se nã acraditam, acalquem ali ô lado adonde diz Rádio Fóia e logo veêm se nã vã lá dar... Im menes de nada, têm música do melhor. Ó quem diz música, diz notícias ó coisa assim.

Concerto de violino 'Os Pequenos Sulistas'
O Maestro, já quái no fim, volta-se p' ôs que 'tavam a ver e pôs aquilo tudo a cantar...

Mái voltando lá ôs meçalhos-pequenos a tocar violino, se vomecêas - os que nã foram lá -vissem c'm' eles tocavam e o respêto qu' a famila tinha a ôvi-los que nem tampôco uma mosca s' ôvia a bater as asas, aquilo até tinha que se l'e d'zesse...

E q'ondo foi ali p' à banda do fim, lá o chefe deles - o maestro, qu' é béque-me o que l'e chamam - c'm' nã l'e chegava só com os meçalhos, volta-se p' à famila toda que 'tava a ver e vá de mandar a gente cantar p' ali à força toda, c'm' se muntos - c'm' ê cá - sabessem alguma coisa daquilo...

'Tá bem qu' um homem, p'a nã passar p'r trôxa, semp'e ia mexendo os bêços, fazendo de conta que 'tava a cantar, mái, se 't'vesse sòzinho, tal havera de ser a linda coisa que l'e saía da boca... Bom, pior qu' uma ovelha a berrar nã havera de ser, agora o pobrezinho do maestro só pondo os dedos nos ôvidos...

O homem até que tinha assim um ar de pessoa fina e via-se mémo que de música sabe ele c'm' nã há. E é que sabe mémo. Se o vissem jogado a tocar violino, sòzinho ó acompanhado, aquilo, parte das vezes, uma pessoa até cuda qu' é um disco que 'tá a tocar e ele só faz p' ali uns miécos p'a disfarçar.

Mái nã é. Nã é, qu' ê cá fui escutar, lá memo quái ô pé, a ver s' a música saía do violino e saía... O homem até béque-me quái que f'cô desconfiado com-migo, qu' ele olhô-me assim p'r o canto dos olhos e franziu um sobrôlho, mái nã se desmanchô.

Ôtra coisa qu' inda ninguém me dexplicô foi ele usar aquele lenço preto na cabeça. Mái, calhando, aquilo é o qu' ê cá penso. P'a envitar que l'e caia algum cabelo p'a drento do violino e intupa p'a lá a saída da música. Nã é ôtra coisa, nã senhora... E fica-l'e bem.

Concerto de violino 'Os Pequenos Sulistas'
Deram flores ôs que morceram, más aqui o senhor dôtor Pa'lo Rosa foi, calhando, o que levô mái palmas. Se nã fosse ele isto nã se tinha dado fêto, ah isso não...

Ô fim, 'tavam eles lá a dar braçados de flores àquela famila toda - e olhem que foram bem morcidos... - inda se me passô p'r o juízo ir falar com os meçalhos-pequenos p'a l'e prècurar c'm' é qu' eles davam tocado aquilo tã bem, mái a minha Maria saltô logo im cimba de mim, toda inzainada...

- Ó homem, tem juízo. Dêxa lá os mecinhos sossegados... Ó queres qu' eles inda encham uma barrigada de rir com a figura que fazes?... Até medo eles panham de ti...

- Mái qual figura?!...

- Atão, vás ali, só dizes brut'lidades, o meçalhos olham p'ra ti, veêm-te com esse chapéu e essas botas grossêras, que nem tampôco trazeste os sapatos do D'mingo, o qu' é que l'e esperas?... É uma galhofa...

E olhem, inda bem qu' ela me falô naquilo. Imbrulhí o estojo e toca más é a andar caminho do "Fernando" qu' ele, p'r o jêto, tinham lá combinado uma função com decomerzinho à farta e de boa q'ôlidade.

Mái qu' ê cá f'quí abismado com aquele concerto, lá isso é verdade. Só tenho que dar recomendaçõs àquelas mecinhas todas e mecinhos, ôs pais deles e ôs professores. E m'tôbrigado p'r me terem convindado p'a ir ver.

E inda l'es digo ôtra. Nã sê munto bem se lá p' ô Algarve, que sã ricos, já foram capazes de fazer assim uma coisa tã bem fêta... Pósto, o que vomecêas quêram, que não. É que mecêas nã sabem, mái isto aqui foi tudo a ajudar. Vejam lá no papel do programa:

Rádio Fóia, Jornal de Monchique, Igreja de Monchique, Câmara, Junta de Freguesia. E más as pessoas todas que nã parêce lá o nome, mái a gente sabe que se mort'ficaram ô bem fêto...

Se qu'rerem ver mái alguns retratos, acalquem aqui na Galeria dos Pequenos Sulistas, que, méme ruins, semp'e ponho aqui mê-dúiza deles.

E tenham munta saúde.

26 julho 2007

E sempre fui a Santiago...

Simbolos indicadores do Caminho de Santiago
Se nã fossem estes setas quem é que dava lá chigado, senhor?!... Ê cá nã dava, que nã sabia o caminho...

Andí, andí, semp'e me pus a caminho de Santiago. E já cá 'tô de volta. E, já agora, 'tejam com Dés, que falar ôs amigos tamém se usa...

Cudava ê cá qu' aquilo era c'm' ir daqui à Vila e voltar e nã tinha nada que se l'e d'ssesse. Pôs, mês belos amigos, mal sabia ê cá nos trabalhos que me 'tava a meter...

Côxo c'mo ia dum joelho, caminhos ruins assim c'm' quem vai à Fóia ó à Picota quái só p'r incurtadoiros, tôd's dias ter qu' andar uma lonjura daquelas - olhem que parte deles era mái qu' ir daqui a Vila Nova... sês, sete léguas, p'a nã d'zer oito - é dum homem se ver im traquetes, más ô bem fêto...

Tinha, atão, uma coisa boa - uma não, uma preçanada delas, mái esta é a pr'mêra... Era que s' andava grande parte do caminho p'r v'redas no mê do mato e do alvoredo, com uma fresquidão qu' era um consolo. Muntas das vezes, passava-se horas que nem tampôco se via estradas alcatroadas nem se panhava com o barulho dos carros.

P' à gente nã s' inganar, lá 'tava semp'e uma seta amarela im tôd's os cruzamentos, ó, atão, na parte de Espanha, uma viêra desenhada com as pontas voltadas p'a donde era o caminho certo. Nã tinha nada qu' inganar. Mái, só aqui pr' à gente, inda m' acabedô andar um belo pôco e, despôs, ter de voltar p'a trás...

Dec'merzinho nã faltava, qu' iam lá umas senhoras que sabiam-no fazer quái tã bem c'm' à minha Maria, p'a nã d'zer melhor, - qu' ela nã foi, mecêas sabem disso... - e à farta, que ninguém passava fome. Só quem fosse munto bicoso...

Em uma pessoa 'tando mái inrrascado com dores nalgum lado ó calhando a fazer mêa-dúiza de borrefas nos pés, vinham logo umas senhoras inf'rmêras - mái à chigada que no caminho - e tratavam daquilo munto melhor que s' uma pessoa fossse ali ô hospital, às urgências...

Olhem, ê cá nã me quero fazer nem mái nem menes qu' os ôtros, mái nã 'tarê atribuído se d'zer qu' elas nã tinham melhor freguês. Aquilo era tôd's dias à abalada e à chigada, lá 'tava de roda delas. E méme a mê do dia, lá p'r aqueles charazes, tamém se dé o caso de terem que me vir inrolar p' ali uns trapos no joelho...

Mái tamém l'es digo: pessoas boas c'm' àquelas, inda nunca vi... Eram do Corpo de Voluntáiros da Cruz de Malta. E 'tejam certos duma coisa, qu' ê cá disso tenho a firme certeza. Se dí chigado ô fim, foi premode elas. Dés l'e pague a todas.

A Compostela
Deram-me lá este diploma. É mái bonito qu' o qu' arrecebi na escola de S. Roque, q'ondo fiz a quarta classe. E em latim...

Em chigando a Santiago de Compostela, fui lá a um escritóiro - ch'mavam-l'e eles Oficina do Peregrino, mái nã vi lá farramenta nenhuma a nã ser canetas e folhas de papel... - que des que davam lá um diploma ôs que t'vessem chigado ô fim da viaja.

Más aquilo tinha-se qu' amostrar o b'lhete d' identidade e mái nã sê quem e ê cá quái que nã dava panhado nada do qu' o homem que lá 'tava p'r trás do balcão me d'zia. É qu' ele falava p'a lá uma espanholada qu' era uma coisa temente. E depressa...

Mái, verdade se diga, q'ondo o homem viu qu' ê cá 'tava ali espècado, calhando de boca aberta, a olhar p'ra ele sem intender coisíss'ma nenhuma, prècurô-me:

- Tu eres portugués?

- Sa senhora. Vinhe de Monchique e nã 'tô a intender nada do que mecêa 'tá p' aí a d'zer...

E o homenzinho - boa pessoa - lá desatô a falar um coisinho mái devagar.

- Credencial del peregrino e D.N.I.

Credencial inda vi o que era, agora D.N.I. munto sabia ê cá o qu' é qu' isso havera de ser... Mái, num derrepente, vê-me à idéa c'm' é que m' havera de desenrascar. Puxo da m'chila, aibro-l'e o fecho da alsebêra adonde tinha a papelada toda e dig'-l'e:

- Olha, tens aqui. Tira o que qu'reres. Désna que nã me leves a cartêra...

Más, nã cudem, ê vi logo qu' ele tinha cara de boa pessoa e nã m' ia fazer nenhuma parte manhosa. E assim foi. O homem tirô a Credencial de Peregrino e o b'lhete d' identidade, fez-me p' ali mái umas prècuras - queria saber o qu' é qu' ê cá fazia, o qu' é que nã fazia, q'ontos anos tinha, d' adonde é que era, im que dia tinha abalado de casa e tal, e tal...

Credencial do PeregrinoCredencial do Peregrino
P'r o caminho, tem-se qu' ir pedindo p'a pôrem carimbos neste papel. Ó, atão, chega-se lá e nã se panha a Compostela...

E p' ali desatô a escrever e a ler num livro. P'r o jêto, nã sabia lá munto bem c'm' havera de pôr o mê nome im latim e, ó m' ingano munto, ó ele andô lá à prècura disso.

Nesse mê tempo, pôs-se a falar com-migo - umas ê panhava, ôtras nã intendia nada... Mái lá me dexplicô que tinha qu' olhar bem ôs carimbos dos sitos adonde ê cá tinha passado a ver s' era verdade qu' ê tinha andado aquela lonjura toda a pé.

Ora, s' ê cá nã t'vesse ido a pé, tamém nã ia p' ali indròminá-lo... mái lá os chefes dele mandam assim, ele nã tem ôtro remédo. O homem, 'tá bom de ver, nã tem culpa nenhuma disso...

Agora, vejam lá bem s' ê calho a nã ligar àquilo e a nã pedir p'a me pôrem os carimbos naquelas vendas adonde a gente ia bober umas cervejalhas ó uns calcesinhos de vinho lá do deles - d'zer a verdade, é um coisinho p' ô fraco que nã tem mái duns sete ó oito degraus. Mái rafresca... Vá lá qu' ê via os ôtros e fazia c'mo eles, apresentava tamém a minha Credencial de Peregrino. Cudando qu' aquilo era p'r graça...

Atã, q'ondo lá irem, nã se descudem. Cada sito qu' apararem, peçam p'a pôr um carimbo na Credencial.

E, q'ondo dí por isso, já o homenzinho me 'tava a passar a Compostela p' às mãs.

Olhí bem p' ô papel e digo p'ra mim:

- Punhana!... Custô mái foi...

E fiquem sabendo que, nos pr'mêros dias, nunca pensí de dar lá chigado. Atã, andava com uma perna que nem na dobrava... Mái volto-me p' ô homem:

- M't' ôbrigado, m't' agradecido, Nosso Senhor é que l' há-de pagar... E, já agora, despense-me lá ali um canudo daqueles...

- Canudo?!..

- Sa senhora, aquilo ali p'a pôr o papel lá drento todo bem inroladinho...

- Ah, um tubo... Le custa un euro...

- 'Tá bem, mê belo amigo, aqui o tem... E tenha munta saúde.

E lá abalí, todo inchado, de canudo na mão, ramoendo cá p'ra mim qu' agora já ninguém me podia d'zer qu' ê nã tinha fêto umas cinquenta léguas a pé, perto ó certo, do Porto a Santiago de Compostela.

E p'r 'qui me fico. Calhando, em podendo, logo l'es conto mái umas passajas que se deram durante aquele caminho todo. O Caminho Português de Santiago. Hoje foi só p'a l'es d'zer que já chiguí e saber se vomecêas 'tã todos bons.

Se qu'rerem ver alguns retratos, acalquem aqui na Galeria de Santiago, qu' ê cá vô metendo neles à medida que tenha jêto.

E até um destes dias.

11 julho 2007

Calhando, vô-me Caminho de Santiago

Catedral de Santiago de Compostela
A pé, nã é qualquer um que dá chigado a Santiago...

Já fez um ano, nã sê s' inda 'tão lembrados, fiz uma viaja com uns amigos e foi-se parar bem a Santiago de Compostela. E ê gostí daquilo ô bem fêto. Lá isso gostí.

E, nessa ocasião, vi lá chigar um casalinho, cada qual com o sê bordanito na mão, um chapelinho d' aba larga pindurado ô bescoço com um elástico e, ôs ombros, duas m'chilas qu' eram quái do tamanho deles.

Sube, despôs, qu' eles tinham andado a pé mái de cinquenta léguas, debaxo de bom e má tempo, com aquela trôxa toda às costas e a dromir sabe Dés adonde. Mái nunca mái me desqueceu da cara qu' eles fazeram tã penas entraram na Praça do Obradoiro e deram de frente com a Catedral de Santiago...

Atã e nã é qu' aquilo me f'cô cá a dar voltas ô miolo?... Más é que f'cô mémo... E, passados uns tempos, 'tava p' ali a minha Maria a despelar umas batatas p' ô jantar e ê cá a retraçar uma abób'ra p'a masturar com farelos e dar à Cochina, salto p'ra ela:

- Ó Maria, atão e s' a gente fosse uma vez a Santiago nas condiçõs daquele casalinho qu' a gente vi lá?...

- Qual casalinho? Que conversa é essa?!...

- Nã t' alembras q'ondo se 'tava lá im Santiago?...

- Ó homem de Dés, cala-te pr' aí com isso... Atã alguma vez ê cá dava andado assim uma lonjura dessas?!... Tomara ê cá dar ido p' aí à missa tôd's D'mingos...

Vi logo que dali nã levava nada. Mái nã me desem-maginí... Pus-me a matinar, a matinar e lembrí-me do mê compadre Jôquim do Barranco e mái uns q'ontos amigos bons, cudando qu' os desafiava e algum havera d' ir nisso.

Qual o quem?!... Munto inganado 'tava, mês belos amigos... Nem hôve um, tampôco p' à amostra, que me t'vesse fêto uma conversa bonita, p'r mái que nã fosse, d' ir pensar no caso. Todos d'zeram logo que nã, "nem pensar nisso!..."

De manêras que, ontordia, pus-me a olhar à folhinha a ver o qu' é qu' eles davam de tempo p'a este mês e nã é que aibro aquilo logo no dia de Santiago... Lá me vêo, ôtra vez, aquela enfluêinça, mái duma tal manêra que nã me dô livrado dela...

E agora, o qu' é qu' ê faço?... Olhem, inda nã sê bem, mái se nã me pôrem a vista im cima aí p'r umas duas semanas, coisa assim, é qu' abalí à pata p'r o Caminho Português de Santiago.

Bordão de Peregrino de SantiagoEquipamento de Peregrino de Santiago
Chapéu, bordão e mochila já ê cá tenho, agora inda nã sê é adonde arrenjar uma viêra destas...

Qu' ê cá, atão, já tenho a trôxa toda im condiçõs. Um chapéu d' aba larga, uma m'chila e um bordanito qu' ê fiz duma vara de castanho, que dá semp'e jêto p'a uma pessoa s' enqu'librar.

Inda andí a matinar a ver se dava levado o mê Jericó com-migo - já que mái ninguém se resolvé a ir - qu' ele semp'e m' ajudava a carregar com a trugia às costas - méme velho, mê belo burrinho... - e a minha canita Brableta que dá uma bela companha, mái atão aquilo abala-se do Porto, c'm' é qu' ê os panho lá?...

Na carrêra, 'tá bem à vista que nã pode ser, e, no comboio, já mandí prècurar, des que tamém já nã fazem esse serviço p'a burros, só me dispensam b'lhete p'ra mim, e bem caro... E a canita tinha d' ir drento duma gaiola e 'tar bacinada e nã sê quem, nã sê quem...

Ora, já se vê que, a qu'rer abalar, tarê qu' ir sòzinho. Nã é lá grande idéa, mái atão...

Tamém, méme que vá, é d' adregue m' aguentar p'r aqueles caminhos, qu' ê cá, um destes dias, dí aqui um jêto a uma perna e, agora, ando p'r aqui com uma moínha num joelho que nã 'tô lá munto sast'fêto com isto.

A minha Maria já me dé aqui umas esfregas, uma preção de vezes, com uma pomada qu' ela comprô ali à dos chineses, coisa assim béque-me c'm' à banha da cobra qu' usava a par'cer na fêra de Monchique, mái munto mái fedorenta, e nã me servi de nada.

Ela bem que esfegrô e mái que esfregô, e, a seguir inrolô-me o joelho com um trapo qu' ela fez com uma perna dumas ciroilas velhas que p ' ali tinha, mái, é c'm' l'es digo, nã valé de nada!...

Agora o chêro... Esse sim. Impestô a casa duma tal manêra que nem as moscas cá dã antrado... E uma noite destas, tive qu' abalar da cama e ir dromir ali p'a debaxo da arramada. Semp'e o fador nã é tã ruim... Vá lá qu' ele é Verão e nã faz frio...

E agora 'tô num enrascanço que nã sê o que faça. S' abale, se nã abale. S' abalo, calhando, ô fim dum dia ó dôs, arrelo. Se nã abalo, fico sem saber se lá dava chigado ó não. E ê cá que nã gosto nada de vacas incoiradas... Olhem, s' ir, vô, se nã ir, nã vô. S' arrèlar, arrelo, se nã arrèlar, chego lá... E pronto.

É passem munto bem, qu' ê logo l'es conto c'm' é qu' a coisa se passô.

05 julho 2007

Alferce, aldeia em flor

Alferce, aldeia em flor 2007
P'r uns dôs ó três meses, quem qu'sesse ver flores, era no Alferce...

Este ano fazeram pr' aí um concurso, ó uma coisa assim, que cada concelho tinha um povo que se inchia de flores até mái não, p'a ver se ch'mavam a famila de fora assim a estas terras mái piquenalhas.

Cá im Monchique, calhô ô Alferce.

De manêras que, tã penas o enverno acabô, a famila ali do Alferce desatô a despôr flores p'r tudo q'onto era sito e, nã sê se tã lembrados, mái, já no dia de Maio, q'ondo se foi o passêo e às provas do bolo de tacho, aquilo 'tava que dava gosto. E assim f'cô até agora.

Andí p'a l'es amostrar isto este tempo todo, mái nã tive jêto, e, atão, só agora é que 'tô a falar no caso, e um coisinho à pressa, que ando aí a tratar d' ôtras coisas que logo l'es digo o que é.

Dessa manêra, vô-me falar pôco - qu' é p'a nã d'zer muntas parvoêras - e dêxo-l'es aqui uma manchinha de retratos que tirí às flores do Alferce, a aldeia em flor de Monchique.

Alferce, aldeia em flor 2007
Esta quái qu' até parêce de plástico, mãi nã cudem, é uma flor de verdade...

Más é verdade, em as coisas 'tando p'a nã correr bem, há-de par'cer sempre algum impendiclo p'a empeçar uma pessoa. Ora era que chovia, ora qu' aventava, e, ô certo, é que nunca dí tirado retratos cá a mê gosto... E méme p'a escrever mêa-dúiza de patacoadas havera d' haver sempre qualquer empecilho que nã me dêxava tratar do caso.

E, d'zer a verdade, andí, andí, nã me dí safado sem panhar com umas gotas d' água im cimba dos cascos, já p'a nã falar da ventania que fazia nesse dia im que lá fui, qu' andava tudo p'r aqueles ares.

Até o mê casquêro, se nã m' aprecato, nã sê adonde tinha ido parar, uma vez qu' uma manga de vento o panhô p'la aba e o estrapôs p' ô mê da rua, a caminho do Povo de Baxo. Vá lá qu' ê cá já 'tava contando com aquilo e salto-l'e logo im cima com a ponta da bota. Foi méme rès-vés... S' ele nã calha a ter a aba um coisinho tã larga - assim quãi c'm' um abirum - já nã no tinha panhado...

Alferce, aldeia em flor 2007
No Largo, parte eram flores de vaso e, aqui deste lado, puseram as ervas de chêro quái todas as que há cá...

E méme nessa altura, oiço uma voz, béque-me conhecida, assim além adiante, a meter-se com-migo:

- Olha quem 'tá além... O Refóias todo descrapuçado e com a coisa na mão...

A coisa era a máquina dos retratos, 'tá bom de ver... e o mariola que 'tava a qu'rer entrar com-migo era o Tóino Luzicuco, um diebo além das bandas de S. Marcos, que vê pr' aí parar, ora 'tá num lado, ora 'tá nôtro, mái, agora, ôvi d'zer que tem parado mái tempo é ali pr' ô Alferce.

- Ah, grande badalo, vê lá se deste uma manita a panhar aqui o chapéu, entes qu' ele abalasse aí prê adiante...

- Dêxasses-e-o vir, qu' ê logo o cercava aqui...

- Com um vento destes?!... Sê cá s' ele nã alevantava voo e o menes qu' ia parar era ô Barranco do Demo...

- E o mal qu' isso me fazia...

- Nã te fazia a ti, mái fazia-me a mim, que f'cava sem ele...

- G'ande prejuízo... Um casquêro desses já todo debôto e, béque-me, até roto ele já 'tá aí no debrum...

- Qual roto nem roto!... Inda o comprí, o ano passado, na fêra de Vila Nova... E bem caro qu' ele foi que me ia custando os olhos da cara...

- Nã te chores, que tu tens munto... Ó pensas qu' ê nã te conheço?...

Alferce, aldeia em flor 2007
P'r tod' ô lado puseram umas florinhas. Méme singelas que fossem...

- Já que 'tás com essa conversa, era p'a te pagar um calcesinho ali à do Càxinha, já nã te pago...

- O qu' é qu' isso t' adianta?... Pago eu...

- Assim, 'tá bem... Dêxa-me lá tirar aqui mái uns dôs ó três retratos, que vai-se já ali...

- Vai-se, não... Quem é que te disse qu' ê pagava p'ra ti?!...

- Dêxa lá que nenhum há-de ficar im seco... Olha, 'tive cá a pensar e, se nã te portares mal, inda pode ser que mande vir alguma coisa p'ra ti...

Inda bem nã tinha acabado de falar já ele 'tava a fazer um cigarrinho... Puxa duma onça d' Àguia, um livro de papel daqueles das mortalhas mái largas e vá d' enrolar. O Homem tem uma prática daquilo que, nã demorô um foguete, já ele tinha o cigarro nos quêxos...

- Ó Tóino, atã assim é que te portas bem?... Nã sabes qu' ê cá nã gosto de fumarem ô pé de mim?!...

- Mái tens de t' aguentar... Ê cá, atão, sem um cigarrinho é que nã dô passado...

- Olha que já ôvi muntos d'zerem o mémo e, partes deles, já nã fumam. Uns, que t'veram méme de se dêxar de fumar premode a falta d' ar que sintiam, e ôtros, que já morreram, parte deles, na desgraça...

- Eh'q, mái atão, quem me tira o tabaquinho tira-me tudo...

- Bem fez o que te baptizô p'r Luzicuco... Andas semp'e de luzinha a acender e a apagar...

- S' ê cá sabesse quem foi o grandessíss'mo filho da pucra, logo l'e dava o arroz... E tu tamém nã te descudes munto com a língua qu' ê nã gosto de me ch'marem isso...

- Isto nã era p'a te ch'mar, era só p'a fazer a amenção... E já sabes que q'onto mái t' enfezas, mái eles te chamam. Se nã fazeres caso, vã, vã, desquecem-se...


Já qu' o YouTube 'tá na moda, vejam lá os retratos tamém aqui. Querendem...

Agora, se gostarem de ver os retratos mémo ô sério, acalquem aqui na galeria do Alferce, aldeia em flor.

E p'r 'qui me fico.

Sáb'do e D'mingo que vêem, nã percam a fêra do presunto. Ê cá, Sáb'do, tenho um baptiso, se lá dar chigado só se no D'mingo, mái quero ver se nã perco tal coisa.

Atã até um dia destes e saúde da boa.

01 julho 2007

Clube os Amigos da Floresta "O Pulmão do Algarve"

Clube dos Amigos da Floresta
Estas pessoas - e mái uns q'ontos que nã 'tavam aqui - 'tã semp'e d'spôstos a acudir ô que ser preciso.

Na noite de S. João, c'm' já l'es contí, fui a Marmelete más a minha Maria e os mês compadres.

Ora, c'm' à gente chigô cedo, que ninguém dava aturado o Zé Manel im casa, o mê compadre Jôquim assantô-se a li à sombra do plátano p'a fazer tempo. Ê cá, que m' aborrêce de 'tar munto tempo no mémo sito, pus-me a andar lá p'r um lado e ôtro e vá de bispar o que me par'cé na frente.

E espertô-me a atenção, uma coisa qu' e já tenho visto umas tantas vezes, mái inda nunca tinha falado lá com a famila que pertence àquilo. Até, p'a d'zer a verdade, inda na fêra dos inchidos ê me tinha rapimpado com uma carne frita qu' eles lá tinham, que foi um consolo.

Pôs, desta vez, calhô a dar-se o caso de falar logo com o chefe lá daquilo, qu' é um amigo ali daquela famila da Boavista, e o homem lá arrenjô pacência p'a me dexplicar aquilo tudo tim-tim p'r tim-tim e f'quí sabendo o qu' inda nã sabia.

Clube dos Amigos da Floresta

O Clube os Amigos da Floresta tem aí quái uma dúiza de directores - ê aqui no retrato só dí panhado sês - mái nã cudem qu' eles servem p' ô mémo qu' aí os dos clubes da bola e coisas assim...Nã senhora!...

Eles servem é p'a trabalhar q'ondo é preciso, sem arreceberem coisíssema nenhuma. P'r exempes, s' haver um fogo - c'm' 'tã aqui perto - vã logo lá com a camineta deles e o motor de tirar água, e fazem tudo o que puderem p'a ver s' o dã apagado entes dele se espalhar.

No Enverno, cai uma arve numa carr'lêra, eles vã lá com um motoserra e tiram-na. Há uma inundação, eles vã ajudar a resolver o caso. E p'r 'í diente...

E isto a qualquer hora. Tanto se faz de dia c'm' às tantas da madrugada, 'tã sempre prontos p'a dar uma manita a qualquer um que precise.

Mái o amigo João Albano - o Presidente do Clube - disse-me tamém uma coisa que me f'cô cá no ôvido, que tem uma grande emportâinça, cá no mê ver. É qu' eles tôd's "têm uma missão de vigia" e, atão, andam semp'e a dar uma vista d' olhos nisto e naquilo. De manêras que semp'e é mái má dum estapôr qualquer dar fogo seja adonde for, e, caso dêa ó ele s' acenda dôtra manêra, é d'adregue eles nã darem por isso logo no prencípo.

'Tá bom de ver que, sabendo disto tudo, pensí logo im me fazer sóiço daquilo. Sim, que, désna que nã meta política - lá isso dos partidos... - ê gosto semp'e de fazer parte destas coisas. P'r mái que nã seja, p'a ajudar com a colectazinha tôd's anos.

E é barato, home... Olhem, querendem se fazer sóiços, aquilo é só dar o nome, assinar um papel qu' o Presidente - o amigo João Albano lá dos Gralhos, daquele restaurante munto conhecido "O Abrigo da Serra" - tem e pagar, béque-me, vinte eros p'r ano, que ninguém fica mái pobre nem mái rico p'r isso... Mái, 'tá bom de ver que, se qu'rerem falar com ôtro director do Clube, tamém há-de dar no mémo.

E se p'a qualquer um vinte eros nã é nada, p' ô Clube, se t'ver uma bela manchêa de sóiços - que já tem perto dum mê-cento deles, nã cudem... - semp'e tem ôtras condiçõs p'a comprar mái material e tamém p'a bater o pé aí à famila da Junta e da Câmara e d' ôt's lados, a ver s' eles dã mái um a'xilozinho...

Clube dos Amigos da Floresta
Arrenjaram esta camineta com um depósito e um motor de tirar água p'a acudir a um fogo que parêça.

Sim, qu' o Clube inda é novo - só foi criado despôs dos fôg's d' há três ó quatro anos - e tamém é pobre que, p'r o que percebi, só l'e pagam o gasóleo. O resto foi comprado com o d'nhêro qu' eles arrenjarem e, agora, já hôve um estrangêro - que belo amigo... - que dé ôtra camineta qu' inda 'tá a ser resistada.

Até agora, só têm tido esta que se vê aqui e é com ela que se têm governado. Semp'e é melhor pôco do que nada, já d'zia a minha avó... mái, p'a uma parte tã grande da serra, vê-se logo qu' isto nã chega...

E, já agora, sabem c'm' é qu' eles vã arrenjando algum d'nhêrinho p' às despesas? Olhem, é vendendo uma carninha frita com pão e umas cervejalhas e mái uns calcesinhos de vinho c'm' àqueles qu' ê cá bobi na noite de S. João, com o mê compadre Jôquim do Barranco...

Aprevêtam estas festas, montam lá as coisas deles e vendem o que podem. Ô méme tempo, ganham uns destanitos e tratam bem da gente q'ondo se 'tá com fome e, inda más emportante, com sede...

Clube dos Amigos da Floresta
É assim, vendendo umas coisinhas nas festas, qu' o Clube arrenja algum d'nhêrinho...

Pôs atão, vejam lá se dão tôd's tamém uma manita ô Clube os Amigos da Floresta "O Pulmão do Algarve", tanto se faz dando o nome p'a sóiços, c'm' fazendo despesa na barreca deles q'ondo irem a qualquer lugar adonde eles 'tejam.

Olhem qu' a nossa Serra de Monchique já ardé quái toda, inda faz pôco tempo, e nã há quem quêra qu' isso se dê ôtra vez nem agora nem nunca.

Tenham todos munta saúde.