08 setembro 2006

Marmelete: A Fêra, à noite, é que dé que falar...

À nôte, 'tava tudo caído no "Tita" a ver o Chico Barata e as moças qu' ele trôxe p'a balharem...

Q'ondo abalí p' ô "Tita", nunca pensí que 't'vesse lá o gentío que 'tava, a ver o Chico Barata e as moças dele, que balhavam que nã quêram saber...

Só, ô chigar lá, é qu' alcançí a r'zão da famila acudir lá toda daquela manêra. Mòrmente a rapaziada do mê tempo e mái velhos ainda, aquilo era tudo lá, d' olhinho a luzir... Alguns até se lembiam...

Mái nã cudem qu' era p'r ca'sa do Chico. Alguma vez?!... Eles 'tavam más era tôdes com as vistas im cimba das meçalhas, que balhavam que nem duas aventoínhas, e, c'm' méme à nôte 'tava uma calma que nã s' aguentava, t'veram que tirar a rôpinha quái toda, mal tapavam as vergonhas p' ali com dôs trapinhos, e curtinhos qu' eles eram...

E as duas qu' eram do mái bonito que pode ser e haver... Uma, clarinha e estia, a ôtra bem tr'guêra e mái p' ô forte, semp'e a se rirem c'm' se l'e t'vessem a fazer c'cégas, e a abanarem - com l'cença da palavra - o rabo, qu' um homem quái qu' entontecia...

Com a calma que fazia, as moças t'verem de tirar a rôpa quái toda...

O mê compad'e Jôquim inda me disse:

- Ó compad'e, atã e s' a gente tamém tirasse a camisa? Com a calma qu' aí 'tá...

E o suôr até l'e escorria à testa abaxo... Verdade se diga, do méme mal me quêxava ê cá, mái, olhí p'r tôdes os lados, vejo tanta famila, béque-me dé-me assim um coisinho de vergonha.

- Compad'e jôquim, ê cá bem que me dava cobiça disso, mái atão diente desta famila toda um homem f'car em camiseta...

- Qual camiseta nem camiseta!... Tirava-se era tudo p'ra fora... Ó tem cagúifa d' apresentar p' aí alguma cagadela de pulga?...

O mê compad'e já 'tava um coisinho entradote, nã l'e parêçam mal a conversa dele. Qu' ê até me furto a d'zer as palavras todas qu' ele disse...

- Ó compad'e jôquim, agora já nã há disso. Nôt'es tempes é qu' havia aí menino que nã se l'e podia olhar p' à gola da camiseta. Agora?!... Isso os pózes de DDT deram fim a essa b'charada...

- Atã, já que tem medo, venha mái uma cervejinha p'a gente se rafrescar. Ó menina, traga lá aí mái três, fazendo favor.

- É só duas, compad'e. Nã vê qu' o sê Zé Manel já anda pr' aí nã sê adonde... Há-de andar a arrojar a asa de roda d' alguma moça...

Nisto, o Chico Barata, arresolve-se a ir c'mer qualquer coisinha. Des que 'tava chê de laberca e atão, no entervalo, o parente Mortal que fosse tocar umas modinhas, à manêra dele, lá p'ra cimba do palco. E ele foi.

Palco cham'-l' ê cá. Qu' aquilo nã passava d' umas q'ontas grades im cimba umas das ôtras... Mái servia munto bem. Lá isso, t'veram uma bela idéa.

Tamém l'es digo. Só o que se perdeu foi as meçalhas dêxaram de balhar... Qu' as modas qu' o parente Tóino tocava com o sê fole, nã f'cavam nada atrás da aparelhaja do ôtro. P'r menes, cá p'ra mê gosto... E a minha c'mad'e C'stóida tamém me disse o mémo.

Tã penas o Chico Barata baldeô a cêa e voltô p' ô palco, sabem p'a donde é qu' o parente Tóino de Mortal foi convindado, o qu' ê achí muntíss'mo de bem?... P' à mesa do senhor Presidente da Junta.

Atã nã foi bem morcido? O Senhor Presidente é uma pessoa munto dada, o parente Tóino semp'e d'sposto a entreter a gente com umas modas das dele, o qu' é que se 'tava à espera...

O Parente Tóino de Mortal até foi convindado p' à mesa do senhor Presidente da Junta...

Pôs, nã l'es digo nada, rompé a mús'ca ôtra vez, conversa p' aqui, conversa p' ali, as moças balhar e a abanarem-se todas, punhana!, mã sê munto bem se hôve p'a lá menino, daqueles mái antigos, que nã se 't'vesse já a babar todes...

O mê compad'e Jôquim, alevanta-se, béque-me a qu'rer balhar, faz menção d' ir d'rêto às moças, qu' a cerveja já 'tava a fazer o sê infêto, salta logo a c'mad'e C'stóida:

- Eh!... Assanta-te, lá aqui! Atã, que figura é essa que 'tás fazer?...

- Anda cá, C'stóida, vamos balhar aqui uma os dôs!...

- Tem tento, homem. Vê lá bem o que fazes. Ai que vergonha...

- Ah, nã vens?!... Olha qu' ê vô-me, àlém p' à frente, balhar com aquela mái tr'guêra...

- Más o qu' é qu' ê faço a este homem? Nã vêem a vergonha qu' ele me faz passar?... Nã pode ver uma saia fica logo nisto. É qu' ê, despôs, nã dô conta dele...

- Ó c'madre vá já balhar com ele... Isso nã custa nada e ele, assim, nã vai lá p' à frente. Se mecêa ir, ê tamém vô com a minha Maria...

Ora, s' ê bem o disse, melhor o fazemos... Jogamos-se os quatro a balhar ali méme entremê das mesas. Pôco s' acertava, mái foi uma festa. E más a más, que nã foi só a gente.

Dali a um pôco, até a meçada nova foi lá p' à frente e vá de balharem à manêra delas. Que, balhar, é uma manêra de d'zer. Aquilo é p' ali andarem ôs encontrõs e "abanarem o capacete", c'm' elas dizem...

Até me dá paxão. Umas mecinhas tã jêtosas e nã parêce um moço que l'e jogue as mãs e amostre c'm' se balha a precêto... Ai s' ê cá voltasse ôs mês vinte anos...

Ô fim, até as mecinhas mái novas foram balhar. Môces, nada...

E com esta paxão me despeço de vomecêas. Fiquem-se com Dés, até ôtro dia.

8 comentários:

  1. Amigo
    Como me transportas com tanta facilidade para tempos que vivi e recordo com tanto gosto. As feiras,os mercados, as quermesses da serra ainda vão resistindo ao desmoronar das tradições que nós tanto respeitamos. Parece-me que vou ter o privilégio de ser a primeira a comentar neste post. Quero pedir-te um fazer: se encontrares a imagem de um vendedor de petróleo, envia-ma. Agradeço-te com um beijinho, o mesmo que te deixo pelo belo post que aqui nos deixas.

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  2. Parente
    Punhana munde que mecêa é levade da breca... Nã sabia qu'era tã marafado pa balhar. Antigamente agente tava habituades ós corridinhes, ós tangues e às valsas, más agora imbora nã dance (só numa roda num casamente ou num ajuntamente d'amigues), más goste munte de ver os mieques qu'a rapaziada nova faz a dançar, até se desmanchem tôdes...
    Deve ser defícele arrenjar um retrate dum vendedor de pitrol pá sú amiga , qu'isse já nã enziste nestas bandas.Inda tenhe caindiêres de pitrol em casa, dos de manga (agora chaminé) e dos de lata, os jericos, má sã só pa enfête.
    Passe bem e vá escrevendo, a ver s'esta cultura nã morre...

    O sé amigue Campaniço

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  3. Alfazema
    M't'ôbrigado p'r esses mimos tôdes.
    Desafortunadamente, nã tenho retratos dessas coisas d' ôtres tempos qu' ê, só agora, é que tenho mánica de tirar retratos.
    E tamém, na minha casa nã passava o petrolim, que nem estrada havia. Ia ê cá, com uma bilha de barro, assim sobrecomprido, à do Ti Zè do Cor'd'Vale, a pé, p'r uma v'reda, comprar um litro de cada vez.
    Muntas recomendaçõs do Parente.

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  4. Ai Parente!

    Esta feira de Marmelete não me pareceu nada pequena...o divertimento foi grande!
    À noite deu que falar...
    Ó parente isto só visto, com tanto homem sentado e as moçoilas a bailar...
    Não é preciso ter vinte anos para "abanar o capacete"!:):)

    ~*Um beijo*~

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  5. Vocês deixam-me a cabeça aos bicos de tanto diálogo de encanto. "Ó menos" não mostra os reformados a jogar as cartas ...(como nos telej) mas sim todos felizes e com o pézinho a bulir. Bem haja querido "Parente". Abç

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  6. Folgo em saber q a Serra continua bem viva e que os seus habitantes continuam a divertir-se a valer!!

    Infelizmente continuo arredada destas lides informáticas, n sei bem por mais quanto tempo...Por isso n tenho acompanhado as suas histórias...

    Este ano, no regresso da estada em Monchique fizemos o caminho antigo via Aljezur e passei por uma indicação p as "Rifoias", perto da Rua Nova... Já sei ao menos onde é!

    Entretanto, mais um mesinho e tenho a minha marafadinha cá fora! Agora é tempo de descansar e preparar a sua chegada! Não podia deixar de passar por cá, p o cumprimentar e p desejar a continuação do excelente trabalho feito neste blog!!

    Cumprimentos barrigudos!

    Maraffaada

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  7. Minha bela amiga e barrigudinha Maraffaada:
    Munto l'agradêço as sus notiças e fico munto contente de saber que tem tudo corrido bem e qu' a su Maraffaadinha 'tá quái cá p'a dar muntas sast'façõs à mãe e ô pai.
    Atã, agora, já sabe adonde é a Refóias. Mái nã se desqueça que désna daquela placa que mecêa viu, inda tem qu' andar aí perto duma hora a pé... O que vale é qu' é quái semp'e a decer...
    E, agora, mado-l'e um desejo de munta saúde e sorte p'a si e p' à su mecinha e, q'ondo ela nacer, fazendo favor, diga qualquer coisinha p' à gente saber.
    Muntas rec'mendaçõs e que se mantenha tudo a correr o melhor que possa ser.

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  8. Aí Ti Refóias isse é que foi advertimente, inda bem que inda vão havende aí umas fêras e uns advertimentes senão o que é qu' era d'agente. Olhe, dia 30 vou-me enfiar num avião e cá vou eu outra vez, já tenhe muntas soidades dessa terrinha santa. Pode ser qu'agente se veja praí... Cond'é que mete p'rí uma amostra p'ágente conhecê-lo se o virmos na rua? Já era tempo de se saber quem é o autor de tão bela escrita, que mantém vivos os custumes e tradições de monchique! Até outre dia Ti refoias!

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Obrigado por visitar e comentar "O Parente da Refóias"