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04 maio 2009

Minha bela Via Algarviana!...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
A Via Algarviana, punhana!, é andar e andar p'r esses cerros fora...

Fui andar na Via Algarviana quái duas semanas e já cá 'tô há uns belos dias, mái c'm' voltí de lá todo desmastreado e tinha um poder de coisas p'r fazer premode nã ter 'tado ô monte aquele tempo todo, só inda agora dí tirado um pôcachinho p' ôs comprimentar e l'es d'zer c'm' é aquilo foi.

Pôs atão, 'tejam com Dés e sejam munto bem par'cidos. Calhando, 'té já havia p'r 'í quem cudasse qu' ê cá me tinha barimbado nisto. Nã senhora!... Posso-me atrasar assim um belo coisinho c'm' agora, mái largar isto de mão sem más esta nem más aquela, isso é que tinha que ver...

Pôs é verdade, abalí ôtra vez caminho da Via Algarviana e a coisa este ano até que foi duma manêra qu' ê cá nã 'tava munto à espera. Logo no pr'mêro dia, ajuntô-se uma data de famila que foi uma coisa p'r demás...

Só de Lisboa vieram tantos ó tã pôcos que nem os cheguí a dar contado. Mái, sigundo me contaram, menes de sessenta nã eram. Ora, contando tamém os de cá de baxo, formô-se um ajuntamento duns oitenta. À vontade!...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
Q'ondo calhava, aquilo era c'm' nos tempos da tropa: vá de marchar!...

Vá lá qu' aquilo só durô dôs dias, qu' eles, despôs, t'veram que s' ir imbora, senã c'm' é qu' ê cá dava àgu-ento um passo daqueles, senhor?!... Os marafados nem p' ô lado olhavam. Aquilo era andar à rôpa toda até mái não, a ver qual era o que chigava im pr'mêro...

Mal alembrado, 'tá bom de ver, vêo-me à idéa que só faltavam ali os burros - só no últ'mo dia é que t'vemos dôs - p'a se tratar duma escavalhada. Isto sem ofensa. Nã se parêçam mal, aqueles que lá foram...

É qu' ê cá 'tava acostumado a andar com um passo um coisinho mái compassado e ir devassando tudo o que me 'par'cesse p'r aqueles cerros fora e, assim, quái a cem à hora, um homem mal tinha jêto era de tomar ar, q'onto más olhar p' ô lado e ver tanta coisa bonita qu' ele p'r 'í há...

Bom, mái dêxando isso da mão, que já se passô, a Via Algarviana, ô fim de contas, foi, c'm' no ano passado, uma coisa do melhor. Aquilo era homens, m'lheres, estrangêros... e, é verdade, já me desquecia, um cão!... O "Pantufa".

Olhem, aquilo, o "Pantufa" era um canito do mái bem caçado que pode ser e haver. Piquenalho, cacenho, coxo - que nã dava dobrado uma perna de trás - mái atão, rijo que nem l'es sê incarecer. É que nã parava nem um 'sntante...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
Uma ocasião, p' ali pus a máquina mémo no chão e ela tirô o retrato à gente, sòzinha...

O b'chalho, posso afiançar, q'ondo chigô ô fim, teve que ter andado bem uns dôs drôbos de qualquer um da gente. Atã ele fugia atrás de tudo o que mexia p'r aquelas estevas e balsedos, córgos e barrancos que nem uma seta...

Uma ocasião, afia atrás duma perdiz, joga-l'e a boca às penas do rabo, o bicho panhô um cagáiço tã grande ó tã pequeno, alevanta vôo d'rêto a mim, passa-me rente ô nariz, até me fez vento ô chapéu, vejam lá... P'r o sim p'r não, até dí um rafujão assim de repente p'a trás e agachí-me todo ô pé duma mongariça que p' ali 'tava.

D'zer a verdade, um destes dias, 'tive a contar isso ô mê compad'e Jôquim do Barranco, más o marafado béque-me nã f'cô lá munto certo... Qu'ele, atão, parte das vezes, p'a crer no qu' ê cá l'e digo, é uns trabalhos. Em nã vendo as coisas, 'tá semp'e desconfiado qu' os ôtros 'tã a antrar com ele.

- Ó c'pad' Jôquim, vomecêa tem cá um fêtio... Só acradita no que vê?!...

- Nã sabe que "gato escaldado d' água fria tem medo"?... Já me têm indròminado tanta vez!...

- Maí o qu' ê cá l'e digo é semp'e a pura da verdade, compadre...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
Muntos caminhos nã se dá ido dôs a par. Cá p'ra mim, sã os mái bonitos...

- Sê cá... Tanta coisa que mecêa me diz da Via Algarviana, até me dá que pensar s' isso sará tudo bem assim... Olhe, d'zer a verdade, - mái, veja lá, nã se parêça mal... - ê cá até nã sê se 'tô bem certo de vomecêa ter ido lá e andar esse dias todos c'm' diz pr' aí...

Ele bem disse p'a nã me par'cer mal, más olhem, tenho que d'zer qu' aquilo nã me caí foi nada bem... Inda 'tive p'a l'e responder ô consoante, mái, despôs, assobií assim p' ô ar, e lá me contive sem me marafar com ele...

- Compad'e Jôquim, atã ê cá ia-l'e d'zer uma coisa que nã fosse verdade?!... Fui, andí aqueles dias tôdes, nã fui dos mái ingònhados e, inda l'e digo más: cheguí ô fim, 'tava pronto p'a ôtra!...

Mintira minha, já se vê, qu' ê 'tava era todo escadraçado que mal me sustinha d' em pé...

- 'Tava, tava... Ê bem vi c'm' é que mecêa andava aí a arrojar as botas nos dias a seguir a ter chigado ô monte. Da perna esquerda, atão, até coxeava...

- Eh'q... Isso nã era bem assim... 'Tá bem que, já quái no fim, par'cé-me p' aqui uma borrefa ô pé do dedo grande, mái aquilo nã foi nada. Tanchí-l'e logo com uma agulha e uma linha das d' alhinhavar da minha Maria, pronto, foi um ar que l'e deu...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
A Travessa das Guerrêras foi munto gabada p'r os que lá passaram...

- Ai já viu?!... Ê bem me parcia...

- Atã, havera de ver ôtres que p'r lá andavam... Tinham os pèzinhos numa chaga pegada. Nem sê c'm' eles os davam mexido!...

- E os seus 'tavam na mesma... Ó pensa qu' ê cá sô assim tã trôxa que nã tenha visto isso tudo?...

Aqui, achí melhor mudar de conversa...

- Compad'e Jôquim, sabe-me d'zer s' eles deram água p' amanhão? Inda queria ver se sameava ali umas duas quadras de batatas empérias...

- Na Rádio Fóia nã deram, mái nas ôtras estaçõs nã sê, qu' ê cá nã oiço mái nenhuma.

- Calhando, vô-me cortar ali uma manchinha delas...

- Calha bem que, inq'onto as corta, vai-se falando mái um pôcachinho da Via Algarviana... A C'mad'e Maria des que mecêa vi-se lá foi um coisinho impeçado p'a dromir. Era a cama que tinha pôco cómado?...

E ele a dar-l'e!...

- Lá qu' a cama nã era grande coisa, nã era... mái, inda o pior era a roncadêra qu' alguns faziam. É qu' até aquilo estramecia tudo...

- Nã me diga...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
quái no fim, até burros a gente tinha. Nã fosse algum ter míngua de via...

- Ai nã digo... Havia menino que, tã penas se panhava espòjado na cama, inda mal tinha tempo de ter fechado os olhos, já roncava qu' até metia respêto... P'r menes uns dôs ó três, nã l'e digo nada...

- Mái, é certo e sabido que nã hôve assim mái nada que l'e calhasse mal a nã ser passar uma noite ó ôtra acordado. Tinham sempre os ôtros cómados todos...

- Lá isso é verdade... Tirando ter que tomar banho com água fria, uma vez ó ôtra, qu' isso até faz bem...

- Pôs, inrejece os ossos...

- ... e ôtras coisas sem emportância por 'í além.

- E o caminho, que tal? Andavam assim só p'r v'redas ó quem?

- Só-se!... Era p'r onde calhava. Tanto s 'ia p'r carr'lêras c'm' p'r v'redas ou ôtres caminhos qualqueres. Mái dig'-l'e já, 'tava tudo im boas condiçõs.

- Nã me diga!...

- Tirando um ó ôtro... Dé-se até um caso ali q'ondo se vinha de Silves pr' aqui p'a Monchique - perto dum sito ch'mado Romano - qu' hôve um entel'gente que se dé ô trabalho de pôr umas correntes atravessadas no caminho, presas a uns pilares de cimento, p' à famila nã dar passado...

2ª Grande travessia da Via Algarviana 2009
quái no fim, até burros a gente tinha. Nã fosse algum ter míngua de via...

- Mái vocêas passaram ô lado p'r o mêo do mato e pronto...

- Más é qu' ele, já contando com isso, derrubô tamém os calitros que tinha na berma e feze-os cair de manêra a f'carem a travessados no caminho...

- Mái isso, tamém, p'ra si e p'r ôs ôtres, um calitro ó dôs pôco trabalho l'es dé a arradar...

- Ai um calitro ó dôs... Era uma remessa deles!... E arves já de cinco, sês anos. Quem é que podia com aquilo?!... T'vemos que passar p'r baxo e eles lá f'caram atravessados.

- Im todo ô lado, há semp'e uns espertos desses...

- Sã c'm' ôs cãs da palha, compad'e Jôquim. Nã comem nem querem dêxar c'mer...

- Dêxe lá, compad'e Refóias, em eles morrendem, logo há-de haver quem l'e ponha as propriedades todas drento do caxão...

- Se lá cabessem, havera d' haver alguns que dêxavam isso im testamento...

E nã digo mái nada que fartos de tanta conversa já vomecêas 'tão. Nã falí nos que fazeram a Via Algarviana amontados im b'cicletas e im cavalos. E foram bem muntos!... Mái, p'a chigarem ô farol de S. Vicente ô mémo da gente, abalaram uns dias mái tarde d' Alcoutim. Fica p' à ôtra.

Agora querendem ver mái alguns retratos da 2ª Grande Travessia da Via Algarviana 2009, é só acalcarem aqui na Galeria da Via Algarviana.

E Dés l'e dê munta saúde ôs da Via Algarviana e a vomecêas todos.

28 maio 2008

A Fonte Santa da Fornalha

Ruínas da Fonte Santa da Fornalha
A Fonte Santa da Fornalha 'tá neste lindo estado...

'Tá bem qu' ê cá, uma ocasião, - vai p'a uns dôs anos, p'ra más que p'ra menes - já l'es falí aqui das Fontes Santas de Monchique, mái, ontordia, hôve p' aí uns amigos que me desafiaram p'a l'es ir amostrar a da Fornalha, o qu' é qu' ê havera de fazer, fui... E é isso que l'es vô contar.

Um, inda vá lá, era estrangêro de fora nã na conhecia, mái o resto é rapaziada dos mês tempos, custa-m' a crer qu' inda nunca lá t'vessem posto os pés. Mái eles des que não... Nã sê se foi p'a fazerem porra de mim s' o qu' é que foi, lá m' indròminaram p'a l' es ir insinar o caminho.

Ê cá, atão, pensí logo im levar tamém o mê compadre Jôquim com a gente, mái c'mo ele nã l'e dava jêto premode umas batatas que tinha lá p'r cavar e ôtras p'ra dar calda, nã quis ir. A sorte foi que, nesse méme dia, incontrí-me com o parente "Verruma" - o ti Zé Caçapo - e aquilo é moço p'a nunca d'zer que não a coisas destas.

De manêras que, cada qual com o sê farnelinho às costas - menes o ti Zé Caçapo, que, p'ra ele, levamos a gente - e uma gotinha d' água tamém, qu' ele, lá na Fonte Santa, há água, e da boa, mái nã fosse o sol pertar com a gente, lá desalvoramos caminho da Foz do Barrêro.

Ruínas da Fonte Santa da Fornalha
Méme com aquilo tudo quái a cair, inda se 'tá lá do melhor...

Sim, qu' a gente, indo lá pr' o caminho de baxo, safamos-se melhor que cá pr' o de cimba, da Fornalha p'ra baxo. Aquilo, béque-me, 'tá p'a lá tudo im-matagado e, calhando, nem uma pessoa já há-de dar descobrido a v'reda antiga.

A cachamorra é que a r'bêra inda levava uma bela água e uns paus de calitro grósso qu' era de c'stume 'tarem lá atravessados p' à famila passar p'r cimba, im jêto de ponte, a enverna tinh' ôs levado r'bêra abaxo.

Toca de tirar as botas e meter os caguetes drento d' água...

A minha Maria nã gosta nada disso, des que l' arrefecem os pés e faz-l'e doer os calos. Méme assim, foi a pr'mêra a se jogar à água e, inda ê cá nã tinha descalçado as peúgas, já ela lá ia chigando à ôtra banda a arrulhar:

- Ai que frio!... Ai que frio!... Já sabes qu' ê nã gosto disto e só me trazes p'a sitos destes!...

A Rosa do Esterquinho, moça do nosso tempo de escola, - munto boa pessoa, mái, lá q'ondo calha, impina os barretes com a minha Maria... - essa atão, a pior coisa que l'e podem fazer é ter meter os pés descalços na r'bêra. Dá-l'e nonjo dos limos, tem medo nã l'e salte alguma cobra d' água ó ôtro bicho debaxo duma pedra, ê sê cá...

Ruínas da Fonte Santa da Fornalha
Com jêtinho, chega-se lá. Mái é preciso saber o caminho...

Pôs essa, p'r mái qu' a gente tôdes brigasse, nem p'r nada que s' ôpunha a descalçar os sapatos. Foi preciso o ti Zè Caçapo - semp'e munto cão... - l'e meter medo com ôtra coisa p'a ela se resolver. Aí, jogô-se logo à água à rôpa toda:

- Ó parenta - d'zia ele - ê cá, se fosse a si, nã f'cava aqui sòzinha. É que tenho ôvisto p' aí d'zer qu' aqui p'ra estas bandas, 'tá p' aí tudo inxameado de porcos brabos. E, uma pessoa sòzinha, sabe-se lá o qu' é qu' esses danados sã capazes de l'e fazer...

Mintira, que, méme sendo verdade qu' ele, agora, há bem muntos javalis aí p'r tod' ô lado, os bichos, de dia, 'tã amalhados sabe-se lá adonde e nunca parêcem. Más ela, assim qu' ôviu tal coisa, punhana!, foi c'm' uma fita, nã tardando nada, já 'tava da banda de lá, ô pé da minha Maria...

O estrangêro, esse nã 'teve com mêas-medidas. Inda jogô as mãs ôs cordõs dos sapatos p' ôs desabotoar, mái, naquilo, dá-l'e uma veneta, arregaça as calças até ôs joelhos, abala rebêra adrento, méme calçado e tudo, assim o vejo tamém já do ôtro lado, ô pé das m'lheres.

Digo p' ô resto dos qu' inda 'tavam ali ô pé de mim:

Tanques de banho da Fonte Santa da Fornalha
Nã é um grande torno d' água, más é uma bela narcente...

- Môces, aviem-se lá senã eles inda se pôem p' além a fazer cachamorra d' a gente cudando que temos medo d' atravessar... Maria, trazeste alguma rodilha p'a ê cá alimpar os pés em chigando aí?..

- Que jêto?!... Munto sabia ê cá que se tinha precisão de passar p' drento da r'bêra... Agora, vinha ê carregada com um trapo p' ô "senhor" alimpar os pés... Isso, tamém, inxugam depressa. Vá, avia-te lá... senã q'ond' é qu' a gente inda chega à Fonte Santa...

E lá tive qu' ir, pôs atão... E os ôtres tamém.

Inda vá lá qu' o tempo nã 'tava assim munto frio e, em chigando à banda de lá, esfregamos os pés ali numas ervinhas a servirem de trapo e, ô fim dum pôcachinho, já 'tava tudo seco e pronto a calçar as botas, p'a se jogar o últ'mo fiaço p'r aquele córgo acima até ô casarío da Fonte Santa.

Fiaço dig' ê cá... qu' alguns, a mê da chapada, já iam mái com os bofes de fora qu' ôtra coisa... Isto p'a nã falar da Rosinha do Esterquinho, que vinha em pernas désna de lá de baxo da r'bêra. Nã sê o qu' é que l'e dé na cabeça, arregaçô as pernas das calças p'a atravessar e, despôs, pôs-se a andar, assim, cerro acima. Ora, f'cô toda esgateada, 'tá bom de ver. Com a preçanada de tójos e balsas que lá 'tavam...

Tanques de banho da Fonte Santa da Fornalha
P'a quem quêra, pode-se lavar à vontade...

Bom, mái dêxamos isso da mão... Ô certo, ô certo é que, arranhados ó a afègar, nã f'cô nenhum p'r o caminho e juntamos-se tôdes lá im riba.

O alemão, grande c'mo era que par'cia um toiro, tã penas chega lá, infia p'r a porta adrento com a m'chila às costas e tudo, ora, aquilo, as casas sã munto apertadinhas, os ôtres abala tudo atrás...

O homem vai p'a se voltar, a m'chila infia uma corrêa num prego todo ferrugento que 'tava ali atanchado no caxilho da porta, fica atravessado quái sem se dar mexido. Más a más, qu' ele, alto c'mo era, p'a nã bater na lumiêra com a cabeça, tinha que 'tar todo ingarrochado.

Tanque de banho da Fonte Santa da Fornalha

E nã cudem, foi preciso uma remessa de tempo p'a se dar conta daquilo... Um puxava p'a um lado, ôt' puxava p'a ôtro... S' os que antraram à últ'ma nã l'e dá p'a voltar p'a trás às arrecuas, nã sê, nã sê... inda hoje 'tariam p'a lá tôdes ingalfinhados...

Mái a coisa lá se compôs e, mái logo, já 'tavam tôdes más era na rua, uns assantados numas cadêras velhas que p'a lá 'tão, ôtres méme no chão ó nalguma pedra de talisca que p' ali vissem im jêto de servir d' assanto.

Ê cá é qu' inda p'r 'lí andí um belo pôco de roda dos tãinques dos banhos tirando uns retratos e òservando bem c'm' à famila d' ôtres tempes teve a idéa de fazer uma coisa daquelas tã bem fêta.

Nã l'es sê d'zer há q'ontos anos aquilo lá 'tá, mái qu' ele há já bem muntos, há. E, nã cudem, se fosse tudo bem limpinho e caiadinho, pedia meças aí a muntos spás qu' há p'r 'í p'r esses hotés (digo ê cá... qu' ê nã sê bem o qu' é lá isso dum spá, mái d'zeram-me qu' era uma coisa assim quái indêntica a isto...).

E, méme assim, tudo marafado c'm' 'tá de ninguém olhar p'r aquilo há tant' ô tempo, inda dá p' à famila fazer lá umas curas que fica tudo quái c'm' novo... É o que tenho ôvisto d'zer, qu' ê cá, atão, inda nunca tive preciso d' ir lá tratar de nada... Más ele há quem já se tenha lá tratado e fale munto bem daquilo.

Atravessando a Ribeira de Monchique próximo da Fonte Santa da Fornalha
Ô voltar p'a trás, toca d' atravessar a r'bêra ôtra vez...

E sabem que más? O estrangêro f'cô-l'e a luzir os olhos. Gostô tanto ó tã pôco d' ir andar p' àquelas bandas que já me mandô d'zer que, p' ô S. João, volta cá ôtra vez e s' a gente l'e dava insinado o caminho désna de lá até à Picota... E ê cá, se t'ver ocasião, até l'e faço esse jêto, de boa mente. Ah isso, faço.

O que me dé um coisinho de vergonha foi q'ondo ele me prècurô se uma coisa tã bonita nã tinha tamém um caminho até ô Alferce. Tive qu' inrolar p' ali a conversa:

- Eh'q, ele béque-me havia p' aí um prê acima qu' ia dar à Fornalha e, despôs, ia-se p'r a estrada até ô Alferce, mái a famila, p'r o jêto, dêxô de passar lá e atão...

- Mái ê nã querer ir na estrada... querer ir sempre na mato... igual à Via Algarviana...

- Pôs isso era uma bela idéa, sa senhora, mái a Via Algarviana passa ali da ôtra banda, além p' ô lado do Cerro do Môrão, d'rêto à Picota, nem na Fornalha toca... O qu' eles já p' aí d'zeram foi que, em podendo ser, vã fazer, p'a quem quêra, um desvio p'r 'qui, passando lá im cimba à Pedra Branca, indo ô Alferce e, de lá, p' à Vila.

- Ê querer ir nessa caminho...

Ruínas da Fonte Santa da Fornalha
Inda tamém lá 'tá o forninho de fazer pão...

- Calhando, há-de passar tamém p'r a ôtra Fonte Santa... Lá a da Malhada Quente.

E vi méme qu' o homem f'cô a fazer conta com isso... Más ê cá tamém tenho quái a firme certeza qu' essa coisa há-de ir p' à frente. Só basta qu' os da Via Algarviana já falaram no caso e a famila lá da Junta do Alferce tamém. Qu' ê sê qu' eles f'caram um coisinho marafados da Via Argarviana nã passar lá... E tem que se l'e a r'zão, qu' o Alferce morêce.

Agora, só uma prècura p'a quem calhe a saber.

Des que já há quem ande a pensar im fazer quasequer coisa lá na Fonte Santa da Fornalha, sarã verdade? 'Té já, béque-me, falaram num hotel... ó uma coisa assim desse jêto... Era bem fêta que sim!...

Olhem, atão, s' algum de vomecêas saber d' alguma coisa, conte tamém à gente, home. Nã faça segredo que tôdes se gosta de saber essas coisas...

Atã, até um destes dias.

14 maio 2008

Punhana, qu' a Via Algarviana ia arrebentando com-migo!...

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
A Via Algarviana já 'tá inagurada...

Que semp'e fui à Via Algarviana, lá isso fui. Mái haveram de ver c'm' é qu' ê ch'guí cá... Vinha todo derrengado!... Olhe, os pés nã nos sentia, o bucho das pernas cudava d' arrenbentar, as cruzes era c'm' fogo e a espinha já quái que nã aguentava o peso da m'chila.

Más isto, c'm' mái vale um gosto que cem menrés na alsebêra, nã há nada c'm' um homem se jogar p' à frente e seja o que Dés qu'ser. Foi o qu' ê cá fiz. Abalí... e pronto. Mái que foi custoso, 'tejam certos que foi. E munto...

Só basta que, logo no dia da abalada, aquilo até tôdes chigarem lá ô sito e mái os comprimentos e mái as tel'fonias a intrevistarem a famila e mái sê cá o quem, nã s' abalô d' Alcôtim senã já mêa-manhã prê adiante.

Despôs, havia p'r lá um ó ôtro que cudava qu' aquilo, os que chigassem ô fim im pr'mêro lugar, era p'a ganharem algum prém'o e, atão, abalaram logo à rôpa toda e lá iam que nem setas p'r aquelas ladêras prê acima.

Ora ê cá, que gosto de fazer as coisas à minha manêra, devagarinho e passo certo, vi-me impeçado p' ôs dar àgu-ento logo até à pr'mêra paraja p' à bucha. A minha sorte foi que tamém 'tava p'a lá um, béque-me alemão, assim um coisinho p' ô gordo, e o homem nã 'tava lá munto ac'st'mado a andar - p'a d'zer a verdade, vi jêtes d' ele arrèlar dum tôdo logo ô pr'mêro dia...

C'mo ele desatô a f'car p'a trás, pensí cá p'ra mim:

- Olha, esta vem a mê favor. Assim já nã sô ê cá a dar parte de fraco. Eles hã-de se ver obrigados a abrandar o passo e esperarem p'r o homem...

E assim foi.

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
Logo nos pr'mêros dias - e im quái tod' ô caminho - as vistas eram do melhor que possa ser e haver...

Atã e vomecêas, c'm' é que têm passado p'r cá? 'Tã uns belos môces ó quem? Des que fazeram p' aí umas festas im forte p'r tod' ô lado... Tanto se faz im Monchique, c'm' im Marmelete e Alferce, p'r o jêto foi uma coisa im grande...

M't' ôbrigado... este ano ajuntô-se o Maio com o Dia da Espiga, há-de ter sido o bom e o bonito... Dé-me cá uma pàxão de nã 'tar cá nesses dias que vomecêas nã calculam... E olhem que, Dia de Maio, foi q'ondo a gente abalô da Fonte dos Chorõs caminho de Marmelete, mái atão inda passar ô pé da Fóia e tudo, só se chigô lá a horas d' ajudar a c'mer um pórco qu' eles p'a lá 'tavam a assar...

Mái atão, s' ê tinha dado palavra qu' ia à Via Algarviana, tamém nã me f'cava bem voltar atrás... E, más a más, qu' ê cá gostí ô bem fêto daquilo. 'Tá bem qu' a lonjura era bem munta, mái nã dí o tempo p'r mal empregue. Inda, um destes dias, 'tava ê aqui munto bem com a minha Maria, num dia de cozedura, par'cé aí um amigo meu, o Chico Arvela, e 'teve-se a falar nisso.

D'zia-m' ele:

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
Lá p'r aquelas bandas tamém inda se vê disto...

- Ó ti Refóias, mái atão vomecêa, com uma idade dessas que já nã tem a r'jeza d' ôtres tempes, dêxa aí a sua patroa sòzinha com o governo todo, abala, vai-se imbora e passa este tempo todo sem vir a casa?!.. 'Tá bem qu' ê cá nã tenho nada com isso... Nã l'e parêça mal...

- Nã vim ê cá, mái foi ela lá!... Nã me diga qu' inda nã sôbe qu' a minha Maria, no dia qu' agente chigô a Silves, 'tava lá à nossa espera?!...

- Nã me diga...

- Pôs 'tava... Meté-se ma carrêra, abala caminho de Silves e olhe que nã l'e passô levar uma incomenda qu' ê l'e tinha fêto...

- Alguma rôpinha lavada p'a mecêa mudar...

- Qual o quem?!... Foi mái foi uma garrafinha de madronho qu' ê tinha dêxado aqui p' ô Dia de Maio, s' ela m' a alcançasse a Marmelete... Pôs levô-me-a logo nesse dia...

- Ai, marafados... e vancêas, méme tendo tanto caminho p'a andar, bobiam nela?...

- Era só à nôte, p' à sossega, amigo Chico... Só l'e digo que ele havia lá um alantejano que pegava nela cá duma manêra... Até se lembia...

Nisto, o mê compad'e Jôquim do Barranco aponta ali ô canto da rua e mete-se tamém na conversa, a antrar com-migo:

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
Quái na Foz do Barrêro, parece-me a Picota na frente, até se m' arrasaram os olhos d' água...

- Aqui o mê compad' Refóias, agora, meté-se-l'e na cabeça qu' inda dá acompanhado aí com essa malta nova a andar, faz estas figuras...

- Qual figuras, nem figuras!... Lá cuda qu' era só ê cá que lá 'tava desta idade?!... Fique sabendo qu' inda lá andava um com mái dôs ó três anos...

- Olha que grande d'f'rença...

- A si é qu' ê o qu'ria lá ver... Já anda aí a arrojar as botas que nem sola têm... Só s' a c'mad'e C'stóida fosse atrás de si com um moncho p'a vomecêa s' assantar d' ora im q'onto...

- Nã tem precisão nenhuma disso qu' ê cá nã vô-me lá... 'Tô velho, mái nã 'tô parvo... Agora vomecêa, há-de ser bonito as figuras que nã fez... Borrefas e roeduras já nã havera de ter lugar nos pés p'a tantas... e, nas ladêras acima tal havera de ser afègada que fazia... Par'cia ali a gata da minha C'stóida, a Bezeta, q'ondo l'e dá a gosma...

- Pôs fique sabendo que tanto roeduras c'm' borrefas foi coisa qu' os mês pés mã conheceram desta vez. E afègada tamém nã fazia nenhuma, ó o qu' é que pensa... Nã quero lá d'zer qu' uma vez ó ôtra nã me escalfasse um coisinho...

- Ê nã disse?!... É mái que certo!... Nessas ladêras acima havera de ser bonito...

- Atã há-de exp'r'mentar a abalar lá de baxo da Foz do Barrêro caminho da Picota, assubir aquela serra toda a d'rêto até ô bico e à hora da calma...

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
A R'bêra d' Odelôca levava uma bela água, toca de descalçar os sapatos. A ponte inda nã 'tá fêta...

- Nã se apequente, compad'e qu' isto é só uma mangação... Mái diga lá, atã e, às vezes, nesses matos nã davam assim com b'charada e coisas dessas?

- Eh'q... Caça, inda se vi bem munta... Mòrmente logo nos pr'mêros dias, aquilo era só casalinhos de perdizes a s' alevantarem p'r tod' ô lado. Agora ôtra b'charada... só p' ali umas cobrecas, um lagarto ó ôtro, um sapo ó dôs...

- É bichos qu' ê cá nã gosto...

- E devia de gostar... Atã que mal é que l'e fazem?... Comem-l'e os ratos e ôtres bichos que dã cabo aí das sus bejoarias e inda se quêxa?...

- Nã digo que nã tenha r'zão, más ê nã gosto...

- Pôs ê cá gosto e os qu' andaram com-migo tamém. Olhe um inda panhô uma cobra p'r o rabo - e que bela cobra - só p' à gente a ver bem mái ninguém l'e fez mal. E além na Corte Pequena até uma bicha a gente viu panhando sol no mê da estrada ali méme à tardinha...

- Isso saria bicha?!... Nã dô notiça de tal viventesê cá q'ontos anos... Isso, calhando, era uma cobreca qualquer dessas qu' andam aí a panhar ratos daqueles piquenalhos...

- Que jêto?!... Lá Cuda qu' ê nã sê munto bem o que é uma bicha... Olá, olá... Tinha aí uns uns dôs palmos de comprimenta, assim ôs quadros castanhos, com a cabeça de três pontas e aquele focinho arrebitado... Era uma bicha, sa senhora!... Até as meninas dos olhos sã ô comprido im vez de redondas...

- Eh'q!...

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
Im Monchique, foi um regalo passar p'r a Travessa das Guerrêras logo de manhãzinha cedo...

- Atã venha cá ver um retrato qu' ê l'e tirí, a ver se nã era...

- Ai tirô-l'e um retrato?... Atã dêxe lá ver...

Assim que l' o mostrí, o homem mudô logo de modos. Até o Chico Arvela s' admirô. Qu' ele, atão, tem um medo de cobras que se pela... Assim, béque-me, quái imbosnado, inda me prècurô:

- Ó ti Refóias, e nã teve medo dela l'e picar? Assim tã ô pé, s' ela l'e joga um fiaço...

- De'jando 'tava ela que ninguém l'e fazesse mal... O bicho nem ligô à gente e, q'ondo munto bem intendeu, abalô e lá se infiô num buraco de baxo duma pedra...

- Mái aquilo des que têm um bico no rabo que dá umas ferroadas qu' até berra... É o qu' ê semp'e tenho ôvido d'zer...

- Alguma vez?!... O rabo é c'mo d' ôtra cobra qualquer... Elas têm é dôs dentes ali na boca que alto lá com eles!... Em mordendem, dêtam um veneno p'a drento do sãingue da gente qu' o melhor é um f'lano ir logo caminho do hospital...

- Des qu' é munto pior qu' à picada duma alclara... - salta o compad' jôquim.

- Ah... p'r aí, sim... E olhe qu' a picada d' alclara tamém dói que se marafa...

- Mái, mudando de conversa, compad'e Refóias, vomecêa e os ôtres anderam méme aqueles quilómetros tôdes qu' eles dizem p'r aí? É que trazentos e tal quilómetros à pata quái que me parêce... assim um coisinho munto... E o Algarve nã tem tanta comprimenta...

- Ó fado dum ladrão!... Q'ontas vezes é qu' é preciso l'e d'zer?... A gente andava era p'r os cerros dum lado p'r ô ôtro. Nã se vinha a d'rêto. E fique sabendo que foram trazentos e muntos... S' eles fossem bem medidos, nã sê, nã sê...

- S' eles dizem trazentos e um, nã hã-de ser más...

1ª Grande Travessia da Via Algarviana - 24-04-2008 a 04-05-2008
Vá lá que p' ô lado de Sagres o caminho já nã tinha ladêras...

- Atã e os qu' a gente andô p'r ingano?... Aquilo era quái tôdes dias...

- Ai, que vergonha!... Com mapa e tudo e méme assim s' inganavam... Ê nem contava uma coisa dessas...

- 'Teja caladinho, que vomecêa, uma vez, já há uns belos anos, abalô daqui p'a Vila Nova e im vez d' ir p'a Senhora de Verde, meté p'a Perêra abaxo, foi parar ô Arão e só dé p'r isso quái ô chigar ô Odeáxare...

- Más isso inda ê cá era novo...

- Novo ó velho, nã perde nada im calar o bico... Atã e a gente que vêo méme d' ô pé de Espanha até ô Cabo de S. V'cente...

- P'r mecêa, agora, falar nisso, alembrí-me. Ele, nôtres tempos, nã havia p'r aí os Caminhos de S. V'cente?... Béque-me vinham espanhós e alentejanos aí p'r essa Serra fora até chigarem adonde par'ceu o barco com o corpo do Santo, se nã 'tô atribuído...

- Vá lá que lá disse uma acertada... Era assim tal e qual... E a Via Algarviana, num certo sintido, é uma coisa assim quái par'cida. E, p'r o jêto, im muntos pontos, passa p'r esses Caminhos de S. V'cente.

- Ah, ê vi logo qu' era isso!...

E tenho que me f'car p'r 'quí. Calhando a voltar a falar mái alguma vez da Via Argarviana, logo l'es conto o resto.

Querendem ver os ôtres retratos qu' ê cá tirí nos catorze dias da Via Algarviana, acalquem aqui na Galeria da Via Algarviana fazendem favor.

E passem munto bem, até um destes dias.

19 abril 2008

Vô-me andar a Via Algarviana duma ponta à ôtra...

Traçado da Via Algarviana, uma Grande Rota pelo interior serrano algarvio A Via Algarviana passa p'r Monchique e Marmelete. Desqueceram-se foi do Alferce...

Inda 'tão lembrados d' ê cá, aqui há uns tempos, l'es falar na Via Algarviana? Põs antão chigô a altura dela ser estreada... E já que dí o nome, faço tenção d' abalar com eles, aí prê afora, sigunda-fêra que vem.

Digo bem: faço tenção d' abalar. Agora de chigar ô fim, iss' é que já sará d' adregue... Catorze dias a andar à pata d' infiada e uma lonjura de mái de sessenta léguas nã é brincadêra nenhuma... Mái, abala-se e logo se vê o qu' é qu' a coisa vai dar.

Se nã haver azar, no últ'mo d' Abril pisa-se chão cá de Monchique. Abala-se de Silves, já com nove dias de caminho, vem-se ali prê adiante d'rêto à Foz do Barrêro, assobe-se até à Picota e, im menes de nada, 'tá-se na Vila. Drome-se essa nôte cá e, Dia de Maio de manhã, lá se vai, d'rêto à Fóia, caminho de Marmelete.

Só o que me dá maior pàxão é, entes de s' assubir à Picota, nã s' arrodear um coisinho e ir-se passar tamém ô Alferce. Era uma coisa bem pensada qu' aquilo é um Povo que bem mor'cia isso. Mái atão... os homens é que p'a lá fazeram o mapa e, calhando, desqueceram-se. Ó nã saberiam o caminho...

De manêras que, apr'evêto p'a me despedir de vomecêas. Seja p'r um dia ó p'r quinze, em chigando, logo digo alguma coisa. Ad'virtam-se p'r cá ô bem fêto, qu' ele, agora, vai haver p' aí festas qu' até berra...

Fiquem-se com Dés e até qu' a gente se veja.