11 abril 2006
Semana das endoenças
10 abril 2006
O madronho 'tá bem bom
D'migo à tarde, tinha-se vindo cedo da missa, o tempo 'tava amoroso, ê disse p' à minha Maria:
- Nã sê o que faça. Isto é dia santo temos que respêtar, as tardes sã grandes, dá-me vontade d' ir ver o madronho e uns vimes que p' a lá tenho ô pé do barranco.
- Vai sim, homem. Leva o Jericó, monta-te a cavalo nele e, na volta, trazes uma carguinha de lenha, daqueles tanganhos de madronhêro qu 'tã lá p'r trás da adega. Ò atão, só se levares uma gòrpelha a trazes umas q'ontas cepas d' urza, que tamém sã boas p'a pôr no fogo.
- Ó Maria, atã nã vês qu' hoje é D'mingo e nã se pode fazer trabalhos desses?...
Bom, ela lá comprendeu qu' ê tinha r'zão e p' ali disse que 'tava bem.
Olha lá, calhando, era melhor ê cá levar aí uma buchazinha, qu' ê, q'ondo c'meço a assubir e a decer cerros, usa-me a dar vontade de comer. C'meça-me logo aqui um bicho a rabear qu' até perco as forças.
E assim foi.
Abalí, levo o Jericó d' arreata, vô-me p'r o caminho de cima, passo à porta do mê compad'e Jôquim do Barranco, ele sentado no pial a esbrugar uma laranja, com um refe qu' ele tem semp'e na alsebêra.
- 'Teja com dés compad'e.
- Venha com Dés.
- Atã adond' é que vai, ô D'mingo, com o burro d' arreata, homem?... E em vez de s' amontar nele, vai a pé? Até o bicho faz pôco de si...
E apresentô a casca da laranja ô mê Jericó. O animal chêrô, alevantô o bêço, amostrô os dentes, bem negros da erva qu' ele come, e, em men's de nada, baldeô a casquinha. Até se lembé', no fim...
- Compad'e Jôquim, vomecêa é qu' havera de gostar de vir com-migo. O serviço qu' ê vô fazer e ô sito adonde vô, sê que mecêa gosta.
- Atã adonde vai? - Diz-me ele, já com o olhinho a luzir.
- Olhe, vô-me à Refóias dar uma olhadela ô madronho. 'Tava ali sem fazer nada, béque-me aborrecido, peguí em mim e cá vô eu. Se qu'ser, venha daí, dá-se companha um ô ôtro.
- Nã 'tá mal alembrado, nã senhora. E calha bem qu' o mê Zé Manel nã vê' cá esta semana, 'tô p' aqui sòzinho com a m'lher. Dêxe-me lá calçar ali umas botas cardadas p'a andar bem lá nos cerros que nã demoro nada.
E, num nadinha, 'tava-se os dôs a caminho da Refóias, más o Jericó, qu' ia à frente, qu' ele sabe bem o caminho.
Foi-se lambareando no qu' a gente s' alembrô, o Jericó, de q'ondo em vez, jogava a boca a um silvalho, naquilo, um casalinho de perdizes a atravessar o caminho. Desandaram logo p' ô lado de baxo, nem avoaram nem nada, haveram de ter o ninho p' ali perto, de baxo d' alguma mongariça. Isto, já prebaxinho da Horta dos Brejos.
Dali a um belo pôco, sem se dar por isso, já se 'tava a descer p' ô lado do barranco. Ôve-se um fole a tocar. E era uma moda bonita, nã pensem. Nã 'tava era assim munto bem amanhada. Mái, no mê daqueles cerros, servia bem.
- Aquilo é coisa do ti Chico Bêço. - Diz logo o compad'e Jôquim.
- Atã, isso sabe-se... Nã mora aqui mái ninguém e o homem 'tá ali sòzinho, tem aquela entretenga. 'Tá bem qu' ele só sabe tocar aquela e mal... É sempre o méme "cerr' abaxo, cerr' acima, cerr' abaxo cerr' acima...", mái dá p'a gente s' ad'vertir.
E daí, calamos-se, qu' a gente ia-se passar ô lado de casa e, s' ele désse p'r a gente, acabava, logo, o toque. Mái nã dé p'r nada. Já a gente ia quái chigando à Refóias, inda ele s' ôvia lá ô longe.
Tã penas chigamos ô nosso destino, pus o Jericó lá nos cantêros, nem l'e tirí a albarda nem nada, tinha lá d'comer à farta - as côves, agora, 'tã todas espigadas nã servem p' a´mái nada senã p' ôs
animás - e fomos, logo, caminho dos madronhêros que 'tã naquela chapada voltada más ô Sul, lá p'r trás da adega, qu' sã os que usam a dar melhor madronho.
- Ó compad'e Refóias, vomecêa, este ano, tem aqui uma carga de madronho qu' é uma coisa linda!... - Diz-me, logo, o compad'e Jôquim.
- 'Tô a gostar do que vejo, compad'e. 'Tá bem qu' os madronhêros inda 'tã pequenos e nã podem dar munto. Pôs, eles arderam faz três anos, se nã 'tô em erro, mái 'tá tudo bem rebentadinho e têm umas belas cachotas de madronhos. Nã venha ele p' aí algum má tempo ó fogo ó coisa assim, ôtra vez...
- Volte p'a lá essa boca, compad'e!... Sará assim tanta a desfortuna?!...
E lá andamos, andamos p'r aquelas chapadas, p'r aqueles córgos, foi-se até à chã da pôça de cima, dobrô-se a altura do rasmono, inda s' olhô ôs madronhêros da côrela do mestre Chico Martelo, tudo do melhor. Nisto, alembr'-me do farnel.
- Compad'e Jôquim, vamos más é c'mer qualquer coisinha, qu' ê dêxí o farnel além gôrdado na adega. Pendurí a bolsa naquele pau que 'tá ô mêo, p' ôs ratos nã l'e pegarem, qu' aquilo há além cada larião que parêcem coelhos.
- Mái atã ê nã truxe nada... - Diz-me o mê compad'e, embatucado de nã se ter alembrado disso entes d' abalar de casa.
- Nã s' apequente, qu' ê tenho ali que dá bem p' ôs dôs. Bebida é que nã truxe. Nã contava que vomecê viesse e ê cá, sozinho, nã bebo. Más a gente vai ali à fonte da samôquêra e bebe-se-l'e uma cocharrada daquela água fresquinha ali a correr no mê das aivencas e f'camos sat'fêtos.
Foi-se p'ra baxo, c'mé-se o panito com chôriça qu'ê levava, 'tava uma categoria qu' a minha Maria sabe fazer aquilo bem, bebé-se uma barrigada d' água da tal fonte e charolamos más um pôcachinho assentados ô pé da bica.
Nesse mê tempo, pus-me a olhar p' à bica e as minhas vistas foram atrás do fio da água até ô chão, adonde fazia uma pôça bem pequenalha. Méme assim, ponho-me a olhar bem, lombrigo, lá no fundo, uns coisinhos escuros a se mexêrem.
O qu' é que era? Perto dum quôrtêrão de sapo-sapinhos. Ali andavam tôd's dum lado p' ô ôt', com aquela g'ande cabeça com dôs olhos e o rabo a abanar, quái em cima uns dos ôt's. Aquilo foi uma arrã que vê' largar ali os ovos e os b'chinhos ali 'tavam.
S' ê calho a levar o mê Jericó p'a b'ber lá é que 'tava o diabo. Ele, q'ondo vê alguma coisa na água, já nã bebe. É munto com'chôso. Más ele, tamém, levô a tarde a c'mer côves, nã tinha sede nenhuma.
Com isto tudo, já o sol tinha estraposto p'r trás do vertente do cerro, mái nã era tarde. Inda fui aconchegar uns mólh's de vimes qu' ê tinha cortado, a ôt'a semana, nuns vimêros que tenho lá no barranco e demos ordem de partida. Foi uma tarde bem passada.
P'ra cima já o ti Chico nã tocava, as perdizes já 'tavam amalhadas, o sètestrelo e a estrela d'alva c'm'çaram a luzir lá no astro, já era lusco-fusco. Inda par'ceu um luzicuco ó ôtro e, ô longe, lá p' ô lado da Córga da Murta, soô um mocho - uuh!, uuh!... - quái c'm'a qu'rer meter medo à gente.
O jericó nã fez caso dele, nem as orelhas espetô. Béque-me 'tava com más cudados era de nã embicar numa pedra que 'tá lá no mê do caminho, numa parte munto embargosa logo pracàzinho da Horta dos Brejos, em par dos Tramecilgos.
O pobrezinho, a pr'mêra vez que lá passô, logo q'ondo o comprí, ia dêxando lá uma ferradura. Embicô com a uma mão, p'a nã se dêxar ir ô chão, dé um pulo, nã salvô bem a pedra, encalha com o rompante da ôtra ferradura duma pata de trás, até fez faísca... Mái nã caíu.
Nunca mái se desqueceu. Agora, q'ondo se passa lá, arrada-se sempre de manêra a nã l'e tocar. Inda dizem qu' os bichos nã pensam. Ai nã pensam...
E atão, q'ondo dêxí o mê compad'e em casa, já tinha anoitecido dum todo. Más aquilo é perto do mê monte e bom caminho, foi um 'stante. Mal dí sobiado uma moda qu' ê gosto munto de sobiar q'ondo vô a chigar a casa, qu' é a manêra de dar de vaia à minha Maria, e 'tava à ponta da rua.
Nessa altura, já a minha barb'leta, uma canita que me deram ontordia, tinha dado sinal e vê' lgo a fugir s' empinar a mim.
- Ó barb'letinha, venha cá b'chinho, venha... Ai que bela canita... - Disse-l' ê cá. E passí-l'e a mão p'r o cachaço. E o rabinho dela par'cia uma aventoinha a abanar...
Despôs disto tudo, já me sentia um coisinho maçado, mái lá fui desalbardar o Jericó, inda passí p'r a casota dos coelhos, más a minha Maria já tinha tratado deles, olhí ô pórco tamém já 'tava tratado, entrí em casa.
Vêo-me logo um chêro a quem-mado. Pensí: - Já entrô aqui o bispo...
Digo:
- Maria, atã que chêro é este?
- Ai, homem, atã nã dêxí quem-mar o d'comer?!... Fui tratar dos animazes, q'ondo voltí, 'tava tudo em cravão...
- Atã e agora o qu' é qu' a gente cêa?
- Só ser um resto de côve negra que sobrô a noite passada...
- Sim, m'lher, nã te mortifiques lá p'r ca'sa disso.
E assim acabô o dia. Mái f'quí encrençado com os madronhos. Se nã haver nada a contre, este ano quero fazer uma bela aguardentinha.
Atã até ôtro dia.
07 abril 2006
Vamos ajudar um amigo
Vamos ajudar um amigo a encontrar os parentes dele
Sube dum algarví' de Lagos que 'tá munto desviado da gente, em Helsínquia, na Finlândia - até o nome do país diz tudo: fim do mundo. Fui ver ô mapa e sã quái 5.000 Km de lonjura daqui até lá. Inda esta manhã, fazia lá um frio marafado. Um degrau (1º), vejam lá bem... Ele tem um blog, qu' é uma categoria p'a quem gosta de música, e nunca se desquece da nossa terra.
Nã sabe da famila dele cá em Portugal. Vivos, só conhêce uma tia em Lagos.
Os pais e os avozes já foram p' ô céu.
A mãe era de Marmelete, foi munto novinha p'a Lagos, adonde morreu, dêxando o filho uma criança.
F'cô um mano dela cá em Marmelete, que nunca mái saberam dele. Se ser vivo - Dés me oiça - há-de ter, agora, perto ó certo, uns 75 anos. Nã se sabe o nome dele.
Os avozes ch'mavam-se Júlio Bento e Maria Bebiana.
A mãe ch'mava-se Isabel Maria Bento.
Todos de Marmelete. E nã se sabe mái nada...
Digam lá se nã dá paxão ver uma coisa destas?... Nã basta tã longe de Portugal senã, inda p'r cima, nã ter famila...
Vamos tôd's fazer alguma coisa p'a se l'e poder dar uma alegria q'ondo ele, um destes dias, voltar cá ôtra vez.
S' algum senhor do Resisto C'vil ó dôtra coisa do Estado ler isto, veja lá se pode dar uma ajudinha, que mecêas é que sabem munto dessas coisas. Nã l'es dôia as mãs.
Se vomecês deslindarem alguma coisa, digam logo pr' aqui ó p' ô blog ó email dele.
Sem ser o tio, tamém hõ-de haver primos cá p'r Marmelete ó Monchique ó Alferce ó seja lá onde ser...
Atã, 'tá combinado. Vamos a isso...
Dés Noss'Senhor logo l'es paga.
M't' ôbrigado a todos.
06 abril 2006
Barraja d' Odelôca: aquilo 'tá tudo parado
Nã sê do qu' é que 'tã à espera p' acabarem o raça da barraja d' Odelôca. De q'ondo em vez, vô-me lá, pensando qu' eles já pegaram ô trabalho, mái bé, 'tá tudo na méma.
Inda, há bem pôco tempo, isso se deu. Vai uma pessoa lá, vê tant' ô d'nhêro já gasto, e aquilo tudo parado vai p' a três ó quatro anos, se nã ser más.
Uns d's qu' é p'r ca'sa duns gatos-brab's qu' havia p'a lá, ôt's qu' é p'rqu' o G'verno nã pagô ôs que 'tavam a fazer aquilo, ôt's tamém falam qu' há p' a lá, na r'bêra do Alferce, umas môitas... umas tôiças ó uma coisa assim, que nã há em mái lado nenhum, e atão foram-na fazer só r'bêra de S. Marcos. Mái méme assim, apararam e nunca mái se resolvem.
Nã comprendo isto... Olhem, esses gatos-brab's nem os mê avozes os chigaram a ver - tamém d's qu' eles andam só de nôte, má méme assim... Andam por 'í muntos p'r esses cerros, mái sã duns com o rabo bem comprido e todo chêo de listras, que, q'ondo munto bem l' apetece, me vã c'mer as galinhas qu' a minha Maria p' ali tem no gal'nhêro. Ê bem l'es armo ali umas loisas à porta do gal'nhêro, más eles sã màs finos qu' o azête, nunca se caçam...
Os ôtros qu' eles dizem qu' há pr' ali, com o rabinho curto e as orelhecas béque-me bicudas?!... Esses, p'r pôca sorte, já des-par'ceram sabe-se lá q'ondo. Atã o qu' é qu' eles c'miam po 'i?... Coelhos já nã há quái nenhuns e d's que nã gostam d' ôtra coisa...
P' a d'zer a verdade, sã uns b'chinhos munto bonitos. Já os tenho visto na tel'visão, inda, um dia destes, amostraram uns que naceram lá p' a Espanha, na Donana, que coisinhas mái lindas...
S' eles fazessem lá umas belas criaçõs e trazessem pr' a cá uma manchinha deles é qu' era bom... Punha-se-os ali na reserva do Esgravatadoiro, podia ser que nã morressem à fome... E água b'biam na barraja d' Odelôca, s' alguma vez a acabarem.
Q'ont' ô resto, nã sê nada disso. S' o G'verno pagô ó nã pagô, s' ele há lá essas tôiças ó nã há, nã me prècurem a mim qu' ê cá nã sê.
Mái qu' é munto ruim a famila lá do Algarve ter precisão d' água p' a se governar e nã ter, lá isso é, sa senhora. É qu' eles, de Verão, têm fazendas p' a regar, têm os estrangêros que têm míngua de munta água p' a se lavarem e p' a abanharem lá naqueles tãinques qu' eles têm, p'scinas, chamam-l' eles, e nã podem 'tar tantos anos à espera.
Más tamém l'es digo, s' aquela barraja alguma vez ser fêta, ajunta ali um porradão d' água que dá p' a encher a barriga àquela famila toda lá de Vila Nova e do Algarve todo... Aquilo é uma r'bêra que nunca se seca, hóme. Leva tôd' ô ano a correr água lá p'a drento.
Dêxem-se más é de coisas, e c'mecem a trabalhar naquilo, qu' é o qu' é preciso.
Agora m' alembrô. Da últ'ma vez que lá 'tive, foi com o mê parente Zé Caçapo, chamam-l'e o Verruma nã sê bem p'rquém, mái, calhando, é p'rqu' ele semp'e a sovinar q'ondo 'tá ô pé d' uma pessoa.
O homenzinho já tem uma bela idade e arroja um coisinho um pé. P' ali embicô numa pedralha, pôco maior qu' um ovo de perdiz, dá-me um gangueão p' ô lado do aterro qu' eles fazeram lá, s' ê nã calho a 'tar quái encostado a ele e a l'e jogar a mão ô albernoz, arrab'lava-me p'r a ladêra abaxo, nã sê onde ele iria aparar...
Mái, méme com oitenta e tal anos, é malino do pior. Vejam bem qu' inda se voltô pr' a mim:
- Atã, num sito destes e passas-me uma rastêra?!... - Com voz de gozo, a m' exp'r'mentar.
- Uma rastêra?!... S' ê nã l'e siguro, inda, a estas horas, vomecêa ia a arrabolar além prê abaxo... Nã aparava senã no pégo qu' a r'bêra faz além onde eles ajuntaram aquela terra.
- Alguma vez?!... Ê nã ma dêxava cair. E méme que caísse, alevantava-me logo, o qu' é que tu pensas?...
Pensí: - Ah, velho marafado. Até com um assôpro ele tomba, q'onto más... Inda bem qu' ele nã caíu, senã desmantalava-se p' aqui todo... C'm' é qu' ê, depôs, o dava carregado daqui p'a fora?
E nã se falô mái do caso. P' ali se foi devassando o resto, andô-se, andô-se nã chigô a ver lá nem uma pessoa. Até que pegamos na gente e abalamos.
Tirando aquilo do parente Zé, correu tudo bem. Só me custa um belo coisinho é ver aquela água toda a correr p' ô mar e nã ser apr'vêtada, essa é qu' é essa.
Fiquem-se com Dés.
04 abril 2006
Alferce - A Igreja de S. Romão
Um destes dias, passí p'r o Alferce. Q'ondo lá vô, tenho semp'e qu' ir à igreja de S. Romão qu' é uma coisa qu' ê gosto méme de devassar.
Pequenalha, toda caiadinha de branco, com aqueles dôs traços p' ô cinzento e uma entrada qu', ô ê m' engano munto, ó tamém é do tempo do Rê D. Manel, qu' é, como quem diz, más ó men's dessa era, q'ondo os portugueses andavam a descobrir ôt's sitos e a acartar aquelas riquezas lá da Índia e do Brasil cá p'à gente. Nã vêem qu' os alizares? Acabam em bico tal e qual com-m' faziam nesse tempo...
Nesses tempos é qu' isto era obra. Portugal era um país com teres, tinha nome aí p'r essa Êropa. Agora, só s' a jogar à bola...
P'r ca'sa disso, fui à prègunta de coisas na internet e dí com estes contos do Alferce, fêtos p'r um senhor cá de Monchique, que sabe munto e escrev' inda melhor. Ele chama-se Antóino Manel Venda e ê cá, béque-me, até me sinto um nadinha embatucado de nã no conhecer em pessoa, mái atão, inda nã calhô... Agora qu' ele é um monch'quêro que sabe escr'ver ô bem fêto, ninguém diga que não.
Mái, voltando à igreja de S. Romão, tanto qu' ê gosto dela, dé-me até paxão d'a ver, assim tã bonita, e, q'ondo olho lá p'ra cima, vejo a cruz mê a desandar p' ô lado...
Abaní a cabeça, pus-me a cismar, e, logo, cuidí qu' ê cá é que 'tava de lado. Mái, despôs, end'rêtí-me bem, esfr'guí as vistas, olhí ôtra vez e 'tava a ver bem.
Sai-me da boca, em voz alta:
- Mái, atão, nã há quem veja isto, senhor? Esta é qu' ê nã esp'rava...
Ô méme tempo, parêce p'r trás de mim o mê amigo Chico Bôicinhas, que mora lá no Povo de Baxo, ôve-me falocar sozinho, mete-se, logo, com-migo:
- Eh, ti Refóias, 'tá a falar com quem?... - Charolô. Más sabia ele que nã 'tava ali mái ninguém...
- Nã é nada, nã é nada... 'Tava só aqui a o'servar a cruz da igreja, toda torta... Atã vomecêas nã end'rêtam aquilo, perquém?
Más ele nã se f'cô e respondé-me logo ô consoante:
- Atã nã vê qu' aquilo foi, esta nôte, qu' hôve aí uma g'ande besaranha e fez aquele trabalho...
- Ó Chico, nã faças cachamôrra de mim qu' ê tenho quái idade p'a ser tê pai...
- É verdade!... Passô 'í uma manga de vento, ia levando tudo nos ares. - E voltava-se p'ô lado e desmanchava-se a rir.
Ê ia-l'e dar já uma répla c'm' devia de ser, ele nem me dá tempo, agarra-me a centura, puxa p'r mim e diz, munto lampêro:
- Olhe lá, dêxamos isso e vamos más é b'ber ali uns porretes à do Càxinha...
- Essa foi a pr'mêra palavra certa que tu d'zeste désna que chigaste. Vam's imbora qu' ê pago tamém uns...
O resto nã l'es conto, mái mecêas já calculam. Dêxí anoitecer na venda, ora pagas tu, ora pago ê cá e só abalí às tantas. O pior foi a minha Maria q'ondo cheguí a casa ôs lóres e custí a dar com a aldraba da porta...
Atã até um destes dias.
03 abril 2006
As três Fontes Santas
Andí-l'es a contar aquela passaja do nosso passêo à Fonte Santa da Malhada Quente, mái nã l'es falí das ôt'as duas qu'inda há cá na serra. Todas três 'tão ô méme nível, a água é igual e sai tã quente num lado com-mo nôtro, eles dizem a 27 degraus. Des qu' aquilo é p'r ca'sa dum vulcão. Há até quem tenha munto respêto p'r isso, nã faça ele pr' aí a parte à gente, qualquer dia...
Uma é a das Caldas. Essa já tôd's mecês a conhêcem bem. Aquil' é uma coisa p'ôs turistas, enchem lá muntos garrafõs e garrafas d' água p'a venderem aí p'r tod' ô lado, e tal e tal... Tamém tomam lá banhos, más isso é lá no hotel e ê cá nã conheço nada disso qu' ê nunca lá entrí. Mái d's qu' é uma coisa munto fina...
A ôtra é a Fonte Santa da Fornalha, que 'tá num lugar qu' a gente custa a dar chigado lá. Indo, chapada a baxo, désna d' ô pé da Fornalha, qu' era o caminho dôt's tempos, béque-me já nã vejo v'reda nenhuma pr'onde se dê atravessado. A melhor manêra é ir-se p'o caminho da barraja nova da Odelôca, que já havera de 'tar fêta e nunca más a acabam, e, despôs, voltar-se, r'bêra acima.
Mái uma coisa l'es digo ê já, quem t'ver muntos calos ó canoiras fracas nã se meta nesses traquetes, qu' aquilo tem que se l'e diga. É andar ô bem fêto, tem que s' atravessar a r'bêra três vezes (1,2,3) - e ela, agora, vai chêa - e, ô fim, assubir um córgo empinado que só os porc's brab's é que dã lá andado bem... e olhem qu' há fartura deles.
Mái, no fim de contas, q'ondo a gente chega lá e se vê aquelas casinhas, todas de paredes de talisca e barro, dêxadas ô Dés dará já há muntos anos, que parêce que 'tã a cair, má' inda se aguentam em pé, dá aqui uma coisa na barriga da gente e uns arrepios na espinha... Exp'r'mentem a ir lá e, despôs, logo me contam.
E q'ondo se entra casa adentro e se vê os tãinques p'ôs banhos (1,2) e a água a correr das bicas, semp'e quentinha, com aquele gosto, qu' ê já falí ôtro dia, quái a ovos pôdres, clarinha que dêxa ver tudo no fundo, uma pessoa só nã se joga logo lá p'a drento p'rque tem rôpa. E, más a más, que já se vai tôd's suados d' assubir aquela chapada tã ingre.
Más olhem qu' até o caminho, méme má d' andar, faz a gente se sentir nôt's tempos, q'ondo os nossos avózes p'r cá 'tavam.
Barulho, não há nenhum. Escuta-se e só se ôve a água a correr nos córgos, aqui e além, um pássaro a piar, e a araja, q'ondo calha, a dar nos amiêros e a rafrescar a nossa cara chêa de pingos de suôr.
Dali, só se lombriga a verdura das mongariças, das estevas (1,2) e tôiças, todas com flor, naquelas córgas adonde ninguém pisa vai p'a muntos anos, e o astro azul lá p'r cima do bico dos cerros, adonde lóze um sinal dos tempos d' agora - um risco branco dum avião. É uma paz e um sossego qu' a gente, méme sem qu'rer, l'e vêem coisas à cabeça.
Antontem, q'ondo fui lá, dí com-migo a pensar:
- O céu, s' ele haver, tará que ser assim... Más, em tôd' ô caso, o melhor é apr'vêtar bem estes mimentos até mái não, enq'onto se pode. O fituro a Dés pertence...
'Tava ê cá a cismar desta manêra, oiço a minha Maria a impar, lá prebaxinho. Tinha-se atrasado um coisinho e já nã sabia de mim. Tamém com aqueles sapatos o qu' é qu' ela 'tava à espera... Ê leví umas botas de sola grossa... Nã na via, qu'ela 'tava em par duns amiêros, e aquilo tinha um lamatêro méme adonde se tinha qu' atravessar dum lado p'ô ôtro do barranco. Água, corria pôca, mái tinha bem munta lama e umas pedras de talisca.
Abalo, desalvorado, v'reda abaxo, nã fosse ela ter p' ali caído, ó coisa assim. Qual o quem. Tinha atanchado os sapatos no lamatêro e f'cô ali atolada. Nem p'a trás nem p'à frente.
- Ó homem, ax'lêa-me lá aqui, qu' ê nã me dô mexido... - Ela já 'tava com lama até ôs artelhos, vejam bem...
Lá l'e dí a mão, puxí, foi o bom e o bonito... Dá dôs passos p'à frente, um sapato fica com o tacão preso no mê do lôdo e das pedras, e lá foi com o pé descalço p'a drento d' água. Até me dé' paxão qu' aquilo eram umas mêas novas qu' ela estreô nesse dia, fêtas por ela com quatro agulhas de fazer mêa qu' ela tem aqui em casa.
Mái, fartam-m's-se os dôs de rir e aquilo passô adiente. Ela p' ali se lavô e lá fazemos o resto do caminho, que já se 'tava perto, mái com munto custo, qu' os porcos tinham-no afossado todo (1,2). Aquilo mái par'cia uma lavôira qu' uma v'reda. Quái qu' postava qu' um trabalho daqueles foi fêto p'r uma porca escravelhêra. E há bem pôco tempo.
Em chegando lá, entrô-se, pensando que nã havera de 'tar lá ninguém, põs, atã, nã s' ôvia coisíss'ma nenhuma, tirando um passareco ó ôtro naqueles cerros, com' ê disse inda agora. E nã é que 'tava lá famila?...
Uma m'lherzinha, já duma certa idade, 'tava a tomar banho sentada nas calêras que dã p'ô fundo do tãinque. À medida qu' a gente entra, a probrezinha 'tava em combinação, panhô medo e teve vergonha, joga-se p'a drento do tãinque, a combinação alcofô, par'cia ela que 'tava na praia a nadar com uma camb'ra d' ar de camião à roda da centura...
A minha Maria, que nã pode ver nada, c'meça logo a rir às carcachadas, ê voltí-me p'ô lado que tamém me dé festa, mái puxí-l'e, logo, p'r um braço e leví-a p'à rua. Aí é qu' ela se desmanchava a rir... Tive que l'e d´zer:
- Ó m'lher, tem conta, qu' a famila pod-l'e par'cer mal...
Naquilo, parêce um homenzinho da ôt'a casinha do lado com quatro garrafõs d'água, dôs em cada mão. Só aí é qu' ela se calô, que f'cô embatucada de ver o homem par'cer, assim de chofre, e passô-l'e a vontade de rir.
- Boa tarde. - Disse ele, assim com cara de pôcos amigos.
- Venha com Dés. Atã vê' b'scar uns garrafanitos d' água? Ê tamém gostava de lavar, mái desqueci-me a trazer uns q'ontos vazios.
Tudo mintira, qu' ê nã ia voltar p'ô monte carregado daquela manêra. O qu' ê qu'ria era d'sfarçar p'r casa da risada da minha Maria...
E lá se f'cô a tramelar um pôcachinho, ele d'zendo qu' era ali d' ô pé de Silves e que se davam munto bem com aquela água, qu' a m'lher sofria já há bem muntos anos e os dôtôres nã l'e davam com mal, só q'ondo tomava ali uns belos banhos é que notava umas melhorazinhas...
A conversa só parô q'ondo a m'lherzinha saí de lá, mái foi p'a ela continuar na méma lamúria...
Até qu' ê p' ali dí mêa volta e fui até ô tãinque ver bem com-m' aquil' era. Toquí na água, era quentinha. Digo p'ra mim:
- Vô pôr ali os pés p'a ver o qu' é que resulta.
E sôbe-me bem. Atão, arregací más as calças, fui lavando bem os joelhos, despôs ch'mí a minha Maria p'a ela me lavar aqui as costas e ela tamém pôs os pés no tãinque.
E olhe, par'cendo que não, aquilo béque-me fez-me bem, qu' aquela moínha qu' ê tinha aqui no mê ombro já 'tá mái d'sfarçada. Um dia destes vô lá ôtra vez.
Com isto tudo, entardeceu, t'vemos que dar ordes d' abalada. Q'ondo chegamos ô monte, já era quái lusco-fusco.
Nã tardando munto, tenho ôt'a parte p'a l'es contar.
Fiquem-se com Dés.




