06 abril 2006

Barraja d' Odelôca: aquilo 'tá tudo parado

Barraja d' Odelôca, que nunca más 'tá fêta

Nã sê do qu' é que 'tã à espera p' acabarem o raça da barraja d' Odelôca. De q'ondo em vez, vô-me lá, pensando qu' eles já pegaram ô trabalho, mái , 'tá tudo na méma.

Inda, há bem pôco tempo, isso se deu. Vai uma pessoa lá, vê tant' ô d'nhêro já gasto, e aquilo tudo parado vai p' a três ó quatro anos, se nã ser más.

Uns d's qu' é p'r ca'sa duns gatos-brab's qu' havia p'a lá, ôt's qu' é p'rqu' o G'verno nã pagô ôs que 'tavam a fazer aquilo, ôt's tamém falam qu' há p' a lá, na r'bêra do Alferce, umas môitas... umas tôiças ó uma coisa assim, que nã há em mái lado nenhum, e atão foram-na fazer só r'bêra de S. Marcos. Mái méme assim, apararam e nunca mái se resolvem.

Nã comprendo isto... Olhem, esses gatos-brab's nem os mê avozes os chigaram a ver - tamém d's qu' eles andam só de nôte, má méme assim... Andam por 'í muntos p'r esses cerros, mái sã duns com o rabo bem comprido e todo chêo de listras, que, q'ondo munto bem l' apetece, me vã c'mer as galinhas qu' a minha Maria p' ali tem no gal'nhêro. Ê bem l'es armo ali umas loisas à porta do gal'nhêro, más eles sã màs finos qu' o azête, nunca se caçam...

Os ôtros qu' eles dizem qu' há pr' ali, com o rabinho curto e as orelhecas béque-me bicudas?!... Esses, p'r pôca sorte, já des-par'ceram sabe-se lá q'ondo. Atã o qu' é qu' eles c'miam po 'i?... Coelhos já nã há quái nenhuns e d's que nã gostam d' ôtra coisa...

P' a d'zer a verdade, sã uns b'chinhos munto bonitos. Já os tenho visto na tel'visão, inda, um dia destes, amostraram uns que naceram lá p' a Espanha, na Donana, que coisinhas mái lindas...

S' eles fazessem lá umas belas criaçõs e trazessem pr' a cá uma manchinha deles é qu' era bom... Punha-se-os ali na reserva do Esgravatadoiro, podia ser que nã morressem à fome... E água b'biam na barraja d' Odelôca, s' alguma vez a acabarem.

Q'ont' ô resto, nã sê nada disso. S' o G'verno pagô ó nã pagô, s' ele há lá essas tôiças ó nã há, nã me prècurem a mim qu' ê cá nã sê.

Mái qu' é munto ruim a famila lá do Algarve ter precisão d' água p' a se governar e nã ter, lá isso é, sa senhora. É qu' eles, de Verão, têm fazendas p' a regar, têm os estrangêros que têm míngua de munta água p' a se lavarem e p' a abanharem lá naqueles tãinques qu' eles têm, p'scinas, chamam-l' eles, e nã podem 'tar tantos anos à espera.

Más tamém l'es digo, s' aquela barraja alguma vez ser fêta, ajunta ali um porradão d' água que dá p' a encher a barriga àquela famila toda lá de Vila Nova e do Algarve todo... Aquilo é uma r'bêra que nunca se seca, hóme. Leva tôd' ô ano a correr água lá p'a drento.

Dêxem-se más é de coisas, e c'mecem a trabalhar naquilo, qu' é o qu' é preciso.

Agora m' alembrô. Da últ'ma vez que lá 'tive, foi com o mê parente Zé Caçapo, chamam-l'e o Verruma nã sê bem p'rquém, mái, calhando, é p'rqu' ele semp'e a sovinar q'ondo 'tá ô pé d' uma pessoa.

O homenzinho já tem uma bela idade e arroja um coisinho um pé. P' ali embicô numa pedralha, pôco maior qu' um ovo de perdiz, dá-me um gangueão p' ô lado do aterro qu' eles fazeram lá, s' ê nã calho a 'tar quái encostado a ele e a l'e jogar a mão ô albernoz, arrab'lava-me p'r a ladêra abaxo, nã sê onde ele iria aparar...

Mái, méme com oitenta e tal anos, é malino do pior. Vejam bem qu' inda se voltô pr' a mim:

- Atã, num sito destes e passas-me uma rastêra?!... - Com voz de gozo, a m' exp'r'mentar.

- Uma rastêra?!... S' ê nã l'e siguro, inda, a estas horas, vomecêa ia a arrabolar além prê abaxo... Nã aparava senã no pégo qu' a r'bêra faz além onde eles ajuntaram aquela terra.

- Alguma vez?!... Ê nã ma dêxava cair. E méme que caísse, alevantava-me logo, o qu' é que tu pensas?...

Pensí: - Ah, velho marafado. Até com um assôpro ele tomba, q'onto más... Inda bem qu' ele nã caíu, senã desmantalava-se p' aqui todo... C'm' é qu' ê, depôs, o dava carregado daqui p'a fora?

E nã se falô mái do caso. P' ali se foi devassando o resto, andô-se, andô-se nã chigô a ver lá nem uma pessoa. Até que pegamos na gente e abalamos.

Tirando aquilo do parente Zé, correu tudo bem. Só me custa um belo coisinho é ver aquela água toda a correr p' ô mar e nã ser apr'vêtada, essa é qu' é essa.

Fiquem-se com Dés.

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