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22 janeiro 2007

A costa d' Al'zur é uma lindeza...

Zambujeira do Mar A costa d' Al'zur, désna de Sagres até nã sê adonde, é do mái bonita que pode haver im mar...

Naquela vez qu' ê dêxí o tal amigo a gràdear lá à antrada d' Al'zur, nã foi qu' ê cá 't'vesse num correpio de vir p'ra casa, nã cudem, qu' aquilo inda era de manhã. Ê 'tava era às tenças de quem me levô, a mim e à minha Maria, a dar um passêo ali p' àquelas bandas e mái pralàzinho p' à rés do mar.

Qu' ê bem que gostava de 'tar lá mái um coisinho no palêo com o homenzinho, qu' ele bom amigo era, e semp'e l'e tirava lá mái uns três ó quatro retratos. Mái, quem anda às tenças tem que s' assujêtar, e nã me calhava nada f'car im terra inq'onto a minha Maria e as amigas dela desandavam sabe-se lá p' àdonde. Qu' elas é que levavam a gente no carrinho duma.

Cudava ê cá qu' elas haveram d' ir à Praia da Amorêra ó ôs Montes Clérig's ó à Arrifana e se voltava p'a casa q'ondo calhando, p'a se fazer p' aqui um dec'merzinho dos qu' a minha Maria sabe fazer e incher-se a barriguinha ô consoante.

Pôs, 'tava munto bem inganado. Tã penas se chigô ô canto de baxo da Igreja Nova, a Zèlinha, qu' era quem guiava o carro, vira p' à d'rêta, passa o encruzamento da Praia de Amorêra e desata a andar p'r a estrada d' Odemira adiente. A minha Maria, que vai semp' d' olho à esprêta - ela, méme q'ondo se dêxa dromir no carro, vai semp'e a caçar ratos... - salta logo:

- Mái atã, p'a donde é qu' levas gente a gente?!... Cudava que s' ia aqui à Amorêra...

- Nã. Hoje vai-se a um sito inda mái bonito. Às Azenhas do Mar. E, s' haver tempo, tamém se pode a ôtras bandas qu' ê fui à bomba e inchi o carro de gasolina. Calhando, à Zabujêra ó Vila Nova de Mil Fontes...

- Munto bem me calhô essa conversa. S' há coisa qu' ê gosto é de dar passêos, e q'onto maiores melhor... Maria, Dêxaste os bichos presos?

- Dêxí sim, homem. Atã ia dêxar as galinhas soltas p'a ir lá alguma zôrra ó algum escalavardo e c'mê-las?!... Ele até des que tem andado p'a lá uma dóininha, que já, ontordia, matô nã sê q'ontas à ti 'Zabel T'mé... E méme os cãs nã tinham nada im m' ir ôs ovos, s' elas puserem alguns.

Azenhas do Mar A famila de Monchique usa munto a ir às Azenhas do Mar. Come-se lá um p'xinho...

'Tava-se nesta conversa, passa-se ô Rogil, alembrí-me duma parte que se dé lá com-migo faz coisa duns dôs p'a três anos. Tive preciso de comprar umas alcagóitas p'a semente - inda ê cá tenho aqui uma manchéca das filhas delas - e d'zeram-me que ele havia lá um homenzinho que vendia disso.

De manêras que, apr'vêtí um dia qu' o mê amigo Mané C'stóido teve qu' ir a Odecêxe e fui com ele. 'Tá bom de ver qu' as m'lheres foram tamém... Ora c'm' à gente nã se sabia adonde o homem das alcagóitas morava, lá foram elas à prègunta dele e ê e o Manel f'cô-se no carro.

Más, aquilo, passô-se tempo e tempo e elas nunca mái 'par'ciam. O Manel, o más qu' ele s' emportava era com isso, agora ê cá já me 'tava a fazer espéce. Digo p'ra mim:

- Nã... Isto pr aqui há gato... Dêxa-me más é ir ver o qu' é que passa.

E abalí. Nesse mê tempo, já o Manel dromia espaldêrado no banco do carro, com a cabeça incostada o vrido da porta e um braço pindurado até à capacha do carro.

Vô-me andando ali prê adiante, aquilo era D'mingo, 'tava tudo fechado. Já ia chigando quái à ôt'a ponta, dí de frente com uma m'lherzinha, assim baxinha, imbrulhada num xale preto - nã sê p'ra quem qu' aquilo já era à tardinha mái tinha 'tado um dia soàlhêro ô bem fêto - dig'-l'e:

- 'Teja com Dés. Vomecêa nã sabe adonde é que mora aí um homem que vende alcagóitas?

- Sê, sa senhora. Olhe, é logo ali. Nã vê além aquela porta? É logo na ôtra a seguir.

- E nã vi aí duas m'lheres, assim, que nã sejam de cá?

- Ê ver nã vi, mái ô passar àlém ô portão do armazém adonde o homem guarda as alcagóitas, ôvi p'a lá um ôrio, umas carcachadas e era, béque-me, vozes de m'lheres...

- Ah, atão, nã diga mái nada qu' ê já sê onde 'tô. Dés l'e pague e até ôtro dia.

- Vá com Dés.

Desalvoro d'rêto ô dito portão - a m'lherzinha até f'cô a olhar p'ra mim... - aquilo era umas carcachadas qu' ô longe já s' ôviam e de que manêra... E o portão 'tava quái incostado. O que faria se 't'vesse tôd' aberto...

Ponho-me à escuta, atã nã é qu' o saganheta do velho, méme já quái com uns oitenta anos, 'tava a 'pertar com elas que nem l'es digo?... A brincar, isso sabe-se. Mài a brincar, a brincar... Nunca fiando...

De manêras que, antrí, o escamungado diz logo:

- Olha, aí vem ôtro freguês... Já tinha aqui duas moças tã jêtosas, agora antra um moço tã bem-par'cido...

- Um moço?!... Atã ê sô quái da su idade... E aí a minha Maria 'tá na méma.

- Ai vomecêa é casado aqui com esta menina?!... Ai que belo gosto que teve... S' ê voltasse a ser novo, era uma assim, bonita c'mo esta qu' ê cá acareava...

A minha Maria até inchô...

- Se vomecêa t'vesse qu' a gramar tôd's dias, logo via...

- Cala-te, cala-te... que, se nã fosse ê cá, c'm' é que tu te vias?... O que saria de ti...

Diz logo a minha Maria, c'm' quem 'tá munto ofendida, toda embêçada p'r mode o qu' o rai' do velho tinha dito delas - melhor qu' ê cá, sabem vomecêas munto bem qu' elas querem é qu' um qualquer l'e diga qu' elas sã munto jêtosas, novas, magrinhas e p'r 'í adiante...

E, despôs do velhote judear lá mái um belo pôco com a gente e a gente com ele - que l'e ferramos bem o dente im tudo o qu' ele tinha lá que fosse bom p'a c'mer - comprí-l'e dôs quilos d' alcagóitas e umas batatinhas-doces e nã sê más o quem.

Más olhem qu' as alcagóitas eram boa q'ôlideza. Sami-í-as e prod'ziram munt'ss'mo de bem. E g'stosas qu' elas são... C'm' já disse, inda ê cá tenho p' ali umas três ó quatro p' à semente, drento duma alcofinha. Mái este ano 'tô com pôca vontade d' as samear, qu' aquilo é uma sementêra que quer munta água e ela há pôca.

Mái dêxamos isso da mão e vamos más é ô passêo com a Zèlinha e Florbela.

Aquilo foi um foguete já se tinha dêxado o Odecêxe p'a trás e 'tava-se a chigar às Azenhas do Mar. Nã sê se vomecêas conhêcem. Aquilo nã tem nada que ver im casas que sã bem pôcas, mái com respêto ô resto, tudo p' ô lado do mar, tem umas vistas...

E se qu'rerem c'mer um p'xinho 'panhado méme p'r 'lí, 'tá lá uma casa que nã conheço melhor. Pode haver igual... mái, melhor, calhando, não.

Nã é que se tenha c'mido lá dessa vez, que dali inda se foi p' à Zamb'jêra - ôt' sito do mái bonito que pode ser e haver - e inda era cedo demás p'a se c'mer fosse o que fosse. Mái b'bé-se-l'e um calcesinho - ê cá qu'ria madronho, más c'm' nã havia do bom, bobí o méme que elas, um martine, uma coisa assim p' ô doce - p'a ninguém ter fastio ô almoço.

E segui-se viaja p'a Vila Nova de Mil fontes.

Rio Mira Q'ondo dí p'r mim, 'tava a ver o sol a se pôr im riba da ponte do Ri' Mira

E, olhem, aquilo foi chigar e imbarcar... Dé-se lá com um sito, logo à rés do campismo, uma coisa tamém do melhor. Elas mandaram p' ali arrenjar um arroz com uns caranguejos lá drento e mái umas coisas assim, uma tachada bem acagulada, aquilo era de c'mer e nã pastanejar, que 'tava daqui...

P'a desembaçar, vem de lá um um v'nhito ali alentejano, daquele bem carregado, até estralava nas goélas... E o gosto qu' ele dêxava na boca duma pessoa?... E logo qu' a Zèlinha teve que bober laranjada p'r mode ser ela que guiava o carro. Atão, lá me calhô ter que apr'vêtar a parte que l'e d'zia respêto. P'a nã f'car lá, 'tá bom de ver... Pagava-se na méma...

Nã l'es digo nada, batemos aquilo tudo... até a m'lherzinha f'cô imbasbacada a olhar p' à gente:

- Mái atão, nã me digam que l'e trusse pôco... Se qu'rerem mái um coisinho, ê vô-me b'scar...

- Qual o quem!... Chigô muntíss'mo de bem... Ê cá já nã dô ingolido mái coisíss'ma nenhuma, que já tenho uma bazelgada... E vomecêas?

- Alguma vez?!... Já 'tô tã chêa que nã aguento más. - Clamava a Florbela.

- Nem tanto ê havera de ter c'mido qu' ingordo logo... - D'zia a Zèlinha.

E a minha Maria:

- Ê cá, atão, nã ligo a essas coisas das adiatas, mái, d'zer a verdade, já nã posso más...

Isto tudo no mê dum lanedo qu' até a famila - os que tinham chigado despôs da gente e inda nã se tinham ido imbora - 'tava tudo espècado a olhar p' à nossa mesa. Calhando, a ch'mar serrenhos à gente, mái a gente, tamém, nã s' emporta nada... Chamem ó não!...

Mái, lá foi, lá foi, fomos imbora e andô-se p'r lá a desmoer o almoço ô pé da praia. Ê tirava retratos, elas faziam cagaçal e d'ziam das suas das amigas que nã 'tavam lá, e lá se foi devassando aquilo tudo. E bonita que tal terra é...

Nã ôvem, é qu' aquilo tem o mar, tem o rio, tem a praia, tem aquela ponte... dá gosto passar assim ali uma tarde dum lado p' ô ôtro. E passa-se depressa, que, logo, uma pessoa despàirêce, e, despôs, os dias, agora, sã pequenos de más.

O que l'e sê d'zer é que, q'ondo dí p'r mim, 'tava im riba da ponte do Ri' Mira a ver o sol a se pôr. F'quí insampado... E vomecêas haveram de ver tamém, que logo me d'ziam...

Pôs, de lá é que nã hôve quem m' arrencasse inq'onto nã escureceu. Chigô ali a uma altura qu' elas bem arrulhavam p'r mim, mái t'vessem santa pacência qu' ê tinha qu' apr'vêtar aquilo bem apr'vêtadinho...

Ora vejam lá se tenho r'zão ó nã tenho...

Rio Mira Rio MiraRio MiraRio Mira Ô sol-pôsto no Ri' Mira até parêce que se 'tá nôt' mundo...

Mái nã se fiem nos retratos e, uma vez que tenham jêto, vejam é lá no sito que logo sabem o qu' é bonito...

E fiquem-se com Dés.

13 novembro 2006

A pé, désna de Portimão a Monchique

Ponte do Vau - Portimão

Abalí de Vila Nova ô amanh'cer, inda lusco-fusco, q'ondo chiguí à Ladêra do Vau, já ele chovia.

Tal e qual c'm' l'es disse, enq'onto andí na fêra de Vila Nova, dé-me na cabeça d' ir a pé p'ra Monchique, p'a m'alembrar do tempo qu' a famila, quái toda, fazia isso p'ra baxo e p'ra cimba, q'ondo tinha míngua d' ir lá im baxo ô Algarve.

Aquilo foi uma risada lá na casa das amigas da minha Maria. Toda à nôte, até a gente ir dromir, levaram a fazer cachamôrra de mim, cudando qu' ê cá nã era homem p'a fazer tal coisa. Más a minha Maria, que já me conhêce bem, 'tava mê desconfiada qu' ê falava a sério.

- Olhe qu' isto, q'ondo ele mete uma coisa na cabeça, é má de l' a dar tirado. Ele até já anda p' aí a d'zer que vai a Santiago...

- Eh'q!... Q'ondo chega ali às Vendas, já ele nã pode com os tacõs das botas... - D'zia a Dores.

E a Alzirinha, a filha dela:

- Qual Vendas... Atã vocêas pensam qu' o homem, tampôco, chega a abalar?!... Isto é tudo conversa. Nã s' acraditem. Más a más qu' eles dã chuva p' à amanhã...

- Ai vomecêas pensam qu' ê dig' isto só p'r d'zer? Atã, logo se vê... Tenho ali uma capa de plástico qu' a Caxa me deu uma vez qu' ê lá fui alevantar p' a lá um d'nhêreco da pensão, aquilo tem capuz e tudo, que chova que nã chova lá vô...

- Ó parente, se ser caso disso, tamém l'e imprestamos ali um guarda-sol... - D'zia a Dores, inda mangar, mái já mê desconfiada, qu' ê cá, calhando, semp'e abalava a pé.

- Atã isso tem a gente ali. Que q'ondo se vai p'a fora, usa-se semp'e a trazer. Más é que nã me calha levar, que dá má jêto andar assim tant' ô tempo com aquilo nas mãs.

- E inda sã uns belos quilómetros daqui lá...

- Até chigar méme ô destino, sã vinte cinco.

- Tantos?!...

- Olá, olá... Já andí munto más do que isso... Olhe, no dia da inà'g'ração da barraja do Odiáxar', vim ê cá p'r aqueles córg's abaxo e voltí p'a casa ô fim da tarde. E sabe o que leví p'a c'mer tôd' ô dia? Um pedaço de pã às secas...

- Atã e, amanhã? Levas alguma coisinha p'a c'meres e b'beres p'r o caminho? - Diz a minha Maria, toda crusidôsa com-migo.

- Se levar, levo. Se nã levar, logo me g'verno im qualquer banda, numa venda dessas aí da estrada. Qu' eles, hoje, im tôd' ô lado têm uns peros ó umas bananas à venda e fritam um pedaço de carne magra p'a se c'mer com pão. E água, é só comprar uma garrafinha, q'ondo me dar sede.

E assim foi. No ôtro dia, bem de manhãzinha, indo tudo dromia, alevantí-me sem fazer barulho, dí de vaia à minha Maria p'a ela saber qu' ê tinha abalado, e lá fui...

O que nã gostí assim munto foi até passar do casarío de Vila Nova. É que, méme àquela hora, já andava famila e carros na rua e um f'lano, p'a atravessar as ruas tem de ter munto cudadinho qu' eles, em tendo o sinal verde, nã olham a nada...

Quái uma hora despôs d' abalar, q'ondo chiguí à Ladêra do Vau, cudava que já dava visto o bico da Fóia e da Picota. Qual o quém!... Com o tempo embrulhado c'm' 'tava, mal via a ponte. E, nã tardô nada, desato a sintir uns pingos de chuva, e eram bem gróss's. E inda 'tava a 20 Km de casa...

Digo p'ra mim:

- Olha seja o que Dés quêra... Ela tanto molha d'scretos c'm' parvos, dêxa-me más é melhor vestir esta coisa de plástico qu' a Caxa me deu, que semp'e envita um coisinho...

Ponte do Vau - Portimão

Na Ladêra do Vau - já tinha andado mái ó men's uns 5 Km - desatô a chover. A Fóia e a Picota viste-las... 'Tavam tapadas de nuves.

- Mái nã foi preciso, que nesse entrementes, vejo uma m'lherzinha, que p' ali 'tava, abalar a fugir, toda encolhida, com as mãs na cabeça e antrar p' à casa dela. A m'lher - boa pessoa - ô méme tempo que f'chava a porta, vi-me ali naquela figura, arrulha p'r mim:

- Venha cá! Venha cá pr' aqui! Abrigue-se aqui im casa, um pôcachinho, qu' isto vem aí um tempo que vomecêa fica aí que nem um pinto...

Logo, pensí:

- A m'lher 'tá p' ali sòzinha, 'té me dá vergonha d' antrar nã vã p' aí pensar coisas...

Más ela brigô, ôtra vez:

- Avíe-se, homem... Olhe qu' ela 'tá a engrossar e mecêa molha-se todo... O mê marido era p'a ter ido agora a fazer ali um servicinho, mái c'm' vi' o tempo vir além tã escuro, dêxô-se ficar mái um coisinho de baxo de telha. E fez ele bem, senã panhava uma molhadura qu' era d' adregue nã se constipar p' aí.

Ora, assim, já f'quí mái sossegado e lá antrí p'ra casa. Era famila, béque-me, assim do mê estilo. Olhe, até pertaram com-migo p'a c'mer lá qualquer coisinha, qu' o homem inda 'tava a acabar de bober o café.

-Ó, mês belos amig's, munto l'agradêço, mái ê cá já c'mi, entes d' abalar, e agora nã me calha...

- Mái coma... Nem que seja aí só uma fatiínha ó um pique de carne de fresneco qu' inda se tem aqui, que se matô p' ali um p'rqueco esta semana... - D'zia a m'lherzinha.

- Dés l'e pague, mái nã pode ser. Olhe, é c'm' se t'vesse c'mido. Agradêç'-le na méma. Agora se m' arrenjasse aí um c'pinho d' água...

- Ó, alma de Dés, já podia ter dito!... Olhe, tome lá desta deste garrafão, qu' a gente trôxe, um dia destes, lá daquela fonte a caminho da Fóia. Qu' a aqui nã se bebe da da rede que nã se gosta. Aquilo sabe àqueles produtos qu' eles l'e põem, béque-me a l'xívia...

É que, nã vêem, escalfado vinha ê cá e só o que me calhava era bober água...

- Ai, munto bem me calhô... Mái agora tenho qu' ir andando. Vomecêas sã munto boas pessoas, mái isto o tempo já al'viô e ê quero é ver se chego ô mê destino. Dés l'e pague e até que calhe.

- Ai, homem, que vomecêa vai-se molhar. Olhe que vem aí mái uma ripada dela...

- Isto nã há-de ter dúv'da... E ê, tamém, tenho aqui uma coisa de plástico p'a vestir, se ser preciso. Fiquem-se com Dés.

Ora nã há-de ter dúv'da... Inda ê nã tinha passado bem p' ô lado de lá da ponte, já ela caía im forte ôtra vez...

Lá me pus a desenrolar o trapo de plástico que levava, mái atão, e o tempo que leví p'a dar vestido aquilo... Q'ondo pus o capuz na cachimóina, já o cabelo escorria. Mái lá fui andando p'a ver se m' abrigava debaxo da ôtra ponte lá daquela estrada nova que l'e chamam a via do infante.

Q'onto más ê andava, más ele chovia. A estrada tornô-se numa r'bêra. 'Tá bem qu' o plástico semp'e envitava um coisinho, mái atão e dos joelhos p'ra baxo?!... Punhana, qu' as calças até escorriam... E pesavam que par'cia chumbo.

Até que lá chiguí e p' ali m'encostí da melhor manêra que dí. E foi esperar um belo pôco até qu' ele descarregasse. Mái nã cudem qu' fui só ê cá que me vi ali em traquetes com tal garrão...

Nã tardando nada, vinham uns môç's numas motas de quat' rodas, t'veram qu' aparar ali ô pé de mim. E até uns, com uns jipes, fazeram o mémo.

Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão

Ôtros, méme com vias, tamém t'veram qu' aparar ali ô pé de mim, qu' a chuva vêo de ramotão e era uma coisa p'r demás...

Aquilo, até do viaduto ele caía uns tôrnos d' água qu' era um d'sparate. Só q'ondo p' ali par'cé' uma amostra d' arco-da-velha é qu' ela abrandô.

- Atã, adonde é que vã p'r aí, com um tempo destes? - Prècuro ê cá ôs das motas.

- É uma corrida tôd' ô terreno ali p'as bandas da serra...

- Lá p' à Fóia ó p' à Picota?

Encolhêram os ombros, nã me saberam dexplicar.

- Com esta chuva tôda, nã ficarã p'a lá atolados? Olhem qu' os caminhos 'tã tôd's chês de pôças e é d' adregue nã se verem p' aí empeçados...

E lá abalaram, atrás dos jipes, tã penas ele descampô e o tal arco-da-velha se prantô p'r cimba dumas canas, lá adiente, méme adonde passa a r'bêra de Boina. Des qu' o arco-da-velha é sinal de fim da chuva e, verdade se diga, até que bate certo.

Os antigos tamém d'ziam que, no sito adonde ele toca no chão, 'tá uma panela, chêa de moedas d' oiro, enterrada. Mái, p' à incontrar, é precido ir atrás dele até chigar esse ponto.

Pôs ê cá, uma ocasião, em moço-pequeno, exp'rimentí e nã me servi de nada. Atã o raça do arco-da-velha, tã penas ê dava um passo ó dôs p' à frente, assim ele se ch'gava p'a lá... Fui andando, fui andando, e ele semp'e a fugir de mim. A uma dada altura, pensí:

- Mái atã, o ladrão parêce que 'tá vivo... Dêxa-me lá voltar p'a trás a ver o qu' é qu' ele faz...

E nã é o qu' o belhardêro tamém se pôs a andar atrás de mim...

- 'Péra aí qu' ê já te digo... - Pensí cá p'ra mim.

Ê cá 'tava numa ponta dum cantêro de canôiras de milho, munto comprido, e ele na ôtra ponta, já numas jastras que p' lá 'tavam, logo a seguir ô rego do tãinque da rebêra, qu' até tinha uma canha p' à água passar, de lá p'ra cá, p'r cima duma clarabóia dum minôco que fazeram, logo no fim desse cantêro, mái nunca descobriram água nenhuma.

Dô a volta p'r trás do cantêro, descondido à rés do v'lado, vô-me, devagarinho, sem fazer barulho, a ver s' o panhava lá adonde ele 'tava. Fui, fui, fui..., em chigando lá, entes de m' amostrar, inda assomí só um olho méme à quina do v'lado, com munto jêtinho p'a ver s' ele inda 'tava lá.

Era o 'tavas... Já se tinha escapulido lá p'ra diante p'a trás das sobrêras, que mal l'e via a ponta a luzir p'r cimba da ramaja. Nã l'es cpnto o que me vê logo assim à boca, d' inzàinado que f'quí, que me dá vergonha, mái ch'mí-l'e nomes e uns belos nomes...

E, com isto tudo, já me desquecia de l'es contar que peguí na minha trôxa e lá fui andando caminho da serra, qu' inda 'tava bem longe de casa.

Nem um quilómetro and'i, já 'tava a ver o resultado da enverna. Era rombadas naquelas barrêras e pedras p' aquelas valetas que dava dó. Tamém, s' inda eles nã arredondaram as obras d' arranjo da estrada e já aquilo se 'tá a dar, o que fará daqui a um ano ó dôs...

Mái o que me mái dé pàxão foi uns cavalinhos que 'tavam ali na pastaja e umas carôchecas qu' andavam a governar a vida ali no mê da estrada e alancaram com aquela àguaria toda im cimba da lombêra...

E, a seguir, dô com esta morada de casas já com o telhado e parte das paredes de taipa caídos no chão. Olhem qu' ê inda conheci munto bem morar ali famila...

Carrossel Oito - SilvesEstrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão

Na minha viaja a pé, vi coisas bonitas e ôtras que me deram pàxão.

E lá fui andando no mê passo, que já nã tenho canôiras p'a grandes despachos e, inda menes, de ladêra acima, c'm' s' ia dar tã penas passasse da partilha do concelho p'ra lá.

Quái sem dar p'r ela, dêxí o Porto de Lagos p'a trás e ch'guí ô fim da recta do Rasmalho. Aí, senti um b'chinho a rabear aqui na barriga, até me pus a falar sòzinho:

- Nã ôves, atã tu tens alguma precisão d' ir aqui chê de larica e com o farnel na als'bêra?!...

Sim, qu' a minha Maria, mémo ê nã l'e pedindo, tinha-me arrenjado uma buchinha p' ô caminho e pô-se-a im cimba da menza de cabecêra. De manhã, à abalada, foi só gôrdá-la na als'bêra e abalar.

De manêras que, p'a arrenjar fortidão p' ô resto da viaja, na pr'mêra paraja da carrêra qu' incontrí, assentí-me, joguí-me ô farnel e c'mí-o todo duma assentada. 'Tava lá bem assentado, nã me chovia im cima nem vento nem nada, foi uma beleza...

De lá até à partilha do concelho era um pulinho e ê logo l'es c'm' é que foi o resto.

Tenham tôd's munta saúde.