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16 dezembro 2006

De Monchique a Vila Nova já é um coisinho mái desviado...

Marco da estrada Os marcos antigos arrencaram-nos tôd's. E os que nã estrapuseram, deram-l'e uma marranada e fazeram-nos em cacos...

Alembram-se daquela vez qu' ê vinhe à pata de Vila Nova p'ra cá e f'quí descorçoado p'r mode ver os marcos da estrada quái tôd's arrencados e, parte deles, aventujados às barrêras abaxo? Pôs, um destes dias - foi no D'mingo... pôs foi. - pedi ô Zé Manel s' ele nã s' emportava de me levar, no carrinho dele, a ver c'm' é qu' eles tinham fêto o resto do serviço.

'Tá bom de ver qu' o moço se pront'f'cô, da melhor vontade, e disse logo ô pai, inda na minha frente, p'a ir tamém com a gente. Ora o mê compad' Jôquim do Barranco não é homem p'a ronciar a acompanhar com os amig's e nem tampôco pastanejô.

- Vamos sim. Vamos os três 'í prê abaxo. E calhava nã se demorar munto a abalar qu' as tardes sã curtas, isto, o sol põe-se logo sem se dar p'r isso, e desata logo a fazer um frio marafado.

Salta logo a c'madre C'stóida, que 'tava p' ali, no alpendre, agachada a escolher umas batatas, parte delas chêas de traquinoso e ôtras com uns arrebentos quái de palmo, que só o Trombão - o pórco deles - é qu' as dará c'mido...

- Atã e ê cá e a c'mad' Maria?... Fica-se im casa?!... Que conversa é essa, home, a gente tamém se gosta do laré, nã sã só vocêas...

- Ó 'nha mãe, vomecês vã tamém com a gente todas duas. Ê nã nas dêxava im terra. Vá-se lá preparar qu' é p'à gente abalar já, qu' ê cá, à noitinha, tenho más que fazer...

Disse logo o Zé Manel p' à mãe, munto l'gêro, com aquele jêto dele munto safo, já a fazer conta de 'tar livre à nôte, calhando, p'a ir arrojar a asa à Cilinha ó a ôtra qu' ele tenha debaxo d' olho.

O qu' é que mecêas querem, isto agora 'tá assim... Já nã se pode fazer nada qu' elas nã tenham qu' andar semp' im cimba dum homem.

S' uma pessoa quer ir b'ber um calcesinho à venda, elas tamém vã bober café. S' é p'a se jogar um coisinho à carta, ôs três setes, elas assentam-se na ôt'a mesa e fazem renda e "corte e c'stura". S' um homem quer ir ô balho dos bombêros, elas 'tã logo fêtas p'a ir tamém. E p'r 'í adiente...

Isto sã coisas do vinte cinco d' Abril... Ah isso são.

Bom, mái p'a encurtar de r'zõs, ê abalí à rôpa toda e fui d'zer p' à minha Maria se despachar. Isto, s'ela qu'sesse ir - ora nã havera de qu'rer... Nã se fosse dar o caso deles inda terem que 'tar à nossa espera e o Zé Manel l'e par'cer mal. E, a cabo dum pôco, lá se foi caminho da estrada de Vila Nova.

Pus-me d' olho à esprêta p'r a j'nela do carro e o mái ingraçado é que desatí logo a ver fartura de marcos, já munto bem atanchadinhos ô lado da estrada, qu' até f'quí c'm' parvo... Contí um, dôs... dez... vinte...

- Tó diébe! Mái atã os homes fazeram a parte deles bem fêta... Ê cudando que já nã nos punham no lugar e, ô fim de contas, im menes dum farol, 'tava lá tudo ôtra vez. Com esta é qu' ê me charinguí, que falí entes de tempo...

Marcos da estradaMarcos da estrada Estes marcos nã sã c'm' os ôtr's. O mat'rial é cimento im lugar de pedra e pintaram-nos de preto im vez d' azul.

Pensí ê, cá p'ra mim, e, logo, nã disse nada ôs mês camaradas de viaja. Mái, pus-me a matinar e aquilo, béque-me, nã me casava cá munto bem na minha cachimóina. Até que repàirí numa coisa, já se tinha passado do Gilbordal p'ra baxo. 'Tavam pintados d' ôtra cor...

- Ó Zé Manel, vai lá 'í um coisinho mái devagar p'a ver uma coisa, fazendo favor...

O moço antrô numa curva, féze-a e assim aparô, logo mái pralàzinho, adonde l'e dé mái jêto.

- Atã, inda mal s' abalô, já quer p' aí verter águas, compad' Refóias?

Salta o mê compad' Jôquim, ô meme tempo qu' já tinha abrido a porta e env'r'dado atrás de mim p' à berma do lado de baxo.

- Nã senhora... Ê vô-me é aqui ver que raça de marcos sã estes qu' eles puseram agora aqui, qu', em vez da azus c'm' eles eram, 'tão pretos que nem carôchos. Nã vê? Olhe lá p'ra isto...

- Mái atão, isto, nã sã os mémos qu' aqui 'tavam... Nã vê qu' eles sã de cimento pintado de preto e os ôt'rs eram azules e fêtos de pedra trabalhada a pontêro e maceta?...

Marcos da estrada

- Ai os filhos duma magana!...

- Calhando, a pedra já 'tava podrida, a se desfazer...

- Podrida?!... Podridos 'tamos a gente tôd's com estes mariolas que gastam o d'nhêrinho todo com coisas que nã era preciso...

- Dêxe lá isso c'pad' Refóias, estes sã nôv's semp'e sã mái v'stôsos...

- Qual o quem!... Ó mê belo amigo e compadre, isto fêto de cimento tem alguma aira?!... Más a más qu' os qu' eles tiraram 'tavam aqui désna qu' a estrada foi fêta, já no tempo dos nossos avózes e eram munto mái bonitos. Cá p'a mê gosto...

- Lá nisso, nã no posso contradiar... Tem toda a r'zão.

- E faça-l' as contas. Até Vila Nova sã, mái ó menes, vinte cinco dos grandes e uns duzentos e tal dos pequenos - sim, um grande e nove pequenos p'r cada quilómatro, dá isso, mái coisa, menes coisa. Ora, q'onto é qu' isso custa, diga-me lá...

O mê compad' Jôquim do Barranco, que tem pôca queda p' às contas, pôs-se a acossar na cabeça, com ela de lado e um olho pisco, a fazer uns miécos assim c'm' quem 'tá a fazer contas de murtiplicar de dôs núm'res ó más, volta-se ôtra vez p'ra mim e diz, compassadamente, com ar de quem já chigô ô resultado:

- Olhe qu' há-de ter custado p'ra cima dum d'nhêrão... Ah, isso custô...

- Ê tamém nã sê fazer essas contas de cabeça, mái nã custaram nada pôco, nã senhora....

- Atã, a gente bem que podia pedir ali ô mê Zé Manel, qu' ele tem um telemóvem que faz quái tudo. Olhe, fala-se p' ôs ôtros, escreve-se ali e as letras, despôs, parêcem lá no da ôtra famila, tira retratos e nã tem precisão d' os ir mandar revelar... e faz contas e uns jôg's de bonècada e tudo...

'Tava-se a gente munto bem nesta conversa, o Zé Manel, farto já de esperar, abaxa o vrido e arrulha de lá de drento:

- Fica-se aqui o resto da tarde, ó quem?!...

- Vai-se já, vai-se já. Nã se demora nada...

Só tive tempo de tirar p' ali dôs ó três retratos e vá p' ô banco de trás, p' ô pé das m'lheres. Sim qu' o c'pad' Jôquim, esse, ia à frente, todo rapimpado, ô lado do filho. E, béque-me, assim todo inchado, munto senhor do sê papel...

- E nã se desqueçam de pôr os cintos...

- Vá lá a gente nã os pôr e inda se tem que pagar pr' aí alguma murta...E des qu' eles, agora, nã perdoiam nenhuma. E grandes qu' elas são...

- Inda, nã sê q'ondo, o Tóino Pingueta ia na Zundap dele, levava o capacete pindurado no braço, panharam-no ali ô Pé da Cruz, qu' ele vinha do Alferce, foi méme à medida...

- Des que sim...

- Nã sê s' ele me disse que teve que pagar p'ra cimba duns cem eros...

- Pôs, atão ele, tamém, inda p'r más, nã levava as luzes acesas e aquilo já era de noitinho...

- C'm' é qu' ele havera de levar s' elas 'tã todas variadas...

Nisto, o Zé Manel apara ôtra vez o carro. Já se tinha passado do Barracão bem p'ra baxo e, com a conversa, nem dí p'r nada. Aí foi ele que lombrigô ôtra coisa que tinha que ver. Atancharam um marco dos nôvos e desqueceram-se d' arrencar o velho que 'tava logo mái prebaxinho...

Marcos da estrada Fiand'-se uma pessoa nos marcos da estrada, Vila Nova jã fica um coisinho mái desviado. É coisa p'a se ter de dar umas quinze passadas a más, pert' ó certo...

- Esta é que 'tá boa... Agora qual é o que vale? Sará o velho, sará o novo...

- Atã, isso sabe-se qu' é o novo... Senã p'ra qu' é qu' o tinha atanchado aqui?...

- Atã assim, a estrada esticô e já se tem d' andar mái umas quinze ó vinte passadas até Vila Nova... Já se 'tá mái desviados do Algarve e nã se era sabedores de tal coisa...

- Olha lá s' ê cá nã t'vesse fêto a minha viaja a pé entes deles pôrem os marcos aqui... Lá me saía mái comprida. E ê que, méme assim, custí a dar chigado a casa... o que faria com esta lonjura a más...

Foi uma barrigada de rir.

O qu' é que mecêas querem, p'a certa famila c'm' à gente, tudo serve p'a fazer pagode... Mái, lá p'r isso nã digam p' aí que somos parvos. Isto é méme de narcença... E q'ondo qu'rerem s' advertir, apròchêguem-se cá p' ô pé da gente.

E p' ali se levô uns com os ôtr's, cada qual a d'zer as sês d'chotes - parvoêras, 'tá bom de ver - mái tudo sast'fêto, inq'onto o sol já se 'tava a qu'rer desconder p' trás do cerro da banda de lá da r'bêra. Num derrepente, digo:

- Olha lá, Zé Manel, atã e s' a gente se fosse ali à do Màss'mino c'mer um coisinho de presunto e b'ber-l'e um sôlvinho?... Quem diz ô Màss'mino, diz ô Cinzas ó ô Recanto. É ô que tu qu'reres.

Diz logo o C'pad' Jôquim, que se péla p'r coisas dessas:

- Ah, que conversa mái bonita... Já, inda agora, ê cá me tinha alembrado disso. Só nã disse nada que pensí qu' inda qu'sessem ir mái p'ra diante.

- Maria, trazeste a tu pataquinha? As m'lheres, hoje, é que pagam... Nã é assim, compadre?

- Tal e qual... Hoje é a C'madre Maria e minha C'stóida que pagam a mêas. Vá C'stóida, puxa lá aí da nota, qu' uma vez tamém há-des pagar... Adonde é que trôveste o d'nhêro, na pataca ó enrolado no lenço, c'm' tu usas a fazer, com um nòzinho na ponta?...

- A gente nã se vem aprecatadas p'ra isso, qu', entes d' abalar, ninguém disse que s' ia ô café nem a sito nenhum desses...

Diz a C'mad' C'stóida, munto deç'dida. E a minha Maria, já no gozo, qu' elas sã as duas mái agarradas que sê cá o quém:

- Pôs é isso mémo, c'madre... Tanto qu' a gente gostava de pagar, mái atã ninguém avisô p'a se trazer a mala. Olhe, fica pr' à ôtra...

E assim foi. Voltô-se p' a trás, c'memos e bobemos e ê sê munto bem quem é que pagô... E nã 'tô repeso, que fui ê cá que desafií, tanto p' ô passêo c'm' p' à bucha.

E nã l'es conto mái nada que mecêas já hã-de 'tar desastinados com tanto palêo.

Marcos da estradaMarcos da estrada Nã me venham cá d'zer qu' os antigos nã eram mái jêtôsos. E melhores...

Passem muntíss'mo de bem e q'ondo virem cá, logo exp'r'mentam a ir a um desses sitos à rés da estrada, tanto faz no Barracão c'm' nôtra banda, e comam-l'e uns coisinhos de presunto do nosso ó uma assadura ó coisa assim, e logo me dizem se f'caram bem tratados...

Até um dia destes.

22 novembro 2006

O resto da viaja

Caldas de Monchique

No miradoiro do Água da Sola é que vi bem. Méme assim, o qu' ê nã tinha já andado...

A carrêra lá se foi e ê cá, p'a me desquecer dela, encostí-me ali ô v'lado do miradoiro do Àgua da Sola e desatí a olhar lá p'ra baxo p' ô Algarve, d' adonde tinha abalado há mái de quatro ó cinco horas. E dô com-migo a matinar:

- Tó, raio!... Olha bem a serraria que já atravessaste désna de Vila Nova até aqui... Mal empregado nã 'tar aí um dia melhorzinho, que semp'e vias o casario e a água do mar, azulinha qu' era um consolo, a luzir com o sol...

Mái atã, aquilo, fazia um escuro qu' os retratos nã f'cavam nada de jêto... Se panhava as casas das Caldas, nã panhava o resto até Vila Nova. Se panhava o resto, nã panhava as Caldas. Olha que esta, hã!...

Abalí fui-me imbora, caminho de casa, qu' aquilo era coisa p'a levar inda mái uma hora, perto ó certo, até ô fim da viaja. E, só aqui pr' à gente, ê 'tava de'jando disso, qu' as pernas já davam sinal e as botas, béque-me, cada vez pesavam más, nã sê perquém. Calhando p'r mode a chuva que tinham panhado...

E foi aí qu' ê cá desatí à prègunta a ver se dava com algum marco da estrada, p'a saber a que lonjura inda 'tava de casa. Mái, qual o quém. Atã e ele par'cia algum?... Vejam bem o que se deu.

Uns que têm andado p' aí a arrenjar a estrada, arrencaram os marcos tôd's - nã sê bem se tôd's se quái tôd's, más ê cá, lá adonde prècurí, nã dí com nenhum no lugar - e jogaram-nos p'r essas barrêras abaxo. E quem diz marcos, diz sinás. E, em lugar disso, agora, têm andado a pôr p' ali umas chapas de lata...

Pôs olhe, ê cá nã digo qu' as chapas nã façam jêto, mái mês belos marcos de pedra, muntos fêtos à mão, com uma maceta e um pontêro, p'r artistas daquele tempo, inda ê nã era narcido... E vejam bem como eles duram, qu' inda cá 'tão, quái c'm' nôv's, que nunca mái s' estragam. E, agora, jogam-nos fora...

Marcos da Estrada de Monchique Marcos da Estrada de Monchique Marcos da Estrada de Monchique Estrada de Monchique

'Té fico em pele de galinha de ver os marcos tôd's jogados aí p'r essas barrêras abaxo...

Ê, tamém, nã sê se 'tô a ser um coisinho má-língua, qu' eles inda os podem ir b'scar e pôr ôtra vez no lugar, mái, p'lo 'tô a ver, ach'-l'e pôco jêto disso. E vomecêas, fiam-se qu' eles inda os vã apr'vêtar? É que, só d' os ver assim jogados, dá-me cá uns fernicoques qu' até fico em pele de galinha...

Mái, vá lá, qu' inda dí com um, com as letras que m' ent'ressavam voltadas p' ô ar, e lá f'quí sabendo qu' o resto do caminho já nã chigava a uma légua. Béque-me, até me vê' assim uma alegria ôs olhos e, méme sòzinho, fiz ares de rir e falí p'ra mim:

- Olha, desta 'tás quái safo... Agora, munto mal corressem as coisas p'a nã dares chigado a casa...

E, ramordendo nisto, 'té quái que me vêo um chêrinho ô jantar de milhos qu' a minha Maria, calhando, havera de 'tar a fazer p'a q'ond' ê chigasse... Nã foi coisa qu' ela nã m' aprometesse, na béspra à nôte, ô dêtar, lá na casa das amigas dela. E vá de me narcer água na boca... Tamém, com a laberca qu' ê já levava, sê cá o qu' é que nã me sabia bem, se panhasse...

De manêras que, 'tava ali, 'tava na Nave. Mái, inda entes, logo preciminho do Gilbordal, ia, munto descansado, a sobiar uma moda das antigas, qu' a malta nova usava a cantar e a balhar assim em jêto de fandango, ch'mada " o Manel Abradas e o Manel Abreu" - nã l'es posso é d'zer os versos, qu' eles nã tem nada de mal, más sã, assim, um coisinho p' ô malcriado - q'ondo oiço um sobiado q'ôdrado e um arrulho c'm' quem 'tava a bradar p'r mim.

Volt'-me p'a trás, o Manel Cachimbo. Dig' p'ra mim:

- Olha, o que m' havera de sair na rifa...

- Ó Refóias, 'pera aí!... Atã já nã ligas ôs amig's?...

- Agora é qu' ê 'tô bem aviado... - Ramordí, assim, baxinho, p'a ele nã ôvir.

E lá vê ele, de passo aberto, béque-me quái a marchar, c'm' nos tempos que se 'tava os dôs na tropa, im Tavira. Num foguete, 'tava em par de mim.

- Atã, passaste e nã me viste ali na venda do Gilbordal?... Vinhas cego ó quém?

- Nã vês, ê tenho munto qu' andar a olhar p'a drento das vendas... E, olha lá, o qu' é que 'tás a fazer aqui p'a estas bandas logo a umas horas destas? A tu casa nã é àlém ô pé do convento?...

- Atã e o qu' é qu' isso tem?... Já hoje ê vinhe de Vila Nova...

- Nã me digas que tamém já fazes a praça...

- Nã... Fui aí com um amigo e despôs, na volta, ele aparô aqui, b'bé-se uns porretes e ê f'quí ali entretido um pôco.

Com esta conversa toda, q'ondo dí p'r mim 'tava-se na Nave, im par da pedrêra.

- Agora, 'pera aí um coisinho qu' ê tenho que tirar aqui uns dôs ó três retratos.

E tirí.

Pedreira da Nave - MonchiquePedreira da Nave - MonchiquePedreira da Nave - Monchique

A pedrêra da Nave dá-me que pensar. Quái que nã sê o que diga...

Naquele pôcachinho que 'tive a tirar os retratos e o Manel p' ali ramocava sòzinho, olhí bem p' àquele serviço e, verdade se diga, f'quí sem saber o que pensar. É qu' aquilo, ô méme tempo pode-se d'zer qu' é bom e qu' é ruim.

- Atã, nunca mái te despachas com os retratos?...

- Já 'tá, Manel. Nã t' apequentes, qu' isto agora é a gente env'redarprê adiente e, im menes de nada, 'tamos na Vila. S' a chuva apertar munto, amalham's-se aí num lado qualquer. Ê cá tenho aqui este plástico, 'tô semp'e safo, agora tu vás aí todo desc'rapuçado...

- Mái tenho aqui um chapé-de-chuva na als'bêra do casaco. Nã vês? É daqueles qu' encolhem. Comprí ali naqueles chineses q'ondo s' assobe p'ra cima, p' ô lado da Fóia.

- Atã, 'tás governado... Vamos más é andando.

E lá se foi. Más ele, inda assim, nã 'tava munto escorvado e dé-l'e p'a antrar com-migo.

- 'Tavas a olhar tanto ali p' à pedrêra, nã me digas que queres ir trabalhar p'ra lá?... Ganão c'm' tu és, inda nã t' há-de chigar a reforma que já arrecebes...

- Tem p' aí tento na língua e nã digas parvoêras. O qu' ê 'tava a olhar era ôtra coisa.

- Atã diz lá, qu' ê semp'e quero ver...

- Tu já repàiraste qu' eles vai p' ô lado duns cinquenta anos que brigam naquele cerro a tirar dali pedra?... 'Tá bem que nã tem sido semp'e d' enfiada, mái méme assim o que nã saí' já dali...

- Têm arrenjado ali munto d'nhêrinho, Refóias. Só qu' a gente t'vesse uma àmetade cada um já se 'tava bem...

- Atã e o que têm pr'sicado aí o imbiente?... Isso nã dizes tu...

- Qual imbiente nim imbiente... Isso é o que dizem uns qu' andam pr' aí, que sã engenhêros mái nã conhêcem nada disto.

- Atã e esta famila que mora aqui ô pé e tem levado este tempo todo a engolir pòzêra e a levar calhàzadas im cimba dos telhados?...

- Lá nisso dô-te r'zão. É c'm' o ôtro que diz, ê tamém nã me calhava nada morar aqui ô pé, lá isso não...

- E olha lá além do ôtr' lado da estrada, o trabalho qu' além vai. Até o córgo já mudô de sito...

Pôs, uma coisa l'es digo. Aquilo, 'té se me põe aqui um aperto de ver aquele trabalho. Já 'tá ali um buraco que s' alcança de bem longe. E fica fêo, lá isso fica. Mái atão e aquela famila que trabalha ali e tem precisão d' arreceber o d'nhêrinho, todas semanas, lá p' às suas necessidades deles...

- O melhor é a gente se dêxar disso e vamos más é b'ber um calcesinho ali àquela venda...

Diz o Manel Cachimbo, munto lampêro.

- Olá, era o que faltava... Hoje nã penses nisso, qu' ê cá nã bebo nada inq'onto nã chigar a casa. Lá p' à tarde... pode ser.

Com este lambarêo todo, foi-se semp'e andando, andando, q'ondo dí p'r mim, já se tinha passado à Mêa-Viana e parêce-me o Pé da Cruz na frente.

Monchique

Tã penas avistí a Vila, até se m' arrasaram os olhos d' água. Nã sê se foi p'r ver este lindo chalé no estado im que 'tá, se foi p'r 'tar quái a chigar a casa...

Pá da Cruz - Monchique

Os plátanos nã têm prosado nada bem, pertados que 'tão no mê das bombas da gasolina. Mòrmente os dum lado, sentiram-se munto...

Em se vendo dos plátanos p' ô lado de lá, o Manel, que 'tava im ferros que nã ia emborcar uma cervejalha, salta logo p'ra mim:

- Olha, Refóias, agora tenho qu' ir ali ô Grémo ver se compro uns pózes p'a dar lá num formigo que tenho lá numas bejoarias, se queres, anda daí com-migo.

Mintira, que nã era horas do Grémo 'tar aberto e ele qu' é munto crusidoso com as bejoarias ó seja lá com o que ser, que nunca tem nada de jêto...

- Ê cá, agora, daqui só p'ra casa...

Mái a mim até que me calhô bem, qu' ê cá, assim, despedi-me dele e fui d'rêto a casa o mái depressa que dí, derrengado c'm' 'tava, p'a ver se jogava umas chapadas d' água morna p' ô corpo, se c'mia o tal jantarinho de milhos com fêjão qu' a minha Maria m' aprometeu e semp'e fez e sossegar um coisinho, p'r mái que nã fosse, a sornar assentado num sòfá que 'tá p' aqui na casa de fora.

E assim acabí a minha viaja. Ficam tôd's convindados p'a tamém exp'rimentarem.

E inda l'es dig' ôtra. Nã tardando munto, assim Dés me dê vida e saúde, vô-me de Marmelete ô Alferce. Dêxem que logo veêm...

Passem tôd's munto bem e andem à pata que faz bem ô coração.

'Té um dia destes.

20 novembro 2006

Mái um pedaço de caminho

Monchique - Partilha do Concelho

Tã penas pus os olhos no marco da partilha do concelho, pensí: já tenho mê' caminho andado.

Ó ê 'tô munto atribuído ó atã já havia p' aí quem nã 't'vesse certo d' ê cá dar acabado a viaja a pé... Essa é que 'tava boa!... Ê cá dar parte de fraco?!... Nã senhora. Tã penas vi o marco da partilha do concelho, atã é qu' ê me joguí a andar à mecha toda...

'Tá bem qu' os caguetes já me 'tavam aqui a impertenecer, mòrmente, este que tem o joanete mái de fora, mái arrear é que nem pensar... E nã sê se foi p'r mode isso ó se não foi, vê-me à idéa:

- Olha, Refóias, uma àmetade do caminho já 'tá fêta. Ô concelho já chigaste. Agóra vê lá o que fazes... É bem verdade qu' a parte mái ruim é daqui p'ra diente, qu' isto, agora, é semp' a assubir, e a chuva béque-me tamém nã dá sinás d' alevantar. Más, isto nã há-de ter dúv'da...

Inda p'ra más, aparí logo um coisinho mái à frente p'r mode uma rabanhada de perdizes que p' ali 'tavam na bêrada da estrada e alevantaram-se todas ô méme tempo. Aquilo, batem as asas à rôpa toda, fazem assim um trrrrrru, qu' um homem, logo de chofre, até dá um estrameção e tem que estancar, méme descontravontade.

Más é uma coisa qu' ê me pélo p'r ver é aqueles b'chinhos... E as velhacas apoisaram logo mái prebaxinho, coisa duns q'ôrenta ó cinquenta passos, só p'a nã atravessarem a r'bêra p' à banda de lá. Inda l' apontí a mánica, mái os retratos nã deram panhado nada de jêto.

E só dali a um pôcachinho, é qu' ê deslindí qual a r'zão delas nã l'e calhar a ir lá p' ô ôt' lado. Foi só uma questã de dar mái umas passadas e devassar bem o trabalho qu' o vento tinha fêto p'r aquelas bandas.

Aquilo era só alv'redo partido p'r tôd' ô lado... Farrobêras, atão, que qualquer assopro l' e dêta as pernadas a baxo, foram a êto. E méme as acáiças nã l'e f'caram atrás. Até p'r a raiz ele as arrencô.

Mau tempo em Monchique Mau tempo em Monchique Mau tempo em Monchique Mau tempo em Monchique

Com a besaranha que já tinha fêto antes, era só arves partidas logo à rèzinha da estrada. O que faria, lá mái p'a longe...

Vá lá qu' ele, nesse mê tempo, fez uma abertazinha e ê apr'vêtí p'a abrir o passo, qu' aquilo ali inda nã era munto de ladêra acima. Mái nã foi arrencada que durasse munto tempo qu' mal ia chigando ô Vale de Boi, apara uma via em par de mim e oiço logo uma voz:

- Eh, Refóias, atã vás aí à pata, nã queres uma b'léa?

Dig' p'ra mim:

- Mái atã isto é a fala do ti Luís Agúida...

Olho p' ô lado e era verdade. Ali 'tava ele no sê mata-velhos de caxa aberta, com um tapigo de plástico p'r cimba, com a m'lher - a ti Felismina - assentada ô lado. Tinham ido fazer a praça e já 'tavam de volta.

- Isto é só de dôs lugares, mái vás méme ali atrás, qu' eles, com esta enverna, nã hã-de 'tar pr' aí e murtar a gente...

- Dés l'e pague, mái fica p'a ôtra ocasião. Nã l'e parêça mal, mái hoje tirí p'a fazer este caminho a pé.

- Ai, home, escolhêste um dia munto ruim p'a tal serviço. Anda más é daí com a gente, senã chegas a casa que nem um pinto. E bem aventujado...

E dé uma grande carcachada, quái a fazer porra de mim, qu' ele via-se ali no cómado do sê belo mata-velhos e era mái que certo que já trazia uma bagadinha na asa, qu' aquilo, q'ondo se vai fazer a praça, já se sabe o que se ...

- Eh'q, vá lá vomecêa andando qu' a gente logo s' incontra lá na Vila, mái-logo.

E nã fosse tamém o velho 'tar munto escarado e pregar com a gente duma barrancêra abaxo...

- Olha, p'a quem nã quer há munto... Até mái tarde.

Disse-m' ele, já béque-me a aç'larar aquilo.

Inda 'tive p'a l'e prècurar s' ele nã tinha visto p'r 'í o amigo Campaniço, qu' há tant' ô tempo que nã sê nada dele, mái c'm' homem 'tava assim p' ô lado do quentinho, dêxí-o ir à vida dele.

E lá abalô a aç'larar o mata-velhos duma tal manêra qu' aquilo até zunia... Nã sê perquém, descuidô-se, quái ô chigar à curva, pende p' ô mê da estrada, vem de lá um camião carregado de borregos dá-l'e um apitadelão, punhana!, o homem há-de ter panhado um cagáiço... vira o mata-velhos p' ô lado dele, aquilo foi p'r um nadinha que nã se dé ali uma desfortuna.

De manêras que, lá fui andando más um pôcachinho e toca a tirar mái uns retratinhos, acolhido ali debaxo dum alv'redo, p'a ver se furtava a mánica de panhar munta chuva im cima, qu' ê tinha medo nã fosse ela s' avariar, ó apr'vêtando alguma aberta que tamém vinha d' ora em q'onto.

Aquilo foi coisa de pôco tempo, logo com esta linda casa d' ôt's tempos qu' eles, agora, arrenjaram e l'e chamam o Parque da Mina. Aquilo tem p'a lá umas coisas, uns bichos, umas cabras... Olhe p'a l'e d'zer a verdade, nã sê bem qu' inda lá nã antrí. Só tenho visto p'r fora.

E mái preciminho, logo prebaxinho das Caldas, 'tá este jardim zológico, o Omega Parque, qu' há-de ser coisa bonita de se ver, mái tamém sô franco, tenho um empenho marafado em ir lá devassar aquilo e inda nã arrenjí jêto de dar lá ido.

Parque da Mina - MonchiqueOmega Parque - Monchique

Tanto faz o Parque da Mina c'm' o Omega Parque, tenho qu' ir lá agora em passando este enverno.

Dé-me assim que pensar este nome: Omega Parque. E, inq'onto assubia até às Caldas, puz-me a ramoer que jêto l'e ch'marem assim. Já quái que me saía fumo p'as orelhas de tanto puxar p'r a cabeça, desato a falar méme sòzinho:

- Atão, omega é a últ'ma letra do àbecedáiro grego. Aqui só 'tã bichos que têm os dias contados. Calhando é p'r mode isso.

E ele é capaz d' ê cá nã 'tar atribuído. Aquelas raças de bichos des que 'tão a caminho de s' acabarem e eles cudam deles ali a ver s' eles arrenjam criação de pequenalhos p' ôs soltarem otra vez no sito d' adonde estes vieram.

De manêras que, c'm' eles 'tã no fim, puseram-l'e o nome da letra do fim do àbecedáiro. 'Tá bem visto, sa senhora. Isto dig' ê cá, mái sê cá s' é assim ó não...

Pôs olhe, o que l'es 'tô de'jando é qu' em lugar de Omega passe a ser Alfa, a pr'mêra letra do tal àbecedáiro, p'a ser o prencípio d' haver, ôtra vez, muntos b'chalhos daqueles lá nos matos adonde eles vevem aí p'r esse mundo afora.

E q'ondo mal dí p'r mim, 'tava com mái uma ripada d' água nas orelhas, quái ô chigar às Caldas. Inda pensí ir p'r o encurtadoiro qu' ê cá usava passar, nalgum tempo, q'ondo era moço, e vinha da Nave panhar a carrêra nas Caldas, qu' assim apôpava uns dez destõs no b'lhete p'a Vila Nova.

Aquilo, méme sendo munto de ladêra acima, vai logo dar lá passando ô Água da Sola e, p'a quem 'teja com pressa até que s' apôpa ali um belo pôcachinho. Mái, pensí:

- Atã, com um garrão d' água desta manêra, nã sará melhor t' abrigares um pôco ali na paraja da carrêra e, despôs, logo l'e dás mái uma arrencada?..

Assim o pensí, assim o fiz. Num 'nstantinho, já ê lá 'tava acolhido debaxo, tirando mái uma mêa-dúiza de retratos. E olhem qu' as Caldas é um sito adonde dá bem p'a um f'lano incher o papinho seja ele a devassar aquelas lindas coisas seja l' a tirar retratos.

Caldas de Monchique

A capela das Caldas 'tá num sito méme bonito. À roda, tem arv'es e flores e, p'r trás, a r'bêra do lageado.

Caldas de Monchique Caldas de Monchique Caldas de Monchique Caldas de Monchique

Nã é um consolo olhar estas lindas vistas das Caldas de Monchique?

E inda bem qu' ê nã fui p'r o encurtadoiro. Senã, nã tinha visto mái uma vez as Caldas, arrodeando semp'e p'r a estrada até ô Barranco do Banho - agora l'e chamam R'bêra do Banho, qu' é mái fino... - e nem tampôco dava p'r a minha Maria passar na carrêra das onze.

Olhem, a marafada, consoante a carrêra passô p'r mim, lombrigô-me logo. E vá de fazer adés e ria-se que se derretia... Qu' ê cá bem na vi p'r o vrido da j'nela, méme embaciado qu' ele 'tava. 'Té o chòfer, qu' é moço conhecido, mái visto bem qual deles era, tocô o apito da camineta a se meter com-migo...

E ê cá ali prê acima a andar, já mê coxo duma perna, p'r mode uma borrefa que me 'tava a narcer no calcanhar... Num derrepente, inda quái que joguí um fiaço atrás da carrêra p'a l'e fazer paraja, mái voltí-me p'ra mim e disse logo, bem de rijo:

- Tem conta, Refóias... Atã que conversa é essa? Abalaste a pé, há-des chigar a pé a casa. Toca a andar qu' inda há munta ladêra p'a assubir...

E lá fui.

E c'm', desta vez, inda nã l'es dô contado o resto, fica p' amanhã ó despôs.

Fiquem-se com Dés.

13 novembro 2006

A pé, désna de Portimão a Monchique

Ponte do Vau - Portimão

Abalí de Vila Nova ô amanh'cer, inda lusco-fusco, q'ondo chiguí à Ladêra do Vau, já ele chovia.

Tal e qual c'm' l'es disse, enq'onto andí na fêra de Vila Nova, dé-me na cabeça d' ir a pé p'ra Monchique, p'a m'alembrar do tempo qu' a famila, quái toda, fazia isso p'ra baxo e p'ra cimba, q'ondo tinha míngua d' ir lá im baxo ô Algarve.

Aquilo foi uma risada lá na casa das amigas da minha Maria. Toda à nôte, até a gente ir dromir, levaram a fazer cachamôrra de mim, cudando qu' ê cá nã era homem p'a fazer tal coisa. Más a minha Maria, que já me conhêce bem, 'tava mê desconfiada qu' ê falava a sério.

- Olhe qu' isto, q'ondo ele mete uma coisa na cabeça, é má de l' a dar tirado. Ele até já anda p' aí a d'zer que vai a Santiago...

- Eh'q!... Q'ondo chega ali às Vendas, já ele nã pode com os tacõs das botas... - D'zia a Dores.

E a Alzirinha, a filha dela:

- Qual Vendas... Atã vocêas pensam qu' o homem, tampôco, chega a abalar?!... Isto é tudo conversa. Nã s' acraditem. Más a más qu' eles dã chuva p' à amanhã...

- Ai vomecêas pensam qu' ê dig' isto só p'r d'zer? Atã, logo se vê... Tenho ali uma capa de plástico qu' a Caxa me deu uma vez qu' ê lá fui alevantar p' a lá um d'nhêreco da pensão, aquilo tem capuz e tudo, que chova que nã chova lá vô...

- Ó parente, se ser caso disso, tamém l'e imprestamos ali um guarda-sol... - D'zia a Dores, inda mangar, mái já mê desconfiada, qu' ê cá, calhando, semp'e abalava a pé.

- Atã isso tem a gente ali. Que q'ondo se vai p'a fora, usa-se semp'e a trazer. Más é que nã me calha levar, que dá má jêto andar assim tant' ô tempo com aquilo nas mãs.

- E inda sã uns belos quilómetros daqui lá...

- Até chigar méme ô destino, sã vinte cinco.

- Tantos?!...

- Olá, olá... Já andí munto más do que isso... Olhe, no dia da inà'g'ração da barraja do Odiáxar', vim ê cá p'r aqueles córg's abaxo e voltí p'a casa ô fim da tarde. E sabe o que leví p'a c'mer tôd' ô dia? Um pedaço de pã às secas...

- Atã e, amanhã? Levas alguma coisinha p'a c'meres e b'beres p'r o caminho? - Diz a minha Maria, toda crusidôsa com-migo.

- Se levar, levo. Se nã levar, logo me g'verno im qualquer banda, numa venda dessas aí da estrada. Qu' eles, hoje, im tôd' ô lado têm uns peros ó umas bananas à venda e fritam um pedaço de carne magra p'a se c'mer com pão. E água, é só comprar uma garrafinha, q'ondo me dar sede.

E assim foi. No ôtro dia, bem de manhãzinha, indo tudo dromia, alevantí-me sem fazer barulho, dí de vaia à minha Maria p'a ela saber qu' ê tinha abalado, e lá fui...

O que nã gostí assim munto foi até passar do casarío de Vila Nova. É que, méme àquela hora, já andava famila e carros na rua e um f'lano, p'a atravessar as ruas tem de ter munto cudadinho qu' eles, em tendo o sinal verde, nã olham a nada...

Quái uma hora despôs d' abalar, q'ondo chiguí à Ladêra do Vau, cudava que já dava visto o bico da Fóia e da Picota. Qual o quém!... Com o tempo embrulhado c'm' 'tava, mal via a ponte. E, nã tardô nada, desato a sintir uns pingos de chuva, e eram bem gróss's. E inda 'tava a 20 Km de casa...

Digo p'ra mim:

- Olha seja o que Dés quêra... Ela tanto molha d'scretos c'm' parvos, dêxa-me más é melhor vestir esta coisa de plástico qu' a Caxa me deu, que semp'e envita um coisinho...

Ponte do Vau - Portimão

Na Ladêra do Vau - já tinha andado mái ó men's uns 5 Km - desatô a chover. A Fóia e a Picota viste-las... 'Tavam tapadas de nuves.

- Mái nã foi preciso, que nesse entrementes, vejo uma m'lherzinha, que p' ali 'tava, abalar a fugir, toda encolhida, com as mãs na cabeça e antrar p' à casa dela. A m'lher - boa pessoa - ô méme tempo que f'chava a porta, vi-me ali naquela figura, arrulha p'r mim:

- Venha cá! Venha cá pr' aqui! Abrigue-se aqui im casa, um pôcachinho, qu' isto vem aí um tempo que vomecêa fica aí que nem um pinto...

Logo, pensí:

- A m'lher 'tá p' ali sòzinha, 'té me dá vergonha d' antrar nã vã p' aí pensar coisas...

Más ela brigô, ôtra vez:

- Avíe-se, homem... Olhe qu' ela 'tá a engrossar e mecêa molha-se todo... O mê marido era p'a ter ido agora a fazer ali um servicinho, mái c'm' vi' o tempo vir além tã escuro, dêxô-se ficar mái um coisinho de baxo de telha. E fez ele bem, senã panhava uma molhadura qu' era d' adregue nã se constipar p' aí.

Ora, assim, já f'quí mái sossegado e lá antrí p'ra casa. Era famila, béque-me, assim do mê estilo. Olhe, até pertaram com-migo p'a c'mer lá qualquer coisinha, qu' o homem inda 'tava a acabar de bober o café.

-Ó, mês belos amig's, munto l'agradêço, mái ê cá já c'mi, entes d' abalar, e agora nã me calha...

- Mái coma... Nem que seja aí só uma fatiínha ó um pique de carne de fresneco qu' inda se tem aqui, que se matô p' ali um p'rqueco esta semana... - D'zia a m'lherzinha.

- Dés l'e pague, mái nã pode ser. Olhe, é c'm' se t'vesse c'mido. Agradêç'-le na méma. Agora se m' arrenjasse aí um c'pinho d' água...

- Ó, alma de Dés, já podia ter dito!... Olhe, tome lá desta deste garrafão, qu' a gente trôxe, um dia destes, lá daquela fonte a caminho da Fóia. Qu' a aqui nã se bebe da da rede que nã se gosta. Aquilo sabe àqueles produtos qu' eles l'e põem, béque-me a l'xívia...

É que, nã vêem, escalfado vinha ê cá e só o que me calhava era bober água...

- Ai, munto bem me calhô... Mái agora tenho qu' ir andando. Vomecêas sã munto boas pessoas, mái isto o tempo já al'viô e ê quero é ver se chego ô mê destino. Dés l'e pague e até que calhe.

- Ai, homem, que vomecêa vai-se molhar. Olhe que vem aí mái uma ripada dela...

- Isto nã há-de ter dúv'da... E ê, tamém, tenho aqui uma coisa de plástico p'a vestir, se ser preciso. Fiquem-se com Dés.

Ora nã há-de ter dúv'da... Inda ê nã tinha passado bem p' ô lado de lá da ponte, já ela caía im forte ôtra vez...

Lá me pus a desenrolar o trapo de plástico que levava, mái atão, e o tempo que leví p'a dar vestido aquilo... Q'ondo pus o capuz na cachimóina, já o cabelo escorria. Mái lá fui andando p'a ver se m' abrigava debaxo da ôtra ponte lá daquela estrada nova que l'e chamam a via do infante.

Q'onto más ê andava, más ele chovia. A estrada tornô-se numa r'bêra. 'Tá bem qu' o plástico semp'e envitava um coisinho, mái atão e dos joelhos p'ra baxo?!... Punhana, qu' as calças até escorriam... E pesavam que par'cia chumbo.

Até que lá chiguí e p' ali m'encostí da melhor manêra que dí. E foi esperar um belo pôco até qu' ele descarregasse. Mái nã cudem qu' fui só ê cá que me vi ali em traquetes com tal garrão...

Nã tardando nada, vinham uns môç's numas motas de quat' rodas, t'veram qu' aparar ali ô pé de mim. E até uns, com uns jipes, fazeram o mémo.

Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão

Ôtros, méme com vias, tamém t'veram qu' aparar ali ô pé de mim, qu' a chuva vêo de ramotão e era uma coisa p'r demás...

Aquilo, até do viaduto ele caía uns tôrnos d' água qu' era um d'sparate. Só q'ondo p' ali par'cé' uma amostra d' arco-da-velha é qu' ela abrandô.

- Atã, adonde é que vã p'r aí, com um tempo destes? - Prècuro ê cá ôs das motas.

- É uma corrida tôd' ô terreno ali p'as bandas da serra...

- Lá p' à Fóia ó p' à Picota?

Encolhêram os ombros, nã me saberam dexplicar.

- Com esta chuva tôda, nã ficarã p'a lá atolados? Olhem qu' os caminhos 'tã tôd's chês de pôças e é d' adregue nã se verem p' aí empeçados...

E lá abalaram, atrás dos jipes, tã penas ele descampô e o tal arco-da-velha se prantô p'r cimba dumas canas, lá adiente, méme adonde passa a r'bêra de Boina. Des qu' o arco-da-velha é sinal de fim da chuva e, verdade se diga, até que bate certo.

Os antigos tamém d'ziam que, no sito adonde ele toca no chão, 'tá uma panela, chêa de moedas d' oiro, enterrada. Mái, p' à incontrar, é precido ir atrás dele até chigar esse ponto.

Pôs ê cá, uma ocasião, em moço-pequeno, exp'rimentí e nã me servi de nada. Atã o raça do arco-da-velha, tã penas ê dava um passo ó dôs p' à frente, assim ele se ch'gava p'a lá... Fui andando, fui andando, e ele semp'e a fugir de mim. A uma dada altura, pensí:

- Mái atã, o ladrão parêce que 'tá vivo... Dêxa-me lá voltar p'a trás a ver o qu' é qu' ele faz...

E nã é o qu' o belhardêro tamém se pôs a andar atrás de mim...

- 'Péra aí qu' ê já te digo... - Pensí cá p'ra mim.

Ê cá 'tava numa ponta dum cantêro de canôiras de milho, munto comprido, e ele na ôtra ponta, já numas jastras que p' lá 'tavam, logo a seguir ô rego do tãinque da rebêra, qu' até tinha uma canha p' à água passar, de lá p'ra cá, p'r cima duma clarabóia dum minôco que fazeram, logo no fim desse cantêro, mái nunca descobriram água nenhuma.

Dô a volta p'r trás do cantêro, descondido à rés do v'lado, vô-me, devagarinho, sem fazer barulho, a ver s' o panhava lá adonde ele 'tava. Fui, fui, fui..., em chigando lá, entes de m' amostrar, inda assomí só um olho méme à quina do v'lado, com munto jêtinho p'a ver s' ele inda 'tava lá.

Era o 'tavas... Já se tinha escapulido lá p'ra diante p'a trás das sobrêras, que mal l'e via a ponta a luzir p'r cimba da ramaja. Nã l'es cpnto o que me vê logo assim à boca, d' inzàinado que f'quí, que me dá vergonha, mái ch'mí-l'e nomes e uns belos nomes...

E, com isto tudo, já me desquecia de l'es contar que peguí na minha trôxa e lá fui andando caminho da serra, qu' inda 'tava bem longe de casa.

Nem um quilómetro and'i, já 'tava a ver o resultado da enverna. Era rombadas naquelas barrêras e pedras p' aquelas valetas que dava dó. Tamém, s' inda eles nã arredondaram as obras d' arranjo da estrada e já aquilo se 'tá a dar, o que fará daqui a um ano ó dôs...

Mái o que me mái dé pàxão foi uns cavalinhos que 'tavam ali na pastaja e umas carôchecas qu' andavam a governar a vida ali no mê da estrada e alancaram com aquela àguaria toda im cimba da lombêra...

E, a seguir, dô com esta morada de casas já com o telhado e parte das paredes de taipa caídos no chão. Olhem qu' ê inda conheci munto bem morar ali famila...

Carrossel Oito - SilvesEstrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão Estrada de Monchique - Portimão

Na minha viaja a pé, vi coisas bonitas e ôtras que me deram pàxão.

E lá fui andando no mê passo, que já nã tenho canôiras p'a grandes despachos e, inda menes, de ladêra acima, c'm' s' ia dar tã penas passasse da partilha do concelho p'ra lá.

Quái sem dar p'r ela, dêxí o Porto de Lagos p'a trás e ch'guí ô fim da recta do Rasmalho. Aí, senti um b'chinho a rabear aqui na barriga, até me pus a falar sòzinho:

- Nã ôves, atã tu tens alguma precisão d' ir aqui chê de larica e com o farnel na als'bêra?!...

Sim, qu' a minha Maria, mémo ê nã l'e pedindo, tinha-me arrenjado uma buchinha p' ô caminho e pô-se-a im cimba da menza de cabecêra. De manhã, à abalada, foi só gôrdá-la na als'bêra e abalar.

De manêras que, p'a arrenjar fortidão p' ô resto da viaja, na pr'mêra paraja da carrêra qu' incontrí, assentí-me, joguí-me ô farnel e c'mí-o todo duma assentada. 'Tava lá bem assentado, nã me chovia im cima nem vento nem nada, foi uma beleza...

De lá até à partilha do concelho era um pulinho e ê logo l'es c'm' é que foi o resto.

Tenham tôd's munta saúde.