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15 novembro 2007

A Via Algarviana

A Via Algarviana
A Via Algarviana é uma v'reda désna d' Alcôtim até ô Cabo se S. V'cente...

Ê nã l'es disse, ontordia, qu' eles têm p' aí 'tado a fazer um caminho, p'r essas serras fora, désna d' Alcôtim até ô Cabo de S. V'cente?!... Atão, se nã acraditaram, aqui têm o mapa p'r donde ele vai passar e tudo.

Nã liguem é munto ali àquele traço a verde que fui ê cá que fiz p'r cima do ôtro, p'a se ver melhor, e, coisas fêtas à mão, inda p'r cima p'r quem nã conhêce, já se sabe que nã ficam lá grande coisa.

Mái lá p'r verem um traço tã grósso, nã cudem qu' aquilo é alguma estrada assim larga c'm' à Via do Infante... Aquilo é uma v'reda e, vá lá, de q'ondo im vez, uma carrelêra ó ôtra que lá se calha a panhar no mê do mato.

Pôs nessa tal noite das Corridas Fotográficas - p'a l'e ch'marem corridas, p'r o jêto os pobrezinhos hã-de ter que andar a tirar os retratos a fugir... - a famila lá da Almargem puseram-se ali com uma máquina, béque-me de cinema, e vá d' apresentarem umas imajas e explicarem tudo munto bem explicadinho lá disso da Via Algarviana.

Ê cá, que nã 'tava à espera, e a minha Maria o mémo, f'cô-se imbasbacados que nem parvos a olhar p' àquilo. Mái, contentes. Aí, ela volta-se p'ra mim, toda pespeneta, logo a querer mandar:

A Via Algarviana
P' à gente nã se perder aí p'r esses charazes, vã enxamear aí a Serra com estas tab'letas...

- Quem havera de d'zer... uma coisa destas... Agora já nã tens precisão d' ires lá p'a tã desviado andar no Caminho de Santiago... S' ires andar neste, 'tás semp'e perto do monte.

- O qu' é que tu 'tás p' aí d'zendo, m'lher... Atã, Alcôtim é perto daqui?!...

- Comparado com Santiago...

- Mái é que qu' ê cá só fui a pé désna do Porto... e inda fica mái perto do qu' a Via Algarviana.

- Ai mái perto.... Era o que faltava...

- Atã, olha lá bem p' ô que 'tá além a d'zer... Nã vês?... Lê lá além ô canto de baxo a soma dos quilómetros tôd's que são...

- Trazentos e tal quilómetros?!... Nã pode ser!... Aquilo 'tá inganado...

- 'Tá inganado, 'tá... Atã, nã vês que 'tá...

- C'm' é que pode ser uma lonjura dessas, diz-me lá!...

- Atã nã ôves o qu' o homem 'tá a d'zer?... Aquilo é p'a andar a correr os cerros tôd's, p'r os caminhos d' ôtro tempo. Tem-se qu' arrodear p'r munto lado... Más a más qu' ele há barrancos e r'bêros que nã se dã atravessado senã im certos pontos. Mòrmente no enverno...

- Com uma lonjura dessas, já nã vô-me contigo, nã cudes... C'm' é qu' ê cá dava agu-ento a andar assim tanto, senhor?!... Im menes de nada, tinha os pés chêos de roeduras...

A Via Algarviana
Aqui 'tá a tabela com as lonjuras dos catorze dias que se leva a andar de sito em sito...

- Ó m'lher, aquilo é coisa p'a se fazer com tempo. Nã vês qu' eles falam im duas semanas...

- Méme assim... Nã, nã, nã... Cá a filha da minha mãe é que nã cai nessa...

- Mái vô-me ê cá... Dêxa que logo vês... Tã penas eles aibram isso, lá vô eu que nem uma fita!.... Assim eles me convindassem p' à inaguração, qu' ê par'cia logo lá....

- E s' uma pessoa se perde aí p'r esses charazes... Nunca mái chega a lado nenhum... E, atã, agora qu' ele há p'r 'í barrancos - c'm' o ôtro que diz - d' adonde já nem Dés se dá visto...

- Nã tenhas medo que méme que se passe p'r donde o diabo perdé a mãe - Dés me perdoe... - ninguém se perde... Eles põem lá sinás p'r toda a banda...

- Quales sinás?

-Nã vês aqueles além fêtos de madêra? E os ôtres pintados nas pedras?... A gente vai olhando p' àquilo e sabe-se semp'e o caminho...

A m'lher, aí, lá sossegô um coisinho. Arrenjô foi, logo, ôtras agarras...

- Mái, méme assim, c'm' é qu' ê cá dô andado p'r lá tant' ô tempo, cerro abaxo, cerro acima, com estes calos qu' ê tenho aqui na palma dos pés... E as dores que se me põem aqui nas cruzes em ê cá andando assim mái um coisinho de ladêra acima...

De manêras que, se nã arrenjar p' aí ôtra companha, lá tarê qu' ir sòzinho. Com a minha Maria é que nã l'e vejo muntos jêtos... Nã vejo, nã senhora. Ela, em pondo uma coisa na cabeça, é má de se l'a dar tirado...

1ª Corrida Fotográfica na Via Algarviana
Isto já foi retratos qu' eles tiraram na Via Algarviana...

De modes que, as coisas 'tão assim. A Almargem e uma mêa-dúiza de Câmaras cá do Algarve - mormente da Serra - fazeram-se sóiços e tã tôd's encrençados em levar a Via Algarviana p' à frente. E levam. Qu' isto em havendo d'nhêrinho, mê belo amigo... tudo se faz. E ele des que tamém par'ceram p' aí umas empresas a dar um a'xilozinho...

Vamos lá a ver, agora, de vomecêas quem é que s' afitura a pôr-se ô caminho e vir conhecer o Algarve cá da Serra... A pé. Ê dig'-l'es já que vô-me. Mái dia, menes dia, em aquilo 'tando im condiçõs, ponho a trôxa às costa e desalvoroprê adiante...

Querendem saber mái qualquer coisinha a respêto disto, acalquem aqui nos sites da Via Algarviana e da Almargem.

Passen tôd's munto bem.

12 novembro 2007

3ª Corrida Fotográfica de Monchique

3ª Corrida Fotográfica de Monchique
Os que ganharam 'tavam logo ali do lado d'rêto im jêto de serem bem vistos...

Uma tarde destas - já de noitinha, qu' isto agora os dias sã bem piquenalhos - 'tava ê cá munto descansadinho aqui im casa, sa senhora boa vida, já todo fêtinho p'a, mái logo, me rapimpar com o decomerzinho qu' a minha Maria 'tava fazendo e, despôs, calhando, vir até aqui ô comp'tador com as pantufas calçadas p'a nã m' arrefecerem os pés e, a seguir, m' ir dêtar com eles quentinhos, salta-me ela:

- Nã sê se já viste aí nisso - "isso" é c'm' ela chama ô mê comp'tador... - que, mái logo, aí das sês im diante, vã p' ali inagurar uns retratos na Galeria de S. Antóino... E têm p' a lá umas castanhas assadas e jiropiga.

- O quem?!... Atã... e só agora é que me dizes?...

- Cudava que tu já haveras de 'tar farto de saber... Nã há nada que nã me venhas d'zer que já viste aí nisso...

- Tal 'tá essa!... Vejo umas, ôtras não... Ó cudas qu' ê cá nã tenho mái nada que fazer que levar aqui assentado na frente disto, c'm' tu levas semp'e jogada a veres os romãinços todos da tel'visão?!...

- Pôs olha, quem me disse foi a c'mad'e C'stóida, inda agora, e, s' ela disse, é que lá sabe...3ª Corrida Fotográfica de Monchique

- Atã e agora?... Já ele passa das cinco, c'm' é qu' uma pessoa tem tempo p'a se despachar e chigar lá...

D'zer a verdade, gostava d' ir ver tudo o que lá 't'vesse, mái perder as castanhitas e a jiropiga é que me dava mái remórso...

- Dêxa lá, nã t' apequentes... Come ali qualquer coisinha, méme à pressa, que, nesse mê tempo, ê ponho-te a farpela toda p'a vestires e inda s' há-de chigar a tempo e horas... Q'ondo se voltar, logo se cêa.

- A tempo e horas... Só s' aquilo nã começar logo à hora qu' eles dizem...

- E nã sabes qu' eles nunca 'tã lá às horas marcadas?... Inda a gente se há-de fartar de esperar sabe-se lá o tempo...

- Calhava bem qu' isso fosse assim, mái nã taremos essa sorte... Ora se me t'vesses dito, com tempo, se nã 'taria e cá já pronto p'a abalar...

Mái, lá me dí p'r os conselhos da m'lher, c'mí p' ali uma côida de pão à pressa - f'cô-me tudo ingaiolado - com um conduto que já nem m' alembra, e fui-me vestir lá p' ô quarto da cama.

A marafada da minha Maria já 'tava despachada. Ê cá bem estranhí vê-la naquele estado q'ondo antrí im casa, mái cuidí qu' ela tinha ido à mercêria comprar fosse lá o que fosse e t'vesse chigado nã há nada de tempo...

Ora, ela já sabia daquilo tudo e, c'm' ê cá, só se nã puder dum todo, é que nã vô-me a estas coisas, a danada vesti-se logo a tempo e horas. E pintô os bêços e tudo... D' incarnado...

Bom. Mái dêxamos isso da mão...

Ô certo, ô certo, é que lá s' abalô, à rôpa toda, a ver se nã se chigava munto tarde, qu' é coisa qu' ê cá nã gosto de m' acontecer. Dá-me béque-me vergonha de chigar às coisas já mêo e a famila pôr-se tudo a olhar p'ra mim... o qu' é que mecêas querem...

E, olhem, até qu' a coisa nã corré assim munto mal. Chigô-se lá, já bem aí das sês e mêa p' ô lado das sete, 'tava bem munta famila - nada menes duma dúiza deles, contando com os dôtores e ingenhêros qu' iam apresentar aquilo, 'tá bom de ver... - mái, inda andava p'r lá tudo a bispar e, só dali a um belo pôco, é que desataram p'a lá com a lenga-lenga deles.

3ª Corrida Fotográfica de Monchique
Tã penas s' entrava, 'tavam logo uma preçanada de quadros com os retratos todos...

Más, olhe, ê gostí, ô bem fêto, daquilo e a minha Maria, atão, isso nã se fala... A Galeria de Sant' Antóino 'tava munto bem arrenjadinha, tinha as paredes chêazinhas de retratos e, cá na rua, inda 'tava um homenzinho a assar as tales castanhitas p' à gente se rapimpar com elas - e tamém com uns calcesinhos de jiropiga... - em aquilo acabando.

Verdade se diga, aquilo, as falas deles até que nã duraram assim munto tempo - o senhor Presidente béque-me tamém 'tava com um coisinho de pressa, qu' o homem havera de ter a cêa à espera - e, im menes de nada já tinham falado e intregado os prémos ôs que ganharam. Era assim uns papés que quái que davam ares ô mê diploma da quarta classe.

Qu' eles f'caram todos contentes, lá isso f'caram. P'r mái que nã fosse, com a gradessíss'ma salva de palmas que panhavam daquela famila toda... Qu' ele, agora, já se tinham ajuntado más uns q'ontos e, nã nos contí, mái já passava bem munto da tal dúiza que 'tavam ô prencipo..

Nã sê se já disse, calhando não, logo, inda pensí qu' aquilo era retratos duma corrida só. Mái, ô fim de contas, era más era de duas. Uma era a 3ª Corrida Fotográfica de Monchique e a ôtra era a 1ª Corrida Fotográfica na Via Algarviana.

E aí é qu' ê cá tive uma gradessíss'ma supresa... Quem m' havera de d'zer qu' eles 'tavam já a fazer aí um caminho désna duma ponta do Algarve até à ôtra - mái cá por a Serra, nã cudem... - p' à gente dar andado nem mái nem menes que duas semanas d' infiada sem ir a casa, senhor?!...

Pôs, fiquem certos que 'tão. E aquilo, p'r o jêto, já vai bem adiantado...

Mái, desse caso, logo l'es falo ôtro dia, em tendo jêto.

3ª Corrida Fotográfica de Monchique
Ele havia retratos p'r aquela casa toda, tanto se faz no piso de baxo c'm' nos altos...

Agora vejam lá se nã vã à Galeria de Santo Antóino ver aquilo tudo munto bem visto. 'Tá lá até 14 de Dezembro, das 14h00 às 18h00. Só ôs dias de semana... qu' ô Sáb'do e D'mingo, é p'a descanso.

É que cá im Monchique, c'm' no resto de Portugal, isto da cultura - museus, exposiçõs e coisas assim - é só p'a quem nã tenha nada que fazer. Os trabalhadores, esses mariolas... que s' advirtam p'r donde quêram... Ó atão, vâ à exposição, mái tirando um dia de trabalho p'r conta deles. Ninguém os proíve...

Já agora, nã l'es fazendo munto d'frença, vã-se entretendo com mái três ó quatro retratos. Acalquem aqui na Galeria da Corrida Fotográfica de Monchique.

E tenham munta saúde.

16 dezembro 2006

De Monchique a Vila Nova já é um coisinho mái desviado...

Marco da estrada Os marcos antigos arrencaram-nos tôd's. E os que nã estrapuseram, deram-l'e uma marranada e fazeram-nos em cacos...

Alembram-se daquela vez qu' ê vinhe à pata de Vila Nova p'ra cá e f'quí descorçoado p'r mode ver os marcos da estrada quái tôd's arrencados e, parte deles, aventujados às barrêras abaxo? Pôs, um destes dias - foi no D'mingo... pôs foi. - pedi ô Zé Manel s' ele nã s' emportava de me levar, no carrinho dele, a ver c'm' é qu' eles tinham fêto o resto do serviço.

'Tá bom de ver qu' o moço se pront'f'cô, da melhor vontade, e disse logo ô pai, inda na minha frente, p'a ir tamém com a gente. Ora o mê compad' Jôquim do Barranco não é homem p'a ronciar a acompanhar com os amig's e nem tampôco pastanejô.

- Vamos sim. Vamos os três 'í prê abaxo. E calhava nã se demorar munto a abalar qu' as tardes sã curtas, isto, o sol põe-se logo sem se dar p'r isso, e desata logo a fazer um frio marafado.

Salta logo a c'madre C'stóida, que 'tava p' ali, no alpendre, agachada a escolher umas batatas, parte delas chêas de traquinoso e ôtras com uns arrebentos quái de palmo, que só o Trombão - o pórco deles - é qu' as dará c'mido...

- Atã e ê cá e a c'mad' Maria?... Fica-se im casa?!... Que conversa é essa, home, a gente tamém se gosta do laré, nã sã só vocêas...

- Ó 'nha mãe, vomecês vã tamém com a gente todas duas. Ê nã nas dêxava im terra. Vá-se lá preparar qu' é p'à gente abalar já, qu' ê cá, à noitinha, tenho más que fazer...

Disse logo o Zé Manel p' à mãe, munto l'gêro, com aquele jêto dele munto safo, já a fazer conta de 'tar livre à nôte, calhando, p'a ir arrojar a asa à Cilinha ó a ôtra qu' ele tenha debaxo d' olho.

O qu' é que mecêas querem, isto agora 'tá assim... Já nã se pode fazer nada qu' elas nã tenham qu' andar semp' im cimba dum homem.

S' uma pessoa quer ir b'ber um calcesinho à venda, elas tamém vã bober café. S' é p'a se jogar um coisinho à carta, ôs três setes, elas assentam-se na ôt'a mesa e fazem renda e "corte e c'stura". S' um homem quer ir ô balho dos bombêros, elas 'tã logo fêtas p'a ir tamém. E p'r 'í adiente...

Isto sã coisas do vinte cinco d' Abril... Ah isso são.

Bom, mái p'a encurtar de r'zõs, ê abalí à rôpa toda e fui d'zer p' à minha Maria se despachar. Isto, s'ela qu'sesse ir - ora nã havera de qu'rer... Nã se fosse dar o caso deles inda terem que 'tar à nossa espera e o Zé Manel l'e par'cer mal. E, a cabo dum pôco, lá se foi caminho da estrada de Vila Nova.

Pus-me d' olho à esprêta p'r a j'nela do carro e o mái ingraçado é que desatí logo a ver fartura de marcos, já munto bem atanchadinhos ô lado da estrada, qu' até f'quí c'm' parvo... Contí um, dôs... dez... vinte...

- Tó diébe! Mái atã os homes fazeram a parte deles bem fêta... Ê cudando que já nã nos punham no lugar e, ô fim de contas, im menes dum farol, 'tava lá tudo ôtra vez. Com esta é qu' ê me charinguí, que falí entes de tempo...

Marcos da estradaMarcos da estrada Estes marcos nã sã c'm' os ôtr's. O mat'rial é cimento im lugar de pedra e pintaram-nos de preto im vez d' azul.

Pensí ê, cá p'ra mim, e, logo, nã disse nada ôs mês camaradas de viaja. Mái, pus-me a matinar e aquilo, béque-me, nã me casava cá munto bem na minha cachimóina. Até que repàirí numa coisa, já se tinha passado do Gilbordal p'ra baxo. 'Tavam pintados d' ôtra cor...

- Ó Zé Manel, vai lá 'í um coisinho mái devagar p'a ver uma coisa, fazendo favor...

O moço antrô numa curva, féze-a e assim aparô, logo mái pralàzinho, adonde l'e dé mái jêto.

- Atã, inda mal s' abalô, já quer p' aí verter águas, compad' Refóias?

Salta o mê compad' Jôquim, ô meme tempo qu' já tinha abrido a porta e env'r'dado atrás de mim p' à berma do lado de baxo.

- Nã senhora... Ê vô-me é aqui ver que raça de marcos sã estes qu' eles puseram agora aqui, qu', em vez da azus c'm' eles eram, 'tão pretos que nem carôchos. Nã vê? Olhe lá p'ra isto...

- Mái atão, isto, nã sã os mémos qu' aqui 'tavam... Nã vê qu' eles sã de cimento pintado de preto e os ôt'rs eram azules e fêtos de pedra trabalhada a pontêro e maceta?...

Marcos da estrada

- Ai os filhos duma magana!...

- Calhando, a pedra já 'tava podrida, a se desfazer...

- Podrida?!... Podridos 'tamos a gente tôd's com estes mariolas que gastam o d'nhêrinho todo com coisas que nã era preciso...

- Dêxe lá isso c'pad' Refóias, estes sã nôv's semp'e sã mái v'stôsos...

- Qual o quem!... Ó mê belo amigo e compadre, isto fêto de cimento tem alguma aira?!... Más a más qu' os qu' eles tiraram 'tavam aqui désna qu' a estrada foi fêta, já no tempo dos nossos avózes e eram munto mái bonitos. Cá p'a mê gosto...

- Lá nisso, nã no posso contradiar... Tem toda a r'zão.

- E faça-l' as contas. Até Vila Nova sã, mái ó menes, vinte cinco dos grandes e uns duzentos e tal dos pequenos - sim, um grande e nove pequenos p'r cada quilómatro, dá isso, mái coisa, menes coisa. Ora, q'onto é qu' isso custa, diga-me lá...

O mê compad' Jôquim do Barranco, que tem pôca queda p' às contas, pôs-se a acossar na cabeça, com ela de lado e um olho pisco, a fazer uns miécos assim c'm' quem 'tá a fazer contas de murtiplicar de dôs núm'res ó más, volta-se ôtra vez p'ra mim e diz, compassadamente, com ar de quem já chigô ô resultado:

- Olhe qu' há-de ter custado p'ra cima dum d'nhêrão... Ah, isso custô...

- Ê tamém nã sê fazer essas contas de cabeça, mái nã custaram nada pôco, nã senhora....

- Atã, a gente bem que podia pedir ali ô mê Zé Manel, qu' ele tem um telemóvem que faz quái tudo. Olhe, fala-se p' ôs ôtros, escreve-se ali e as letras, despôs, parêcem lá no da ôtra famila, tira retratos e nã tem precisão d' os ir mandar revelar... e faz contas e uns jôg's de bonècada e tudo...

'Tava-se a gente munto bem nesta conversa, o Zé Manel, farto já de esperar, abaxa o vrido e arrulha de lá de drento:

- Fica-se aqui o resto da tarde, ó quem?!...

- Vai-se já, vai-se já. Nã se demora nada...

Só tive tempo de tirar p' ali dôs ó três retratos e vá p' ô banco de trás, p' ô pé das m'lheres. Sim qu' o c'pad' Jôquim, esse, ia à frente, todo rapimpado, ô lado do filho. E, béque-me, assim todo inchado, munto senhor do sê papel...

- E nã se desqueçam de pôr os cintos...

- Vá lá a gente nã os pôr e inda se tem que pagar pr' aí alguma murta...E des qu' eles, agora, nã perdoiam nenhuma. E grandes qu' elas são...

- Inda, nã sê q'ondo, o Tóino Pingueta ia na Zundap dele, levava o capacete pindurado no braço, panharam-no ali ô Pé da Cruz, qu' ele vinha do Alferce, foi méme à medida...

- Des que sim...

- Nã sê s' ele me disse que teve que pagar p'ra cimba duns cem eros...

- Pôs, atão ele, tamém, inda p'r más, nã levava as luzes acesas e aquilo já era de noitinho...

- C'm' é qu' ele havera de levar s' elas 'tã todas variadas...

Nisto, o Zé Manel apara ôtra vez o carro. Já se tinha passado do Barracão bem p'ra baxo e, com a conversa, nem dí p'r nada. Aí foi ele que lombrigô ôtra coisa que tinha que ver. Atancharam um marco dos nôvos e desqueceram-se d' arrencar o velho que 'tava logo mái prebaxinho...

Marcos da estrada Fiand'-se uma pessoa nos marcos da estrada, Vila Nova jã fica um coisinho mái desviado. É coisa p'a se ter de dar umas quinze passadas a más, pert' ó certo...

- Esta é que 'tá boa... Agora qual é o que vale? Sará o velho, sará o novo...

- Atã, isso sabe-se qu' é o novo... Senã p'ra qu' é qu' o tinha atanchado aqui?...

- Atã assim, a estrada esticô e já se tem d' andar mái umas quinze ó vinte passadas até Vila Nova... Já se 'tá mái desviados do Algarve e nã se era sabedores de tal coisa...

- Olha lá s' ê cá nã t'vesse fêto a minha viaja a pé entes deles pôrem os marcos aqui... Lá me saía mái comprida. E ê que, méme assim, custí a dar chigado a casa... o que faria com esta lonjura a más...

Foi uma barrigada de rir.

O qu' é que mecêas querem, p'a certa famila c'm' à gente, tudo serve p'a fazer pagode... Mái, lá p'r isso nã digam p' aí que somos parvos. Isto é méme de narcença... E q'ondo qu'rerem s' advertir, apròchêguem-se cá p' ô pé da gente.

E p' ali se levô uns com os ôtr's, cada qual a d'zer as sês d'chotes - parvoêras, 'tá bom de ver - mái tudo sast'fêto, inq'onto o sol já se 'tava a qu'rer desconder p' trás do cerro da banda de lá da r'bêra. Num derrepente, digo:

- Olha lá, Zé Manel, atã e s' a gente se fosse ali à do Màss'mino c'mer um coisinho de presunto e b'ber-l'e um sôlvinho?... Quem diz ô Màss'mino, diz ô Cinzas ó ô Recanto. É ô que tu qu'reres.

Diz logo o C'pad' Jôquim, que se péla p'r coisas dessas:

- Ah, que conversa mái bonita... Já, inda agora, ê cá me tinha alembrado disso. Só nã disse nada que pensí qu' inda qu'sessem ir mái p'ra diante.

- Maria, trazeste a tu pataquinha? As m'lheres, hoje, é que pagam... Nã é assim, compadre?

- Tal e qual... Hoje é a C'madre Maria e minha C'stóida que pagam a mêas. Vá C'stóida, puxa lá aí da nota, qu' uma vez tamém há-des pagar... Adonde é que trôveste o d'nhêro, na pataca ó enrolado no lenço, c'm' tu usas a fazer, com um nòzinho na ponta?...

- A gente nã se vem aprecatadas p'ra isso, qu', entes d' abalar, ninguém disse que s' ia ô café nem a sito nenhum desses...

Diz a C'mad' C'stóida, munto deç'dida. E a minha Maria, já no gozo, qu' elas sã as duas mái agarradas que sê cá o quém:

- Pôs é isso mémo, c'madre... Tanto qu' a gente gostava de pagar, mái atã ninguém avisô p'a se trazer a mala. Olhe, fica pr' à ôtra...

E assim foi. Voltô-se p' a trás, c'memos e bobemos e ê sê munto bem quem é que pagô... E nã 'tô repeso, que fui ê cá que desafií, tanto p' ô passêo c'm' p' à bucha.

E nã l'es conto mái nada que mecêas já hã-de 'tar desastinados com tanto palêo.

Marcos da estradaMarcos da estrada Nã me venham cá d'zer qu' os antigos nã eram mái jêtôsos. E melhores...

Passem muntíss'mo de bem e q'ondo virem cá, logo exp'r'mentam a ir a um desses sitos à rés da estrada, tanto faz no Barracão c'm' nôtra banda, e comam-l'e uns coisinhos de presunto do nosso ó uma assadura ó coisa assim, e logo me dizem se f'caram bem tratados...

Até um dia destes.

22 novembro 2006

O resto da viaja

Caldas de Monchique

No miradoiro do Água da Sola é que vi bem. Méme assim, o qu' ê nã tinha já andado...

A carrêra lá se foi e ê cá, p'a me desquecer dela, encostí-me ali ô v'lado do miradoiro do Àgua da Sola e desatí a olhar lá p'ra baxo p' ô Algarve, d' adonde tinha abalado há mái de quatro ó cinco horas. E dô com-migo a matinar:

- Tó, raio!... Olha bem a serraria que já atravessaste désna de Vila Nova até aqui... Mal empregado nã 'tar aí um dia melhorzinho, que semp'e vias o casario e a água do mar, azulinha qu' era um consolo, a luzir com o sol...

Mái atã, aquilo, fazia um escuro qu' os retratos nã f'cavam nada de jêto... Se panhava as casas das Caldas, nã panhava o resto até Vila Nova. Se panhava o resto, nã panhava as Caldas. Olha que esta, hã!...

Abalí fui-me imbora, caminho de casa, qu' aquilo era coisa p'a levar inda mái uma hora, perto ó certo, até ô fim da viaja. E, só aqui pr' à gente, ê 'tava de'jando disso, qu' as pernas já davam sinal e as botas, béque-me, cada vez pesavam más, nã sê perquém. Calhando p'r mode a chuva que tinham panhado...

E foi aí qu' ê cá desatí à prègunta a ver se dava com algum marco da estrada, p'a saber a que lonjura inda 'tava de casa. Mái, qual o quém. Atã e ele par'cia algum?... Vejam bem o que se deu.

Uns que têm andado p' aí a arrenjar a estrada, arrencaram os marcos tôd's - nã sê bem se tôd's se quái tôd's, más ê cá, lá adonde prècurí, nã dí com nenhum no lugar - e jogaram-nos p'r essas barrêras abaxo. E quem diz marcos, diz sinás. E, em lugar disso, agora, têm andado a pôr p' ali umas chapas de lata...

Pôs olhe, ê cá nã digo qu' as chapas nã façam jêto, mái mês belos marcos de pedra, muntos fêtos à mão, com uma maceta e um pontêro, p'r artistas daquele tempo, inda ê nã era narcido... E vejam bem como eles duram, qu' inda cá 'tão, quái c'm' nôv's, que nunca mái s' estragam. E, agora, jogam-nos fora...

Marcos da Estrada de Monchique Marcos da Estrada de Monchique Marcos da Estrada de Monchique Estrada de Monchique

'Té fico em pele de galinha de ver os marcos tôd's jogados aí p'r essas barrêras abaxo...

Ê, tamém, nã sê se 'tô a ser um coisinho má-língua, qu' eles inda os podem ir b'scar e pôr ôtra vez no lugar, mái, p'lo 'tô a ver, ach'-l'e pôco jêto disso. E vomecêas, fiam-se qu' eles inda os vã apr'vêtar? É que, só d' os ver assim jogados, dá-me cá uns fernicoques qu' até fico em pele de galinha...

Mái, vá lá, qu' inda dí com um, com as letras que m' ent'ressavam voltadas p' ô ar, e lá f'quí sabendo qu' o resto do caminho já nã chigava a uma légua. Béque-me, até me vê' assim uma alegria ôs olhos e, méme sòzinho, fiz ares de rir e falí p'ra mim:

- Olha, desta 'tás quái safo... Agora, munto mal corressem as coisas p'a nã dares chigado a casa...

E, ramordendo nisto, 'té quái que me vêo um chêrinho ô jantar de milhos qu' a minha Maria, calhando, havera de 'tar a fazer p'a q'ond' ê chigasse... Nã foi coisa qu' ela nã m' aprometesse, na béspra à nôte, ô dêtar, lá na casa das amigas dela. E vá de me narcer água na boca... Tamém, com a laberca qu' ê já levava, sê cá o qu' é que nã me sabia bem, se panhasse...

De manêras que, 'tava ali, 'tava na Nave. Mái, inda entes, logo preciminho do Gilbordal, ia, munto descansado, a sobiar uma moda das antigas, qu' a malta nova usava a cantar e a balhar assim em jêto de fandango, ch'mada " o Manel Abradas e o Manel Abreu" - nã l'es posso é d'zer os versos, qu' eles nã tem nada de mal, más sã, assim, um coisinho p' ô malcriado - q'ondo oiço um sobiado q'ôdrado e um arrulho c'm' quem 'tava a bradar p'r mim.

Volt'-me p'a trás, o Manel Cachimbo. Dig' p'ra mim:

- Olha, o que m' havera de sair na rifa...

- Ó Refóias, 'pera aí!... Atã já nã ligas ôs amig's?...

- Agora é qu' ê 'tô bem aviado... - Ramordí, assim, baxinho, p'a ele nã ôvir.

E lá vê ele, de passo aberto, béque-me quái a marchar, c'm' nos tempos que se 'tava os dôs na tropa, im Tavira. Num foguete, 'tava em par de mim.

- Atã, passaste e nã me viste ali na venda do Gilbordal?... Vinhas cego ó quém?

- Nã vês, ê tenho munto qu' andar a olhar p'a drento das vendas... E, olha lá, o qu' é que 'tás a fazer aqui p'a estas bandas logo a umas horas destas? A tu casa nã é àlém ô pé do convento?...

- Atã e o qu' é qu' isso tem?... Já hoje ê vinhe de Vila Nova...

- Nã me digas que tamém já fazes a praça...

- Nã... Fui aí com um amigo e despôs, na volta, ele aparô aqui, b'bé-se uns porretes e ê f'quí ali entretido um pôco.

Com esta conversa toda, q'ondo dí p'r mim 'tava-se na Nave, im par da pedrêra.

- Agora, 'pera aí um coisinho qu' ê tenho que tirar aqui uns dôs ó três retratos.

E tirí.

Pedreira da Nave - MonchiquePedreira da Nave - MonchiquePedreira da Nave - Monchique

A pedrêra da Nave dá-me que pensar. Quái que nã sê o que diga...

Naquele pôcachinho que 'tive a tirar os retratos e o Manel p' ali ramocava sòzinho, olhí bem p' àquele serviço e, verdade se diga, f'quí sem saber o que pensar. É qu' aquilo, ô méme tempo pode-se d'zer qu' é bom e qu' é ruim.

- Atã, nunca mái te despachas com os retratos?...

- Já 'tá, Manel. Nã t' apequentes, qu' isto agora é a gente env'redarprê adiente e, im menes de nada, 'tamos na Vila. S' a chuva apertar munto, amalham's-se aí num lado qualquer. Ê cá tenho aqui este plástico, 'tô semp'e safo, agora tu vás aí todo desc'rapuçado...

- Mái tenho aqui um chapé-de-chuva na als'bêra do casaco. Nã vês? É daqueles qu' encolhem. Comprí ali naqueles chineses q'ondo s' assobe p'ra cima, p' ô lado da Fóia.

- Atã, 'tás governado... Vamos más é andando.

E lá se foi. Más ele, inda assim, nã 'tava munto escorvado e dé-l'e p'a antrar com-migo.

- 'Tavas a olhar tanto ali p' à pedrêra, nã me digas que queres ir trabalhar p'ra lá?... Ganão c'm' tu és, inda nã t' há-de chigar a reforma que já arrecebes...

- Tem p' aí tento na língua e nã digas parvoêras. O qu' ê 'tava a olhar era ôtra coisa.

- Atã diz lá, qu' ê semp'e quero ver...

- Tu já repàiraste qu' eles vai p' ô lado duns cinquenta anos que brigam naquele cerro a tirar dali pedra?... 'Tá bem que nã tem sido semp'e d' enfiada, mái méme assim o que nã saí' já dali...

- Têm arrenjado ali munto d'nhêrinho, Refóias. Só qu' a gente t'vesse uma àmetade cada um já se 'tava bem...

- Atã e o que têm pr'sicado aí o imbiente?... Isso nã dizes tu...

- Qual imbiente nim imbiente... Isso é o que dizem uns qu' andam pr' aí, que sã engenhêros mái nã conhêcem nada disto.

- Atã e esta famila que mora aqui ô pé e tem levado este tempo todo a engolir pòzêra e a levar calhàzadas im cimba dos telhados?...

- Lá nisso dô-te r'zão. É c'm' o ôtro que diz, ê tamém nã me calhava nada morar aqui ô pé, lá isso não...

- E olha lá além do ôtr' lado da estrada, o trabalho qu' além vai. Até o córgo já mudô de sito...

Pôs, uma coisa l'es digo. Aquilo, 'té se me põe aqui um aperto de ver aquele trabalho. Já 'tá ali um buraco que s' alcança de bem longe. E fica fêo, lá isso fica. Mái atão e aquela famila que trabalha ali e tem precisão d' arreceber o d'nhêrinho, todas semanas, lá p' às suas necessidades deles...

- O melhor é a gente se dêxar disso e vamos más é b'ber um calcesinho ali àquela venda...

Diz o Manel Cachimbo, munto lampêro.

- Olá, era o que faltava... Hoje nã penses nisso, qu' ê cá nã bebo nada inq'onto nã chigar a casa. Lá p' à tarde... pode ser.

Com este lambarêo todo, foi-se semp'e andando, andando, q'ondo dí p'r mim, já se tinha passado à Mêa-Viana e parêce-me o Pé da Cruz na frente.

Monchique

Tã penas avistí a Vila, até se m' arrasaram os olhos d' água. Nã sê se foi p'r ver este lindo chalé no estado im que 'tá, se foi p'r 'tar quái a chigar a casa...

Pá da Cruz - Monchique

Os plátanos nã têm prosado nada bem, pertados que 'tão no mê das bombas da gasolina. Mòrmente os dum lado, sentiram-se munto...

Em se vendo dos plátanos p' ô lado de lá, o Manel, que 'tava im ferros que nã ia emborcar uma cervejalha, salta logo p'ra mim:

- Olha, Refóias, agora tenho qu' ir ali ô Grémo ver se compro uns pózes p'a dar lá num formigo que tenho lá numas bejoarias, se queres, anda daí com-migo.

Mintira, que nã era horas do Grémo 'tar aberto e ele qu' é munto crusidoso com as bejoarias ó seja lá com o que ser, que nunca tem nada de jêto...

- Ê cá, agora, daqui só p'ra casa...

Mái a mim até que me calhô bem, qu' ê cá, assim, despedi-me dele e fui d'rêto a casa o mái depressa que dí, derrengado c'm' 'tava, p'a ver se jogava umas chapadas d' água morna p' ô corpo, se c'mia o tal jantarinho de milhos com fêjão qu' a minha Maria m' aprometeu e semp'e fez e sossegar um coisinho, p'r mái que nã fosse, a sornar assentado num sòfá que 'tá p' aqui na casa de fora.

E assim acabí a minha viaja. Ficam tôd's convindados p'a tamém exp'rimentarem.

E inda l'es dig' ôtra. Nã tardando munto, assim Dés me dê vida e saúde, vô-me de Marmelete ô Alferce. Dêxem que logo veêm...

Passem tôd's munto bem e andem à pata que faz bem ô coração.

'Té um dia destes.

20 novembro 2006

Mái um pedaço de caminho

Monchique - Partilha do Concelho

Tã penas pus os olhos no marco da partilha do concelho, pensí: já tenho mê' caminho andado.

Ó ê 'tô munto atribuído ó atã já havia p' aí quem nã 't'vesse certo d' ê cá dar acabado a viaja a pé... Essa é que 'tava boa!... Ê cá dar parte de fraco?!... Nã senhora. Tã penas vi o marco da partilha do concelho, atã é qu' ê me joguí a andar à mecha toda...

'Tá bem qu' os caguetes já me 'tavam aqui a impertenecer, mòrmente, este que tem o joanete mái de fora, mái arrear é que nem pensar... E nã sê se foi p'r mode isso ó se não foi, vê-me à idéa:

- Olha, Refóias, uma àmetade do caminho já 'tá fêta. Ô concelho já chigaste. Agóra vê lá o que fazes... É bem verdade qu' a parte mái ruim é daqui p'ra diente, qu' isto, agora, é semp' a assubir, e a chuva béque-me tamém nã dá sinás d' alevantar. Más, isto nã há-de ter dúv'da...

Inda p'ra más, aparí logo um coisinho mái à frente p'r mode uma rabanhada de perdizes que p' ali 'tavam na bêrada da estrada e alevantaram-se todas ô méme tempo. Aquilo, batem as asas à rôpa toda, fazem assim um trrrrrru, qu' um homem, logo de chofre, até dá um estrameção e tem que estancar, méme descontravontade.

Más é uma coisa qu' ê me pélo p'r ver é aqueles b'chinhos... E as velhacas apoisaram logo mái prebaxinho, coisa duns q'ôrenta ó cinquenta passos, só p'a nã atravessarem a r'bêra p' à banda de lá. Inda l' apontí a mánica, mái os retratos nã deram panhado nada de jêto.

E só dali a um pôcachinho, é qu' ê deslindí qual a r'zão delas nã l'e calhar a ir lá p' ô ôt' lado. Foi só uma questã de dar mái umas passadas e devassar bem o trabalho qu' o vento tinha fêto p'r aquelas bandas.

Aquilo era só alv'redo partido p'r tôd' ô lado... Farrobêras, atão, que qualquer assopro l' e dêta as pernadas a baxo, foram a êto. E méme as acáiças nã l'e f'caram atrás. Até p'r a raiz ele as arrencô.

Mau tempo em Monchique Mau tempo em Monchique Mau tempo em Monchique Mau tempo em Monchique

Com a besaranha que já tinha fêto antes, era só arves partidas logo à rèzinha da estrada. O que faria, lá mái p'a longe...

Vá lá qu' ele, nesse mê tempo, fez uma abertazinha e ê apr'vêtí p'a abrir o passo, qu' aquilo ali inda nã era munto de ladêra acima. Mái nã foi arrencada que durasse munto tempo qu' mal ia chigando ô Vale de Boi, apara uma via em par de mim e oiço logo uma voz:

- Eh, Refóias, atã vás aí à pata, nã queres uma b'léa?

Dig' p'ra mim:

- Mái atã isto é a fala do ti Luís Agúida...

Olho p' ô lado e era verdade. Ali 'tava ele no sê mata-velhos de caxa aberta, com um tapigo de plástico p'r cimba, com a m'lher - a ti Felismina - assentada ô lado. Tinham ido fazer a praça e já 'tavam de volta.

- Isto é só de dôs lugares, mái vás méme ali atrás, qu' eles, com esta enverna, nã hã-de 'tar pr' aí e murtar a gente...

- Dés l'e pague, mái fica p'a ôtra ocasião. Nã l'e parêça mal, mái hoje tirí p'a fazer este caminho a pé.

- Ai, home, escolhêste um dia munto ruim p'a tal serviço. Anda más é daí com a gente, senã chegas a casa que nem um pinto. E bem aventujado...

E dé uma grande carcachada, quái a fazer porra de mim, qu' ele via-se ali no cómado do sê belo mata-velhos e era mái que certo que já trazia uma bagadinha na asa, qu' aquilo, q'ondo se vai fazer a praça, já se sabe o que se ...

- Eh'q, vá lá vomecêa andando qu' a gente logo s' incontra lá na Vila, mái-logo.

E nã fosse tamém o velho 'tar munto escarado e pregar com a gente duma barrancêra abaxo...

- Olha, p'a quem nã quer há munto... Até mái tarde.

Disse-m' ele, já béque-me a aç'larar aquilo.

Inda 'tive p'a l'e prècurar s' ele nã tinha visto p'r 'í o amigo Campaniço, qu' há tant' ô tempo que nã sê nada dele, mái c'm' homem 'tava assim p' ô lado do quentinho, dêxí-o ir à vida dele.

E lá abalô a aç'larar o mata-velhos duma tal manêra qu' aquilo até zunia... Nã sê perquém, descuidô-se, quái ô chigar à curva, pende p' ô mê da estrada, vem de lá um camião carregado de borregos dá-l'e um apitadelão, punhana!, o homem há-de ter panhado um cagáiço... vira o mata-velhos p' ô lado dele, aquilo foi p'r um nadinha que nã se dé ali uma desfortuna.

De manêras que, lá fui andando más um pôcachinho e toca a tirar mái uns retratinhos, acolhido ali debaxo dum alv'redo, p'a ver se furtava a mánica de panhar munta chuva im cima, qu' ê tinha medo nã fosse ela s' avariar, ó apr'vêtando alguma aberta que tamém vinha d' ora em q'onto.

Aquilo foi coisa de pôco tempo, logo com esta linda casa d' ôt's tempos qu' eles, agora, arrenjaram e l'e chamam o Parque da Mina. Aquilo tem p'a lá umas coisas, uns bichos, umas cabras... Olhe p'a l'e d'zer a verdade, nã sê bem qu' inda lá nã antrí. Só tenho visto p'r fora.

E mái preciminho, logo prebaxinho das Caldas, 'tá este jardim zológico, o Omega Parque, qu' há-de ser coisa bonita de se ver, mái tamém sô franco, tenho um empenho marafado em ir lá devassar aquilo e inda nã arrenjí jêto de dar lá ido.

Parque da Mina - MonchiqueOmega Parque - Monchique

Tanto faz o Parque da Mina c'm' o Omega Parque, tenho qu' ir lá agora em passando este enverno.

Dé-me assim que pensar este nome: Omega Parque. E, inq'onto assubia até às Caldas, puz-me a ramoer que jêto l'e ch'marem assim. Já quái que me saía fumo p'as orelhas de tanto puxar p'r a cabeça, desato a falar méme sòzinho:

- Atão, omega é a últ'ma letra do àbecedáiro grego. Aqui só 'tã bichos que têm os dias contados. Calhando é p'r mode isso.

E ele é capaz d' ê cá nã 'tar atribuído. Aquelas raças de bichos des que 'tão a caminho de s' acabarem e eles cudam deles ali a ver s' eles arrenjam criação de pequenalhos p' ôs soltarem otra vez no sito d' adonde estes vieram.

De manêras que, c'm' eles 'tã no fim, puseram-l'e o nome da letra do fim do àbecedáiro. 'Tá bem visto, sa senhora. Isto dig' ê cá, mái sê cá s' é assim ó não...

Pôs olhe, o que l'es 'tô de'jando é qu' em lugar de Omega passe a ser Alfa, a pr'mêra letra do tal àbecedáiro, p'a ser o prencípio d' haver, ôtra vez, muntos b'chalhos daqueles lá nos matos adonde eles vevem aí p'r esse mundo afora.

E q'ondo mal dí p'r mim, 'tava com mái uma ripada d' água nas orelhas, quái ô chigar às Caldas. Inda pensí ir p'r o encurtadoiro qu' ê cá usava passar, nalgum tempo, q'ondo era moço, e vinha da Nave panhar a carrêra nas Caldas, qu' assim apôpava uns dez destõs no b'lhete p'a Vila Nova.

Aquilo, méme sendo munto de ladêra acima, vai logo dar lá passando ô Água da Sola e, p'a quem 'teja com pressa até que s' apôpa ali um belo pôcachinho. Mái, pensí:

- Atã, com um garrão d' água desta manêra, nã sará melhor t' abrigares um pôco ali na paraja da carrêra e, despôs, logo l'e dás mái uma arrencada?..

Assim o pensí, assim o fiz. Num 'nstantinho, já ê lá 'tava acolhido debaxo, tirando mái uma mêa-dúiza de retratos. E olhem qu' as Caldas é um sito adonde dá bem p'a um f'lano incher o papinho seja ele a devassar aquelas lindas coisas seja l' a tirar retratos.

Caldas de Monchique

A capela das Caldas 'tá num sito méme bonito. À roda, tem arv'es e flores e, p'r trás, a r'bêra do lageado.

Caldas de Monchique Caldas de Monchique Caldas de Monchique Caldas de Monchique

Nã é um consolo olhar estas lindas vistas das Caldas de Monchique?

E inda bem qu' ê nã fui p'r o encurtadoiro. Senã, nã tinha visto mái uma vez as Caldas, arrodeando semp'e p'r a estrada até ô Barranco do Banho - agora l'e chamam R'bêra do Banho, qu' é mái fino... - e nem tampôco dava p'r a minha Maria passar na carrêra das onze.

Olhem, a marafada, consoante a carrêra passô p'r mim, lombrigô-me logo. E vá de fazer adés e ria-se que se derretia... Qu' ê cá bem na vi p'r o vrido da j'nela, méme embaciado qu' ele 'tava. 'Té o chòfer, qu' é moço conhecido, mái visto bem qual deles era, tocô o apito da camineta a se meter com-migo...

E ê cá ali prê acima a andar, já mê coxo duma perna, p'r mode uma borrefa que me 'tava a narcer no calcanhar... Num derrepente, inda quái que joguí um fiaço atrás da carrêra p'a l'e fazer paraja, mái voltí-me p'ra mim e disse logo, bem de rijo:

- Tem conta, Refóias... Atã que conversa é essa? Abalaste a pé, há-des chigar a pé a casa. Toca a andar qu' inda há munta ladêra p'a assubir...

E lá fui.

E c'm', desta vez, inda nã l'es dô contado o resto, fica p' amanhã ó despôs.

Fiquem-se com Dés.