08 novembro 2006

A Fêra de S. Martinho, em Vila Nova de Portimão

Feira de S. Martinho - Portimão

Os algarví's de Vila Nova há-dem 'tar com uma presunção... Têm fêra faz 344 anos.

Já nã é coisa que me dêa munta influén-inça, qu' as fêras agora pôca áira têm ó nenhuma, mái umas amigas, qu' a minha Maria tem p'ra lá, convindaram a gente se nã se qu'ria ir à fêra de Vila Nova e ela tanto pertô com-migo qu' ê lá me resolvi a abalar.

E, no fim de contas, até que f'quí contente de lá ir, que, só assim, dí visto o qu' os homens têm p'a lá, agora, no largo adonde fazem a fêra. Qu' aquilo 'tá tudo bem composto, lá isso 'tá. E, logo à porta, puseram a l'cença qu' o rê D. Afonso VI l'es passô p'a eles fazerem a fêra. Fazeram bem qu', assim, a guarda já nã precisa de l'es pedir os papés.

E tamém 'tá lá uma coisa nova, que, béque-me, parêce um armazém, assim sobre-comprido, todo tapado com latas, qu' ê nã dava alcançado que serventia é qu' aquilo tinha.

Mái prècurí a uma m'lherzinha, já mái velhota do qu' ê cá, que 'tava lá ô pé a assar castanhas, p'a qu' é qu' eles qu'riam aquilo e ela dexplicô-me da melhor vontade:

- 'Teja com Dés. Atã, que tal vai aí o negóiço da castanha, tem vendido muntas dúizas delas?

- Eh'q, isto 'tá ruim, menino. Nã se vende quái nada. Ele há muntos aí a assar nelas e a famila parêce que tem pôco d'nhêro ó nã sê...

- Pôs é... Tamém lá p' às minhas bandas, neste tempo, nã parêce ninguém a prècurar assim p'r umas bejoarias, uns peros, umas batatas... Nã se faz um destão im coisíss'ma nenhuma.

- E inda tem ôtra coisa. Parte delas vêm podres ó b'chosas e ê tenho qu' as pagar todas ô mémo preço. E, inda p'r cima, tenho o trabalho das escolher e jogar fora...

- Pôs é, o méme se dá com-migo q'ondo as batatas carregam de brab'leta. Tenho o trabalho todo das samear, tratar delas, acartá-las p'a casa, pôr-l'e os pózes e, despôs, jogar parte delas p' ô monturo. E o fadorum qu' aquilo dêtam q'ondo apodrêcem lá na pilha...

- Quentes e boas!... Olha a castanha assada! É do norte, é doce c'm' mel!... Vá freguês.

E, coitadalha, lá vendé um cartuchinho delas a um homenzinho qu' ali passô e nã se dé contido com o chêrinho que vinha de drento do assador.

- Atã, mái diga-me lá. P'a qu' é qu' eles fazeram esta coisa aqui, 'tã grande? Quái que dá ares a um avião sem asas... Nã me diga qu' é p' ôs fêrantes dromirem ali drento... Sará?

Pavilhão Multi-usos - Portimão

O qu' eles alomeam de pavilhão multi-usos, a mim, quái que m' alembra um avião sem asas...

- Ó mê belo amigo, os fêrantes se qu'serem dromir têm que trazer adonde se dêtar ó ir p' à pensão... Aquilo ali é um pavilhão multi-usos.

- Um pav'lhã quém?...

- É p'a fazerem ali tanta coisa qu' ê nem l'e sê d'zer tudo. Vã ali artistas cantar, vã ôtr's fazer ginástica, tamém podem fazer runiõs, dexposiçõs e coisas assim. 'Tá a comprender?

- 'Tô, sa senhora. Mái atã isto há-de ter custado p'a cima dum d'nhêrão... E p'r o jêto que l'e vejo, 'tá quái semp'e fechado. Ó 'tarê atribuído?

- Nã 'tá atribuído, nã senhora. Isto é só lá de q'ondo em vez é que serve e mái no v'rão que no enverno. Agora, na fêra, béque-me o abrem da quem nada, que têm p' ali uns carros e umas barrequinhas de bolos.

Nesse mê tempo, já a minha Maria me tinha fugido, qu' ê olhí tudo à roda e nã na via im banda nenhuma. Pensí:

- Adond' é qu' aquela m'lher se tará metido? Com um gentío destes c'm' é qu' ê, agora, a dô p' aí lombrigado...

Mái pus-me a ramoer só cá p'ra mim, dé-me uma c'm'chanita na cabeça, coçí, coçí, e vê-me logo uma idéa:

- Atã, adonde é qu' ela há-de 'tar?... É certo e sabido que só pode ser num lado. Adonde haja trapos, sapatos ó tranquitanas dos chineses...

Abalo à rôpa toda d' ô pé da m'lherzinha das castanhas, nim tampôco l'e comprí um cart'chinho delas nim nada, vô-me d'rêto ali a um sito adonde 'tava um mulherío qu' era uma coisa p'r demás, dô logo de frente com ela a mexer numas blusas.

- Ó Maria, atã fazes-me uma coisa destas... Abalas assim sem d'zer nada e ê fic' ali sem saber o que fazer?!..

- Ó homem, ê cá 'tava-te aqui a marcar, nã te dêxava ir imbora... E tamém nã tenhas medo qu' ê cá nã fujo...

- Mái tinhas-me dado uma vaiazinha p'a ê nã f'car em cudados...

Quái masturadas com essas blusas, 'tava uma preçanada d' ôtras rôpas, daquelas agora m'dernas p' às m'lheres vestirem p'r baxo. Nã l'es digo nada - mecêas já hã-de ter visto - aquilo, só dum homem olhar p'a lá, fica logo a l'e luzir o olho, q'onto más s' as visse no lugar...

Atão, nã têm quái nada p'a tapar as vergonhas, tanto faz de frente c'm' de trás... Aquilo é só uns fizinhos com uma rendinha e umas penujas que dêxa ver tudo... E da cor que se quêra...

- Maria, vê lá se compras p'r aí alguma coisa dessas, qu' isso era uma vergonha s' alguém sabesse...

Disse-l' ê cá, im segredo, ô ôvido.

- Ó homem, tem p' aí tento... Alguma vez ê cá usava umas coisas daquelas!... Aquil' é p' às moças novas d' agora, qu' os môç's, a nã ser assim, já nã s' ent'ressam p'r elas...

E lá se foi andando prê afora p'r aquelas barrecas todas, qu' a minha Maria nem p'r nada perdia de ver uma. Inda se comprô p'ra lá uns q'ontos sarengonhos, um coisinho de torrão d' alicante, qu' a minha Maria àguava se nã se jogasse a essas g'lusêras, e pôco más.

Pavilhão Multi-usos - Portimão Pavilhão Multi-usos - Portimão

O qu' a gente enfêrô pôco mái foi qu' umas farturas e um coisinho de torrão d' alicante...

Na ôtra banda, q'ondo ê era môç'-pequeno, usava a 'tar um carrossel ó dôs. Agora, 'tá uma chusma de bodegas qu' ê cá, nem qu' inda me pagassem p'r cima, ia andar lá. Aquilo há de todas as manêras e fêtios.

E nã sê c'm' é qu' a famila nã tem medo... Uns rodam p'a um lado e p'a ôtro, ôt's dã pinotes, aparam lá no alto de cabeça p'ra baxo, ê sê cá!... E barulho nã se fala... Vem um homem de lá que nã ôve quái nada.

Inda andí à pregunta, mái nã vi - e já faz muntos anos que nã vejo - foi do carrossel oito, qu' era uma coisa qu' ê, nôt's tempos, q'ondo ia à fêra com a minha mãe, l'e pedia semp'e p'a dar uma voltinha.

Mái um amigo bom, o Sr. Dr. Baeta Oliveira, de Silves, que tem o blog Local & Blogal, uma coisa do melhor que há em blogs, qu' ê 'tô semp'e a ir lá aprender coisas, mandô-me este retrato dum carrossel oito que foi à fêra de Silves. Vejam lá se nã é uma lindeza...

Carrossel Oito - Silves

Munto l' agradêço ô Sr. Dr. Baeta Oliveira, que m' imprestô este retrato do carrossel oito, p'a l'es amostrar aqui.

E assim corremos a fêra de Vila Nova toda, nã s' enfêrô quái nada, mái aquilo teve graça e ê cá dig'-l'es que gostí d' ir ô bem fêto, méme ela nã sendo já tã adv'rtida c'm' nôtr's tempos.

Q'ondo se vinha já chigando à porta da saída, o qu' é que m' havera de vir à cabeça. Os tempos qu' a famila abalava cá da serra a pé p'a ir às fêras quem diz a de Vila Nova diz a de Lagos, alomeada p'r fêra franca, e voltava-se p'a casa ôtra vez a pé. Quái semp'e no dia a seguir.

Nisto, dé-me um derrepente, volt'-me p' à minha Maria:

- Olha Maria, amanhã, vô-me a pé p'ra casa... 'Tive aqui a pensar numa coisa e é o qu' ê cá vô fazer. Queres ir com-migo?

A minha Maria olhô assim de lado p'a mim, logo, béque-me quái que nã ligô. C'm' quem diz que nã tinha ôvido bem. Ó nã quereria acraditar no qu' ôvia...

- Atã, vás ó nã vás? - Dig'-l'e com a voz assim já mái grossa.

- Ó homem, mái atã tu sabes bem o que 'tás a d'zer?... Tu inda t' alembras o que custa andar uma lonjura dessas a pé? E, más a más, na tua idade...

- Sê munto bem o que digo, sim. E vô-me.

- Nã 'tás bom da cabeça...

- Esta nôte drome-se ali à das tuas amigas, c'm' 'tá falado, e, amanhã ô amanhecer, logo p'a fresquinha, abalo caminho de casa aí p'a estrada adiente. Tu, já que nã te sentes com pernas p'a isso, vás na carrêra e fazes lá um dec'merzinho daqueles bons, qu' ê lá 'tô p'r esse mê-dia em diante, uma hora da tarde.

- Ai o qu' havera de dar neste homem... Atã nã vês qu' isto é uma lonjura parva?!... Tu nã aguentas. Q'ond' eras novo, 'tá bem, agora...

- Pronto, nã se fala mái no caso.

E até daqui um dia ó dôs, qu' ê logo l'es conto o que dé a seguir.

Passem munto bem.

06 novembro 2006

O Magusto de Marmelete

Magusto - Marmelete

Em Marmelete, fez-se um magusto que foi uma classe...

Dia de tôd's santos, é certo e sabido, há magusto im Marmelete e no Alferce. Vai daí, um homem tem que se resolver a qual é qu' há-de ir. C'm' ê cá já l'es tinha dito, sã os dôs no mémo dia, à méme hora...

Isto é um caso que tem que se l'e diga, qu' ê cá gosto munto tanto d' ir a um lado c'm' ô ôtro e nã quero que nenhuns cudem qu' ê me barimbí neles.

Isto dos dôs magustos serem no méme dia nã sê s' é bom se nã é. P'ra mim, nã é, qu' ê nã dô ido ôs dôs - e bem que gostava - c'm' alguns qu' apr'vêtam num lado e nôtro.

Más ê nã tenho nada que me meter nisso. Cada qual faz q'ondo munto bem intende e quem vai, vai, quem nã vai, nã vai, e nã se fala mái no caso.

De manêras que, peguí im mim e fui ô de Marmelete, que me 'tava um coisinho mái à mão, e nã f'quí repeso qu' ajuntô-se lá uma bela joldra d' amig's que foi uma festa. Uns que s' ia logo juntos e ôtr's que par'ceram despôs.

E ia quái tudo bem aviado com umas belas garrafinhas de bobida, désna de jiropiga, passando p'r água-pé, bagacêra, vinho e, o que nã podia méme faltar, umas garrafinhas de madronho, do bom, bem agraduado, nã sabendo a fumo e, munto men's, com má-gosto a cabeçada, c'm' alguns qu', em calhando, há p'r 'í à venda im certos sitos.

Sim, que castanhas nã havia míngua de levar, qu' a Junta tinha lá uma remessa delas que dava p'a incher a barriga a um q'ôrtel da tropa... Nã nas p'sí, mái ele havia p'r lá quem d'zesse qu' aquilo era coisa p'a mái de s'ssenta, setenta arrobas delas. Tudo p'ra más e nada p'ra menes.

Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete

P' ô magusto de Marmelete, ajuntô-se uma joldra d' amig's, tudo bem aprecatado de bobidas!...

Q'ondo lá chiguí, inda me vê' à idéa qu' o tempo, enfarruscado c'm' 'tava, saria d' adregue nã dêtar alguma g'tinha d' água que desse cabo da festa. É qu' olhí ô astro e, béque-me, vi umas nuves bem munto carregadas a virem caminho da gente. Assim, além do lado d' Al'zur, qu' é um tempo que, uma vez p'r ôtra, tamém usa a dêtar umas pinguinhas.

E nã m' inganí p'r munto, qu' aquilo, méme à hora de se c'm'çar, inda quái que quis m'ter medo à famila. Mái foram só uns pingos, grados é verdade que se diga, mái compassados, qu' uns inda abriram os chapés-de-chuva - má's as m'lheres qu' ôs homens, p'r mode as permanentes qu' elas tinham fêto na béspra - e ôtros nem a isso se deram ô trabalho.

De manêras que, assim foi toda a tarde. Ora vinha uns pingos, ora aparava. E o pessoal a tiçar fogo às carquechas e a assar castanhas, que nenhum s' ia imbora...

A assar é c'm' quem diz... P' ali pôco mái que chamusgá-las, qu' inda as tôiças 'tava im chama já muntos deles se jogavam a tirar castanhas, as más das vezes, ataloadas, qu' aquilo, p'a d'zer a verdade, quái que nã tinha jêto nenhum. Mái c'm' é festa, nada se leva a mal.

Quem lá nã foi havera de ver. Aquilo até que dava festa. Assim qu' o assador punha o forcado de lado - ó méme entes disso - jogavam-se tôd's a esgravatar na cinza e nos cravõs à prègunta das castanhitas - ataloadas qu' elas t'vessem - uns puxavam-as com um pàzinho, qu' elas 'tavam a escaldar, ôtr's méme com a ponta dos dedos - tinham era qu' os sacudir de q'ondo em vez - e nã havia o pr'mêro qu' as c'messe logo ali.

Qual o quém!... Inchiam era cartuchos com elas, copos, sacos-plástico e tudo o que t'vessem à mão, entes qu' os ôtr's as arrabanhassem todas e eles f'cassem a l'e fazer cruzes. Aquilo era à rabanhita, a ver quem mái panhava... Despôs, logo tinham tempo das c'mer, inq'onto ôtro amigo, ó amiga, se désse ô trabalho de fazer mái um magusto no mémo sito.

E, já com vagar, lá iam emborcando mái uns calcesinhos dela e pintand'-se uns ôs ôtr's, que, a pásnas tantas, nã havia quem nã t'vesse todo tisnado, fosse adonde fosse.

Até cá o Parente foi bem crismado p'r umas moças qu' andavam lá, já com a pêa partida, p'r mode os calcesinhos de jiropiga qu' uns amig's trazeram lá de cimba das bandas da Serra da Estrela e davam a quem s' apròchigasse cá p' ô nosso lado.

Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete

Assim c'm' se jogavam às castanhas, tamém se pintavam uns ôs ôtr's... E nã era só homens qu' assavam castanhas, nã senhora...

E munto mái havia p'a l'es falar do magusto de Marmelete, mái isto, e despôs, torna-se grande de más e atão nã há nada c'm' arredondar o conto e nã nos impertenecer, que vomecêas têm mái que fazer do que perder tempo com-migo.

Mái, já agora, inda l'es falo das f'lhozes. É que tamém havia lá quim fazesse nelas, e bem fêtas. E tamém num pórco assado num espeto qu' uns amig's lá tinham qu' até fazia correr água da boca.

O caso é qu' ê cá, e muntos má's, tinha-se ido c'mer ô "Petrol", ali no Cor' d' Val, e eles tinham p'a lá uma côve com papada de pórco, ossos da espinha, morcela de farinha e ôt'as coisas iguás ó melhores, e aquilo foi incher a barriga até mái não.

Ora quem é que dava c'mido inda pórco assado e f'lhós... Má's a má's, com aquela grandessíss'ma catrèfada de castanhas ali à d'scrição e bobida que tamém nã faltava a qualquer um...

Na barreca das f'lhozes, inda me desafiaram p'a c'mer uma, inq'onto ê tirava retratos:

- Atã, ti Refóias, nã compra aqui uma mêa-dúiza de f'lhozes p'a si e p' à su Maria?

- Ó parenta, nã vê qu' ê nã tenho barriga p'a tanto?!... Se vomecêa c'messe, vá lá, àmetade das castanhas qu' ê já c'mi, logo via c'm' é 'tava impanzinada... E a minha Maria 'tá na méma, nã cude.

- Eh'q! Iss' é desculpa p'a nã ter que puxar da nota...

- Que jêto?!... Ê nã nas dô é c'mido, 'teja certa, senã logo via. E, inda p'r cima, tinha que me pôr aí à espera uma bela mêa hora atrás desse pessoal todo, que vomecêas nã dã àgu-ento a despachar a famila...

- E semp'e quero ver s', e despôs, arrenja algum retrato desses p' à gente...

- Olhe, minhas belas amigas, esta mánica nã é de mandar fazer os retratos lá naquela casa im Monchique. Isto tira-se daqui um cartanito, infia-se no comp'tador e vê-se tudo lá qu' é um incanto.

- 'Tá-se méme a ver...Vocêa nã quer é dar o retratos à gente...

- Pode-se fiar im mim qu' ê 'tô-le a falar verdade. E exp'r'mente a ir à internet daqui a dôs ó três dias que logo vê s' elas nã 'tã lá...

- Ê sê cá o qu' é qu' é isso d0 internet!...

- Atã peça ô sê neto qu' ele logo l' amostra. Aquilo é uma coisa que nã custa nada. Qualquer meçalho de cinco ó sês anos sabe ir lá ver tudo.

E, tã penas dí, lá me raspí de lá, qu' ê nã dava conta delas. Punhana, aquilo eram umas quatro ó cinco tudo a me dar réplas. Via-me ali em traquêtes p'a nã m' envergonhar...

Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete Magusto - Marmelete

O magusto de Marmelete nã era só castanhas. Tamém havia f'lhozes e pórco assado...

E com respêto ô magusto de Marmelete, 'tamos conversados. Nã se perde mái tempo, qu' ê, tã penas arrenje tempo, tenho ô'ta boa p'a l'es contar. Fui a Vila Nova, à fêra de S. Martinho, e voltí a pé p'ra casa.

S' haver quem quêra devassar mái uma mêa-dúiza de retratos, acalque aqui e vá lá ô magusto de Marmelete, que 'tã p'r lá más alguns.

Fiquem-se em paz e cudado com as r'bêradas d' água qu', isto, o tempo tem andado um coisinho variado.

02 novembro 2006

Em dia de finados, sente-se soidades dos nossos

Crisântemos
Em dia de finados, pensa-se nos que já lá foram

Hoje, é com os olhos rasos d' água, p'r mode aqueles que já lá foram, mái, ô méme tempo, de cara alegre, que m' alembro deles tôd's e l'es mando daqui um abraço.

Sê, à confiança, qu' eles nã no arrecebem, mái nã é lá p'r mode isso que dêxo de l' o mandar, já que nã posso fazer mái coisíss'ma nenhuma.

De manêras que, aqui fica o mê m't'ôbrigado p'a tôd's. Uns que foram mês amig's, ôtr's que m' insinaram o pôco qu' ê cá dí aprendido, e dôs que me puseram cá neste mundo e p'r cá me dêxaram já faz bem munto tempo - o mê pai e a minha mãe.

P'a eles os dôs - o velhote Refóias e a su velhota Maria - aqui ficam as minhas sôidades e até um destes dias.

30 outubro 2006

Cá 'tô ê cá, ôtra vez

Picota - Monchique

P'a espáircer das minhas ap'quentaçõs, assentí-me no miradoiro de S. Sabastião e desatí a ôlhar p' ô bico da Picota...

Ô fim duma preçanada de dias, cá 'tô, ôtra vez, em par do escamungado do mê comp'tador a ver se dô escrevido p' aqui alg'ma coisa de jêto.

Más olhe que, méme as sôidades sendo muntas, béque-me nã 'tô lá de munto boa avêa. É que, logo, o conserto foi bem munto caro - quái que m' ia custando o coiro e o cabelo... - e, despôs, até qu' esta prequêra desta engeróca dé-se im foncionar cá à minha manêra, foi uns trabalhos.

E, agora, tenh' é a l'es agrad'cer até mái não, de, méme sem par'cer aqui nada de novo, tôd's dias virem cá. E, ô méme tempo, que vomecêas me perdôiem disto ter-se dado assim, qu' ê tamém nã 'tava à espera duma coisa destas.

F'quí tã descorsoado com os retratos tôd's que se me foram, qu' inda quái que nã tive coraja p'a tirar mái nenhuns. Só désna que arrecebi o comp'tador ôtra vez im casa e fui até ali ô miradôiro de S. Sabastião, já assim ô entardecer, é que, béque-me, lá despáirci um coisinho.

É qu' aquilo é um sito do mái bonito que se tem cá im Monchique. Ê cá pélo-me p'r m' assentar ali uns pôcachinhos e o'servar aquelas vistas todas à roda. Desta vez, voltí-me p' a nascente, pus-me a ôlhar p' ô bico da Picota e f'quí ali espècado, nã sê que tempos, ramoendo cá nas minhas coisas.

Nesse mê' tempo, inda p'r 'lí par'ceu um amigo ó ôtro, mái c'm' béque-me cudaram qu' ê 'tava assim p' ô embosnado - e nã nã s' enganaram p'r munto - mal me falaram e lá foram andando assim c'm' quem nã quer a coisa.

Só o ti Zé Caçapo - o mê amigo "Verruma" - é que, com aquele jêto dele semp'e a qu'rer antar com qualquer um, apr'vêtô logo p'a se meter com-migo:

- Eh, Refóias, atã o qu' é que tens? Nã me digas que panhaste p' aí alguma pelhega e inda andas aí tonto a engavelar com ela?...

- Olhe lá, ti Zé, seja bem-criado e, pr'mêro, fale às pessoas... E, despôs, calhando, escarado, vem vomecêa. P'a fazer uma conversa dessas, há-de já ter antrado aí nas vendas todas da Vila. Ó, atão, enché o papo logo im casa, inda entes d' abalar...

- Nã bobi nada, mái, p'a que saibas, tenho da boa lá im casa e, querendes, anda daí com-migo qu' ê dô-te lá um porrête ó dôs passa-te logo esse géno todo... E nã leves a mal qu' ê 'tava só a mangar contigo.

- Pôs, pôs. Se mecêa panhasse a rabana qu' ê cá panhí, qu' o mê comp'tador variô assim sem

más esta nem más aquela, logo falava assim...

- Já ôvi falar... E é só p'r mode isso que 'tás tã enfèzado?!... Barimba-te nos retratos...

- Barimbar-me nos retratos, ê cá?!... Nã tardando nada inda l'e falo mal. Atã iss' é coisa que se diga?!...

- Olha lá, tu já prècuraste bem lá drento da caxa do comp'tador, nã 'tejam eles caídos p'ra lá, prebaxo daqueles fi's tôd's?

- O qu' é que mecêa diz?!...

- Olha qu' ê cá, uma ocasião, cudava que tinha perdido uma nota de vinte mem rés e, passados bem uns sês meses, fui dar com ela no fundo duma caxa adonde a gente gôrdava uma preção de tranquitanas. E isto já despôs de ter dado volta a tudo nã sê q'ontas vezes...

- Ó ti Zé, mái atã vomecêa faz lá uma idéa do qu' é um comp'tador, p'a d'zer uma alarvidade dessas?...

- Calhando, nã sê, más olha que tu há-des saber munto más...

- Que saiba que nã saiba, nã digo patochadas dessas. Aquilo, lá drento da caxa só tem fios e p' ali umas peças que l'e chamam discos e nã sê quem nã sê quem, assim quái c'm' uma t'l'fonia. Os retratos e as ôtras coisas vã p'r os fios e ficam gôrdadas lá drento desses discos...

- Atã s' os abrires, p'r mái nã seja com um alicate ó uma truquês, ó méme à martelada, há-des incontrá-las lá. S' os gôrdaste, 'tá bom de ver...

- Pôs olhe, nã nas aibro à martelada, más ele há uns lá p' às bandas de Lisboa, béque-me im Almada, qu', as má's das vezes, inda dã apr'vêtado alguma coisa dos discos, q'ondo eles s' avarêam.

- Atã, manda isso p'ra eles...

- E paga vomecêa?... Ôvi p' aí d'zer qu' eles nã s' ensaiam p'a pedir p' ô lado duns mil eros p'r um trabalho desses...

- Olha, atã o melhor é tu trazeres isso e a gente põe-os lá a tocar numa grafenola qu' ê tenho de q'ondo era novo e se fazia uns balhos lá na minha casa de fora e, q'ontas vezes, na minha rua. Nã tocarã umas modas boas?...

E a conversa nunca mái tinha fim s' ê cá nã t'vesse mudado d' assunto. Qu' o "Verruma", tirando samear batatas, sabe men's, seja lá do que ser, qu' ê cá sê dum lagar d' azête. Mái 'tava-se a fazer inda mái parvo do qu' ô que é, só p'a me zucrinar.

Más olhe, aquela conversa até que me fez ficar um coisinho quái ad'vertido e dé-me assunto p'a d'zer umas patacoadas, essa qu' é essa...

E assim me despeço. Mái nã se desqueçam qu' o mês dos Santos c'meça quarta-fêra, qu' é o dia de se fazer os magustos cá na nossa terra.

Ê cá 'tô governado que panhí lá umas castanhitas na Serra da Estrela, puse-as ali ô sol e já 'tã bem aveladas. Aquil' é só panharem um calorzinho, assim 'tã assadas.

E tamém inda tenho aqui nã sê q'ontos bicos d' ôriço cravados nos dedos que nã nos dô tirado, qu' as minhas vistas já nã alcançam e a minha Maria 'tá no mémo...

Más inda l'es digo mái uma coisa. Se qu'rerem c'mer castanhas à farta e ad'vertirem-se até mái não, vamos tôd's p' ôs magustos de Marmelete e do Alferce, que sã os dôs no méme dia e à méma hora - dia 1, às 3 da tarde.

Ora digam-me lá c'm' é um homem pode 'tar em dôs sitos ô méme tempo? Nã pode... Lá tarê qu' apr'vêtar só um... E agora, qual é o qu' ê cá vô escolhêr?!...

Olhem, ad'virtam-se e comam muntas castanhas, seja ele adonde ser.

Tenham munta saúde e até a gente se ver.

25 outubro 2006

Hoje é dia só de lamúrias que retratos nã tenho...

Ele há dias bons e dias cabr... - melhor d'zendo - isto dá-se cada uma qu' um homem, certos dias, nem s' havera d' alevantar da cama...

Vomecêas que me perdôiem, mái, hoje, só o que m' ap'têce é falar mal...

Ó fado dum ladrão!... Vinha ê cá tã sast'fêto, mái-la minha Maria, do nosso passêo - que foi uma coisa c'm' à gente inda nunca se tinha panhado - e, mal se chigô a casa e se dromiu uma nôte descansados na nossa caminha, dá-se um caso qu' ê até custo a falar nele.

Já agora, 'tejam com Dés e que tenham passado p'r cá muntíss'mo de bem, que falar ôs amig's tamém se usa...

A gente, lá pr' adonde andô, tirando a chuva qu' ia arrasando aquilo tudo, o vento que nem dêxava uma pessoa dromir de nôte, o navoêro que nã se via nada naquelas serras e os trovões que lá fazeram qu' até estramecia, - serví' de tanto a encomenda qu' a minha Maria fez à Senhora das Candêas c'm' coisíss'ma nenhuma... - corré tudo do melhor.

Mái q'ont' ô resto, aquilo teve que se l'e diga.

E, já agora, cont'l'es, pr'mêro, as coisas ruins. Despôs logo se vai às boas.

E as ruins nã sã só ruins, sã malíss'mas... Olhe qu' ê tinha p'r lá tirado tant's c'm' qu'nhent's e tal retratos, im sitos c'm' ê nunca tinha visto tal coisa na minha vida. E sabe q'ontos é qu' ê tenho agora?... Nem tampôco um p'a uma amostra!...

E sabem d' adonde é qu' eles eram? Nã sabem qu' ê inda nã l'es contí. Mái vô-l'es d'zer. Tirí-os tôd's, mái ó menes, lá na Bêra Enterior, assim à roda da Serra da Estrela, nuns pôv's que l'e chamam aldêas medievás, aldêas históricas, aldêas do xisto e p'r 'í fora.

Só p'a l'es dar uma idéa, vô alomear umas três ó quatro: Monsanto, Sortelha, Piódão, Minas da Panasquêra, Penha Garcia, Idanha-a-Velha, Castelo Bom, Castelo Rodrigo, Almeida, Pinhel e ôtras tantas que nã adianta 'tar p' aqui a d'zer, mái qual delas a mái bonita.

Pôs, o badalo do mê comp'tador, Dés Noss' Senhor me perdoe, mái béque-me foi bruxedo... Tã penas l'e passí os retratos p'a drento, já nã nos dé gravado numa coiséca daquelas que l'e chamem CD e DVD. E, c'm' isso nã l'e chigasse, aterrô duma tal manêra que nunca mái disse ai nim ui. Pronto, charinguí-me.

P'a lá 'tão, agora, os homens de roda dele, a ver se l'e dã posto um disco novo qu' o qu' ele tinha f'cô fêto im nada.

De manêras que, lá pedi aqui a um amigo bom que m' imprestasse o dele um pôcachinho p' ôs pôr ô corrente do que se passa, nã fossem vomecêas p' aí cudar qu' ê tinha des'parcido ó se tinha dado alguma coisa inda mái ruim com-migo.

Ele é bem verdade qu' ê inda 'tô bem munto enzamboado com o que se deu, mái já 'tô um coisinho melhor do qu' ô que 'tive. Olhe que, nos pr'mêros dôs dias, nem palavra ê d'rr'gia à minha Maria, que nã sabia o que l' havera de d'zer...

Atã e ela, pobrezinha?!... Q'ond' ê l'e dí a novidade, fazia uma clamada que dava dó... E nã qu'ria crer no qu' ê l'e d'zia.

- Nã pode ser!... Isso, os homens, inda hã-de dar arrenjado o comp'tador p'a se f'car com os retratos...

- Ó Maria, atã s' o homem já me disse que nã dava fêto nada daquilo... Tem-se que ter pacência, m'lher.

- Qual o quem!... Vô-me já fazer uma reza à Santa Rita dos Empossíveles, qu' ela há-de ajudar a gente. Inda nã há munto tempo, ê cá l'e pedi uma coisa e ela acudí-me...

- Atã faz a reza qu' há-de-te servir de munto. S' o homem já me disse qu' aquilo 'tá tudo marafado que nã s' apr'vêta de lá coisíss'ma nenhuma... Pifrô, foi o que foi. Dé o carepo.

- Más ê nã posso pensar nisso... Ai que pàxão!... A culpa é tua, qu' andas semp'e a besôirar de roda do comp'tador! Tens de 'tar semp'e a esp'nicar...

- Bom, bom, bom... Já ê 'tava a estranhar que nã me pusesses as culpas im riba. Ora que culpa tenh' ê cá qu' o raça do disco se t'vesse arrasado?!... Tal 'tá a conversa, hã?!...

- Pôs, 'tás semp'e ali a mexer, sa senhora!...

E, c'm' às coisas já nã me 'tavam a chêrar lá munto bem, dí-l'e as costas p'r reposta e abalí fui p' ali mondar uma lêra de cinôiras qu' ê samií uns dias entes de s' abalar. E bonitas qu' elas 'tão, lá isso 'tão.

Com respêto à reza qu' a minha Maria fez à Santa Rita, o resultado foi o mémo da qu' ela fez à Senhora das Candêas. Isto, os santos tamém já 'tão cansados d' aturar a famila... Ele é rezas p'a isto, é rezas p' àquilo, o qu' é qu' a famila cuda... Só s' alembram de Santa Barb'a q'ondo faz trovôs?!...

Desta vez, nã l'es dô apresentado retrato nenhum e fic'-me p'r 'quí que 'tô a trabalhar com ferramenta imprestada e 'té tenho medo de dar tamém cabo dela.

Prestes, em tendo o mê comp'tador a foncionar, - eles d'zeram-me qu' aquilo era coisa só p'a mái um dia ó dôs - logo l'es digo mái quasequer coisinha.

Atã, até despôs, qu' ê vô-me ver se dô desquecido esta pàxão de f'car sem os retratos.

Dés l'e dê saúde a tôd's.

13 outubro 2006

Vô-me dar um passêo

Descasca - Marmelete

Vô-me dar um passêo, mái dêxo este retrato p'a se, nalguma banda, m' imprestarem um comp'tador, matar soidades da Refóias...

Cá o Parente da Refóias vai à d' uns amig's qu' o convindaram. E a minha Maria tamém, nã cudem lá. Qu' ela lá me dêxar abalar sozinho é que nã vai nisso...

De manêras que, c'm' q'ondo se põe o dente im coisa boa nã dá jêto largar, isto, é certo e sabido, que vai durar uns belos dias. Sendo coisa qu' o tempo ajude, anda-se p'r lá aí uma semana ó coisa assim. S' ele dêtar p' aí alguma gota d' água, tará-se que vir mái cedo.

Qu' isto, ir p' à casa dos ôtr's p'a 'tar lá encafuado, nã é coisa que me dê cobiça. Já que s' abala de casa, é p'a andar na geraldina. Vai-se ver tudo q'onto possa ser.

E lá p' adonde a gente vai, béque-me há munta coisa p'a devassar. É o que tenho ôvisto...

Olhem qu' a minha Maria até já pôs p' ali uma vela acesa à Senhora das Candêas p'a ela ter pacência e nã mandar chuva nestes dias. Ê cá, p'a d'zer a verdade, tenho uma fé que, falando com o S. Pedro, é capái de ser mái siguro, más ela gosta é da Senhora das Candêas... Olha, dêxá-la.

Despôs, em havendo jêto, logo l'es conto c'm' é qu' as coisas correram.

E tenham munta saúde p'r cá.