07 agosto 2006

Alferce: Festa de S. Romão - A Precissão

Igreja de S. Romão - Alferce

A igreja do Alferce, agora, já tem a cruz d'rêta. Só l'e falta pôr o relój'o a foncionar.

D'mingo passado, lá se foi a gente caminho do Alferce p' à Festa de S. Romão. Quem tenha via ó arrenje quem o leve, 'tá governado. Agora quem precise d' ir na carrêra, é que 'tá pior. Só s' ir logo de manhãzinha e só voltar à nôte, qu' ôs D'mingos nã hã carrêra senã a essas horas....

O que vale é qu' isto, hoje em dia, nã há já quái ninguém que nã tenha uma viazinha, seja ele um espada, c'm' muntos p' aí têm, seja uma b'cicleta ó méme um mata-velhos.

De manêras que, tendo a gente pacência e tempo, semp'e s' arrenja uma b'léazita, méme que nã se vá logo combinados de casa com algum parente ó amigo, qu' é o que se , quái sempre, com-migo. Q'ondo abalo já vô com via certa.

À chigada, o qu' ê cá fui logo devassar foi s' a cruz da ingreja já 'tava c'm' devia de ser. S' inda t'ã alembrados, faz uns quatro meses, fui lá ô Alferce e f'quí desgostoso de ver a cruz da ingreja toda tombada. Pôs agora, f'quí todo contente. Já 'tá tudo no sê devido lugar. Assim, sim...

Quer d'zer, inda há ali uma coisalha que nã 'tá assim munto bem, mái pôcos darã p'r isso. Só se terem míngua de saber as horas e nã terem relój'o nenhum. É que, no da torre, sã semp' as mémas vinte cinco p' às sês, já nã sê désna de q'ondo...

Más, em tod' ô caso, esta ingreja do Alferce é das mái bonitas cá da nossa terra. Olhem-na bem lá drento e logo me dizem que tal a acham:

Igreja de S. Romão - Alferce Igreja de S. Romão - Alferce

Lá drento, quem é que nã fica derretido com uma coisa tã bonita?...

C'm' diz o Antóino Manel da Venda, um amigo de cá de Monchique que sabe escrever livros do melhor que há, o Senhor S. Romão, nã tenham penêras, é um santo qu' o povo do Alferce gosta até mái não. Gostam tant' ó tampôco dele que, tôd's anos, l'e fazem uma festa de dôs dias. Sáb'do e D'mingo.

Que me tenha chigado ôs ôvidos, nã há cá ôtra no nosso concelho que dure dôs dias entêros, com banda, carmesse, artistas a cantar, balho com tocador de fole, corrida das panelas e sê cá que más... E nôtres tempos, tamém faziam cavalhadas, qu' é uma coisa que, s' inda havesse burros, calhando, faziam na méma. Mái atão, des qu' isso qu' é uma q'ôlidade d' animal que 'tá quái acabado...

Tamém, verdade se diga, qu' o Alferce méme sendo a freguesia mái pequena de Monchique, tem dôs pôvos. O de cimba e o de baxo. E tem tanta coisa, tudo tã bem aconchegadinho, que só indem lá é que mecêas ficam a ver o qu' aquilo é.

E a precissão vai atod' ô lado. Tudo munto à manêra do qu' os nossos avózes faziam. Andor do S. Romão, Pálio com o Santíss'mo e os homens todos vestidos c'm' deve de ser, com opa e tudo.

Festa de S. Romão - Alferce Festa de S. Romão - Alferce

A precissão corre o Povo de Cima, o Povo de Baxo e mái que fosse...

O Sr. Prior que nã me leve a mal, mái, pre mode isso, vê-me à idéa uma parte que se com o Zézinho do Forno Velho, nã 'taria ele mái que dez anos.

O meçalho tinha aquele empenho de ver os homens com umas opas encarnadinhas, tã bonitas, e, todas as precissõs, pensava em ir á sac'-estia pedir uma p'a vestir. Mái faltava-l'e a coraja e f'cava-se.

Até qu', uma ocasião, na festa de S. Antóino, tinha a missa acabado, 'tava p'r 'lí entretido com o Bertinho, um amigo dele, e falaram no caso, enq'onto o'servavam os homens a irem da igreja p' à sac'estia.

Ora o Bertinho era munto gavino, desata logo a apertar com o ôtro:

- Ê cá, se fosse a ti, ia já lá e nem tampoco pedia nada a ninguém. Sabes adonde é qu' elas 'tão?

- Pôs sê. Mái nã vô lá mexêr, qu' o sac'estão pode-se marafar com-migo...

- Olá!... Vás assim c'm' quem nã quer a coisa, devagarinho, e q'ond' ele nã t'ver a olhar, alevantas a tampa daquele banco que 'tá lá encostado à parede e tiras uma, qu' elas 'tão p'r baxo d' adonde a gente s' assenta.

- Isso sê ê munto bem, mái despôs é qu' é pior...

- Qual o quem... Despôs da vestires já ninguém te diz nada. Disso tenho a firme certeza...

- Só vô se tu ires tamém...

Salta logo o Bertinho:

- E vô!... Nã é homem nã é nada o que nã ir!...

Aí o Zézinho f'cô assim um coisinho ensarampantado sem saber bem o que havera de d'zer. Nisto, dé-l'e um derrepente, volta-se p' ô ôtro:

- Seja cão o que s' arrependa!... Vai-se os dôs.

Festa de S. Romão - Alferce Festa de S. Romão - Alferce

P'a d'zer a verdade, uma precissão com opas e banda, béque-me é logo ôtra coisa...

E assim fazeram. Dã a volta p'r fora, vã p'r a porta de trás e antram tôdes dôs na sac'estia, desapercebidos no mê dos homens.

A passo e passo, lá se foram chigando p' ô pé da caxa adonde 'tavam as opas, sem saberem bem o que haveram de fazer.

Nisto, aprevêtando um mimento que ninguém 'tava a olhar, o Bertinho joga a mão a duas opas que 'tavam logo p'r cimba, sem l'e ver o tamanho, já rafugadas p'r ôtres pre mode serem munto grandes, e abalam os dôs caminho dum canto, quái p'r trás da porta, p'às vestirem.

A maior calhô ô Zézinho. Veste-a, cachamorra!, f'cava-l'e um palmo à arrojar no chão. A do Bertinho, qu' era um coisinho mái alto, chigava-l'e ôs tacõs das botas de cabedal qu' o parente Ináiço Cego l'e tinha fêto p'a estrear na festa.

De manêras que, puseram-se os dôs a olhar um p' ô ôtro assim quái descorçoados. Diz o Zézinho:

- Atã e agora?...

- Sê cá o qu' é que se faça...

E nã repàiraram qu', enq'onto isso, já o sac'estão se tinha virado p'ra cá e 'tava com olho neles. Arrulha logo do lado de lá, d' ô pé daquela cómoda adonde o sr. Prior vestia as rôpas p' à missa:

- Eh!... Ist' aqui nã há opas p'a gaiatos!... Toca a pôr isso no lugar. A quem é que pediram p'a mexer aí?... Tal 'tá a brincadêra, han!...

Naqueles traquetes, f'caram os dôs mái encolhidos que nem uma palhinha l'e cabia lá naquele sito qu' a gente sabe...

- Eh'q, é qu' a gente gostava tamém de vestir uma opa cada um e ir-se na precissão...

Responde o Bertinho, munto embatucado, a olhar p'ôs bicos dos pés.

- Atã e é assim... Nã sabem vir falar com uma pessoa e pedir l'cença?!... Foi isso que l' ensinaram?...

Coitadalhos, tant' um c'm' ô ôtro, 'tavam-se já a desem-maginar, pensando qu' inda nã saria desta...

Mái o sac'estão, qu' nã era má pessoa, ô fim de l'e passar a gavierra, olhô p' ôs meçalhos, dé-l'e dó deles, e, ô méme tempo, alembrô-se qu' inda haveram de 'tar p'a lá umas opas, já bem antigas, munto puídas e descòradas do uso, que tinham sido encurtadas pre mode as abas 'tarem todas esfàrr'lipadas.

- Mái, já agora, venham cá aqui. Desdispam lá essas e exp'r'mentem estas aqui, a ver se le servem. Mái, p' à ôtra vez, venham falar com-migo e nã façam essas figuras...

Descusado sará d'zer qu' aquilo, de tamanho, elas, mái ó menes, inda l'e serviam, mái atão e a cor?... Olhem, eram cor de burro q'ondo foge...

Mái os meçalhos lá foram todos contentes, um em cada ala, logo em pr'mêro lugar dos homens com opas, todos inchados e semp' a olhar de través p' à famila que 'tava a ver passar a precissão, nã fosse algum nã repàirar neles.

F'caram mái contentes que nem uma pega sem rabo, creceram, foram correr mundo, aprenderam munta coisa, desqueceram ôtras, voltaram e, inda hoje em dia, falam no caso q'ondo 'tão um com o ôtro.

Já nã vestem opa nem sã religiôsos, mái gostam munto da sua terra e pélam-se p'r tudo o que cá se faz, seja ele precissõs, magustos, provas de bolo de tacho, fêras ó ôtra coisa quasequer.

Isto, p'a nã falar de exposiçõs e ôtras coisas qu' os que têm estudos é que sabem fazer melhor e haveram de fazer mái vezes do qu' aquilo que tem sido fêto.

E, pre mode isso, já me 'tva a passar a Festa de S. Romão, que foi uma coisa qu' eles, é mái que certo, aprevêtaram do melhor.

Festa de S. Romão - Alferce

Mòrmente no respêta ô Domingo à tarde, ajuntô-se um gentío lá naquele Povo...

O resto da Festa do Senhor S. Romão do Alferce cont'-l'es tã penasarredondado uns impendiclos que tenho tido p'r 'qui.

Fiquem-se com Dés.

9 comentários:

  1. Mais uma bela peça de descrição de costumes e vivências populares.
    Um abraço.

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  2. Comprade, és um amigo e pêras! Fui ao blog, à vossa festa e pûs os óculos ...
    Só me falta arranjar "o tal canto" com pé na terra e vista para o mar. Um valente abç para gente valente!

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  3. Parente

    Só em Alferce isto acontece... a procissão percorre o povo de cima e de baixo!

    Há muito tempo que não via uma procissão.
    Esta virtual é muito original e... o Alferce, seus costumes e tradições merecem realmente ser falados.

    ~*Um beijo*~

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  4. Amigo

    Continua a divulgar o linguajar das tuas gentes, das nossas gentes e vê se consegues pôr isto tudo em livro.Alferce, terras de fonte de águas santas! Fala aí com o nosso amigo Carlos. Talvez consigas, ou talvez já tenhas o livre preparado. És genial! Pre mim já to tinha fêto!
    Bêjes muntes.

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  5. Bonita riqueza cultural! O linguajar próprio da terra é um ex-libris! boa divulgação1
    V^o meu post e comenta com a tua sabedoria e charme1 Faz falta um comentário teu!!!

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  6. Gostei muito do trabalho que fazes no teu blog. Comno tenho parte da família algarvia, alguns dos termos são-me familiares. Delicioso, sem dúvida. **

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  7. Oh Parente,

    Tá aqui armada a cachamorra: O Parente sempre a falar de coisas boas de comida e de festança e eu cá tão longe...
    Se Vocemecêa não levasse a mal, sempre lhe pedia, se tem por aí umas fotos da Rua Nova, eu bem gostava de ver...
    Naturalmente está muito mudado, em relação ao que eu conheci...

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  8. Põs é: a ingreja do Alferce sempre tem tado bem amanhada, mas o põve só dá pouques'anes pra cá é que tá melhor. O cemintério era onde é a casa do Pove e o espelhe d'água, o museu, o recinto e o campe de jogues é tude mederno.Agora já tem alguns prédios, dantes era só casas
    baxas.
    Nã sê su parente alguma vez ouvi falar duma figura emblemática desta terra : "O TRINTA RÉS"- O Senhor Florêncio...Bom Amigue, com um piquinhe a azede...

    Boa Nôte e Druma bem com os anjes e más a su Maria...

    O Campaniço
    E

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  9. Oi amigue e parente

    Atã n'é q'a reler esta su passaja e a rever os retrates, prantande-me a ingrilar bem pó últime, descuibro lá especado no mê o Pálinho da Fornalha? Olhe farti-me de rir, qu,inda nã acabi, de vez em q'ondo inda dou uma carcachadinha...Tamém é um bom amigue, um pobrezeco, um pobre diabo, tamém com o tal piquinhe a sume de limão..., nã fosse ele do ALFERCE...Da fama nã se livram e desna de moce pequene qu'é cá ouvia dezer q'era um prigo bober água daguelas bandas...Só espero q'u mé bele amigue, com tôdas essas vesitas, só tenha andade plas cervejalhas das poquenecas, que parece q'é do que gosta. Mecêa até nã parece ser home de grandes bobidas e nã faz senã bem.

    Bõa nôte e que Dés o acompanhe

    O Campaniço

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