20 julho 2006

Marmelete: Festa de S. Antóino - O Jogo do Bicho

Jogo do Bicho

Este jogo do bicho 'tá munto bem caçado...

Logo prebaxinho da quermesse, 'tava a barreca do jogo do bicho. O qu' é qu' a gente havera de fazer... Foi-se ver se tinha-se alguma sorte ali. Aquilo é uma coisa tã ingraçada, qu' ê inda nunca vi im mái lado nenhum.

Olhem, 'tão ali uma preção de casolas pôstas à roda, cada qual com a sua carta im riba. Compra-se uma carta qu' a gente quêra lá ôs meçalhos que 'tã lá a vender. Ô fim das venderem todas, soltam o bicho lá no mêo, ele vai-se esconder numa casola, quem t'ver a carta igual à que 'tá nessa casola ganha uma garrafa de bobida.

O bicho é um porcalho da índia, daqueles que parêcem uns ratos, assim malhados às cores, mái munto mansinhos que nã fazem mal a ninguém. Méme assim inda ôvi p'r lá umas de fora, todas finas, com os bêços munto pintados, de manga à cava e os pêtos quái tôdes de fora, a gritarem q'ondo viram o b'chinho sair debaxo da lata.

- Ai, que medo... E s' ele foge cá p'ra fora?!... Nã sê c'm' dã pegado numa coisa daquelas e nã ficam em pele de galinha c'm' ê já 'tô...

D'zia uma, enq'onto fugia p'a trás e esbugalhava os olhos duma tal manêra, que par'cia uma c'ruja, ô méme tempo que fazia uns miécos tã grandes ó tã pequenos com a boca qu' ê pensí qu' a m'lher inda l' ia dar p' ali alguma passaja...

Ele hôve logo p'a lá um que s' apr'vêtô e, c'm' quem nã quer a coisa, fez assim a amenção da sigurar p'a ela nã cair e inda l'e jogô as unhas ali a um braço e quái qu' s' encostô a ela, mái ela fez-se assim munto incarnada e des que já 'tava boa e que munt' ôbrigado que nã tinha preciso de mái nada...

Mái voltando ô jogo, dig' p' à minha Maria e p' às amigas:

- Ó meninas, vamos lá apr'vêtar agora, qu' os mecinhes inda têm ali umas q'ontas cartas p'a vender, inda dá escolha. Dá-me lá 'í uma, Telmo.

- Só uma, ti Refóias?!...

- Atã a c'm' é que vendes isso? Vê lá nã te descuides no preço qu' ê tenho pôco d'nhêro...

- Ist' é só a cinquenta cêntimes cada uma. Vá, compre lá mái umas q'ontas qu' é p'a l'e sair a garrafa. Nã seja fòníca...

- Ah, marafado... Tal é essa conversa, hã?!... Atã vá lá. Passa p'ra cá mái três, qu' é ali p' às m'lheres tamém. Q'ont' é qu' isso dá?

- É só dôs eros.

Lá paguí, dí uma a cada m'lher e f'quí com o cavalo de espadas, qu' é uma carta qu' ê béque-me tenho a mania que me dá sorte.

Os meçalhos lá foram vendendo uma carta a um, ôtra a ôtro e ê dí-me em influir com o raio do jogo. Chamo ôtra vez o Telmo:

- Olha lá, vende-me lá 'í mái umas duas... Quero a manilha de paus e a sota de copas.

- Ah, assim 'tá bem, ti Refóias... Assim já vô d'zer ô mê avó que mecêa dé-me aqui uma bela ajuda a vender as cartas. Ele há-de f'car todo contente qu' ele é munto sê amigo.

- Ora se é... Atã andô-se juntos na escola da R' Nova, já vai p' cinquenta anos. Olha faz méme agora im Ôtubro cinquenta anos qu' a gente p'a lá antrô os dôs. Inda foi p' àquela escola antiga. Despôs disso, já fazeram uma nova e, méme essa, já a fecharam tamém...

E, assim, ôs pôcos, lá foram vendendo as cartas todas e chigô a hora de dêxar o b'chinho sair de lá de baxo da lata.

Mái o quem... Atã o Telmo, pr'mêro pega num tanchôto qu' eles tinham ali, afinca com umas tarôcadas no fundo da lata, quem nã qu'ria 'tar lá de baxo era ê cá... Pobrezinho do bicho havera de f'car c'm' parvo.

- Eh, Telmo, nã mates logo o animal, senã c'm' é qu' ele inda dá antrado p' alguma casola... Puxa-l'e já a lata p'a cima, vá...

Grita-l'e um homenzinho que 'tava tamém à espera de ganhar uma garrafinha. Ê nã no conheço bem, mái ele é béque-me ali dos lados da Mariôila, se nã 'tô im erro. Nã sê bem de que familas, mái é daí.

Jogo do bicho

Q'ondo l'e tiraram a lata de cimba, o b'chalho f'cô sem saber p'a que lado havera se virar...

Atão, puxam a lata p'a cima, qual bicho nem bicho... O desinfeliz, com o cagaiço que panhô, tinha afincado as unhas do lado de drento da lata e lá 'tava pindurado que ninguêm o tirava dali.

Vá a lata p' ô chão ôtra vez e mái umas bordanadas im forte.

Aí, o coitadalho há-de ter f'cado emparvoado de todo, já nã teve acção p'a mái nada senã f'car ali, no mê do chão, ensampado, sem saber p'a que lado se virar. Inda me dé quái pena do pobre-triste.

Tamém nã era preciso tanchar tamanh' às cachêradas na lata... 'Tá bem que nã é no animalzinho, é na lata, mái 'tá bom de ver qu' ele há-de ter panhado cá uma cúifa...

Mái, à fim dum belo pôco, dé-l'e p'a olhar p'a um lado e p'a ôtro, inda se virô p' àdonde 'tava o cavalo de espadas. Punhana, pensí logo:

- Querem ver que vai ser desta qu' o marafado se vai infiar méme na casola qu' ê tenho a carta...

Vai ele, dá dôs passinhos mái p' ô pé da casola.

- Ai, Maria qu' inda se leva daqui uma garrafinha de bobida da fina... Até já me 'tô a lember...

- Cala-te aí, senã ele panha medo e inda vai p' ô ôt' lado...

Nã fosse ela d'zer aquilo mái depressa, assim ele se volta ô contráiro, abala a fugir e pronto... Lá se foi a garrafa... Enfiô na do dez de espadas, o marafado...

Jogo do bicho

O malsoado do bicho foi-se logo infiar na casola do dez de espadas, qu' era a carta qu' ê cã nã tinha...

- Ah, gradessíssem' ô saganheta!... Atã 'teve quái a antrar p' à minha e, despôs, faz-me uma parte destas?!... E logo desta vez qu' ê tinha comprado uma preçanada de cartas...

E más ainda. É qu' o que tinha o dez de espadas era um badalo de fora, que ninguém no conhecia e, inda p'ra más, só tinha gastado dinhêro numa carta...

Ê nã sê, ele lá se rapimpô com a garrafinha de vinho do porto e a gente f'cô-l'e a fazer cruzes... O qu' é que s' havera de fazer? Teve-se que ter pacência...

Mái a festa inda nã tinha acabado.

'Tava ê cá inda com aquela pàxão e a luzir o olho p'la garrafinha, dô em ôvir ôtra vez a banda béque-me a vir d'rêto à gente. E era méme.

Festa de S. António

Q' ondo menes ê cá esperava, a banda desatô a tocar e até me desqueci da garrafa que nã ganhí...

E, em podendo, logo l'es conto o resto.

Sejam munto bem par'cidos e Dés l'e dê saúde e sorte.

10 comentários:

  1. Ai Compadre!! O que fartei de rir c este jogo do bicho!!! Nunca tinha ouvido falar dessa prática mas está muito bem apanhada, sim senhor!! Deixe lá, logo ganha prá próxima!

    Olhe, aproveito p lhe deixar cumprimentos, por motivos de ordem técnica vou ficar sem Net umas semaninhas... Em todo o caso, dia 2 rumo a Monchique p uns dias de férias e vou procurar pela sua pessoa! Eu sou fácil de encontrar! Nas noites de "calmeiro", se passar pelo largo dos chorões e olhar p cima, p uma das varandas, e lá estiver uma barrigudinha a apanhar fresco(sim, pq a maraffaada tem uma marafadinha a crescer cá dentro;), sou eu!!

    Mais uma vez parabéns pelo excelente trabalho c q nos presenteia neste blog!

    Fique também com "Dés"!

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  2. Minha bela amiga Maraffaada,
    munto l'agradeço as coisas tã bonitas que me diz, que me fazem f'car mái contente qu' ê sê cá...
    Só l'e desejo é que passe uns belos dias de férias cá na nossa terra e p' à sua Maraffaadinha tudo do melhor que possa ser e haver (com a mãe que tem há-de ser munto boa pessoa).
    E q'ondo ê passar ô Largo dos Chorõs, é certo e sabido que vô semp'e de galga no ar, a ver se vejo luzir alguma barriguinha mái crecidota nalguma j'nela...
    Mái nã se mort'fique à minha prècura que, na Vila, quái ninguém sabe qu' o Parente da Refóias sô ê cá.
    Passe muntíssemo de bem e muntas recomendaçõs p'ra si e pr' à sua Maraffaadinha.

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  3. Saudades de Marmelete - eu sou do tempo em que o café, cá em cima, era do Mestre Lúcio e vendia bilhetes para a camionete da carreira...
    E conheço o António Sebastião que era o motorista/não sei se ainda é...ou já estará reformado...

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  4. já me tinhem falade de vomessê mâs ê inda na tinha cá parecide. más olhe que gustê munte do sê blogui e uma só vez na tem avonde p`ra mim. cá voltarê p`ra fecar na chalanga consigue. na sem porta, pôs não?"
    um par de bêjes do algarvi

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  5. Anamargens,
    aqui o Parente da Refóias, se nã fosse trôxa, já era p'a saber quem tu és, menina. Mái atão, ando há uma preção de tempo a ramoer e nã dô lá chigado... Logo prècuro à Fátima.
    O mano dela, o Antóino, já nã no vejo na carrêra vai p'a uns q'ontos anos. É um amigo dos bons.

    Q'ont' ô mest'e Lúiço, que Dés tem, nã sê o que diga. Era o melhor amigo qu' ê cá tinha lá no povo...
    O café, adonde nã há café, inda hoje é da viúva, a c'madre Cândida. Naquele tempo, ch'mava-se venda e era a agência da cam'nete da carrêra. Os b'lhetes eram côrtos com uma folha de serra de aço, atada à caderneta com uma tamicinha...

    Já faz uns q'ontos anos que s' anda a ver se dá-se fêto um ajuntamento dos que andaram na escola da R'Nova e quêram vir. Tenho cá uma coisa que me diz que 'tá p'a prestes. O qu' é que dizes?
    Dés te dê saúde.

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  6. Ó minha bela amiga Alfazema aí de baxo do Algarve:

    Parêça sempre, qu' a gente aqui da serra pela-se por a famila de fora virem p'r cá.
    Munto l' agradeço a su v'sita e, em podendo, vô-me logo ler o que mecêa tem escrevido.
    Mái, com vagar, qu' ê cá já fui lá devassar ô sê blog e f'quí em ferros p'a ir ôtra vez, nã tardando.
    Dés l'e dê saúde.

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  7. Achei imensa piada ao jogo do bicho, uma modalidade tipicamente monchiqueira, na sua simplicidade e engenho!

    Um beijo desta sua amiga que conta os dias que faltam pra respirar os ares da serra.

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  8. Mai que coisa mai bem contada, ê cá inda na tinha ouvide falar de tal coisa, o mê avô que dés tenha nâ me chigou a contar essa. A minha pena ê é cá na tar aí pa ver isse tude come deve ser. Mai tenhe uma nova! Agora ando a escrever e a fazer fotografias para um jornal lá do Algarve, chama-se Algarve Press e é de borla. Nã chigui a perceber é se eles distribuiron pó Algarve todo ou se a premêra edição foi só pa Olhão e faro. O quê sê é que já tou lá incluída e sa famila encontrar que apanhe que é de borla e ê cá faço tripas coração pa mandar umas notíças cá dos Ingleses, ou seja, dos portugueses que cá andon.

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  9. assim sim,gostei ,aqui na islandia,ler e ver o que a nossa terra tem de bom,forca parente,voce e mesmo bom,um abraco

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  10. António Vargas
    Munto l'a gradeço as sus palavras.
    Até me dá fernicoques ô lê-las e saber que vêem de tã longe e duma terra tã fria...
    Olhe aqui faz um calor qu' até as bagas de suôr me correm à testa abaxo...
    Tenha munta saúde aí quái no pólo norte.

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